Não sou a ‘regra’. Sobrevivi quando a medicina me sentenciou. Fraturei vários ossos pelo corpo todo, andei com 5 anos, cresci até 96cm. Fui segregada em escolas exclusivas, trabalhei em empresas pseudo-inclusivas. Sou Bacharel em Comunicação Social. Recebi prêmios internacionais pelos meus textos. Viajei sozinha para fora do Brasil, desfilei em escolas de samba... Curti muito a vida noturna, ganhei campeonatos de natação. Uso uma cadeira de rodas para me locomover.
Nos Anos 30, teria sido esquecida no quartinho dos fundos. No início do século XX, ficaria trancada em uma igreja. Na Idade Média, teria sido afogada ao nascer. O ‘diferente’ sempre assusta porque incomoda e toca na maior ferida humana: sua natural fragilidade e finitude. A inata imperfeição de todos os seres não tem lugar na sociedade da beleza plastificada e da suposta simetria.
“Em uma estrela, um brilho
Em princípio inatingível
Ofuscado pelo vidro
Oprimido, impedido,
Ilhado por sentido
Fundo, profundo,
Dentro de si mesmo”.
Leandra Migotto Certeza
Entrevista na íntegra e maior. Compartilhar sempre citando a fonte e a autoria!
Agora meu depoimento faz parte do projeto Conte sua História do Museu da Pessoa!
Descrição da imagem: foto de Leandraaos 41 anos em
Oficina de Escrita Criativa Literária no SESC Pinheiros – SP. Ela está sentada em sua cadeira de rodas,
escrevendo em uma mesa com caneta. Leandra olha para o papel e está de lado na
imagem. Ela veste uma blusa estampada azul e tem uma flor colorida no cabelo
castanho. Sua pele é branca e seus olhos castanhos.
"Que a deficiência não seja um fardo, mas ao mesmo tempo sim, seja uma forma de reflexão sobre a finitude e a imperfeição, mesmo, do ser humano. Porque todos os seres humanos são imperfeitos no sentido de que ninguém é um robô, ninguém é uma máquina, ninguém está pronto, todos nós aprendemos, todos os dias. E também todos nós vamos morrer, não é? É a única certeza que nós temos.
Então, eu acho que para quê perder tempo discriminando e maltratando outros seres humanos por uma condição diferenciada, se tudo é tão rápido e tão efêmero? Então, é isso. Eu acho que eu queria deixar essa missão aqui, essa mensagem para as pessoas que estão me vendo: o mais importante, mesmo, é a gente ser feliz, do jeito que a gente é. E também, se não quiser ser feliz, tudo bem.
Eu acho que o importante é ter essa liberdade. A liberdade, como uma amiga me diz, é uma coisa que a gente agarra, que a gente conquista e ninguém pode tirar da gente, sabe? A liberdade de estar no mundo como a gente é.
E para mim, foi importante participar, eu acho que é um momento de reflexão, em que eu revi toda a minha vida e que eu já queria, há muito tempo, deixar essa mensagem, esse depoimento para as pessoas que vão assistir. Porque os anos vão passar, eu vou embora daqui da Terra e eu espero que as próximas gerações vejam, conheçam e saibam da minha história. Que é a história de uma vida como de qualquer outra pessoa, porque cada história é importante e que todas as histórias são importantes e que todas as vidas importam, sabe?
Eu acho que isso é o mais importante, de colocar isso: que nenhuma vida é melhor ou pior do que a outra; especial ou que não vale nada. Todas as vidas têm valor. Desde as pequenas, no sentido de você achar que aquela pessoa não tem aquela capacidade, porque você acha que ela não tem, mas quando você dá oportunidade, ela mostra que tem capacidade, até aquelas pessoas que você fala: “Nossa, mas esse daí já está bem na vida, é super, é um gênio”. Mas você não sabe as dificuldades por que aquela pessoa passou. Então, acho que explorar essas capacidades, essa é a dádiva. Como é que eu posso dizer, assim?
Esse é o legal do ser humano: a inteligência de poder explorar as várias capacidades. E a gente viver nesse mundo, do jeito que ele é. Com imperfeições, com dificuldades, mas também com muita coisa boa, com muita alegria, com muito pôr do sol, com muito mar, com muita Natureza, sabe? Com muita vontade de viver. Eu sempre tive muita vontade de viver. É isso".
Link para o vídeo do depoimento e do texto na íntegra: