segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Lembrança de uma sinfonia...

Queridas e queridos, 

No ano de 2001 eu trabalhava em uma ótima editora, local em que mais consegui realizar meus sonhos profissionais e pessoais. 

Este texto foi um dos primeiros da minha coluna no site que amei escrever por mais de 2 anos. 

Foram momentos maravilhosos e ao mesmo tempo bem difíceis. 

Compartilho com vocês agora, o que a minha alma gritava (naquela época), para lembrar a mim mesma, hoje em 2016 - tempos MUITO mais difíceis - que é preciso continuar com a chama acessa em nossos corações!  



Sinfonia

Por Leandra Migotto Certeza


Acordar, sonhar. Levantar, lutar. Acalentar, gritar. Ir em frente. Caminhar, rodar. Ouvir, silenciar. Enxergar, presenciar. Discutir, sentir. Estar presente. Convencer, conquistar.


2001 foi um ano de conquistas. A teia da vida se carregou de tecer cores e formas. A diversidade é uma constante perene. A cada amanhecer brilha mais forte. As verdadeiras mudanças são internas. Regadas ao sol ou em meio a tempestades. O tempo é uma linha tênue entre os instantes.


Transformar é agir com intensidade. Saber esperar é o segredo. Respeitar é ser humilde. O ar transborda um orvalho doce e suave, mas é preciso acordar cedo. Sentir as gotas caírem sobre os ombros. Não ter medo da misturar-se em meio a folhagem seca. Perdoar.


Caminhos caminham. Seguem o curso do rio. Na selva o rei governa, e os súditos constroem. O aroma das flores é único, como o brilho de um olhar. O vento se encarregará de conduzi-las. Um dia, abrigaram-se nos galhos. Que nunca se deixaram sucumbir em meio a relva. As formigas podem corroer sua casca, quebrar seus espinhos. Mas nunca seifarão sua seiva.


Enquanto existirem campos sua grandeza será exaltada. De dentro para fora. Sem a pretensão de ser grandiosa, mas apenas únicas. Enquanto existirem seres humanos, a diversidade será uma dádiva que se suga por entre os poros do corpo. E não se aprende nas escolas, nos palanques, nos livros, nos mártires, nos poderosos, nas esquinas, nas ideologias. Apenas se sente!


Eu senti! Muito mais. Fiz parte desta sinfonia.


Andei por entre auditórios cheios de políticos podres. Ouvi egoísmos vários. Chorei em meio as “armas” de madeira quebradas. Parei em um olhar de dor, reluzente no brilho de uma negritude intocável. Gritei aos quatro cantos. Trabalhei com dignidade. Conquistei valores materiais, mas plantei pensamentos verdes. Que amadurecerão com o passar dos milésimos de segundo. Despertarão olhares. Tecerão palavras. Acalentarão almas sedentas.


Participei de seminários, palestras, eventos, circos e círculos vários. Papéis, documentos, promessas, projetos. Ideias. Assinaturas. Filas. Congestionamentos. De pessoas, de caminhos, de cadernos, de desenhos, de palavras. Palavras! Será uma bandeira que se carrega nos ombros, pesada como a consciência, ou uma roupa que se veste conforme o molde do corpo?  Fogo de palha ou chama acessa? Alarde social todos fazem. Íntegro é aquele que o vivencia com parcimônia. Sem perder a tenacidade e a voracidade diante do desconhecido. Explorar as potencialidades é construir a inclusão.


Senti o coração bater, fora do peito. Mas do que uma caixa torácica. Um arrepio sob a pele. Uma lágrima escorrendo no toque de um acorde. Uma cadeira de rodas bailando no palco. Um sorriso incansável. Longe do medo e da descrença. Da corrupção que ainda impera. Talvez nem mesmo os que acordam e dormem ao lado do oposto a sua imagem, conhecerão a sua face.


Fora ao pieguismo e a demagogia. Sim ao novo, ao desconhecido. Sem ultrapassar os limites e acomodamentos intrínsecos. Respeitando o tempo interno. Não deixando de olhar para trás. Lembrar de quando fomos crianças. Em que um pião ou uma colher de pau eram brinquedos. Suas cores, formas, odores, gostos e peculiaridades é que faziam a diferença.


Eu baixei a fronte diante do imaturo e suguei o seu brilho. Ouvi com paciência, apesar de insegurança. Estive presente nas discussões e calei, diante do futuro. Vivi o presente. Resgatei o passado. Escrevi, fotografei, gravei desenhei, planejei, inventei, caminhei… Muito mais do que dinheiro, casa, comida, roupas, estudo, condução, materiais, objetos. Conheci pessoas, seres, naturezas. Cada instante tem seu espaço temporal e emocional. Eu ainda procuro o meu a cada experiência. Encontro partes refletidas, outras espalhadas. A busca constante é que mantêm a chama acessa.


Minha alma caleidoscópica não me deixa mentir. Sou feliz. A chama da justiça arde em meu sangue. Lutarei eternamente por tudo o que acredito. Encontrarei caminhos, pessoas, situação. Só descansarei em paz quando sentir que a verdadeira sinfonia da vida atingiu a perfeição dos acordes.


Agradeço a todos que, durante o ano de 2001, prestigiaram meu tesouro: as palavras. Sejam transparentes. Saibam ouvir ou silenciar. Vivam intensamente cada momento. A felicidade existe, e as vezes está mais próximas do que imaginamos.       

Luciana Scotti

Luciana Scotti é homenageada pela Câmara Municipal



qui, 09/06/2016 - 13:54
A farmacêutica Luciana Scotti foi homenageada pela Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP) na sexta-feira, 3 de junho. Em sessão solene, a servidora recebeu a Cidadania Pessoense, honraria proposta pelo vereador João Almeida, em razão de sua dedicação à atividade científica e de seu exemplo de superação.

Luciana é natural de Alagoa Grande (PB) e foi criada na capital paulista. Aos 22 anos de idade, sofreu uma trombose cerebral, que a deixou tetraplégica e muda. Entretanto, essas limitações não a impediram de reagir e tornar-se inspiração para muitos. Com movimento apenas em um dedo das mãos, ela terminou a graduação e cursou mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo (USP). Escreve livros e domina três idiomas. Fez pós-doutorado na USP, UFPB e UFPE, tendo retornado à UFPB, onde participa atualmente da Unidade de Abastecimento e Dispensação Farmacêutica do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW).

Na cerimônia, a mesa foi composta pelos vereadores João Almeida e Djanilson, pela reitora da UFPB Margareth Diniz, pelo superintendente do HULW Arnaldo Medeiros, pela vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia (CRF-PB) Renata Zaccara, além da homenageada e sua mãe Lélia Scotti.
Fonte: 
Rita Ferreira | Fotografia de Oriel Farias

FONTE: http://www.ufpb.br/content/luciana-scotti-%C3%A9-homenageada-pela-c%C3%A2mara-municipal

sábado, 20 de agosto de 2016

Paralimpíadas até quando!

O Globo, Opinião, 19/08/2016:
Alice no País da Paralimpíada
Por ANDREI BASTOS*
No País das Maravilhas de Alice, os seres mais diversos interagem, de todas as formas, sem identificar as diferenças entre eles como fatores de preconceito e discriminação. As aventuras e desventuras dos seus personagens, por mais fantasiosas, expressam a maneira de ser de cada um no ambiente comum do País das Maravilhas.
Já no mundo dos seres nada fantasiosos, as indicações são, como regra, de impossibilidade de interação, mesmo entre iguais, geralmente dando um caráter de excepcionalidade positiva quando processos de interação são bem-sucedidos. Assim é a natureza humana fora do País das Maravilhas.
Talvez possamos ter a expectativa de que o mundo em que vivemos venha a acolher os seres humanos mais diversos, por conta das maravilhas que nos são apresentadas pela ficção e pela tecnologia, mesmo quando diferentes do mundo de Alice.
Aliás, se considerarmos que as histórias de ficção anteciparam muito do que hoje a tecnologia nos apresenta como banal, podemos aceitar como premonitórias as aventuras de seres muito diversos, provenientes dos mais profundos recônditos da imaginação do homem, seja voando, pisando na Lua, falando diretamente com quem está do outro lado do mundo, conhecendo e convivendo com “seres” tão diferentes, da mesma forma que os personagens do País das Maravilhas.
Sem dúvida, estamos muito longe de contarmos com tal acolhimento das diferenças no mundo em que vivemos, pois falta até dinheiro para realizar a Paralimpíada 2016. Mas alguns passos importantes já foram dados. As diferenças de gêneros começam a ser aceitas, as mulheres firmam, cada vez mais, seu papel na sociedade, preconceitos de cor ou raça já são considerados “antiquados”, embora ainda falte muito.
Mas podemos perceber que todos estão dentro de uma certa conformidade anatômica humana dominante no inconsciente coletivo, com duas pernas, dois braços etc. e, o mais importante, com mobilidade autônoma. Ao considerarmos os diferentes grupos humanos, naturalmente não incluímos pessoas sem pernas, braços ou em cadeiras de rodas.
Encarando como natural o “esquecimento”, não o fazemos apenas por uma questão cultural, embora a cultura seja o único caminho para introjetarmos em nossa psiquê tais modelos diferentes de seres humanos. Esses humanos, chamados de pessoas com deficiência, embora já tenham conquistado muita coisa em termos de direitos, ainda se deparam com o imenso e intransponível muro da invisibilidade e estão sempre sendo isolados em guetos. Assim é, como no exemplo mais evidente, que trata justamente da performance do corpo humano, com a separação entre Olimpíada e Paralimpíada.
Ora, se temos nos Jogos diferentes modalidades esportivas e diferentes categorias dentro de cada modalidade, por que não incluir no conjunto das competições as práticas esportivas das pessoas com deficiência como categorias das diversas modalidades?
Para que essa ideia possa ser absorvida e entendida por todos os tipos de pessoas, com e sem deficiência, e seja realizada plenamente por todos – atletas e público –, ouso apresentar o País das Maravilhas como candidato à realização da próxima Olimpíada, totalmente inclusiva, e com dinheiro para tudo.
*Andrei Bastos é jornalista cadeirante e integrante do Fórum Nacional de Educação Inclusiva

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Dez anos comemorando o aniversário do meu amor




Marcos dos Santos, meu eterno amor,

Amor, Feliz Aniversário! Eu te amo! Desejo muitas felicidades, amor, paz, saúde, alegrias e que você consiga realizar todos os seus sonhos e projetos de vida. Eu te amo muito. Você é minha alma gêmea. Você é o homem que eu escolhi para viver até o final da minha vida. Você é o homem mais carinhoso, amável, alegre, fiel, generoso, lindo, gostoso, inteligente, gentil, engraçado, fofo, tesudo, atraente, forte, corajoso, e adorável que eu conheço.


Eu te amo porque você me faz muito feliz todos os dias da minha vida. Eu te amo porque ao seu lado me sinto bem segura e forte para enfrentar todas as dificuldades. Eu te amo porque posso contar sempre com a sua ajuda em tudo o que preciso. Eu te amo porque você é o homem mais carinhoso que conheço.

Eu te amo porque o seu sorriso é gostoso, e o teu beijo é maravilhoso. Eu te amo porque você me ama com tanto carinho e me faz sempre feliz. Fazer amor com você é muito especial e gostoso. Você é cuidadoso, e sabe me fazer feliz ao seu lado. Gosto cada dia mais do teu cheiro e da tua pele. Gosto do jeito que você me faz carinho durante nossos momentos de prazer. Gosto quando você sabe tocar meu corpo do jeito que eu preciso e sinto vontade.

Agora, o que eu mais gosto é como você vive e ama seus amigos e sua família. Você me ensinou muito sobre o verdadeiro significado da vida. Você me ensinou a dar valor a cada momento de alegria, e cada alimento que comemos. Você me ensinou a ficar calma, tranquila, e a dominar mais meu jeito forte de ser. Você me ensinou a acreditar na força de vontade que agente tem dentro da gente.

Com você eu já vivi momentos muito especiais, que ficarão para sempre na minha alma. Ao seu lado eu sempre me sinto forte, alegre, e louca para mostrar para todos que nós podemos conquistar muitas realizações. Com você eu conheci uma família linda que mora em Ilha Comprida, e sempre me amou do jeito que eu sou, com muito respeito e confiança. Com você eu sei que posso viver mais feliz; e construir novos caminhos; e realizar novas conquistas.

Com você eu sinto que posso viver por inteira, e ser uma mulher muito amada de verdade. Nós estamos juntos para nos amarmos sempre mais, e mostrar para todas as pessoas, que o amor verdadeiro e lindo, vale muito a pena conquistar. Nós sempre vamos lembrar de cada momento que passamos juntos com pouco dinheiro, mais muito amor para dar para todos que precisam.

Eu nunca vou esquecer dos passeios que fizemos juntos, das ruas e calçadas que andamos, acompanhados dos anjos que sempre nos guiam e protegem. Eu nunca vou esquecer das loucuras que fizemos por São Paulo, Bertioga, Lambari, Ilha Comprida, Diadema, Osasco, e outros lugares. Eu nunca vou esquecer das manhãs, tardes, e noites que passamos juntos, namorando, nos beijando e nos amando, dormindo junto, nadando, tomando sol; sempre um nos braços do outro.

Eu nunca vou esquecer das nossas conversas, nossos segredos contados ao pé do ouvido, dos nossos planos para o futuro, e de todos os nossos sonhos que vamos realizar em breve. Eu nunca vou esquecer das nossas risadas e brigas.

Eu nunca vou esquecer das exposições de arte que visitamos, sempre aprendendo e ensinando muito. Eu nunca vou esquecer dos passeios nos parques que fizemos juntos, maravilhados com a beleza da natureza; e dos espetáculos que assistimos juntos, em todos os SESCs que sempre fomos.

Eu nunca vou esquecer de tantas pessoas muito importantes e significativas que conhecemos, durante nossa vida juntos, há 11 anos. Eu nunca vou esquecer das novas amizades fortes que conquistamos; das viagens sempre cheias de luz e sol que fizemos, para passar nossas férias de fim de ano; e de tantos outros momentos únicos que vivemos.

Eu sempre vou estar com você amor, e te fazer feliz porque você me faz mais feliz ainda! Eu te amo muito! Te adoro! Tenho certeza que Deus, o destinho, a vida e o universo nos colocou um ao lado outro para nos amarmos, sermos felizes, e ajudarmos todas as pessoas a se amarem também, exatamente como elas são!

Te desejo muitas felicidades nesse dia tão especial, que é o seu aniversário, dia 19 de agosto de 2016!

Vamos comemorar seu aniversário sempre com muita alegria por muitos outros anos! Lembre-se que você NUNCA mais está sozinho, e que você não é mais uma pessoa só. Agora você e eu estamos colados um na alma do outro para sempre!!!!!!!!

Beijos e abraços, Lê - sua amada, amiga, esposa e eterna amante.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Só faltava o nome para a escola ser diferente de todas as outras


Um abaixo-assinado na Change.org virou o jogo e deu a visibilidade que a EMEI Nelson Mandela merecia: eles responderam a pichações racistas com um ensino tolerante e inclusivo.

Um sábado ensolarado no meio do inverno paulistano parece que veio para contribuir com a festa. Na quadra da EMEI Nelson Mandela, que fica no bairro do Limão, zona norte de São Paulo, dezenas de crianças dançam, cantam, ouvem histórias e celebram o que foi uma conquista dos pequenos e da diretoria: a mudança de nome da escola, que antes se chamava EMEI Guia Lopes e agora passa a levar o nome do líder sul-africano ícone na luta contra a discriminação e racismo e defensor das causas humanitárias. 
A escolha não foi à toa. Mandela, ou "vovô Madiba", como as crianças (todas entre 4 e 5 anos de idade) o chamam, é um patrono da escola, que desde 2011 inclui no seu cotidiano conversas sobre a história africana e a cultura negra."Não é que temos aulas formais de história. Todo mundo senta e vamos aprender sobre História da África. Não. Existe envolvimento", conta a assistente de direção Deise Regina Ferreira, que está há 13 anos na EMEI. O bate-papo vem com as chamadas "figuras de afeto", bonecos que foram criados, a princípio, para cumprir a função de espantalhos na horta comunitária do espaço. 
"Deixamos um dia um espantalho negro lá. As crianças passavam, olhavam, ninguém fazia nada e todo mundo quieto. Aí que eles foram se aproximando e você introduz. Da onde ele veio? Da África. Vamos procurar no mapa? Ele veio da África do Sul. Onde fica? Pega os dois mapas: Brasil e África do Sul. Aí entrou o Mandela. O Mandela entra como o vovô do Azizi", explica a professora. A partir disso, as crianças conversam sobre direitos iguais, conhecem histórias da África, música, poesias e arte africana. Com um sorriso no rosto, Deise se lembra dos debates sobre cor de pele. "Começam os questionamentos: por que o Azizi tem essa cor? Vamos pesquisar? Ah, por causa da melanina. Aí, criou-se uma ação afirmativa: quem tem mais melanina, é o mais negro. Então os negros aqui ficaram se sentido o máximo. Aí o outro 'eu tenho menos, mas não faz mal'", relembra. 
ATAQUES RACISTAS
Em 2011, já conhecida na região por incentivar o debate, a criatividade e a tolerância entre as crianças, a escola sofreu um ataque. "Eu fui a primeira que vi. Eu parei e fui lendo a frase de trás para frente. Fiquei alguns minutos parada no meio da rua porque foi um impacto", conta, emocionada, a diretora da EMEI, a pedagoga Cibele Racy. A escola havia amanhecido com pichações racistas em seu muro principal. 
O ataque racista motivou mais conversa com as crianças, que discutiram o preconceito no dia dia de suas vidas, e se mostraram chocadas com as pichações. A diretoria decidiu reagir e reafirmar sua luta pelo empoderamento negro. Na Change.org, fizeram um abaixo-assinado que recebeu o apoio de quase 20 mil pessoas durante os cinco meses que a mobilização esteve aberta: "Permitam que a nossa escola se chame 'Nelson Mandela'". Deu certo. Um projeto apresentado pelo vereador Antônio Donato foi aprovado e a EMEI, que antes se chamava Guia Lopes, passa agora a ser conhecida como EMEI Nelson Mandela. "O cotidiano da luta contra o racismo se faz também de gestos simbólicos, e esse é um gesto simbólico muito forte", afirma o vereador, que chegou à festa de comemoração no último sábado, 13, acompanhado da primeira-dama da cidade, Ana Estela Haddad.

A petição, além de impulsionar a mudança, ainda gerou alguns efeitos inesperados. A pequena Eloisa Rosa, de cinco anos, começou a estudar na EMEI Nelson Mandela em 2016. Ela e seus pais gostam tanto da instituição que chegaram a ficar até duas horas por dia no transporte público para que a menina possa aprender e celebrar suas raízes africanas. "Conheci mais a escola pelo abaixo-assinado que uma colega compartilhou. A partir do abaixo-assinado, eu comecei a acompanhar a escola pelas redes sociais. Depois um dia viemos aqui conhecer o espaço. A gente encontrou na escola uma continuidade da formação que damos para ela em casa, tem uma proposta pedagógica que vem ao encontro dos valores e conhecimento que a gente quer que ela tenha", conta Clélia Rosa.  Seu marido, o fisioterapeuta Alexandre da Silva, completa: "A gente fica mais tranquilo. Tentamos fugir um pouco do que é comum em uma 'escola de resultados'. Aqui, não. Aqui o cidadão vem à frente", diz.
O sábado de festa mostra o resultado desse projeto pedagógico e do engajamento: alunos, ex-alunos, pais, professores e membros da comunidade se reúnem para celebrar uma vitória contra a intolerância e contra o racismo. As crianças prestam homenagem ao vovô Madiba e a EMEI Guia Lopes, que uma vez sofreu ataques racistas, agora aparece como um centro de resistência e valorização da luta contra intolerância. Agora é a EMEI Nelson Mandela

"Esse é o nosso trabalho: trazer referências positivas da negritude"

Conversamos com a educadora Cibele Racy, que há 11 anos é diretora da EMEI.

A diretora cibele racy foi quem deu o primeiro passo: fez o abaixo-assinado, que terminou com quase 20 mil apoios. (imagem: DIVULGAÇÃO/CHANGE.ORG)

A DIRETORA CIBELE RACY FOI QUEM DEU O PRIMEIRO PASSO: FEZ O ABAIXO-ASSINADO, QUE TERMINOU COM QUASE 20 MIL APOIOS. (IMAGEM: DIVULGAÇÃO/CHANGE.ORG)
Como foi montar esse projeto educacional que valoriza a cultura e história africana? De onde surgiu essa iniciativa?
Nos primeiros anos a gente trabalhou com diversidade, mas de uma forma superficial e sem foco. Em 2011, a diretoria municipal de educação nos lançou o desafio de introduzir a lei 10.639 [que determina o ensino de cultura afro-brasileira e indígena nas escolas]. A gente iniciou esse processo ainda titubeando. Através de brincadeiras, de música. 
Em 2011, houve a pichação racista. Qual impacto ela teve na senhora e no corpo discente?
Foi horrível. Foi uma coisa estranha porque eu fui a primeira que vi. Eu parei e fui lendo de trás para frente. Na hora cheguei no meio do quarteirão, parei o carro e consegui ler. Fiquei alguns minutos parada porque foi um impacto. Apesar de a gente saber do racismo, que existe na sociedade… uma escola ser alvo do crime de racismo é algo muito sério. Eu voltei pra casa num misto de indignada, assustada e tudo mais e chamei as professoras para pensar no que a gente ia falar para as pessoas. Aí abriram-se os portões na segunda-feira e todas as crianças já estavam sabendo o que estava escrito porque as famílias tinham visto e se indignaram. As próprias famílias comentaram o que era, como era absurdo e agressivo. A partir daí a gente começou na escola a discussão sobre por que alguém tinha escrito isso.
Como foi explicar para as crianças o que aconteceu?
A gente explicou a suástica, contou a história. E aí a partir disso, da existência de um símbolo como esse, a gente introduziu a simbologia africana, que trata da harmonia, da natureza, da perseverança. São símbolos que têm outros significados. É o que a gente chama de ação afirmativa: pegar a ideia negativa e transformar numa coisa muito maior, de maior valor. As crianças têm sua baixa autoestima porque tudo que chega do continente africano é negativo: fome, miséria. A gente se esquece de contar o outro lado. E esse é o nosso trabalho: trazer referências positivas da negritude.
A senhora tocou em um bom ponto, a questão da autoestima da criança negra. Como isso é trabalhado na escola? 
Não adianta você querer convencer outra pessoa que um tipo de cabelo não é ruim de uma hora para outra. Ela recebe mensagens o tempo inteiro. Então a primeira coisa que a gente faz é trazer referências. O canto da beleza é um deles (foto). A gente faz o dia do cabelo solto. Aí você percebe o quão libertador é para essas crianças soltar o cabelo. Até porque as próprias mães prendem, amarram, esticam, puxam. A gente tem dia de pintura corporal. Sempre por uma série de características. Primeiro você traz referências do que é belo e discute o que é belo para depois desconstruir algumas verdades absolutas. É um processo lento e cuidadoso, as emoções delas podem ficam à flor da pele e elas contam, se emocionam, lembra o seu sofrimento. E criam um vínculo de confiança com a escola, que se torna um território de resistência. Além disso, o número de famílias aceitando a beleza negra dos seus filhos é uma coisa absurda. Fora o impacto com os professores. É impossível você passar um ano na Nelson Mandela e sair do jeito que entrou.

Fonte: http://www.comousarachange.org/blog/2016/8/16/so-faltava-o-nome-para-esta-escola-ser-diferente-de-todas-as-outras

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Impossível ?

Por Leandra Migotto Certeza

Certo conto diz, que duas crianças estavam patinando em cima de um gelo congelado. Era uma tarde nublada e fria e as crianças brincavam sem preocupação. De repente, o gelo se quebrou e uma das crianças caiu na água.

A outra criança vendo que seu amiguinho se afogava debaixo do gelo, pegou uma pedra e começou a golpear com todas as suas forças, conseguindo quebrá-lo e salvar o amigo. Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino: “Como você fez ?”. O ancião respondeu: “Não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não poderia fazer…Se podes imaginas, podes conseguir”.


Eu acho que em tempos difíceis, o melhor e mais sensato a se fazer é investir com toda garra na perseverança aliada à força de vontade e a determinação. Ao ler esta estória, lembrei de outros histórias. De vidas, de sonhos. Ousados ou pensados, servem para impulsionar a roda da humanidade, muitas vezes cheia de sentimentos mesquinhos, egoístas e até déspotas! Que maravilhoso é saber que as grandes conquistas foram feitas de um ‘montinho’ de pequenas e valiosas pérolas, vindas de pessoas honestas, equilibradas e simples.

Assim, fica bem mais fácil, nadar contra a corrente trazendo peixes apetitosos para casa. Impossível ainda é um lugar que não existe no meu mapa. Espero que você não o encontre também, porque a vida é uma viagem a uma montanha transparente na noite escura. Só aqueles que trazem a luz brilhando dentro da alma conseguirão iluminar caminhos de paz infinitos na face da Terra.   

domingo, 7 de agosto de 2016

RIO 2016: Realidade!

Jogos da Exclusão

Organizações denunciam na ONU violações e restrições a direitos nos preparativos dos Jogos Olímpicos

28/06/2016


Cerca de 77 mil pessoas foram removidas à força de áreas consideradas de alto valor imobiliário, desde 2009.
Foto: Rede Contra a Violência
Faltando pouco mais de um mês para o início dos Jogos Olímpicos do Rio, a Conectas, Justiça GlobalArtigo 19 Brasil e ISHR (Serviço Internacional de Direitos Humanos, em tradução livre) denunciaram hoje, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, as arbitrariedades e violações cometidas no Brasil por conta dos preparativos de grandes eventos esportivos internacionais.
Em pronunciamento oral realizado nesta terça-feira (28) durante um painel que discutia o uso do ideal olímpico para promover os direitos humanos, as entidades mostraram que o sonho de se tornar vitrine mundial se tornou pesadelo para comunidades carentes do Rio de Janeiro e defensores que tentam denunciar e protestar contra as violações.
Leia aqui a íntegra do pronunciamento (em inglês)
De acordo com o relato das organizações, desde 2009, mais de 77 mil pessoas foram removidas à força de áreas consideradas de alto valor imobiliário. Durante os jogos, seis favelas serão ocupadas pelo exército e eventuais detidos por soldados serão submetidos a tribunais militares, sem acesso a um julgamento civil, como o restante da população.
Além da falta de transparência sobre projetos de mobilidade urbana, áreas de construção e despesas públicas, o Rio decretou nesse mês estado de calamidade pública pela impossibilidade de honrar com os compromissos assumidos para os Jogos Olímpicos. Tal decreto exigiu a transferência emergencial de R$ 2,9 bilhões do Governo Federal, recurso que poderia ser utilizado para serviços básicos.
Os Jogos também vão deixar um legado de restrições a liberdades civis, sobretudo após a aprovação da Lei Antiterrorismo, que abre brechas para criminalizar movimentos sociais e defensores de direitos humanos.
“Infelizmente, o prometido legado dos Jogos Olímpicos se tornou um fardo pesado. Teremos novos estádios, mas ao custo da falência das contas públicas e de violações sistemáticas de direitos básico, como moradia, saúde e educação. Infelizmente, os Jogos Olímpicos se tornaram os Jogos da Exclusão”, destacaram as entidades no pronunciamento.

FONTE: http://www.conectas.org/pt/acoes/politica-externa/noticia/45746-jogos-da-exclusao

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Olimpíadas Inclusivas 2016


Consulta pública para a Política Municipal para Pessoa com Deficiência de SP

É super mega importante que todos e todas participem ativamente!!!!!

http://saopauloaberta.prefeitura.sp.gov.br/index.php/minuta/minuta-de-decreto-que-regulamenta-a-aplicacao-da-lei-brasileira-de-inclusao-em-ambito-municipal/

terça-feira, 19 de julho de 2016

Lei de cotas está ameaçada

Dr. José Carlos do Carmo, mais conhecido como Dr. Kal, é Auditor Fiscal do Trabalho da SRTE/SP (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo) e coordenador do Programa de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Quando o assunto é cumprimento da Lei de Cotas, seu nome aparece como uma das principais referências, não apenas pelo fato de ser o responsável pela fiscalização junto às empresas de São Paulo, mas também por ser um ferrenho defensor da inclusão e da política de cotas.
Na entrevista abaixo, realizada por Jaques Haber, sócio-diretor da i.Social, Dr. Kal destaca a importância da Lei de Cotas e afirma que os auditores fiscais estão cada vez mais preocupados com a qualidade das contratações. “A principal barreira que nós enfrentamos é a do preconceito; a barreira atitudinal”, afirma.
Leia abaixo:
1 – Nos explique como funciona o procedimento de fiscalização, passo a passo, até a empresa cumprir a Cota ou ser autuada.
Dr. Kal: A dinâmica da fiscalização inicia-se com a identificação das empresas. Em nosso caso, na SRTE/SP, daquelas que possuem matrizes no estado de São Paulo. As empresas que têm 100 ou mais funcionários (somando-se a matriz mais suas filiais) estão sujeitas ao cumprimento das cotas de funcionários com deficiência e, consequentemente, à fiscalização.
A primeira etapa da fiscalização é o que chamamos de fiscalização indireta, ou seja, é quando convocamos a empresa para comparecimento na SRTE/SP para demonstrar as informações referentes aos seus funcionários com deficiência. No caso da empresa não estar cumprindo o número de funcionários com deficiência de acordo com sua cota, emitimos uma notificação para que se cumpra a cota em até 90 dias.
Durante este período a empresa deve retornar a SRTE/SP para prestar contas sobre a evolução das contratações que estão sendo realizadas. No caso dela não cumprir sua cota durante este período, executamos a lavratura do auto de infração, ou seja, multamos a empresa. Importante salientar que a multa não é o objetivo da fiscalização, mas apenas a ferramenta que temos para pressioná-la a incluir pessoas com deficiência em seu quadro de funcionários.
Em determinados casos, quando enxergamos boa vontade da empresa em cumprir sua cota, mas percebemos que, mesmo com ações afirmativas, ela encontra sérias dificuldades para contratar, podemos abrir uma mesa de entendimento tripartite, ou seja, envolvendo a empresa, o sindicato dos funcionários e o sindicato patronal para a assinatura de um termo de compromisso com prazo maior para cumprimento da cota e com etapas bem definidas para a realização de ações de inclusão e metas de contratação. Durante este período, a qualidade da inclusão é fiscalizada.
2 – Quais são os principais desafios enfrentados na fiscalização da Lei de Cotas? Cito, por exemplo, uma decisão recente de um colegiado do TST isentando uma empresa do pagamento de multa, com base no argumento de que a empresa procurou de todas as formas contratar pessoas com deficiência, mas que não encontrou candidatos. Qual é a sua opinião sobre isso e o que essa decisão do TST acarreta para a Lei de Cotas?
Dr. Kal: Sim, talvez nosso desafio da fiscalização seja fazer a Lei ser cumprida e fazer com que esse cumprimento não se limite a simples contratação, mas que inclua também a oferta de condições de trabalho que sejam adequadas para as características do trabalhador com deficiência, assim como qualquer posto de trabalho deveria ser adaptado às características de qualquer colaborador.
Agora, sem dúvida, um dos principais argumentos que nós ouvimos das empresas para tentar justificar, ou não, o cumprimento da Cota é: procuramos e não encontramos. E algumas questões, de tanto serem repetidas, acabam sendo assumidas como verdadeiras; entretanto, se buscarmos um olhar científico baseados nos dados e na realidade, vamos verificar que, ao olhar os dados do IBGE, essa informação não procede.
Nós temos, segundo o IBGE, 23,9% da população brasileira com algum tipo de deficiência. Sabemos que, em quase 1/3 ou 1/4 desse percentual, estão incluídas as deficiências ditas leves, que não seriam suficientes para caracterizar a elegibilidade da pessoa para a Cota. Sabemos, também, que devemos fazer uma redução, tirando as pessoas que não estão em idade de trabalhar, mas ainda assim nós temos um contingente de pessoas que é muitíssimo superior ao potencial de vagas previstas pela Cota.
Então o argumento de que não existem pessoas não procede. O próprio IBGE mostra que, dentre as pessoas com deficiência, o percentual daquelas que estão trabalhando é bem maior do que aquelas que trabalham com registro em carteira, o que demonstra inclusive que muitas PCDs estão submetidas a condições ilegais de contratação no trabalho.

O percentual das pessoas com deficiência que estão trabalhando é bem maior do que aquelas que trabalham com registro em carteira, o que demonstra que muitas PCDs estão submetidas a condições ilegais de contratação no trabalho.

Respeitamos, no entanto, quando a empresa nos coloca essa informação. E o que a gente busca discutir é: o problema não está na inexistência de pessoas com deficiência em condições de trabalhar, mas sim em outros fatores. Dentre esses outros fatores, eu citaria uma visão preconceituosa. Aliás, acho que a principal barreira que nós enfrentamos é a do preconceito. A barreira atitudinal. E as empresas que não investiram minimamente na melhoria das condições de acessibilidade, não fizeram uma revisão profunda dos seus valores – inclusive no que se refere à aptidão das pessoas para o trabalho, continuarão tendo dificuldades para cumprir a Lei de Cotas e, muitas vezes, até de maneira sincera. Vão achar que essa dificuldade decorre da inexistência dessas pessoas, quando isso não é verdadeiro.
Em relação ao judiciário, não é a primeira vez que nós temos decisões que, em minha opinião, contrariam inclusive a Constituição Federal. Lembrando que a Convenção Internacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que foi aprovada e promulgada no nosso país, possui status de emenda constitucional. E lá deixa bem claro que essas atitudes discriminatórias não devem ser aceitas.
Nós temos buscado ter uma aproximação maior com o poder judiciário, temos juízes e desembargadores bastante preocupados em utilizar os princípios da Convenção, bem como da recentemente aprovada Lei Brasileira de Inclusão, mas acho que ainda é um processo que exige das pessoas melhorarem a realidade da inclusão da pessoa com deficiência na sociedade – e em particular no trabalho, algo que se deve passar, inclusive, pela cabeça dos membros do judiciário. Nós continuamos a fiscalizar, isso não nos impede. Essas decisões não nos impedem de continuar fiscalizando.
3 – O eSocial (sistema que unifica o envio dos dados das empresas sobre seus trabalhadores para o governo federal) facilitará a fiscalização do Ministério do Trabalho em relação ao cumprimento da Lei de Cotas? De que forma?
Dr. Kal: Acredito que sim. O eSocial é um grande banco de dados que está sendo feito com a participação de diferentes entes do Governo Federal. A coordenação é da Receita Federal, o que significa que ela será tratada com bastante seriedade, porque tudo o que implica em arrecadação é tratada de forma diferenciada ou privilegiada. Nós temos aí um grande banco de dados em que a sonegação de informações será mais difícil. Sobre todos os aspectos, acredito na questão do cumprimento da Lei de Cotas.
O eSocial está em fase de implantação e dependerá de uma série de ajustes – inclusive, eventualmente, na própria legislação que regulamenta hoje esse processo de autuação. O que eu posso dizer é que nós do Ministério do Trabalho, independentemente do eSocial que poderá nos auxiliar, já estamos trabalhando na perspectiva de virmos a desenvolver mecanismos de fiscalização via internet.
Nós já sabemos, com base nos dados da RAIS e do CAGED, quais são as empresas que cumprem e quais são as empresas que não cumprem a Lei de Cotas. E a ideia é que não tenhamos que, necessariamente, convocar essas empresas a comparecer no Ministério, mas que possamos à distância, via internet, fazer a notificação, conceder prazos e, eventualmente (se esses prazos não forem respeitados), autuar a empresa.

Na segunda parte da entrevista, Dr. Kal comenta sobre a importância da Lei de Cotas para a contratação de pessoas com deficiência e o papel da Lei Brasileira de Inclusão para o desenvolvimento desses profissionais. Acompanhe:
1 – Qual é o papel da Lei de Cotas na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?
Dr. Kal: O papel é da mais alta importância. Estou sinceramente convencido de que se não fosse pela Lei de Cotas, certamente nós não teríamos avançado o tanto que avançamos. Aliás, nós sempre destacamos o cumprimento da Lei de Cotas, sem deixar de reconhecer que se trata de uma questão complexa, principalmente quando a gente pensa que não basta contratar – há de se ter qualidade nesse processo de inclusão. Mas a gente sempre lembra de que estamos falando de responsabilidade legal. As empresas tem que cumprir a reserva legal de vagas para pessoas com deficiência, assim como são obrigadas a cumprir outras tantas questões legais.

Nós sempre destacamos o cumprimento da Lei de Cotas, sem deixar de reconhecer que se trata de uma questão complexa, principalmente quando a gente pensa que não basta contratar – há de se ter qualidade nesse processo de inclusão.

2 – De que forma a Lei Brasileira de Inclusão contribui para inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho? Por exemplo, o novo conceito sobre o que é deficiência, sob o prisma da CIF (Classificação Internacional de Funcionalidade), ao invés da CID (Classificação Internacional de Doença) contribui para ampliar as possibilidades de inclusão?
Dr. Kal: A questão da classificação de funcionalidade nós já vínhamos buscando utilizá-la porque ela já está colocada para nós desde que a Convenção da ONU passou a vigorar como emenda constitucional em nosso país. Do ponto de vista prático, ainda utilizamos pouco porque estamos desenvolvendo ferramentas e buscando entendimento de como se utilizar paradigmas propostos pela Convenção – e agora pela Lei Brasileira de Inclusão. Acredito que, sobretudo, essa questão da classificação vai tornar o processo mais justo. Nós conseguiremos, de fato, mais justiça na definição de quem deve e quem tem direito (ou não) a ser incluído na Lei de Cotas.
Agora há outras questões e outros artigos da Lei Brasileira de Inclusão que eu considero que contribuirão para o avanço do processo de cumprimento da Lei de Cotas. Sem ter uma visão persecutória, mas, dentre outros artigos, tem um que diz que as empresas e as pessoas que agirem de forma discriminatória em relação às pessoas com deficiência estão passíveis de serem condenados de um a três anos de prisão. Portanto, objetivamente, alguém que se recusar a contratar um profissional só porque ele tem uma deficiência estará sujeito a ser preso. Isto é um avanço memorável e, certamente, contribuirá para diminuição do preconceito.
3 – Pesquisa recente realizada pela i.Social junto a profissionais de RH apontou que 90% das empresas contratam pessoas com deficiência motivadas pela Lei de Cotas, o que demonstra a importância da cota para a contratação de pessoas com deficiência. Por outro lado, temos visto sucessivas tentativas de boicote corporativo e legislativo contra essa legislação. A Lei de Cotas está ameaçada?
Dr. Kal: Primeiro eu reafirmo que a Lei de Cotas é das ferramentas mais importantes no processo de inclusão. Vocês não imaginam a quantidade de tentativas que houve junto ao Congresso Nacional paraacabar com a Lei de Cotas (e que continuam acontecendo). A maioria delas não diz algo como “vamos acabar com a Lei de Cotas”, mas busca subterfúgios que, no fundo, tirariam a responsabilidade dessas empresas em contratar pessoas com deficiência.
Isso tem acontecido e é importante que a gente esteja atento. Felizmente, até agora nenhuma dessas tentativas foi bem sucedida. A gente se mantém firme e forte, e isso é fundamental. Com isso, eu me lembro da história do cinto de segurança: o uso do cinto começou a ser obrigatório há alguns anos e quem não o utiliza está sujeito a multa. Em minha opinião, a multa foi fundamental para que as pessoas passassem a usá-lo. Hoje em dia, nós colocamos o cinto de segurança porque entendemos que ele é fundamental para nossa própria segurança. No começo não foi assim, isso foi incorporado. Eu tenho esperança de que, na medida em que as empresas forem contratando as pessoas, habituando a sua convivência, elas perceberão que isso é bom para todos.

A maioria delas não diz algo como “vamos acabar com a Lei de Cotas”, mas busca subterfúgios que, no fundo, tirariam a responsabilidade dessas empresas em contratar pessoas com deficiência.

Como já foi dito aqui no início e, sem nenhuma visão romântica a respeito das pessoas com deficiência (pois temos profissionais de todos os perfis – entre eles, bons e ruins), eu percebo e entendo que a presença da pessoa com deficiência no ambiente de trabalho é um fator de estímulo aos demais colegas em termos de melhorar a sua produtividade. Sobretudo porque contribui para humanizar o ambiente de trabalho.
Ao longo dos últimos tempos, principalmente com essa questão do neoidealismo, foi se perdendo o que os livros de história chamam de “solidariedade operária” na relação entre os trabalhadores. E a presença da pessoa com deficiência mostra que essa solidariedade, esse humanismo nas relações, tem sido recuperada de acordo com diversos relatos que temos escutado das empresas que contratam. Se hoje as empresas cumprem a cota por medo de serem multadas, espero que, no futuro, elas percebam os benefícios de contratar pessoas com deficiência.
Dr. José Carlos do Carmo, mais conhecido como Dr. Kal, é Auditor Fiscal do Trabalho da SRTE/SP (Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de São Paulo) e coordenador do Programa de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

FONTES:

http://blog.isocial.com.br/fiscalizacao-e-cumprimento-da-lei-de-cotas-entrevista-com-dr-kal-srtesp/

http://blog.isocial.com.br/a-lei-de-cotas-esta-ameacada-entrevista-com-dr-kal-srtesp-parte-2/