domingo, 20 de setembro de 2020

Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiências - Não quero ser tolerada! Exijo respeito!







Sou Leandra Miogotto Certeza, escritora e jornalista.

Neste 21 de setembro, Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência:

Não quero ser tolerada! Exijo respeito! 

Eu nasci, existo e permaneço. A cada olhar de preconceito, devolvo com um sorriso. A cada ato de discriminação, combato com um grito! A cada exclusão, imponho minha presença! A cada porta fechada, abro muitas janelas pelas mídias digitais e denuncio!! E se for preciso PROCESSO!

Ninguém tem a obrigação de me aceitar, muito menos de me tolerar. Todos podem desejar que eu morra ou que viva bem longe. Mas NUNCA conseguirão que estes pensamentos tão mesquinhos ultrapassem suas mentes e corações. Nada e nem ninguém me atingirá! E muito menos me derrubará!
Então, sugiro que gritem bem alto de baixo do chuveiro ou entre os seus travesseiros para que ninguém ouça. Por que da porta pra fora do seu quarto, você vive em SOCIEDADE e eu FAÇO PARTE DELA!! Você tem a OBRIGAÇÃO LEGAL de me RESPEITAR!! Será que me expressei de forma objetiva, ou preciso repetir?
Leia esta frase como se eu estivesse falando bem alto no seu ouvido, tá? EU EXISTO E VOCÊ TEM A OBRIGAÇÃO LEGAL DE ME RESPEITAR – EXATAMENTE COMO EU SOU – SEMPRE QUE ESTIVERMOS NOS MESMOS ESPAÇOS CONVIVENDO EM SOCIEDADE!!
Ah… E só mais uma coisinha: EU TAMBÉM TENHO O DIREITO LEGAL E LEGÍTIMO DE ESTAR EM QUALQUER LUGAR QUE DESEJE! VOCÊ NÃO PODE ME IMPEDIR DE ABSOLUTAMENTE NADA! ENTENDEU?
Eu posso frequentar exatamente a mesma escola ou faculdade que o seu filho! Eu posso trabalhar no supermercado que você faz compras ou na multinacional da sua filha. Eu também vou aparecer ao seu lado na danceteria, hotel ou cruzeiro.
Posso morar bem ao seu lado, no mesmo condomínio, rua ou bairro. Eu estou passeando pelos parques, praças e vielas da sua cidade. Eu consigo visitar museus e centros culturais da sua comunidade. Viajo para praias, campos, e qualquer ponto turístico. Também ando pelas ruas, estradas, calçadas, passarelas, ciclovias, aviões, trens, barcos, metrôs, ônibus e elevadores!
E não esqueça que eu TENHO TOTAL DIREITO CONSTITUCIONAL de trabalhar em qualquer profissão que eu deseje e tenha qualificações. Então, não ‘se assuste’ se você for atendida por mim em um hospital, escritório de advocacia, táxi, igreja, centro de pesquisa científica, bar, multinacional, órgão público, universidade, casa de show, companhia aérea, padaria, restaurante, empresa de comunicação, salão de beleza, gabinete da câmara municipal ou da assembléia legislativa e do judiciário! E em tantos outros lugares!! Até pesquisando sobre vida em outros planetas!
Bem que eu gostaria de povoar um novo espaço nas galáxias totalmente livre de CRIMES DE DISCRIMINAÇÃO, mas por enquanto, vivo aqui na TERRA, juntinho com você e todos que me amam ou me odeiam!! Vou lutar até o último dia da minha vida para simplesmente SER FELIZ EM PAZ!
E a cada OBSTÁCULO, BARREIRA, PRECONCEITO OU ATÉ PROJETO DE LEI INCONSTITUCIONAL, que você ou qualquer um achar que colocou na minha frente para me atrapalhar, eu vou aumentar a minha carga de energia vital para PERMANECER COM ALEGRIA EXATAMENTE AO SEU LADO TE MOSTRANDO COMO É POSSÍVEL E ENRIQUECEDOR VIVERMOS JUNTOS, NOS RESPEITANDO!!
PS: Só mais uma coisinha: você não precisa me INCLUIR em nada porque eu JÁ FAÇO PARTE DA MESMA SOCIEDADE QUE A SUA!!

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

CURSO SOBRE DIVERSIDADE E INCLUSÃO



O que é normal e anormal? Vamos refletir sobre o conceito de normalidade em nossa sociedade e em nós mesmos para compreender melhor a questão das diferenças.

A inclusão de pessoas deficientes deve ser entendida da mesma forma que a inclusão de pessoas “diferentes”, ou seja, a partir do reconhecimento da diversidade. Neste sentido, estamos propondo que se repense todo o sistema de exclusão racial, sexista e xenofobia. Os espaços educativos e artísticos são locais privilegiados para esse tipo de discussão.

O objetivo do curso é contribuir para a formação de profissionais e pessoas que convivem com a deficiência; problematizar o conceito de inclusão e normalidade; e refletir sobre diversas situações de diversidade e onde ela nos afeta.

Facilitadoras: Júlia Paladino, Estela Lapponi e Leandra Migotto Certeza

Data: de 24 até 27 de agosto de 2020

INSCRIÇÕES: 

http://sedes.org.br/site/cursos-sedes/inclusao-ampliando-possibilidades/?fbclid=IwAR30UnSfsBat0NJOasX0PNzoC6FWWPU5f6WuCh2-HFZhV1SEuCcujwEOmss

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

EDUCAÇÃO INCLUSIVA E ACESSIBILIDADE É TEMA DE DEBATE COM EDUCADORES!

 


Educação Inclusiva e Acessibilidade foi tema deste importante bate papo com educadores, no qual eu participei Assistam e compartilhem com o maior número de pessoas interessadas!

https://drive.google.com/file/d/1q3LEP88yEOUXqqtTCWu9rZdDFzv3hVYk/view?usp=sharing 




terça-feira, 28 de julho de 2020

“Muitas pessoas com deficiência já estavam isoladas, mesmo antes da pandemia”


Conversei com a psicóloga Shirley Aparecida Rocha Menezes sobre como o isolamento social e a discriminação de pessoas com deficiência são agravados na pandemia.




Por Leandra Migotto Certeza*

Eu sei bem o que é se sentir trancada do lado de dentro desde que tomei consciência de como é viver com deficiência em uma sociedade excludente. Mas o isolamento social, a discriminação e o preconceito sempre estiveram presentes no meu cotidiano, com maior intensidade durante a adolescência. Depois que tomei posse do meu lugar de fala, aprendi a lutar contra o auto isolamento. Realizei trabalhos, compartilhei experiências e entendi a importância de dar voz a quem ainda se sente como eu me sentia: invisibilizada!  

Antes desta pandemia, eu vivia uma das fases mais leves e produtivas, tanto afetivamente como profissionalmente. O contato com as ruas, as pessoas, os lugares e, principalmente, a independência para poder ir e vir (quando eu desejava, e para onde eu me sentia bem), faz uma falta gigantesca! A flexibilização com todos os cuidados de prevenção não está nos meus planos porque os riscos são muito maiores para pessoas com deficiência, como eu. A minha quarentena só acabará quando eu tomar a vacina!  

Para quem tem deficiências mais graves e, principalmente, dificuldades financeiras, o tal do ‘novo normal’ será mais demorado e doloroso. Por isso, resolvi entrevistar mulheres com deficiência que ainda estão se sentido muito solitárias. Penso que suas histórias de vida possam nos inspirar a seguir em frente, juntas e cada vez mais fortes para não serem esquecidas e isoladas!  

A conversa deste mês foi com a psicóloga Shirley Aparecida Rocha Menezes, que é filha de pai ajudante geral (segundo ela, aquele que não recusa trabalho) analfabeto; e de mãe, dona de casa e cuidadora. Nasceu em Taubaté, interior de SP, em 3 de setembro de 1985, com uma deficiência desconhecida até os 8 meses de vida, quando foi diagnosticada com Osteogênese Imperfecta (uma falha no colágeno que enfraquece os ossos). Ao longo dos seus 34 anos, teve 1533 fraturas pelo corpo todo. Parou de contar contar há 16 anos. Mas disse que nunca deixou de ter fraturas. 

Shirley está sorrindo e com o sol batendo em seu rosto em close. Ela tem a pele negra, cabelos pretos, batom vermelho e delineador nos olhos pretos. 








Eu conheci a Shirley há 20 anos, quando participamos de uma associação que trocava informações sobre a deficiência que ela e eu temos. Na época, fiquei muito impressionada com a coragem e a força de uma menina que sempre teve mais dificuldades do que eu, e conquistou tantos objetivos! Aprendi bastante com o olhar doce e intenso de quem sabia que iria realizar muitos sonhos…  

Mulher negra com deficiência física que vive uma união homoafetiva, Shirley me contou como tem sido difícil manter o equilíbrio físico e emocional em meio às adversidades da pandemia. Ela, que desde março não saí de casa para fazer nada, está precisando passar por importantes consultas médicas de rotina e reabilitação para manter a saúde, mas não há médicos além dos voltados aos atendimentos de emergência para a covid-19. Emocionalmente, Shirley disse que está oscilando muito: tem dias que fica razoavelmente bem, e em outros se sente sufocada e destruída; sem vontade de viver… Confira os principais trechos da nossa conversa:

Leandra: Você acredita que muitas pessoas com deficiência já viviam isoladas antes da pandemia? 

Shirley: Existem muitas pessoas com deficiência que sempre estiveram isoladas, mesmo antes da pandemia. São pessoas que moram em instituições, ou vivem isoladas mesmo dentro de suas casas. E o pior: muitas estão rodeadas por outras pessoas que as incapacitam ainda mais. Estas pessoas com deficiência vivem à margem da sociedade, e quem não tem deficiência pensa que elas não precisam de nada além do que o básico para viver; sem qualquer qualidade de vida, e sem que suas necessidades mínimas sejam atendidas.   

Leandra: Com a pandemia, esse isolamento agrava a situação das pessoas com deficiência?

Shirley: Sim, pois elas podem estar sofrendo maus tratos e coisas absurdas sem qualquer possibilidade de ajuda! Tenho recebido relatos e denúncias de instituições (lugares onde elas deveriam ser sentir seguras) de torturas psicológicas. É estarrecedor a capacidade de alguns seres em causar dor nos outros! Eu temo pela vida das pessoas com deficiência nesse momento. Pois aqueles que têm possibilidade de se defender (nem que seja através da voz), já estão passando por dores emocionais inigualáveis; imagina, então, uma pessoa impossibilitada de se defender… O risco é gigantesco!

Leandra: E como você se sente em relação à falta de atenção dos governos às pessoas com deficiência durante a pandemia?  

Shirley: É torturante ver tantas pessoas morrendo e pouco sendo feito! E o pior é se sentir oprimida frente à situação de desgoverno que vemos em nosso país, onde o preconceito e a discriminação de todos os tipos estão latentes. A palavra de hoje é medo e insegurança, sem perspectivas de mudança. E o pior é a angústia de ter receio de adoecer, porque as pessoas ao redor não estão cumprindo o isolamento, e pior ainda, xingam e maltratam quem está ficando em casa.

Leandra: Conte um pouco da sua vida. Quais foram as maiores dificuldades? E quais foram as suas conquistas?   

Shirley: Deparei-me com os entraves sociais desde muito pequena. A exclusão da sociedade pela minha deficiência me negou a escola regular aos 7 anos de idade, o que acarretou minha inserção na vida escolar apenas com 11 anos. Mas me descobri, como pessoa, quando li a primeira frase! Foi um dos dias mais felizes da minha vida. A partir daí tive certeza que o conhecimento iria me transformar. E é exatamente o que vem acontecendo. Passei por todo o processo de adolescência e ingresso na vida adulta por inúmeros conflitos, mas aproveitei cada segundo. Chorei, sorri, bebi, comi, dancei, saí, me diverti, me decepcionei, me declarei, fui rejeitada; sofri preconceito (e cometi também); amei e fui amada. Hoje tenho meu amor, minha casa e meu gato.


Shirley está sentada em sua cadeira de rodas e ao lado estão duas mulheres da universidade. Elas seguram junto com Shirley a moldura com o seu diploma de psicologia. 


Leandra: Fale sobre as suas conquistas profissionais. Por que você escolheu a psicologia? 

Shirley: Em 2015 me formei bacharel em psicologia, especialista em psicoterapia familiar. E estou em processo de especialização em psicologia jurídica. Eu acho que não fui eu que escolhi a psicologia, mas ela que me escolheu. Pois, eu sempre me intriguei por histórias, por entender como as pessoas sentiam, e o que eles sentiam. E quando me deparei com esse lugar de escuta, onde simplesmente escutar cura; me apaixonei e me realizei como nunca imaginei antes. Gosto da ideia de que não existe uma única verdade, e que nossas experiências vão qualificar minha forma de agir sobre um determinado tema. Gosto de citar Von Glosersfeld (1984): “Os Deuses possuem a certeza, mas nós, como homens, só podemos conjecturar”.

Leandra: A sua tese de especialização do Curso de Intervenção Familiar: Psicoterapia e Orientação fala do significado do cuidar em famílias de pessoas com deficiência e os desafios nas relações e no empoderamento dessas famílias. O que você quis apresentar com ela?

Shirley: Durante a minha pesquisa demonstrei que nem sempre a deficiência é um impedimento; e que muita das vezes as dificuldades encontradas pelos sujeitos são construídas socialmente, e potencializadas nos grupos aos quais pertence, como família, comunidade. E tais impedimentos vão da falta de estruturas físicas de espaços públicos a aceitação desse sujeito como cidadão com direitos e deveres.

Leandra: A pandemia afetou a sua vida profissional?

Shirley: Eu já passava por muitas dificuldades antes da pandemia para tentar me fortalecer no mercado que atuo. Pois psicologia é nome, é indicação e participação. Mas com a quarentena, mantive os poucos pacientes que já tinha e ninguém está buscando terapia, em um momento que avalio ser essencial. Tenho muitos trabalhos voluntários para fazer, mas recebo dinheiro por bem poucos.

Leandra: Mesmo com grandes dificuldades financeiras, você é Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Taubaté. Qual a importância do ativismo social em sua vida?

Shirley: Estou no Conselho desde o final de 2019 e gosto muito de ser ativista! Eu participo de alguns grupos de ação social, gosto de fazer trabalhos voluntários com mulheres em situação de risco. Também sou palestrante em escolas públicas falando dos direitos e deveres da pessoa com deficiência há alguns anos. O maior desafio como ativista social é ver que a pessoa com deficiência ainda tem pouquíssimos direitos atendidos, e os que têm são dados como caridade. Por isso, é preciso lutar por direitos que a maioria acha serem benefícios! 

Leandra: Como mulher com deficiência, negra e vivendo uma relação homoafetiva, você enfrentou muitos preconceitos e discriminações. Quais foram as mais marcantes? E como você lidou com os sentimentos?

Shirley: Como mulher negra passei pelos maiores desafios e preconceitos! Por exemplo, quando fui seguida por seguranças em uma grande loja na minha cidade. Além de escutar coisas referentes às minhas características físicas como: “Nossa porque não alisa mais o cabelo”; entre outras falas discriminatórias. E como pessoa com deficiência já passei por vários momentos de discriminação e preconceito. 

Leandra: Quando você descobriu a sua sexualidade?  

Shirley: Percebi que tinha interesse realmente por uma mulher quando eu tinha 20 anos. Na verdade sempre senti que eu era diferente das minhas amigas, pois os meninos comuns não me atraíam. Gostava dos mais delicados, sei lá… A primeira moça que me apaixonei à primeira vista foi minha amiga por muitos anos. Eu guardei esse segredo, afinal ela não era uma pessoa com deficiência, e isso sempre foi muito frustrante para mim. Eu também nunca fui muito popular e a mais atraente do grupo. Essa moça era homossexual assumida há muito tempo. E eu me encantei por ela, mas acreditava que eu era última pessoa que iria chamar atenção dela. Eu era apenas uma amiga confidente, não mais que isso. Foram quatro anos me escondendo… Depois, devido aos discursos preconceituosos da sociedade, acabei cometendo o erro de ter minha primeira vez com um cara bem escroto (algo que me arrependo muito), e aí descobrir que não tinha jeito. 

Leandra: E como você lidou com os seus sentimentos depois dessa descoberta?

Shirley: Sempre tive muito dificuldade em me enxergar como possível de ser amada. Sempre me senti inferior às demais mulheres! Acho que, infelizmente, até hoje tenho problemas de baixa auto estima. Somente durante a faculdade, que conheci minha companheira; e que me descobri como mulher. Nós nos descobrimos. Atualmente não tenho vergonha de falar que me relaciono com uma mulher. Entendo que gosto de pessoas, na verdade do jeito que me tratam. Não sinto que eu tenha crise de identidade. Estou apaixonada por uma grande mulher, que tem deficiência física também. Hoje moramos juntas, e faz 7 meses que alugamos uma casa. E essa foi a melhor decisão das nossas vidas!

Leandra: Como foi a reação das duas famílias quando vocês foram viver juntas?

Shirley: Contei sobre a minha vida sentimental para minha mãe através de uma carta que ela não respondeu até hoje… No início do nosso relacionamento foi bem difícil, pois as famílias julgavam que estávamos juntas por falta de opção. Diziam: “deixa elas, afinal quem vai querer se casar com elas…” Minha família falou para minha esposa: “Como você vai ficar com ela? Se não pode cuidar dela?” Essa foi umas das piores coisas de escutar! Eu falei para ela que eu não queria ninguém para cuidar de mim. E sim alguém para me amar apenas. Quando resolvemos morar juntas rolou um estresse da parte das duas famílias, sendo que estávamos há 10 anos em um relacionamento. A pandemia afetou toda a minha vida, mas em especial no meu relacionamento, sinto que, eu e minha companheira, Aline, estamos exausta.  


Shirley e Aline Renata Abacherli em foto preta e branca. Elas estão juntas olhando uma para outra e sorrindo. 







Leandra: Na faculdade você viveu situações de discriminação e exclusão? 

Shirley: Sim, quando uma professora resolveu aplicar uma prova em dupla, por se tratar de um conteúdo muito extenso. Na sala tinha mais ou menos uns 50 alunos. Existiam duplas, trios e até quartetos de alunos, mas eu não estava em nenhum deles! Fui excluída! E essa não era a primeira vez que acontecia de eu ser esquecida dos grupos de alunos. Então, resolvi fazer a prova individual, mas é claro que não dei conta de responder todas as perguntas.

Comuniquei ao departamento pedagógico do curso que a prova não havia sido finalizada por questões acadêmicas, e sim por questões de preconceito e discriminação. Assim que entreguei a prova e me retirei, a professora veio atrás de mim perguntando o que significava aquela colocação. Aí eu gritei com ela no corredor… “Só vocês que não enxergam, que eu sou excluída, e só participo quando os professores me colocam em algum grupo. E quando estou em um grupo, faço o trabalho sem direito a voz e direito a nada”.  

Leandra: E no ambiente de trabalho, qual foi a situação de preconceito mais marcante?

Shirley: Foi com uma paciente nova. Quando fui chamá-la na recepção e a conduzi até a sala, ela me olhou com uma cara de desacreditada. Assim que entramos na sala ela me perguntou: “Você acha que pode me ajudar?”. Eu respondi: “No processo terapêutico somos apenas condutores, mas quem faz o trabalho é você”.  Ao fim da sessão ela falou: “Quando pensei em passar na psicóloga, imaginei uma mulher loira, alta, muito bonita…” Eu lhe perguntei: “Como você lida com suas frustrações?”. Um grande detalhe nesse caso: a paciente tinha uma deficiência causada por paralisia cerebral…

Leandra: Qual a importância da solidariedade para as pessoas com deficiência hoje com a pandemia? 

Shirley: A pandemia trouxe muitas dores, mas também me fez ver as grandes graças que a vida me possibilitou. Quando começou o isolamento social, fazia 4 meses que havia alugado meu apartamento em um condomínio; e vejo que aqui está a minha mais nova alegria, pois estou cercada por pessoas especiais. Minhas vizinhas e amigas fazem de tudo para nos ajudar em relação às coisas que precisam ser feitas na rua, como compras de alimentação, remédios e até socorro se necessário. 

E minha família também está sempre à disposição, em especial minha irmã que está na linha de frente na casa dos meus pais, fazendo tudo para manter a segurança da minha mãe e do meu sobrinho. Atualmente, eu e minha companheira estamos mantendo a limpeza e rotinas. E como eu dependo bastante fisicamente, minha companheira vem me ajudando em tudo. O que vem sendo bem desgastante para ela.

Leandra: Você acredita que a pandemia irá mudar as pessoas?

Shirley: Acredito que se faz necessário hoje, uma transformação de perspectiva de toda uma sociedade. E, principalmente, se as chamadas minorias se unissem no entendimento que somos maioria, o primeiro passo seria dado… Mas sinto que nossa sociedade precisa de mais compaixão, e esperança para começar esse processo de mudança… Para entender que mais importante que qualquer dogma, ou ideologia é a nossa espécie que é a Humana. Quem quiser falar comigo, escreva: shirley.psic6@gmail.com 


Leandra Migotto Certeza* É Bacharel em Comunicação Social e estuda Jornalismo Literário e Escrita Criativa. Lançará sua autobiografia: “Cadê a jornalista?”, a primeira obra da Coleção Janelas do Selo Caleidoscópio, que publicará biografias e autobiografias de mulheres com deficiência desconhecidas da grande mídia. 

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Qual o amor que aceita as pessoas como elas são?


Autora: Leandra Migotto Certeza

Ao assistir na internet um vídeo desses que todo mundo acha ‘fofinho’, me questionei: amar é tentar modificar o outro, ou aceitá-lo exatamente como ele, sem cometer um CRIME DE DISCRIMINAÇÃO? Antes que vocês conheçam o vídeo, vou contar o roteiro e as minhas impressões sobre ele.
Um porco espinho (que, obviamente, tem o corpo inteiro formado por espinhos!) está muito triste e chorando. Ele tenta participar da turma dos animais como qualquer um deles, mas nunca é aceito! Na hora em que está na escola, todos os bichinhos se afastam quando ele passa no meio das carteiras. O mesmo acontece dentro do ônibus que os leva para a escola, ninguém quer se sentar ao lado dele nos bancos.
Quando o porco espinho vai tentar brincar no parque de diversões, os outros animaizinhos também saem de perto dele com medo de esbarrar em seus espinhos. Depois a bola jogada em uma brincadeira é furada, o que o deixa mais triste ainda, além de MUITO culpado por ter espinhos!
Até que em um dia, um esquilo ‘bonzinho’, acha que encontrou uma ‘brilhante’ forma de ‘incluir’ o porco espinho na turma. Ele lhe dá uma caixa por meio de ‘presente especial’. Quando o porco espinho abre a bonita caixa, encontra pedacinhos pequenos de isopor em forma de rolinhos, e não sabe o que fazer com aquilo… Mas a turma de ‘amigos’ mostra como é a ‘solução perfeita’ para ele ser aceito entre os demais animais.
Então, os ‘amigos’ colocam os pedacinhos de isopor para encobrir cada um dos seus espinhos! Assim, o porco espinho deixa de ter pedaços do seu corpo (que nasceram com ele!) para se adaptar a uma forma de viver entre seus ‘amigos’. 
E desta forma, o porco espinho esconde a sua própria natureza para fazer parte da turma. Afinal, ninguém gosta de estar ao lado de um ser vivo como ele com espinhos, né? Então, ele é quem precisa mudar?
No final do vídeo ainda está escrito: “Acredite no AMOR!”. Eu novamente me questiono: que amor é este que só aceita o porco espinho se ele colocar um ‘disfarce’? Ele vai deixar de ser diferente dos demais animais por causa dos isopores? Ou só será incluído na escola, nas brincadeiras e na turma se mudar a sua aparência?
Eu nasci com uma deficiência física, e hoje uso uma cadeira de rodas durante o tempo todo da minha vida. Ela faz parte do meu corpo porque é somente com ela que eu consigo realizar as atividades cotidianas com segurança, autonomia e conforto. E é por meio dela que eu respeito as minhas dificuldades e valorizo as capacidades. 
Então, quando alguém me convida para ir a algum lugar, eu simplesmente, não posso deixar a minha cadeira de rodas do lado de fora! Eu não existo sem ela, não apenas porque me traz mobilidade (o que já é uma grande condição), mas também porque a minha auto-imagem – como mulher e ser humano – passa por ela.
Carregar-me no colo para subir uma escada, por exemplo, não é uma forma ‘inclusiva’ de fazer com que eu me sinta parte da turma! Sabe por quê? Além de me deixar muito desconfortável por ser levada igual a um bebê, a minha condição de deficiência, não irá desaparecer ou ser minimizada. 
E ao chegar ao local, todas as pessoas continuarão convivendo com a minha imagem e as características físicas específicas da minha condição de deficiência (como ter 96cm de altura, pernas menores do que os braços, cabeça com formas retangulares, quadril arrebitado, coxas roliças…). Eu simplesmente, não posso apagar ou disfarçar que não tenho estas características!
Da mesma forma que eu, todas as pessoas com deficiência (física, auditiva, visual, intelectual, múltipla, mental e surdocegueira), adquirida ou não, nunca deixarão de ser quem são. E por mais que sejam ‘amadas’ por pessoas que supostamente, acreditam que as incluíram no seu cotidiano, sempre serão alvos de atitudes preconceituosas e discriminatórias, disfarçadas de inclusão. Vejam…
Você acha que ao dar uma aula sem intérprete de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, ou virado de costas para um aluno com surdez (que faz leitura labial), o professor está sendo inclusivo apenas por ‘aceitar’ que este aluno faça parte da turma? 
Exigir que este aluno mude sua forma de estar no mundo (no caso com a deficiência auditiva, como parte da sua existência) para aprender o conteúdo, é amá-lo e aceitá-lo exatamente como ele é?
Assim como, produzir filmes sem áudio-descrição (recurso de acessibilidade), e dizer que quem não enxerga se sentirá incluído, desde que ele peça ajuda para o seu acompanhante ‘amorosamente’ descrever cada cena? 
Ou dizer que não exclui o aluno com deficiência visual de suas aulas, mas não indicar livros acessíveis, é aceitar e amar o aluno exatamente como ele é?
Eu poderia descrever várias outros exemplos de falsas ações inclusivas, mas voltemos à estória do porco espinho. Você pode estar pensando: “nossa como esta escritora (no caso eu mesma!), não vê que os amiguinhos do porco espinho foram solidários e amáveis com ele?” 
Eu lhe pergunto: que amor é esse que não respeita a existência individual do porco espinho? Não seria mais justo, os amiguinhos do porco espinho aprenderem novas brincadeiras em que as qualidades dele fossem valorizadas? Ao invés de tentarem mudar a sua forma de estar no mundo?
Eu também me pergunto: encobrir partes do corpo do porco espinho para que ele se ajuste a um modelo padrão de sociedade é uma atitude amorosa? Eu acredito que não! Sabe por quê? 
ACEITAR OS SERES HUMANOS EXATAMENTE COMO ELES SÃO É SABER RESPEITAR SUAS DIFERENÇAS, E NÃO IMPOR UM FALSO AMOR QUE ATENDA AOS SEUS PADRÕES SOCIAIS!
Eu também acredito que atitudes aparentemente ‘inofensivas’, e sutis de preconceito, como essa história de exclusão do porco espinho, em que as pessoas acham que estão incluindo um ser diferente, por meio de um suposto amor; naturalizam sentimentos de discriminação arraigados na nossa cultura! 
Infelizmente, ainda existem MUITAS pessoas que preferem dizer que amam quem é diferente dela (e aí encontram-se diversas diferenças: como deficiência, etnia, idade, gênero, entre outras), mas preferem que elas VIVAM BEM LONGE, ISOLADAS EM REDUTOS E GUETOS EXCLUDENTES!
E são estas mesmas pessoas que também fazem uso do suposto ‘amor’ para praticar CRIMES de DISCRIMINAÇÃO, PRECONCEITO E TOTAL EXCLUSÃO contra as pessoas com deficiência. Vejam… 
Dia 21 de agosto de 2019 de um grupo de moradoras do bairro do Cabo Branco (área em que fica o metro quadrado mais caro da Paraíba) procurou a vereadora Helena Holanda para pedir que ela IMPEDISSE a presença de pessoas com deficiência na orla da capital paraibana! 
Sabe qual a alegação destes moradores que se auto-declararam ‘pessoas ilustres e de renome’? Que a IMAGEM DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA RETIRAVA A BELEZA NATURAL DA PRAIA!!!
A vereadora Helena informou à imprensa que, diante de sua recusa em acabar com o Projeto Acesso Cidadão - que leva as pessoas com deficiência ao banho de mar e a esportes aquáticos - o grupo de moradores sugeriram que ela CERCASSE a área utilizada pelos usuários e colocassem um portão separando, os supostos SERES HUMANOS ‘ILUSTRES’ (as pessoas sem deficiência), DOS ‘MENOS HUMANOS’ (os cidadãos com deficiência)! Inacreditável, né? Mas infelizmente, casos como este ainda são bem frequentes em pleno século 21.
O capítulo 2 da Lei Brasileira da Inclusão (Lei 13.146 de 2015) define muito bem quais foram os CRIMES que essas pessoas cometeram ao exigir a exclusão das pessoas com deficiência das praias da Paraíba. Segundo o Art. 4º Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação.
 1º Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas.
Além desta lei nacional, no Artigo 5 da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (adotada como Emenda Constitucional pelo Brasil em 2007), está escrito que:
Os Estados Partes reconhecem que todas as pessoas são iguais perante e sob a lei e que fazem jus, sem qualquer discriminação, a igual proteção e igual benefício da lei.
Os Estados Partes proibirão qualquer discriminação baseada na deficiência e garantirão às pessoas com deficiência igual e efetiva proteção legal contra a discriminação por qualquer motivo.
Portanto, essas pessoas que exigiram a retirada dos cidadãos com deficiência das praias da Paraíba cometeram CRIME DE DISCRIMINAÇÃO tipificado em duas leis, uma nacional e outra internacional. E sabe o que aconteceu com elas? ABSOLUTAMENTE NADA!!
Eu acredito, que além da completa falta de seriedade em se fazer cumprir as leis (por meio da fiscalização inexistente); um dos principais motivos pelos quais, a maioria das pessoas afirma ser desnecessário RESPONSABILIZAR quem praticou este CRIME é a errônea visão de que CUIDAR DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA COM O SUPOSTO AMOR não é excluí-la. Mas desde que este ‘cuidado’ seja feito bem longe do convívio cotidiano daqueles que se declaram ‘seres humanos ilustres’!!!
Exatamente por causa de atitudes discriminatórias como essa que é preciso MUDAR esta errônea visão de ‘amor solidário’ que ainda está muito arraigada na cultura brasileira de assistencialismo com viés religioso de caridade.
Também é preciso COMPROVAR POR MEIO DE ATITUDES (como a da veredora, que não permitiu o encerramento do Projeto Acesso Cidadão) que todas as pessoas com deficiência têm o direito de FAZER PARTE DA SOCIEDADE POR MEIO DE SUAS PRÓPRIAS ESCOLHAS, COM AUTONOMIA, LUGAR DE FALA E PROTAGONISMO.
É PRECISO LUTAR POR UMA SOCIEDADE QUE AS RESPEITA E AS AMAM EXATAMENTE COMO ELAS SÃO!
Assista ao vídeo do porco espinho que tem com áudio-descrição (recurso de acessibilidade para pessoas com cegueira):


Fonte original da crônica: 

Ian - Uma história verídica de inclusão - Curta de animação

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O direito de respirar em um mundo racista


Fonte: https://www.geledes.org.br/o-direito-de-respirar-em-um-mundo-racista/
Autor: Dodô Azavedo 

Não consigo respirar.
Mais um homem negro foi assassinado por um policial branco nos EUA, na segunda-feira passada. Menos um homem negro no mundo.
Sem ar, erro: escrevo “mais um homem negro foi assassinado…”. Está errado.
É preciso dar nomes. Não normatizar genocídios.
George Floyd, 46 anos, trabalhador, pagador de impostos, assassinado no último sábado, por um policial branco em Minneapolis, EUA.
Suas últimas palavras enquanto era enforcado por seu assassino:
– Não consigo respirar.
Morreu em 5 minutos. Segundo a medicina forense, uma eternidade dividida em 4 fases.
Primeiro, sente-se enjôo, vertigem, sensação de angústia, inconsciência.
Dois minutos depois, a medula colapsa, causando convulsão, contrações na musculatura (tanto da face quanto a respiratória) e os relaxamentos dos esfíncteres. A vítima se urina e se defeca inteira.
No terceiro minuto, a fase respiratória, o ar que falta. Lentidão e superficialidade dos movimentos respiratórios. Insuficiência ventricular esquerda.
O último minuto de vida é o colapso cardíaco. Arritmia, parada cardíaca e morte.
Em algum destes 5 minutos, teve forças para dizer apenas uma coisa.
– Eu não posso respirar.
5 minutos. Uma eternidade.
Leio o estudo publicado no UOL, informando que, no Brasil, negros sem escolaridade tem mais chances de morrer de Covid-19. Gente preta que vai morrer por não conseguir respirar.
E então eu não consigo respirar.
Estou dentro de casa, calma.
Preciso escrever a coluna. Sou um profissional. Sou um milagre estatístico. Um dos poucos negros brasileiros que conseguiram trabalhar com o que ama, que venceu pelo simples fato de ter tido as mesmas chances que um branco.
João Pedro, negro, assassinado em São Gonçalo, mandou antes de morrer uma última mensagem de whatsapp para a mãe:
“Estou dentro de casa. Calma.”
Morreu com um tiro de fuzil nas costas. A dor de um tiro de fuzil não se compara a nada. Rompe músculos e artérias, mas destrói nervos e ossos do tronco. A pressão demora a cair. Passa-se pelo menos 5 minutos sentindo essa dor inimaginável.
5 minutos. Uma eternidade.
Casos que, de tão corriqueiros, viram notícia de vítima sem nome, sem corpo, sem dor, de alguém que não teve o corpo violentado. Um corpo que dava prazer aos amigos, aos parentes. Um corpo vivo e com nome.
Em um colégio da zona nobre do Rio de Janeiro, alunos brancos se referem à colega Ndeye Fatou Ndiaye, 15 anos, negra, corpo com nome, assim: “Venderia no Mercado Livre”. E “Para comprar um negro, só com outro negro mesmo”.
Ndiaye respirou e reagiu nos 5 minutos que lhe foram dados. Os jovens racistas de família de elite, que no futuro serão adultos racistas no mercado, hoje estão afastados temporariamente da escola.
5 minutos. Uma eternidade.
O site Mercado Livre, a qual o garoto racista de elite se referia, já teve que retirar do ar um anúncio de produto, feito por um brasileiro, que colocava uma foto de uma criança negra à venda, com os dizeres: “Filhote de Macaco”.
Eu não consigo respirar.
O presidente da Fundação Palmares resolve criar o selo “não-racista”, para pessoas ou marcas que, segundo ele, venham a ser difamadas, acusadas injustamente de racismo.
Vejo o estudante racista recebendo o selo “não-racista”. Vejo os policiais que assassinaram João Pedro recebendo o selo “não-racista”. Vejo o assassino de George Floyd recebendo o selo “não-racista”. Vejo o sujeito que anunciou uma criança preta no Mercado Livre recebendo o selo “não-racista”. Vejo o próprio presidente da Palmares condecorando a si próprio com o selo “não-racista”.
“Para comprar um negro, só com outro negro mesmo”.
A história da escravidão do homem pelo homem tem um capítulo especial no Brasil. É aqui, na região central do Rio de Janeiro, onde funcionou o maior porto escravagista da história da humanidade. O Cais do Valongo. O útero do Brasil.
O Mercado Livre.
Eu não consigo respirar.
Vivemos na economia do Livre Mercado.
Um sistema que dá o direito de respirar a uns e não a outros.
Que sufoca pretos negando-lhes, por exemplo, escolaridade.
Escolaridade é ar.
E é só isso que o povo preto quer.
O mesmo direito de quem não é preto tem.
O direito de respirar.
5 minutos. Uma eternidade.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dia Internacional das Pessoas com Osteogenesis Imperfecta






Não sou a ‘regra’. Sobrevivi quando a medicina me sentenciou.
Fraturei vários ossos pelo corpo todo, andei com 5 anos, cresci até 96cm.
Fui segregada em escolas exclusivas, trabalhei em empresas pseudo-inclusivas.
Sou Bacharel em Comunicação Social.
Recebi prêmios internacionais pelos meus textos.
Viajei sozinha para fora do Brasil, desfilei em escolas de samba...
Curti muito a vida noturna, ganhei campeonatos de natação.
Uso uma cadeira de rodas para me locomover. 


Nos Anos 30, teria sido esquecida no quartinho dos fundos.
No início do século XX, ficaria trancada em uma igreja.
Na Idade Média, teria sido afogada ao nascer.
O ‘diferente’ sempre assusta porque incomoda e toca
na maior ferida humana: sua natural fragilidade e finitude.
A inata imperfeição de todos os seres não tem lugar
na sociedade da beleza plastificada e da suposta simetria. 


“Em uma estrela, um brilho
Em princípio inatingível
Ofuscado pelo vidro
Oprimido, impedido,
Ilhado por sentido
Fundo, profundo,

Dentro de si mesmo”.

Leandra Migotto Certeza



Entrevista na íntegra e maior. Compartilhar sempre citando a fonte e a autoria!