segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Acessível para quem e qual o papel dos jornalistas na mídia inclusiva




Como é ser jornalista com deficiência hoje.

Por Leandra Migotto Certeza*

Conclui a minha graduação em 1999, em uma das maiores capitais do país, trabalhei mais de 15 anos atuando em mídias segmentadas, e quando realizei uma palestra, dia 21 de outubro de 2016, para futuros comunicadores, em uma das mais importantes universidades, constatei que pouco mudou em relação à imagem das pessoas com deficiência na mídia, e principalmente sobre o processo de acessibilidade e inclusão nas universidades.  

Uma das primeiras perguntas dos alunos curso de Lato Sensu foi: “como você vê a inserção profissional de jornalistas com deficiência que não tiveram as mesmas oportunidades do que você”.  Minha resposta já havia sido respondida em uma crônica que escrevi e enviei para eles antes daquela noite na UNESP – Universidade Estadual Paulista de Baru para o Grupo de Pesquisa “Mídia Acessível e Tradução Audiovisual” (MATAV), no módulo de Especialização “Linguagem, Cultura e Mídia”, coordenado pela Prof. Dra. Lucinéa Marcelino Villela.

“A maioria das 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil ainda vivem em situação de pobreza, sem nenhum recurso garantido por parte do Estado. Muitas ainda estão trancadas dentro de suas casas, presas em uma cama, sem possibilidade de conquistar seu direito ao trabalho, totalmente marginalizadas. E isso está acontecendo agora. Graças à minha família, tive condições de dispor de um bom tratamento, de fazer faculdade, conquistar autonomia. A maior parte dos jornalistas com deficiência também compartilha desta condição financeira mais estável do que a maioria. Por esse motivo é tão difícil encontramos jornalistas com deficiência que são de origem pobre, simplesmente porque as pessoas de classe social mais baixa ainda não tiveram condição de cursar faculdade. Ou quando tem a oportunidade ainda são barrados nas redações de emissoras de TV, revistas, jornais e rádios, por puro preconceito e discriminação”.

Durante duas horas, abordei a importância da mídia inclusiva acessível em nossa sociedade. Contei um pouco da minha trajetória como estudante em escolas totalmente excludentes ou bem pouco inclusivas, e depois como jornalista desde 1998, quando comecei a escrever reportagens sobre variados temas, relacionados ao cotidiano das pessoas com deficiência em mídias segmentadas e alguns trabalhos em mídias abertas. Também fui convidada para ser entrevistada em dois programas da TV UNESP e contar um pouco sobre a minha vida e carreira profissional, e também, sobre o conceito da deficiência como parte da condição humana diversa de todos os seres.

Mas esta história começou um mês antes, quando recebi uma mensagem da professora Lucélia me convidando para realizar a atividade. Foi preciso uma ‘força tarefa’ para viabilizar minha viagem e estadia. Apenas um hotel na cidade de Bauru tem só três quartos adaptados para pessoas com deficiência. E mesmo assim, ainda não está totalmente adequado para quem usa cadeira de rodas, e não tem nenhum sinal de acessibilidade para quem não enxerga com os olhos ou não escuta com os ouvidos. Ônibus rodoviários com plataformas elevatórias ou rampas também é outro sonho bem longe de se tornar realidade. Simplesmente não existe nenhum no Brasil inteiro! E ironicamente, todos se orgulham de ter o símbolo internacional de acesso estampado bem grande na janela da frente. Pura propaganda enganosa!

Quando eu cheguei na rodoviária de Bauru, não haviam táxis acessíveis, apesar de um taxista afirmar que existe dois na cidade. Antes, na cidade de São Paulo, para ir da minha casa até a rodoviária, utilizei um carro de transporte por aplicativo porque os poucos táxis acessíveis são mais caros e precisam ser agendados com bastante antecedência, e mesmo assim costumam falhar (eu quase perdi um vôo esperando um táxi acessível mais de uma hora). Nas duas voltas, foi a mesma dificuldade. Caso não tivesse a grande ajuda do meu marido e a colaboração dos motoristas, não seria viável realizar este trabalho, pois nem sairia de casa.

Mas os ‘perrengues’ estavam só começando... Para subir e descer dos dois ônibus que viajamos, contanto ida e volta, foi preciso pedir ajuda mais uma vez. Agora não apenas para o meu marido, mas para garotos bem fortes que também iriam para o mesmo destino. Sem os braços deles e principalmente, a enorme boa vontade e solidariedade (além da gentileza das esposas, pois os meninos me carregaram no colo), eu não teria embarcado e muito menos conseguido viajar com tranqüilidade, porque foi preciso fazer uma parada estratégica para o xixi.

Confesso que é bom despertar a solidariedade nas pessoas, mas se locomover com independência é muito melhor! Simplesmente, não entendo porque todas as inúmeras leis internacionais, nacionais, estaduais e municipais em relação à acessibilidade não são cumpridas pelas empresas de ônibus e muito menos pelas Prefeituras e Estados no Brasil. É uma vergonha! Eu e outros vários profissionais com deficiência pagamos impostos, somos cidadãos, temos direitos e deveres, mas não somos respeitados ainda em pleno século 21.  

Será que as mais de 100 matérias que escrevi ao longo da minha carreira, e a maioria delas denúncias, não serviram de nada para conscientizar os governantes e empresários... Creio que muito ainda precisar ser feito para que os profissionais com deficiência, jornalistas ou não, sejam vistos como seres humanos que precisam conseguir viver com autonomia em uma sociedade verdadeiramente inclusiva! O relato de uma estudante que assistiu a minha palestra no auditório pouco acessível da faculdade é a constatação que ainda estamos bem longe do que é necessário para não ser mais preciso falar sobre acessibilidade nas escolas. Ela contou que um aluno com deficiência física usuário de cadeira de rodas, quase não conseguiu participar da cerimônia de formatura porque o auditório tinha escadas. Ele estudou em uma faculdade particular de Bauru, e precisou reivindicar o seu direito que receber o diploma junto com demais colegas!

Exatamente como eu fiz em 1996, quando exigi que adaptassem os banheiros da faculdade que me formei; e somente em 1999, um deles foi reformado, mas longe de estar dentro dos padrões internacionais de acessibilidade. Infelizmente, as histórias ainda se repetem com muita freqüência. Por isso, não podemos parar de lutarmos sempre mais por um mundo melhor hoje e amanha! Cada um fazendo a sua parte, porque juntos somos mais fortes! Caminhemos...        



Assistam uma das entrevistas que dei para a TV UNESP: 

Professora Lucinea.


Programa Artefato da TV UNESP de Bauru apresentado pela jornalista Juliana Ramos.

Jornal UNESP Notícias apresentado pela jornalista Larissa Rosseto.



Sobre a palestra a professora Lucinéa escreveu: 
"A jornalista Leandra Migotto Certeza, jornalista de São Paulo, foi convidada pelo grupo MATAV para apresentar a palestra “Acessível para quem?: O papel dos profissionais de comunicação em busca de uma mídia realmente inclusiva” no módulo de Especialização “Linguagem, Cultura e Mídia”, ministrado pela docente Profa. Dra. Lucinéa Villela. 
A palestra ocorreu no dia 21 de outubro com participação dos alunos do curso de Lato Sensu. Durante a palestra, a jornalista e blogueira, que nasceu com uma deficiência rara conhecida como “ossos de cristais”, contou de forma descontraída sua trilha para se formar em Jornalismo e atuar profissionalmente em revistas segmentadas. 
Houve grande participação dos discentes nas duas horas de bate papo com Leandra. Sua batalha de décadas desde sua infância até ser reconhecida no meio profissional serve de exemplo para todas as pessoas com deficiência que possuem um sonho de cursar uma universidade e seguir a profissão de seus sonhos. Além da palestra, a jornalista também deu duas entrevistas na TV UNESP". 
Fonte:
https://matavunesp.wordpress.com/2016/10/31/palestra-de-leandra-migotto-certeza/comment-page-1/#comment-38
*Leandra Migotto Certeza é jornalista por formação, consultora por profissão, e escritora por paixão. Recebeu o Prêmio de Classificação de Excelência no Concurso de "Periodismo y Comunicación Sociedad para Todos" na Colômbia em 2003, pelo artigo sobre educação: "Ser e Estar" (publicado em diversos portais); e o prêmio na categoria pôster sobre o projeto: “Fantasias Caleidoscópicas” (relativo à sexualidade da pessoa com deficiência) durante o "Sexto Congresso Internacional - Prazeres Dês-Organizados Corpos, Direitos e Culturas em Transformação", realizado pela Universidad Cayetano Heredia, em Lima em 2007. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Cadê a jornalista?




Por Leandra Migotto Certeza*

Comecei a graduação em Produção Editorial, na Universidade Anhembi Morumbi em São Paulo, no ano de 1996, aos 19 anos. Sempre tive paixão pela reportagem e o sonho em ser jornalista. A vocação e o talento sempre foram mais fortes; e eu segui os passos que o meu coração trilhou. Aprendi a fazer reportagens, entrevistar, e editar os meus próprios textos, na marra e sozinha! Nunca tive aulas técnicas sobre como redigir um bom texto. Mas modéstia parte, sempre sabia onde queria chegar e conseguia bons resultados porque estudava bastante, lia mais ainda, e metia a cara com muita coragem e determinação. Logo no terceiro ano da faculdade publiquei minha primeira reportagem, em uma das primeiras revistas segmentadas voltadas para as pessoas com deficiência.
Procurei a redação da revista por iniciativa própria. Primeiro telefonei para o número que estava na publicado e pedi para falar com o editor. Ele mesmo atendeu e disse que ficava contente com a participação dos leitores. Então, eu expliquei que não queria ser apenas uma leitora, e sim uma das jornalistas. Ele sorriu e disse que a equipe era bem reduzida e a revista era feita na própria casa dele. Eu insisti que precisava conhecer a redação e apresentar uma proposta de reportagem. Ele aceitou na hora e foi muito simpático.  

Lembro que no dia da visita eu estava bem nervosa. Fui toda arrumada e com a minha melhor roupa. Minha mãe me levou de carro, como sempre fez durante todas as minhas primeiras atividades, antes de eu perder o medo de sair sozinha de táxi pelas ruas da cidade. Quando cheguei onde a revista era feita, levei um susto: havia degraus bem na entrada! Pensei: “como uma revista que fala sobre inclusão pode ser assim”... É como diz o ditado: “em casa de ferreiro o espeto é de pau”. Ainda bem que eu ainda andava de muletas e consegui com dificuldade subir os degraus.
Naquela tarde de 1998, que passei ao lado do editor das primeiras revistas de São Paulo, voltadas para o público com deficiência, percebi o quanto o processo de inclusão ainda caminhava e quantos degraus seria preciso subir para alcançarmos a visibilidade do potencial de profissionais de comunicação com deficiência. Ainda vivíamos uma época em que muitos dos projetos voltados às pessoas com deficiência ainda estavam intimamente ligados às instituições, que em sua grande maioria tinha uma visão extremamente assistencialista, ou às experiências de familiares dessas pessoas, o que era o caso desta revista.
O editor tinha um filho com deficiência e sua esposa era dentista. Mas lembro também da linha editorial inovadora da publicação, que vinha do envolvimento político e do ativismo social dele em outros movimentos. Esse foi o lado que mais me apaixonou e despertou em mim a chama forte de luta por um mundo mais justo e solidário, em que todas as pessoas conseguissem mostrar o tamanho do seu potencial, independente de sua deficiência e condição social.         
É claro que também fiquei encantada com a produção de uma revista de verdade! Nossa... Como meus olhos brilharam quando vi as telas dos computadores com cada página da revista sendo diagramada. Quantas cores… Quantas imagens… Emocionante… Era isso o que eu sonhava em fazer: trabalhar em um lugar exatamente como esse, cheirando a criação! Fechei os olhos e fiquei me imaginando ali, dando pitaco em tudo… E depois chegando até a redação com a minha pastinha nas mãos, gravador e a máquina fotográfica com notícias quentinhas dos vários eventos em que iria estar para contar aos meninos e meninas colegas de trabalho sobre as minhas aventuras, os fatos e as histórias que eu havia encontrado… Um novo mundo se abriu para mim, e como era bom sonhar…
Bom, mas infelizmente, como o editor havia dito, a sua equipe era muito pequena e não havia dinheiro para novas contratações. E o pior de tudo, a revista estava passando por graves dificuldades econômicas, afinal, não era financiada por governos e não tinha rabo preso com alguma instituição.
Confesso que fiquei bem triste e preocupada, mas o que fez meus olhos brilharem foi saber que o sonho em criar uma publicação totalmente isenta de pressões políticas, ou visões retrógradas que colocavam às pessoas com deficiência como meros fins para se ganhar dinheiro, era o que sustentava cada palavra, foto ou imagem da revista. Pena que esta publicação conseguiu ter uma vida curta, mas a qualidade de suas reportagens e o pioneirismo em isenção marcou a história das mídias voltadas para esse público, como uma das mais conceituadas e inesquecíveis.
Em todos os lugares em que já trabalhei, não entrei por conta de indicações, mas porque eu ia até os locais, deixava meus currículos à disposição, oferecia uma cobertura gratuita de um evento e perguntava - na maior cara de pau - se eu poderia fazer parte da equipe. Até que finalmente, no ano 2000, eu comecei a escrever para outra importante revista mensal segmentada, voltada para a inclusão de pessoas com deficiência.

Uma das reportagens que fiz, nesta época, e mais me marcou foi quando descobri que alguns motoristas de uma empresa de transportes estavam realizando um treinamento de como auxiliar no embarque e desembarque de pessoas com deficiência sem a presença de ninguém nessa condição. Vi que estavam inventando tudo da cabeça deles, sem respei­tar norma alguma. Descobri isso através de alguns contatos e avisei muitas pessoas de diversas instituições e organizações representativas sobre a situ­ação. Decidimos aparecer no local do treinamento de surpresa e exigimos acompanhar tudo o que estava sendo feito. Fui com a equipe da revista em que trabalhava na época, e fizemos uma grande reportagem bem crítica e de denúncia.

Ter trabalhado nesta revista, foi uma experiência mais significativa da minha carreira, e os anos da minha vida em mais produzi com muita paixão e gigantesca dedicação. Realizei mais 50 coberturas de eventos em apenas 2 anos. Às vezes perguntava antes se o local era acessível, em outras, aproveitava para dar uma de fiscal. Fazia um cadastro prévio nas assessorias de imprensa sem avisar que tinha uma deficiência. Isso era de propósito porque queria ver a reação das pessoas ao encontrar uma jornalista na minha condição. Quando eu entrava nesses locais, muitas das pessoas diziam: “Cadê a jornalista que falou que viria?” E quando eu respondia que eu era a jornalista, muitas pessoas ficavam bem surpresas.

Apesar dos profissionais da mídia parecer estar acostumados a tratar do assunto, na maioria das vezes era um discurso sobre o outro, construído de uma forma assistencialista, estigmatizada e até piegas. Era o discurso de quem não tem deficiência e vê o outro em condição de suposta fragilidade, de desvantagem. Por isso considero tão importante o lema do movimento das pessoas com deficiência a partir da década de 1980, conhecido como “Nada sobre nós sem nós”. Essa frase simples traduz uma necessidade absoluta de qualquer movimento social ou organização que lute por igualdade de oportunidades: a de se garantir representatividade.   

Já em 2010, fui Jornalista Responsável por outra publicação em uma nova editora. Desta vez era voltada para Educação Inclusiva. Tive que visitar uma escola que tinha alguma acessibilidade, mas também várias inadequações. Não que estivesse maquiando algo, mas precisei olhar para as qualidades da escola, valorizar os alunos com deficiência que estudavam lá, ao invés de mostrar os problemas nos padrões de acessibilidade. Esse tipo de situação me causou um pouco de frustração com a profissão, mas nunca cheguei ao ponto de pensar em desistir. Durante toda a carreira, gostava de cumprir qualquer pauta que me pedissem, exceto nas raras vezes em que tive que fazer matérias pagas, ou seja, somente porque algum anunciante encomendava. Não tinha muita escapatória, apesar de não concordar com a prática, eu precisava trabalhar.

Por ter trabalhado na maior parte do tempo em revistas pequenas, com número reduzido de funcionários, não utilizei a lei de cotas para pessoas com deficiência. Uma das poucas exceções foi quando consegui uma vaga para Atendimento ao Leitor em uma das maiores editoras de revistas do Brasil, em 2006. Decidi aceitar o emprego porque tinha a esperança de ser transferida para a área editorial depois de um tempo, mas apesar das minhas muitas solicitações, isso não ocorreu. Mesmo eu formada desde 1999, e com importante experiência como repórter de revista, não tive oportunidade de evoluir dentro da empresa porque estava lá apenas cumprindo cota. Larguei o emprego por esse motivo, mas considero a lei de cotas um importante instrumento de inclusão, apesar de considerar que precisa de aprimoramentos.

Em relação às pessoas com deficiência que trabalham como jornalistas, eu considero importante reforçar que grande parte da mídia ainda se prende a padrões estéticos de uma maneira forte e, por conta disso, muita gente com deficiência tem dificuldade de se inserir no mercado. Aliás, isso não ocorre apenas com as deficiências, mas ainda hoje vemos pouquíssimos jornalistas negros, orientais, de etnias diversas ou com qualquer outra característica que demonstre diferença ocupando colocações de destaque, exercendo função de apresentadores, mostrando seus rostos e corpos.

Até pouco tempo atrás, muitas emissoras de televisão não contratavam pessoas que usassem óculos, para se ter uma ideia. Nos dias atuais, em que temos uma cultura muito visual, a aparência se tornou fundamental, às vezes mais do que a qualificação profissional, infelizmente. Por isso é importante que questionemos, com os instrumentos que temos à disposição, esse tipo de comportamento. Alguns dos instrumentos que utilizo para problematizar essa e muitas outras questões são meus dois blogs, o Caleidoscópio e o Fantasias Calei­doscópicas. O primeiro, eu uso para contar sobre tudo, meu dia a dia, as entrevistas que fizeram comigo, alguns textos literários e outros conteúdos de caráter jornalístico. O outro blog se destina a tratar da sexualidade da pessoa com deficiên­cia, um tema que é muito importante. Faço palestras sobre o assunto e já produzi um ensaio fotográfico sensual junto com a fotógrafa e amiga Vera Albuquerque.

Acho que nunca fui muito atrás de colaborar com jornais impressos justamente porque prefiro de um tipo de escrita mais demorada, com mais tempo para refinamento da linguagem. Ficava apreensiva com o ritmo acelerado das publicações diárias, talvez por isso tenha me focado na produção de revistas. Sempre me interessei por reportagens com caráter social, que proble­matizassem as dificuldades das minorias, das populações que sofrem com preconceito e discriminação. Negros, mulheres, comunidade LGBT, pesso­as de baixa renda ou com deficiência. Acredito que essa busca por denunciar as desigualdades está no meu sangue e permanecerá sempre comigo. Por conta dessa visão social e engajada que tenho da vida, acredito que nunca deixarei de ser jornalista, apesar de hoje ter planos de me tornar escritora e cursar pós-graduação em jornalismo literário. Hoje faço freelances de jornalismo, trabalho como consultora na área da inclusão; e ministro palestras motivacionais em di­versas instituições e empresas para as quais sou convidada.


Algo importante que preciso salientar também é que, infelizmente, a maioria das 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil ainda vivem em situação de pobreza, sem nenhum recurso garantido por parte do Estado. Muitas ainda estão trancadas dentro de suas casas, presas em uma cama, sem possibilidade de conquistar seu direito ao trabalho, totalmente marginalizadas. E isso está acontecendo agora. Graças à minha família, tive condições de dispor de um bom tratamento, de fazer faculdade, conquistar autonomia. A maior parte dos jornalistas com deficiência também compartilha desta condição financeira mais estável do que a maioria. Por esse motivo é tão difícil encontramos jornalistas com deficiência que são de origem pobre, simplesmente porque as pessoas de classe social mais baixa ainda não tiveram condição de cursar faculdade. Ou quando tem a oportunidade ainda são barrados nas redações de emissoras de TV, revistas, jornais e rádios, por puro preconceito e discriminação.


*Leandra Migotto Certeza é jornalista por formação, consultora por profissão, e escritora por paixão. Recebeu o Prêmio de Classificação de Excelência no Concurso de "Periodismo y Comunicación Sociedad para Todos" na Colômbia em 2003, pelo artigo sobre educação: "Ser e Estar" (publicado em diversos portais); e o prêmio na categoria pôster sobre o projeto: “Fantasias Caleidoscópicas” (relativo à sexualidade da pessoa com deficiência) durante o "Sexto Congresso Internacional - Prazeres Dês-Organizados Corpos, Direitos e Culturas em Transformação", realizado pela Universidad Cayetano Heredia, em Lima em 2007. Seus blogs são: http://leandramigottocerteza.blogspot.com/ e http://fantasiascaleidoscopicas.blogspot.com/. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Discriminação educacional


Cadeirante intimado a devolver dinheiro pago pelo estado para ir à faculdade diz: ‘Não quero ser herói’

Fonte: http://extra.globo.com/noticias/rio/cadeirante-intimado-devolver-dinheiro-pago-pelo-estado-para-ir-faculdade-diz-nao-quero-ser-heroi-20261611.html

Igor na porta de casa, em Queimados

Até entrar na faculdade, Igor Lima da Cruz Gomes superou um parto prematuro, o abandono do pai, oito cirurgias, um erro médico, dificuldades financeiras e desafios diários com locomoção. A vaga no curso de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), porém, ficou ameaçada por conta de míseros 33 degraus. Obstinado a vencer outra batalha, o cadeirante de 21 anos processou o governo do estado e a SuperVia pela falta de acessibilidade na estação de trem de Queimados, na Baixada Fluminense, onde mora. 

Em primeira instância, uma vitória: ele recebeu R$ 16.800 para, enquanto as obras não fossem feitas, prover um carro alugado que o levasse até a universidade durante três meses. No entanto, após um recurso do mesmo governo do estado que vem atrasando o pagamento de servidores, pensionistas, inativos, terceirizados e fornecedores, agora é Igor, intimado pela Justiça a devolver o valor já investido no transporte, quem “deve” ao poder público.

Por que você decidiu recorrer à Justiça?

Não era a minha primeira opção. Desde que eu soube que havia passado no vestibular, procurei vereadores e até o prefeito aqui de Queimados. Alguns fizeram promessas, outros disseram que não tinham como ajudar, mas o fato é que não consegui nada. Falei até com o gabinete do Romário em Brasília (o senador costuma defender causas relativas a pessoas com deficiência). Quando percebi que o início das aulas estava próximo, decidi procurar a Defensoria e ingressar com a ação.

Que dificuldades você enfrenta para ir até a faculdade?

Pra começar, o ônibus. O ponto é perto da minha casa, mas, às vezes, não tem o elevador, ou não funciona, ou sou eu que preciso ensinar ao motorista sobre como operar. Na estação de trem, eu até consigo passar da roleta, mas, na hora de descer para a área de embarque, só tem a escadaria. Preciso esperar surgirem quatro funcionários da SuperVia dispostos a ajudar, desmontar a cadeira e montá-la de novo (só as duas baterias pesam mais de dez quilos). Esse processo todo costuma demorar uns 20 minutos ou mais. Na Uerj, pelo menos, a acessibilidade é melhor (a Estação Maracanã foi reformada para a Olimpíada e a Paralimpíada).

Igor na casa onde mora com a mãe, Rogéria, que aparece ao fundo
Igor na casa onde mora com a mãe, Rogéria, que aparece ao fundo Foto: Roberto Moreyra

Como você recebeu a decisão sobre a devolução do dinheiro?

Quando fui notificado, já havia pagado os três meses de transporte particular com o valor que a juíza destinou inicialmente. A defensora pública que estava me acompanhando orientou que eu devolvesse tudo, mas não tenho nem perto disso, até porque não sei se a locadora estornaria sequer parcialmente essa verba (até o momento, ele só utilizou o serviço por pouco mais de um mês). O defensor que assumiu o caso agora, porém, disse que vai recorrer e que não preciso fazer isso desde já, porque o recibo é de data anterior a essa segunda decisão (a Defensoria não respondeu ao contato do EXTRA sobre o processo de Igor).

E se for mesmo preciso pagar?

Uma amiga da faculdade soube de tudo isso e resolveu ajudar organizando uma vaquinha virtual (http://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajudeoigor). O lado bom foi esse: acabei ficando mais próximo dos outros estudantes. Colocamos uma meta inicial de R$ 6 mil, que é o custo de um mês de transporte, e já estamos com quase R$ 4 mil (na noite de sexta-feira, o valor total foi alcançado e reajustado para R$ 17 mil, suficiente para cobrir toda a dívida com o estado). Teve gente que nem conheço doando mil reais, é uma coisa incrível. Ainda não sei como vai ficar a situação na Justiça, mas, dependendo, pelo menos já daria para pagar o aluguel do carro por outros três meses. Ah, também fizeram um abaixo assinado (https://www.change.org/p/supervia-ajude-igor-e-outros-milhares-de-portadores-de-necessidades-especiais), que tem 37 mil assinaturas (o número já chegou a quase 70 mil).

Igor na formatura do Ensino Médio
Igor na formatura do Ensino Médio Foto: Arquivo pessoal

A SuperVia fez algum contato?

Já são três dias seguidos com um homem se dizendo do departamento jurídico de lá me ligando, mas sem nem dar o nome (a entrevista ocorreu na quinta-feira). Ele pede que eu envie a grade curricular da faculdade, para ter mais funcionários nos horários em que eu for passar pela estação. O que quase fez eu mandar o cara ir para aquele lugar foi ele afirmar que aquilo era um favor, que a SuperVia não tinha obrigação. E que não havia previsão para obras de acessibilidade em Queimados, mesmo depois da determinação da Justiça. Não aceitei, claro, até porque resolver só a minha situação não adianta. Não quero ser herói do Brasil, mas e os outros cadeirantes? Tudo bem que não tenhamos um país 100% adaptado, mas, pelo menos, o transporte público precisa ser.

Qual o seu problema de saúde?

Nasci prematuro de sete meses, pesando um quilo e meio (a mãe mostra fotos do bebê miúdo). Tive falta de oxigenação no cérebro, o que causou uma paralisia do tipo diplegia espástica. Até os 14 anos, fiz oito cirurgias para tentar corrigir os problemas nos membros inferiores, além de uma na vista. A penúltima intervenção, porém, acabou piorando muito meu quadro. Me disseram depois que a médica puxou demais o tendão do joelho, tirando a pouca firmeza que eu havia conseguido adquirir. Desde então, uso a cadeira de rodas.

Por que você optou pelo Direito?

Quando fui crescendo, começaram a surgir várias dúvidas. O que eu posso fazer? Quais os meus direitos? O interesse por conhecer as leis veio daí. Na escola, professores também me aconselharam nesse sentido. Consegui entrar na faculdade, e meu sonho agora é ser juiz.

A estação da exclusão: Igor só chega na área à direita com ajuda
A estação da exclusão: Igor só chega na área à direita com ajuda Foto: Márcio Alves / 20.10.2015

Obras para adaptar estação ainda não têm data

Procurada, a SuperVia não confirmou as ligações para a casa de Igor, mas reconheceu que fez contato com o rapaz. Por nota, a concessionária assegurou que “está mobilizada para oferecer auxílio no momento do embarque e do desembarque” do cadeirante. Porém, além de não especificar como se daria essa ajuda, a empresa não fixa datas para que a estação de Queimados se torne acessível.
A decisão em primeira instância, de 21 de julho, porém, dá um prazo de seis meses para que a reforma seja feita. Até a conclusão da obra, a SuperVia e o governo do estado precisariam assegurar o transporte do universitário, conforme determinou a juíza Isabel Teresa Pinto Coelho. Em setembro, a magistrada Luciana da Cunha Martins Oliveira acatou recurso e suspendeu o pagamento pela locomoção, mas não a imposição das obras na estação.

Mesmo diante da determinação judicial, a SuperVia afirma apenas que “apresentou defesa” e informa, genericamente, “que segue o plano de investimentos que prevê tais intervenções nas estações, conforme contrato de concessão”. Atualmente, segundo a própria empresa, somente 20 das 102 estações ferroviárias contam com itens de acessibilidade, 19 delas “adaptadas na gestão da atual concessionária”.

Enquanto corre a batalha na Justiça, Igor fez, anteontem, a primeira prova na Uerj. Na casa humilde de muro verde no bairro de Vila Americana, em Queimados, onde um banco de cimento na entrada e puxadores nas paredes improvisam acessibilidade, a vigilante Rogéria da Cruz, de 40 anos, não esconde o orgulho do filho. Sobra espaço, porém, para o receio de que os rivais à frente sejam poderosos demais.
— Nem eu sabia que ele era tão forte assim — derrete-se.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Preconceitos sutis e discriminações contra pessoas com deficiência

Fonte: http://super.abril.com.br/comportamento/um-dia-na-vida-de-uma-pessoa-com-deficiencia-fisica
Um dia na vida de uma pessoa com deficiência física



Com quadrinhos de Helô D'Angelo


#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, um cara ruivo sem deficiência está entrando no banheiro reservado para pessoas com deficiência. Ele tem uma expressão encabulada, porque um rapaz de muletas está esperando para usar o banheiro. O cara ruivo diz: "É rapidinho, juro! É que só consigo usar esse banheiro para fazer o número dois...". No segundo quadrinho, o rapaz de muletas pensa: "Que cara folgado! Eu é que não consigo usar o outro banheiro?".

Nosso conselho nesse caso: Banheiros e outros espaços reservados para pessoas com deficiência, como vagas de estacionamento e assentos preferenciais, existem por uma razão: eles facilitam o acesso e a vida dessas pessoas. Evite usar esses espaços.



#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, um homem está conversando com uma menina cadeirante. O homem diz: "Você é bonita demais pra ser deficiente!". No segundo quadrinho, aparece apenas o rosto da menina, com uma expressão de irritação. Ela pensa: "o que uma coisa tem a ver com a outra?".

Nosso conselho nesse caso: Uma deficiência física é uma característica que pode(ou não) influenciar na aparência da pessoa. É desrespeitoso elogiar alguém "apesar" da deficiência que ela possui. Você gostaria de ser elogiado "apesar" de alguma característica física sua?




#SuperAcessível: No primeiro quadrinho, uma senhora se aproxima de um homem cego, que está de pé, com um cão guia. Preocupada, ela diz: "Meu Deus! Coitadinho de você? Eu vou rezar pra Deus te curar, viu, meu filho?". O homem fica constrangido. No segundo quadrinho, ele está com a mão na testa, com uma expressão de "Me dê forças, meu Deus". Ele pensa: "EU é que devia rezar pra ela parar de se meter na vida dos outros!".
Nosso conselho nesse caso: Quem disse que a pessoa com deficiência é coitada? Vale a pena pensar nisso antes de esbanjar pena. Como você se sentiria se alguém prometesse rezar para modificar uma característica sua?


#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, uma mulher cega está de pé em um vagão do metrô. Ao lado dela, um senhor também está de pé. O senhor diz, sorrindo: " Nossa, que legal você andando de metrô! Que exemplo de superação!". No segundo quadrinho, a moça aparece de saco cheio. E pensa: "Mas eu só tô pegando o metrô! O que tem de superação nisso?".
Nosso conselho nesse caso: Dizer que alguém é um exemplo de superação pode até parecer um elogio, mas não é. Tratar uma pessoa com deficiência como herói ou heroína é presumir que a sociedade pode se isentar da responsabilidade de inclui-la. Afinal, por essa lógica, ela tem "super poderes", não é mesmo?


#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, uma menina está sentada no banco preferencial do ônibus. Uma mulher cheia de sacolas, chega perto da menina e diz:"Estou cheia de sacolas e você aí, sentada! Você é folgada mesmo, hein?". No segundo quadrinho, a menina levanta a barra da calça e mostra uma prótese na perna. A mulher diz: "Desculpa,é que você não tem cara de deficiente? ". A menina pensa: "E você não tem cara de preconceituosa!".
Nosso conselho nesse caso: Não existe uma "cara" de pessoa com deficiência. Ninguém precisa provar que tem uma deficiência.


#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, uma mulher cadeirante está em uma loja de roupas. Uma vendedora se aproxima com algumas opções de blusinhas, se abaixa ao lado da cadeirante e, como quem conversa com um bebê, diz: "Oi, bonitinha! Já encontrou uma roupinha que você goste? Essa blusinha é lindinha!". No segundo quadrinho, a cliente está com uma expressão de raiva e chateação. Ela pensa: "Que saco, não sou criança. Por que ela tá falando assim?".
Nosso conselho nesse caso: Falar com voz mais fina, usar diminutivos e frases simples só porque a pessoa tem alguma deficiência deixa a entender que você acha que ela tem a autonomia e o discernimento de uma criança. Nem as crianças gostam de ser infantilizadas assim.


#SuperAcessível: no primeiro quadrinho, um casal está em uma festa. A namorada não tem um dos braços. Uma senhora se aproxima dos dois e diz:"Nunca deixe ele ir embora. Vai saber quando alguém vai te amar tanto assim, apesar de tudo?". No segundo quadrinho, a namorada está com uma expressão de impaciência. Ela pensa: "Ele não está comigo por pena! PQP!".
Nosso conselho nesse caso:"Pessoas com deficiência são seres humanos, com desejos e vontades. Elas também se relacionam amorosamente - e supor que o parceiro está junto por pena ou "bondade" é ofensivo. As pessoas são mais complexas que suas deficiência. Não as reduza só a isso".


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Democracia, sempre


Queridas e queridos leitores e leitoras, é com muita saudade e alegria que compartilho com vocês esta obra prima do meu grande amigo do peito. 

Guardo comigo, no fundo do coração, cada mensagem que trocamos, palavras que compartilhamos, sentimentos, ideias e ideais que vivemos juntos tão intensamente ao tocarmos um ao outro com nossos textos. 

Eu tive a grande honra e satisfação de conviver com ele nos anos 2000 em diante, quando fomos companheiros de trabalho, como colunistas, em um site e uma revista muito especial e importante em nossas vidas. 

E nos anos seguintes, foi ele quem me incentivou a estudar e me tornar escritora, realizando um sonho antigo e tão necessário a minha sobrevivência hoje. 

Espero que vocês também sejam tocados pela sabedoria, clareza e carinho desse homem tão único e necessário a ser sempre lembrado! 







Democracia, sempre

Por José Olímpio Cavallin*

Eleger governantes e representantes políticos sempre me pareceu um direito mais do que comprometedor. Convencidos por mil estratégias, votamos mais em figuras do que em idéias; mais em perfis pessoais do que em programas de atuação política. E isso nos compromete com o destino que é dado à história do País...

O pensador francês Montesquieu, lá pelo século XVIII, escreveu que a República deve ser construída mais sobre as instituições do que sobre os homens que a compõem. Se estava certo, estamos duplamente perdidos, graças às fragilidades da nossa República tropical. Nossa esperança repousa nas pessoas.

Basicamente, ainda somos um povo ordeiro e trabalhador, apesar da miséria e da conseqüente criminalidade – as duas endêmicas. Nossas elites sempre estiveram cegas ao abismo cada vez mais próximo de seus muros. Os pobres ainda são, no Brasil, a mais perfeita tradução para o termo massa de manobra. Em todos os níveis da vida nacional revela-se o tremendo poder da corrupção, que transforma gente até então honesta – pobre ou não – em vampiro da sociedade.

Boa parte da classe política tem adotado uma ética particular, regida por princípios bem distantes do bem comum. “Democraticamente”, nenhum partido político tem conseguido sair ileso das tentações mais previsíveis. Ativa ou passivamente, cada vez mais parlamentares se abraçam numa obscena ciranda em causa própria.

E, agora, que nossas famosas urnas informatizadas irão processar a sorte do plantel congressista para os próximos anos, o quadro traçado pelo voto popular pode ter, ou não, significado um avanço para o país.

O que me parece muito mais significativo é que o cidadão-eleitor – consciente do seu poder – não se corrompa por interesses particularizados, não se torne cúmplice de falsas demandas coletivas, não viaje em barcas furadas por líderes carreiristas. Sintetizando: antes dos políticos, nós é que precisamos evoluir no julgamento e na proposta de uma Nação politicamente saneada.

Já tivemos todo tipo de governantes, das mais diferenciadas origens e tendências. Nenhum deles conseguiu escapar das dominações de um mundo polarizado pela economia e seus instrumentos de poder. Nenhum deles se tornou um herói do povo.

Por outro lado, em nenhuma outra época tivemos tanta clareza de informação e conscientização, tantos exemplos de como não se deve acreditar em discursos vazios de sentido e credibilidade. Ditadores e salvadores não vingam mais...

O mito de um governo realmente democrático sempre passa pelo sonho popular, mas tropeça numa misteriosa mudança de rumos. Algo que só experimente quem chega no poder e, sabe-se lá porque, quase sempre acontece.

A nós, cidadãos mais ou menos aptos a escolher nossos verdadeiros representantes no jogo democrático, cabe a tarefa intransferível do voto e o peso das escolhas nem sempre acertadas. Neste caso, bem podemos abortar mandatos mal exercidos, já que eles – os mandatos – não são mais do que procurações coletivas dadas em confiança. E confiança não se compra, conquista-se através de uma conduta única e honesta.

*José Olímpio Cavallin, paranaense, foi roteirista, diretor, cineastra, dublador, compositor, escritor, colunista, produtor multimídia. Ele tinha seqüela severa de poliomielite. Esta crônica foi escrita e publicada na edição 37 do 6° ano da Revista Sentidos em outubro de 2006. 

Mais sobre Olímpio:

https://youtu.be/iZ4R39q19AE

http://www.historiadocinemabrasileiro.com.br/jose-olimpio-andreatta-cavallin/

http://blogsentidos.blogspot.com.br/2009/03/o-sal-da-terra.html

http://www.oocities.org/py3idr/radioamador/artigos/py5ay.html

http://cineacademia.blogspot.com.br/2011/05/o-olhar-de-quem-faz-acontecer-cinema-no_28.html?view=flipcard





segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Lembrança de uma sinfonia...

Queridas e queridos, 

No ano de 2001 eu trabalhava em uma ótima editora, local em que mais consegui realizar meus sonhos profissionais e pessoais. 

Este texto foi um dos primeiros da minha coluna no site que amei escrever por mais de 2 anos. 

Foram momentos maravilhosos e ao mesmo tempo bem difíceis. 

Compartilho com vocês agora, o que a minha alma gritava (naquela época), para lembrar a mim mesma, hoje em 2016 - tempos MUITO mais difíceis - que é preciso continuar com a chama acessa em nossos corações!  



Sinfonia

Por Leandra Migotto Certeza


Acordar, sonhar. Levantar, lutar. Acalentar, gritar. Ir em frente. Caminhar, rodar. Ouvir, silenciar. Enxergar, presenciar. Discutir, sentir. Estar presente. Convencer, conquistar.


2001 foi um ano de conquistas. A teia da vida se carregou de tecer cores e formas. A diversidade é uma constante perene. A cada amanhecer brilha mais forte. As verdadeiras mudanças são internas. Regadas ao sol ou em meio a tempestades. O tempo é uma linha tênue entre os instantes.


Transformar é agir com intensidade. Saber esperar é o segredo. Respeitar é ser humilde. O ar transborda um orvalho doce e suave, mas é preciso acordar cedo. Sentir as gotas caírem sobre os ombros. Não ter medo da misturar-se em meio a folhagem seca. Perdoar.


Caminhos caminham. Seguem o curso do rio. Na selva o rei governa, e os súditos constroem. O aroma das flores é único, como o brilho de um olhar. O vento se encarregará de conduzi-las. Um dia, abrigaram-se nos galhos. Que nunca se deixaram sucumbir em meio a relva. As formigas podem corroer sua casca, quebrar seus espinhos. Mas nunca seifarão sua seiva.


Enquanto existirem campos sua grandeza será exaltada. De dentro para fora. Sem a pretensão de ser grandiosa, mas apenas únicas. Enquanto existirem seres humanos, a diversidade será uma dádiva que se suga por entre os poros do corpo. E não se aprende nas escolas, nos palanques, nos livros, nos mártires, nos poderosos, nas esquinas, nas ideologias. Apenas se sente!


Eu senti! Muito mais. Fiz parte desta sinfonia.


Andei por entre auditórios cheios de políticos podres. Ouvi egoísmos vários. Chorei em meio as “armas” de madeira quebradas. Parei em um olhar de dor, reluzente no brilho de uma negritude intocável. Gritei aos quatro cantos. Trabalhei com dignidade. Conquistei valores materiais, mas plantei pensamentos verdes. Que amadurecerão com o passar dos milésimos de segundo. Despertarão olhares. Tecerão palavras. Acalentarão almas sedentas.


Participei de seminários, palestras, eventos, circos e círculos vários. Papéis, documentos, promessas, projetos. Ideias. Assinaturas. Filas. Congestionamentos. De pessoas, de caminhos, de cadernos, de desenhos, de palavras. Palavras! Será uma bandeira que se carrega nos ombros, pesada como a consciência, ou uma roupa que se veste conforme o molde do corpo?  Fogo de palha ou chama acessa? Alarde social todos fazem. Íntegro é aquele que o vivencia com parcimônia. Sem perder a tenacidade e a voracidade diante do desconhecido. Explorar as potencialidades é construir a inclusão.


Senti o coração bater, fora do peito. Mas do que uma caixa torácica. Um arrepio sob a pele. Uma lágrima escorrendo no toque de um acorde. Uma cadeira de rodas bailando no palco. Um sorriso incansável. Longe do medo e da descrença. Da corrupção que ainda impera. Talvez nem mesmo os que acordam e dormem ao lado do oposto a sua imagem, conhecerão a sua face.


Fora ao pieguismo e a demagogia. Sim ao novo, ao desconhecido. Sem ultrapassar os limites e acomodamentos intrínsecos. Respeitando o tempo interno. Não deixando de olhar para trás. Lembrar de quando fomos crianças. Em que um pião ou uma colher de pau eram brinquedos. Suas cores, formas, odores, gostos e peculiaridades é que faziam a diferença.


Eu baixei a fronte diante do imaturo e suguei o seu brilho. Ouvi com paciência, apesar de insegurança. Estive presente nas discussões e calei, diante do futuro. Vivi o presente. Resgatei o passado. Escrevi, fotografei, gravei desenhei, planejei, inventei, caminhei… Muito mais do que dinheiro, casa, comida, roupas, estudo, condução, materiais, objetos. Conheci pessoas, seres, naturezas. Cada instante tem seu espaço temporal e emocional. Eu ainda procuro o meu a cada experiência. Encontro partes refletidas, outras espalhadas. A busca constante é que mantêm a chama acessa.


Minha alma caleidoscópica não me deixa mentir. Sou feliz. A chama da justiça arde em meu sangue. Lutarei eternamente por tudo o que acredito. Encontrarei caminhos, pessoas, situação. Só descansarei em paz quando sentir que a verdadeira sinfonia da vida atingiu a perfeição dos acordes.


Agradeço a todos que, durante o ano de 2001, prestigiaram meu tesouro: as palavras. Sejam transparentes. Saibam ouvir ou silenciar. Vivam intensamente cada momento. A felicidade existe, e as vezes está mais próximas do que imaginamos.       

Luciana Scotti

Luciana Scotti é homenageada pela Câmara Municipal



qui, 09/06/2016 - 13:54
A farmacêutica Luciana Scotti foi homenageada pela Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP) na sexta-feira, 3 de junho. Em sessão solene, a servidora recebeu a Cidadania Pessoense, honraria proposta pelo vereador João Almeida, em razão de sua dedicação à atividade científica e de seu exemplo de superação.

Luciana é natural de Alagoa Grande (PB) e foi criada na capital paulista. Aos 22 anos de idade, sofreu uma trombose cerebral, que a deixou tetraplégica e muda. Entretanto, essas limitações não a impediram de reagir e tornar-se inspiração para muitos. Com movimento apenas em um dedo das mãos, ela terminou a graduação e cursou mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Escreve livros e domina três idiomas. Fez pós-doutorado na USP, UFPB e UFPE, tendo retornado à UFPB, onde participa atualmente da Unidade de Abastecimento e Dispensação Farmacêutica do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW).

Na cerimônia, a mesa foi composta pelos vereadores João Almeida e Djanilson, pela reitora da UFPB Margareth Diniz, pelo superintendente do HULW Arnaldo Medeiros, pela vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia (CRF-PB) Renata Zaccara, além da homenageada e sua mãe Lélia Scotti.
Fonte: 
Rita Ferreira | Fotografia de Oriel Farias

FONTE: http://www.ufpb.br/content/luciana-scotti-%C3%A9-homenageada-pela-c%C3%A2mara-municipal

sábado, 20 de agosto de 2016

Paralimpíadas até quando!

O Globo, Opinião, 19/08/2016:
Alice no País da Paralimpíada
Por ANDREI BASTOS*
No País das Maravilhas de Alice, os seres mais diversos interagem, de todas as formas, sem identificar as diferenças entre eles como fatores de preconceito e discriminação. As aventuras e desventuras dos seus personagens, por mais fantasiosas, expressam a maneira de ser de cada um no ambiente comum do País das Maravilhas.
Já no mundo dos seres nada fantasiosos, as indicações são, como regra, de impossibilidade de interação, mesmo entre iguais, geralmente dando um caráter de excepcionalidade positiva quando processos de interação são bem-sucedidos. Assim é a natureza humana fora do País das Maravilhas.
Talvez possamos ter a expectativa de que o mundo em que vivemos venha a acolher os seres humanos mais diversos, por conta das maravilhas que nos são apresentadas pela ficção e pela tecnologia, mesmo quando diferentes do mundo de Alice.
Aliás, se considerarmos que as histórias de ficção anteciparam muito do que hoje a tecnologia nos apresenta como banal, podemos aceitar como premonitórias as aventuras de seres muito diversos, provenientes dos mais profundos recônditos da imaginação do homem, seja voando, pisando na Lua, falando diretamente com quem está do outro lado do mundo, conhecendo e convivendo com “seres” tão diferentes, da mesma forma que os personagens do País das Maravilhas.
Sem dúvida, estamos muito longe de contarmos com tal acolhimento das diferenças no mundo em que vivemos, pois falta até dinheiro para realizar a Paralimpíada 2016. Mas alguns passos importantes já foram dados. As diferenças de gêneros começam a ser aceitas, as mulheres firmam, cada vez mais, seu papel na sociedade, preconceitos de cor ou raça já são considerados “antiquados”, embora ainda falte muito.
Mas podemos perceber que todos estão dentro de uma certa conformidade anatômica humana dominante no inconsciente coletivo, com duas pernas, dois braços etc. e, o mais importante, com mobilidade autônoma. Ao considerarmos os diferentes grupos humanos, naturalmente não incluímos pessoas sem pernas, braços ou em cadeiras de rodas.
Encarando como natural o “esquecimento”, não o fazemos apenas por uma questão cultural, embora a cultura seja o único caminho para introjetarmos em nossa psiquê tais modelos diferentes de seres humanos. Esses humanos, chamados de pessoas com deficiência, embora já tenham conquistado muita coisa em termos de direitos, ainda se deparam com o imenso e intransponível muro da invisibilidade e estão sempre sendo isolados em guetos. Assim é, como no exemplo mais evidente, que trata justamente da performance do corpo humano, com a separação entre Olimpíada e Paralimpíada.
Ora, se temos nos Jogos diferentes modalidades esportivas e diferentes categorias dentro de cada modalidade, por que não incluir no conjunto das competições as práticas esportivas das pessoas com deficiência como categorias das diversas modalidades?
Para que essa ideia possa ser absorvida e entendida por todos os tipos de pessoas, com e sem deficiência, e seja realizada plenamente por todos – atletas e público –, ouso apresentar o País das Maravilhas como candidato à realização da próxima Olimpíada, totalmente inclusiva, e com dinheiro para tudo.
*Andrei Bastos é jornalista cadeirante e integrante do Fórum Nacional de Educação Inclusiva