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sábado, 6 de abril de 2019

Escritoras com deficiência - Trancadas do lado de dentro!


Por Leandra Migotto Certeza*


Legenda da foto: eu junto com as mulheres da Coletiva Mamoeira durante o encontro do projeto VAI. 


Quem sou?
Mistério doce
Forma diferente por ser igual
Humana,
Calma,
Intensa,
Densa,
Ardente
Exatamente como deve ser
Se um dia aparecerei?
Não sei...
Sigo o destino de não saber se existe destino
Vivo cada minuto como se fosse o último porque ele é
Carrego comigo todas as dores e delícias de ser mulher
Imperfeita / perfeita
Por simplesmente ser
Sem medo de existir

Certo dia, eu tive a felicidade de ouvir, que quando fazemos alguma coisa é porque simplesmente precisamos fazer. O ato de compor uma música, pintar um quadro, tocar um instrumento, esculpir uma peça, escrever um poema ou um singelo texto, assim como outras inúmeras ações podem ser considerados ‘divinos dons artísticos’ ou não. Porém, a beleza está em se fazer por fazer. Pelo simples fato de exprimir uma necessidade interior que transcende a qualquer norma, conceito ou objetivo pré estabelecido.

Por isso eu escrevo! Escrevo pela paz que sinto ao colocar no papel todos os sentimentos e experiências vividas até agora. Sem se ‘pré ocupar’ com o que as pessoas irão pensar; com o que realmente se tornará um dia o meu caderno, e com o que o meu espírito tanto sonhara. Mas será que serei lida? 

A escritora Virginia Woolf brilhantemente descreveu a saga das mulheres do século XVI, não apenas para existir e sobreviver, mas principalmente para viver e se sentir realizada, como ser humano, e não propriedade e/ou ‘saco de pancada’, literalmente. Eu constato que, infelizmente, pouca coisa ou quase nada mudou desde aquela época até hoje.

Atualmente, eu ainda luto para sobreviver em uma sociedade que valoriza a força física como a principal e mais rentável forma de trabalhar; e consequentemente descarta a maioria daquelas mulheres que possuem alguma deficiência, como eu. Não tenho um “Teto Todo Meu”, mas resisto e busco a cada novo amanhecer, uma luz para continuar seguindo o que sinto ânsia em fazer: ESCREVER minhas histórias...

Histórias
Tenho que contá-las
Vim pela palavra e para ela servirei
As palavras são meu ar
Tomei coragem de encontrar a minha alma refletida...
Nas palavras, nas histórias, nas pessoas...
Como conseguiremos viver em dois mundos?

Mas em que mundo eu vivo? Totalmente excludente ainda! Não sou apenas eu quem afirmo isso, mas Kenny Fries, autor americano premiado com uma bolsa de estudos Arts and Literary Arts do Rockefeller Foundation Bellagio em 2019. As autoras com deficiência, Adrienne Rich e Lucy Grealy, fazem parte do livro: Staring Back: The Disability Experience de Inside Out (Olhando para trás: a experiência de deficiência de dentro para fora), editado por Kenny e publicado pela Plume. É a primeira antologia multi-gênero de escritores e escritoras com deficiência do Planeta!

Escritoras brasileiras com deficiência. Você sabe que existem?

No Brasil eu arrisco a dizer que a situação de abandono entre as escritoras com deficiência ainda é bem pior! Vejamos… Quem de vocês conhece a escritora com deficiência visual Bartyra Soares que tomou posse na Academia Pernambucana de Letras em 2015? O primeiro livro de Bartyra, “Enigma” foi publicado em 1976, seguido por “Sombras consolidadas”, em 1980. A autora publicou, posteriormente, outras nove obras. Bartyra também tem poemas publicados em diversas antologias, revistas e jornais. Como contista e poeta, já recebeu quinze prêmios literários!

Creio que vocês também não saibam que outra autora com deficiência visual, Lídia Maria Cardia lançou seu primeiro livro de poesias: “Apenas Um Minuto”, durante a abertura da 36ª Semana Literária & Feira do Livro do SESC SP em 2017? Sobre seu livro, ela diz que os poemas são baseados em personagens comuns à nossa sociedade: “nem todos os personagens sou eu, muitas vezes eu narro histórias sobre as mulheres, o que elas vivem, o que passam, os mendigos, as crianças, mãe solteira, os namorados”. E seu processo criativo não espera hora nem lugar: “escrevo no ônibus rascunhando, nas madrugadas, se eu acordo com aquela intenção, levanto escrevendo e vejo o sol nascer”.

Outra importante jornalista que escreveu um livro e fez história, foi a saudosa Ana Beatriz Pierre Paiva. Junto com outros seis jovens com deficiência intelectual, publicou em 2011 a obra: “Mude o Seu Falar Que Eu Mudo Meu Ouvir”? Foi o primeiro livro sobre acessibilidade atitudinal escrito por jovens com deficiência intelectual no Brasil. Um grande marco lançado na sede da ONU - Organização das Nações Unidas, em Nova York, em versões em inglês e português.

Já a escritora e poetisa surda Emiliana Faria Rosa, doutora em linguística, mestra em educação e professora de Língua Brasileira de Sinais na UFRGS - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, também contou sobre a experiência de escrever o seu livro de poesias "Borboletas Poéticas", em 2018 no Programa Especial da TV Brasil. Ela ficou surda aos onze anos, e assim se define: “sobre ser surda? Sim, sou surda. Bilíngue, ou seja, tenho duas línguas: a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e o português. Sortuda, eu… Duas línguas para ser, viver, criar. O Português é a minha língua de escrita; a libras é minha língua de liberdade. E borboletas? Também. Eu aprendi a gostar quando percebi que sou, somos borboletas…” O livro de Emiliana apresenta três fases, que segundo a autora refletem o amadurecimento e florescimento poético; e cada pétala do casulo cai junto a uma nova fase de um novo poema.

E quem de vocês também sabe que a Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga (DF), lançou a primeira Academia Inclusiva de Autores Brasilienses? Ela foi fundada com o intuito de promover a obra literária de pessoas com deficiência visual no Brasil e no mundo. E as autoras lançaram em 2010 a obra: “Revelando Autores em Braille”, que traz um compilado de histórias e poemas escritos de forma inclusiva.

Kátia Iuriko Ito e Luciana Scotti (escritoras com deficiência física), Joana Belarmino (escritora com cegueira) são outras renomadas escritoras brasileiras que provavelmente você não sabia que existiam! Por qual motivo? Por que as mulheres com deficiência ainda são invisíveis aos olhos da sociedade, e as escritoras mais ainda!

Dentro dos próprios cursos, grupos ou clubes de escrita, elas são excluídas, por não conseguirem ter acesso aos locais das reuniões, (que em sua maioria possuem escadas), não têm intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (para pessoas com surdez e/ou com deficiência auditiva), ou escritos e impressos em Braille ou com  áudio-descrição (para pessoas com cegueira e/ou deficiência visual), por exemplo, entre outros recursos de acessibilidade comunicacional e atitudinal.

Quando eu conheci o Clube de Escrita para Mulheres na internet, encontrei uma oportunidade de compartilhar meus tesouros literários com outras escritoras. E por isso, me inscrevi no edital da Coletiva Mamoreira, uma rede formada por um grupo de mulheres que se uniram com o objetivo de valorizar, promover e intermediar a literatura criada por escritoras por meio da preparação, da revisão e da elaboração de projetos gráficos.

Porém, eu fui a única escritora com deficiência física em uma seleção de mais de 15 autoras. Sendo que nenhuma escritora com deficiência visual, auditiva, intelectual ou múltipla sequer se inscreveu. Sinal de que existe um grande caminho a ser percorrido para conectar o mercado editorial, as editoras independentes com as autoras com e sem deficiência e suas produções literárias.


Um caminho para as escritoras com deficiência serem ouvidas!



Oficinas de Escrita Inclusivas podem ser um caminho interessante para promover cada vez mais a aproximação das escritoras, os centros culturais e as editoras. Falar sobre nossas Memórias de forma livre foi o que um grupo de pessoas com e sem deficiência fizeram dia 13 de abril no Centro de Cultura do Butantã em SP.  

Naquela manhã foi possível exercitar o LUGAR DE FALA e compartilhar lembranças, seja por meio de textos escritos ou contados em Língua Portuguesa ou Língua Brasileira de Sinais. A atividade mediada por mim aconteceu através de dinâmicas de sensações, onde quem participou teve vendas nos olhos para sentir objetos e frutas; além de ouvir músicas e ver imagens.    

O objetivo da atividade inclusiva foi desenvolver a criatividade e alguns dos potenciais de relatos verbais, pictórios e/ou escritos dos participantes da oficina por meio de leituras de textos curtos como exemplo para demonstrar certos aspectos das técnicas de “Cena” e “Memórias”, existentes nas Narrativas Biográficas do gênero do Jornalismo Literário. A oficina terá intérprete de LIBRAS.




Descrição da imagem: eu estou sentada em minha cadeira de rodas na frente de uma mesa com livros e um telão onde está escrito: Histórias de Vida - Narrativas Autobiográficas - Textos de Memórias. Atrás de mim está o intérprete de LIBRAS. Estamos em uma sala com janelas ao fundo e paredes branca.  



Um novo olhar da sociedade sobre as escritoras com deficiência.

Para Graziela C. Drago, (a Zeligara), escritora e revisora de textos da Coletiva Mamoeira: “são muitos os fatores que dificultam a participação das pessoas com deficiência nos espaços culturais, dificuldades causadas principalmente pelo descaso com a sua condição específica e a falta de acesso físico e comunicacional. E nos casos de deficiência intelectual, embora a estrutura física não seja tão impeditiva, falta formação especializada para o trabalho comunicativo e afetivo necessário”.

A escritora comentou que antes de me conhecer não havia tido contato com escritoras com deficiência. Para ela ter trabalhado comigo foi essencial para que tivesse mais interesse para esta questão, valorizando as produções em LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais. Como por exemplo, da escritora que conheceu durante o projeto da Coletiva Mamoeira, a poeta Gabriela Grigolom Silva, surda que compõe poemas em LIBRAS e em Língua Portuguesa.

“Assim como o lugar das mulheres na literatura seja importante em razão do padrão estabelecido ser o masculino, também para as pessoas com deficiência é importante a sua expressão, uma vez que a expressão padrão é a de pessoas sem deficiência. Por isso, apresentar outra perspectiva, histórica ou pessoal, sobre a condição de um outro olhar na sociedade, um outro olhar sobre a poesia do mundo, é completamente fértil, tanto para a pluralidade literária quanto para a identidade do grupo identificado”, comentou Zeligara.

Já para Raphaela da Costa Crispim, educadora que faz parte da Coletiva Mamoeira: “as escritoras com deficiência quase não aparecem pela falta de inclusão nos espaços. Elas precisam se sentir convidadas a frequentar os espaços, isso é feito com um trabalho contínuo de investimento em inclusão. Por isso, é importante que sempre tenha acessibilidade, para que o público de pessoas com deficiência aumente e  exerçam seus direitos de cidadãos, de acesso à cultura, arte e educação. O lugar de fala destas escritoras é de extrema importância, para garantir legitimidade e propriedade aos discursos. E também para entendermos as peculiaridades da produção de uma escritora com deficiência.

Camila Honorato de Barros é jornalista, educadora, escritora, e foi selecionada pelo projeto da Coletiva Mamoeira. Ela com  comentou que ter me conhecido despertou a sua responsabilidade de, enquanto escritora que apoia outras mulheres, também pesquisar mais sobre o assunto e procurar formas de dar visibilidade às suas colegas escritoras com deficiência. “Já que o mercado editorial não impulsiona, temos que nos amparar. É nossa responsabilidade procurar formas de proporcionar recursos acessíveis para que todos tenham acesso. Eu visito muito o Itaú Cultural, o Museu da Imagem e do Som e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Em todos eles, vi muita estrutura para acolher pessoas com deficiência, inclusive com atividades específicas em braile e conteúdos com áudio descrição, bem como experiências sensoriais e intérpretes em vídeos explicativos sobre exposições”.  

Para Camila a importância do lugar de fala para as escritoras com deficiência é sobrevivência, resistência, acolhimento e um meio importantíssimo de se ter voz. A literatura é um ambiente e tanto pro grito de: “estou aqui, existo, você também pode olhar pra mim”. 

Eu, Leandra Migotto Certeza que escrevo desde os 9 anos de idade, sinto na pele a urgente necessidade de um LUGAR DE FALA DAS ESCRITORAS COM DEFICIÊNCIA. Pois, ainda hoje com 42 anos eu não conquistei um espaço no mundo literário. Acredito que seja porque as barreiras são muitas e precisam ser derrubadas imediatamente!

Para que isso aconteça é preciso que os portais e as redes sociais tenham recursos de acessibilidade virtual, como textos compatíveis com os sintetizadores de voz e descrição de todo o conteúdo publicado para que pessoas com cegueira, consigam ler. Além disso, também é necessário que os vídeos sejam publicados com legendas e janelas de Língua Brasileira de Sinais para que pessoas com surdez compreendam.

Junto com estes recursos, os espaços onde acontecem os encontros e eventos culturais e literários precisam ser totalmente acessíveis para pessoas que andam em cadeira de rodas ou tenham qualquer deficiência física e/ou mobilidade reduzida.

E para que isso ocorra todas as pessoas responsáveis por organizar estes encontros devem ter como premissa o conceito de Desenho Universal, e não apenas pensem no assunto quando uma escritora com deficiência se inscreve. Afinal, a verdadeira inclusão só acontece quando todas e todos conseguem ter acesso às informações, e aos locais com autonomia, segurança e conforto.  

É necessário também permitir que as ESCRITORAS BRASILEIRAS COM DEFICIÊNCIA produzam, publiquem e sejam divulgadas! Só assim, elas não se sentirão mais TRANCADAS DO LADO DE DENTRO!  



Escritoras com deficiência, livros e movimentos:

Obras de Bartyra Soares:
Obras de Lídia Maria Cardia:
Emiliana Faria Rosa:
Slam Resistência Surda:
Livro: “Olhando para trás: a experiência de deficiência de dentro para fora”:
https://www.amazon.com/Staring-Back-Disability-Experience-Inside/



Escritoras sem deficiência:

Blog da escritora Zeligara - https://exscretos.blogspot.com/
Blog da escritora Camila - http://meninadaestrada.com.br
Clube de Escrita para Mulheres - http://clubedaescrita.com.br/



*Leandra Migotto Certeza é jornalista (MTb 40546), consultora e palestrante em Inclusão e Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência desde 1998. É escritora, poeta e faz cursos de Jornalismo Literário e Escrita Criativa. Criadora da Coleção Janelas do Selo Caleidoscópio – Biografias e Autobiografias de Mulheres com Deficiência.  






quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que mudou com a nova Norma de Acessibilidade?

quinta-feira, outubro 1, 2015
Ilustração de carta simbolizando o e-mail. Envie por e-mail | Aumentar a fonte do texto. Diminuir a fonte do texto. | Por Equipe Inclusive
novo símbolo cadeira de rodas (mais ativo).
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS (ABNT) NORMA BRASILEIRA DE ACESSIBILIDADE – 2015
NBR 9050/2004 x NBR 9050/2015.

O que mudou?
Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos: de 2004 a 2015

Por Regina Cohen*

Depois de muita ansiedade dos profissionais que se dedicam ao estudo da acessibilidade, especialistas ou não, das associações de Pessoas com Deficiência, de Núcleos e Laboratórios nas Universidades e da militância de muitos que tem dedicado grande parte de seu tempo ou de sua vida pela “acessibilidade para todos”, a nova NBR 9050 finalmente saiu e foi publicada pela ABNT no mês de setembro deste ano de 2015.

Parabenizo o Comitê Brasileiro Organizador (ABNT/CB-040) pela perseverança e por sua composição com pessoas engajadas no assunto e cientes da urgência de se construir um documento que atenda à realidade brasileira. Nosso desafio a partir de agora, com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, com a Lei Brasileira de Inclusão e com esta norma, é inevitavelmente ir mais adiante, fazendo cumprir as mais avançadas leis, decretos, convenções e normas, construindo um Brasil mais Acessível, no seu sentido pleno. Tenho algumas dúvidas fundamentais:

1. Por que, apesar de todo o avanço na legislação sobre acessibilidade, o Brasil ainda nãopossui, verdadeiramente, “cidades universais”?

2. Onde estamos errando?
Gosto de pensar como Jaime Lerner quando coloca a questão de certas cidades conseguirem fazer transformações positivas e também pensar como este arquiteto brasileiro quando diz que em todas as cidades inovadoras e de vanguarda se iniciou um começo, um despertar. É o que faz uma cidade reagir (Jaime Lerner. Acupuntura Urbana. 2005: 7,8).

Nos anexos da nova norma brasileira de acessibilidade, está o conceito de desenho universal e seus princípios e a consideração de fatores relevantes de projeto, como o detalhamento de barras de apoio, e o sanitário para uso da pessoa ostomizada. O novo texto evoluiu muito no sentido de ser mais explicativo e de detalhar um pouco mais a informação, o uso da sinalização tátil e visual no piso, a inclusão da Língua Brasileira de Sinais, dentre outros fatores que abandonam uma abordagem cartesiana de só enfatizar a acessibilidade arquitetônica e urbanística.

Fico feliz com o fato de o conceito do desenho universal fazer parte de forma mais ampla na norma brasileira, levando em consideração uma arquitetura e um design mais inclusivos e“centrados no ser humano e na sua diversidade” (NBR 9050/2015, p.139). Os princípios do desenho universal, discutidos e debatidos há alguns anos atrás por profissionais em diversas universidades americanas e também por especialistas na área foram incorporados no primeiro anexo da norma, sendo um conceito tão importante adotado no mundo todo para atender a todos os cidadãos da urbe.
Creio que se tentou contemplar “as diversas condições de mobilidade e percepção do ambiente”.

Já na própria definição de acessibilidade, antes tão sucinta, acrescenta-se a possibilidade de utilização de “transportes, informação e comunicação, incluindo sistemas e tecnologias, na zona urbana ou rural” (isto não existia na NBR de 2004). Dentre tantos outros conceitos incluídos, também está o de barreira, calçada, calçada rebaixada e muito mais. Todos são fatores essenciais do Plano de Mobilidade Urbana de qualquer cidade.

Para a cadeira de rodas, foi mantido o mesmo módulo de referência de 0,80m x 1,20m, apesar da grande quantidade das motorizadas e das scooters, com dimensões bem maiores. Penso que, nos tempos atuais, estas medidas poderiam ser revistas.
Na parte de circulação e manobra em calçadas, por exemplo, a nova norma incorpora a existência de mobiliários em rotas acessíveis, como eles devem ser planejados de forma a não constituírem- se em barreiras para Pessoas com Deficiência Visual. No que diz respeito a certos itens arquitetônicos: puxadores e maçanetas, por exemplo, há um maior nível de detalhamento. Soma-se a estes a inclusão de controles, comandos, travamento de portas, etc.

Seguindo minha ordem de leitura, foram acrescidos ao novo texto questões de linguagem, contraste e sinais sonoros.
Acrescenta-se ainda que foram introduzidos novos símbolos e desenhos de pessoas obesas, idosas, mulheres grávidas ou com bebê no colo, pessoas cegas com cão guia e pessoas com mobilidade reduzida. A questão da sinalização tátil em corrimãos, pavimento, elevadores, plataformas elevatórias e degraus de escadas foi mantida.
Existe um maior detalhamento de sinalização sonora e a inclusão de sinalização para áreas de resgate para pessoa com deficiência. As rotas de fuga não são esquecidas, mas creio que deveria haver espaço para mais de uma pessoa em cadeira de rodas, como tenho visto em outros países.

Os desenhos aqui são bem mais explicativos.
No caso das rampas, confesso que me surpreendi com a manutenção dos 8,33% como limite. No rebaixamento de calçadas para a colocação de rampas, considerando que é muito acentuada e muitos lugares já avançaram para o limite de 6%. Não concordo que estas rampas sejam feitas em curva e, ainda por cima, com inclinação de 8,33%. A maioria dos países que tenho ido faz o rebaixamento em toda a curva. Gosto muito também das faixas elevadas (trafic calming).

croquis da rampa.
croquis da rampa.

Vagas para Veículos – Sinalização e Tipos de Vagas

Croquis da vaga.

O texto está mais claro, mas a retirada dos desenhos é ruim.
Bom, ainda terei que me debruçar muito na nova norma, mas deixo aqui uma linda mensagem de Calvino:

“Não tem nome nem lugar. Repito a razão pela qual quis descrevê-la: das inúmeras cidades imagináveis, devem-se excluir aquelas em que os elementos se juntam sem um fio condutor, sem um código interno, uma perspectiva, um discurso. É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, o medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa”.
Italo Calvino. As Cidades Invisíveis. 1993: 44.

* Regina Cohen
Arquiteta, DSc.
Professora Visitante na Universidade de Syracuse, NY, EUA, 2014 (FULBRIGHT/CAPES).
Pós-doutora em Arquitetura (bolsista FAPERJ – PROARQ/FAU/UFRJ). Coordenadora do Núcleo Pró-Acesso da UFRJ.
Bolsista do CNPq com o projeto “Guia de Acessibilidade Plena na Cidade do Rio de Janeiro”.
Bolsista do CNPq com o projeto “Acessibilidade na Copa 2014”.
Participação, como consultora, na Equipe de elaboração do Manual de Acessibilidade para o
Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.
Consultora em Acessibilidade do Comitê Nacional Organizador da Conferência RIO+20.
Tem experiência em acessibilidade, desenho universal, inclusão, museus, espaços urbanos, universidade e deficiência.
Recebeu prêmio internacional da Associação Européia pelo Ensino de Arquitetura pela melhor metodologia de ensino em 2004. Diversas moções, trabalhos científicos premiados. e livros publicados no tema da “acessibilidade de pessoas com deficiência”.
Contato: arquitetareginacohen@gmail.com

Conheça a nova NBR 9050 2015 - http://www.inclusive.org.br/?p=28434

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Falta de acessibilidade física em Natal

Falta calçada em Nova Descoberta

GABRIEL TRIGUEIRO - Da equipe do Diário de Natal.

Em muitas vias de Natal, os pedestres sofrem para caminhar em calçadas desniveladas e muito estreitas. Mas na Rua Djalma Maranhão, principal corredor do bairro de Nova Descoberta, a situação é ainda pior. Além de enfrentar barreiras arquitetônicas, a população também tem de dividir espaço com mercadorias expostas no passeio, por comerciantes que não respeitam os limites de suas lojas, e andar na pista em trechos onde carros estacionados e carrinhos de lanche ocupam todo o passeio público.
Cadeirantes dificilmente têm como
fazer uso dos trechos de calçadas. Foto de Joana Lima / DN.
Comecei meu trajeto pela via por volta das 10h, andando em direção ao bairro de Morro Branco, do lado esquerdo da via, no meu ponto de vista, ou seja, no sentido oposto à mão dos carros. Os primeiros dez metros da caminhada não têm pavimentação e estão sujos de esgoto e fezes de cavalo. Vencida essa primeira parte, a subida da ladeira me desafia com batentes que separam as frentes de casa, quando o correto seria haver uma inclinação constante.


Outro problema são as entradas para carros, que formam inclinações perpendiculares nas quais preciso de cuidado redobrado para não escorregar. Esse problema se acentua na calçada de uma loja de brinquedos, com piso bem inclinado e sem rampas de ligação aos trechos vizinhos. Logo em seguida, aparece o primeiro obstáculo não arquitetônico. Um carrinho de lanches bloqueia minha passagem.


Decido andar entre o objeto e o muro de uma casa. Nesse momento, além de me locomover de lado, sou obrigado a subir uma escada e um batente para chegar ao próximo trecho. Sigo caminhando em direção ao cruzamento com a Avenida Amintas Barros e muitas surpresas ainda me aguardam. Após passar por uma esquina na qual as calçadas beiram meio metro de altura, me deparo com um trecho de difícil circulação em frente a um mercadinho.


Nessa parte, a calçada está quase toda tomada por caixas com frutas, garrafões de água mineral e vários outros produtos. Mas o pior é o lixo amontoado e as moscas voando por cima. Ando me espremendo para não bater nos outros pedestres, nos garrafões, nas frutas e, principalmente, nos sacos de lixo. Também tomo cuidado para não cair na rua, já que a calçada é bem alta. Insatisfeito, entro no mercado e pergunto a um vendedor o porquê das mercadorias e do lixo no passeio público. ‘‘A gente deixa as mercadorias aí rapidamente, só enquanto não tem onde espaço para colocar aqui dentro. Mas sempre fica um espaço para o pessoal passar’’, explica.


Sobre o lixo, o homem me diz que os sacos estão ali à espera da coleta diária. O trecho seguinte de calçadas tem desníveis e carros estacionados de um lado da rua, além de placas de propaganda e lixo no passeio oposto. Ao prosseguir com minha caminhada, vejo mais e mais irregularidades. Um pequeno restaurante tem um grande portão que abre para fora e reduz o espaço dos pedetres pela metade. Do outro lado, uma oficina de bicicletas mantém peças do lado de fora. Após percorrer mais alguns metros de batentes, barreiras, rampas, irregulares e desníveis variados, sou obrigado a andar por dentro de um supermercado, já que a calçadas do estabelecimento está completamente tomada por sete carros estacionados transversalmente.


Termino minha caminhada neste sentido indo do supermercado à esquina com a Rua Amintas Barros, trecho em declive que, para variar, tem sequências de calçadas menos inclinadas em relação à rua, o que gera batentes altos, difíceis para descer com segurança. Em seguida, resolvo subir de volta uma parte da rua pela calçada oposta.


Após me espremer entre a pista de rolamento e os andaimes de uma obra, sigo até uma loja de rações e acessórios para animais de estimação. A calçada em frente está preenchida de gaiolas e outros objetos. A exemplo da justificativa dada pelo vendedor do mercadinho, o dono da loja, Elias Silva, explica que não há espaço para as mercadorias na parte interna. ‘‘Quando acaba o expediente, em coloco as coisas aqui dentro e fica lotado’’, explica. ‘‘Mas você pode ver que tem um espaço para as pessoas passarem (o tel espaço tem menos de um metro de largura, quando a legislação municipal determina pelo menos 2,5m de passeio livre). O problema daqui é o trânsito de carros. Nunca vi ninguém reclamando das calçadas’’, afirma.


Não é o que pensa o aposentado Josafá Pereira da Cruz, 84 anos, que mora no bairro há mais de quatro décadas e é dono de um dos raros trechos da Djalma Maranhão que tem calçada larga, plana e desobstruída. ‘‘Aqui, cada um faz as calçadas de um jeito. As pessoas estacionam carros, botam mercadorias, ferragens, carrinhos de lanche e tudo mais. É horrível para andar’’, reclama. Seu filho, o engenheiro civil Ivan Pereira da Cruz, defende que o poder público aja com energia. ‘‘A prefeitura tem autoridade para chegar e tirar essas coisas (referindo-se às barreiras arquitetônicas e aos objetos) e devia tirar mesmo’’, opina.

Descrição da imagem: foto de uma calçada em Natal que tem três degraus e está completamente em desnível.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Falta total de acessibilidade

Considerações sobre a acessibilidade

Rede saci - 17/11/2008

Extraídas do documento do SESC São Paulo "Idosos no Brasil" - Vivências, desafios e expectativas na na 3ª Idade.

Comentário SACI: transcrito e digitado em S.Paulo por Maria Amelia Vampré Xavier, da Rede de Informações Área Deficiências Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de S.Paulo, Fenapaes, Brasília (Diretoria para Assuntos Internacionais), Carpe Diem, SP, Sorri Brasil, SP, Rebrates, SP, Inclusion InterAmericana e Inclusion International em 11 de novembro, 2008.

Como todos sabemos, e particularmente nós, os idosos sabemos, no Brasil é difícil envelhecer especialmente se pertencemos ao largo contingente da população que não é rica e depende de aposentadorias iníquas para sohreviver e não viver. Há muitos aspectos da velhice, ou do envelhecimento, que devem ser estudados e um deles extremamente pertinente é, sem dúvida, a falta de acessibilidade da população mais velha aos equipamentos sociais das cidades.

Neste documento do SESC SP, de maio de 2007, os pesquisadores fazem as seguintes considerações:

4.2 Acessibilidade

· Um terço da população idosa (35%) declarou que encontra dificuldade para andar nas ruas e calçadas das cidades onde vive, sobretudo em função de buracos (23%), mas também pela irregularidade das calçadas(9%), pela existência de degraus (5%) e em função de calçadas estreitas (5%). Em geral, as mulheres sentem mais dificuldade que os homens para transitar nas ruas das cidades onde vivem (40% contra 29%) entre os homens).

· No acesso aos prédios públicos como bancos, shoppings e repartições públicas, 11% afirmam encontrar alguma dificuldade. O excesso de degraus e filas constituem os principais problemas (3%), bem como a falta de prioridade no atendimento aos idosos (2$).

· Com os transportes públicos 21% dos idosos encontram dificuldades, o que corresponde a l/4 da população idosa usuária, uma vez que 19% dos idosos afirmam não usar transporte público.

· A altura dos degraus dos ônibus é a principal dificuldade apontada (8%), mais reclamada entre as mulheres (11%), contra 4% entre os homens e variando de 9% entre os que possuem entre 60 e 69 anos a 16% entre os com 80 anos ou mais.

· Outras dificuldades percebidas são o fato de que os ônibus não pararem para os idosos e o mau atendimento que motoristas e cobradores dedicam aos idosos (5%) cada.

· Praticamente a totalidade dos idosos (94%) sabe que as pessoas a partir de 65 anos têm direito de usar transporte público gratuitamente, no entanto, somente metade deles (46%) faz uso desse beneficio.

Como vemos por estas estimativas, a não acessibilidade é um dos principais fatores para o indivíduo idoso permanecer isolado em sua casa, isso levando com freqüência a casos de depressão por seu afastamento do intercâmbio social que desfrutou durante a vida toda.
Aliás, para nós que militamos na área das deficiências e envelhecemos trabalhando, é bastante claro que a falta de acessibilidade empobrece nosso cotidiano.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Doze preceitos na área das deficiências

Os 12 preceitos foram elaborados pelo educador italo-americano, Leo Buscaglia

Rede Saci - 29/09/2008

Leo Buscaglia, educador ítalo-americano, autor do excelente livro "Os Deficientes e seus pais", elaborou estes 12 preceitos no sentido de percebermos as mudanças de paradigmas em relação às pessoas com deficiência no século XXI:

1. Lembre-se de que as pessoas com deficiência são indivíduos próprios. Elas não pertencem a você, à família, aos médicos, à sociedade.

2. Lembre-se de que cada pessoa com deficiência é diferente das outras e que, independente do rótulo que lhe seja imposto para a conveniência de outras pessoas, ela ainda assim é uma pessoa "única". Não existem 2 crianças com síndrome de Down que sejam iguais, ou dois adultos com deficiência auditiva que respondam ou reajam da mesma forma.

3. Lembre-se de que elas são pessoas antes de tudo e que têm o mesmo direito à auto-realização que quaisquer outras pessoas - no seu ritmo próprio, à sua maneira e por seus próprios meios. Somente elas podem superar suas dificuldades e encontrar a si mesmas.

4. Lembre-se de que as pessoas com deficiência têm a mesma necessidade que você de amar e ser amado, de aprender, partilhar, crescer e experimentar, no mesmo mundo em que você vive. Elas não têm um mundo separado. Existe apenas um mundo.

5. Lembre-se de que as pessoas com deficiência têm o mesmo direito que você de fraquejar, falhar, sofrer, desacreditar, chorar, proferir impropérios, se desesperar. Protegê-las dessas experiências é evitar que vivam.

6. Lembre-se de que somente as pessoas com deficiência podem lhe dizer o que é possível para elas. Nós, que as amamos, devemos ser observadores atentos e sintonizados.

7. Lembre-se que as pessoas com deficiência devem agir por conta própria. Podemos oferecer-lhes alternativas, possibilidades e instrumentos necessários - mas somente elas podem colocá-los em ação. Nós podemos apenas permanecer firmes, e estar presentes para reforçar, encorajar, ter esperanças e ajudar quando possível.

8. Lembre-se que as pessoas com deficiência, assim como nós, estão preparadas para viver como desejarem. Elas também devem decidir se desejam viver em paz, com amor e alegria, como são e com o que têm, ou deixar-se ficar numa apatia lacrimosa, esperando a morte.

9. Lembre-se de que as pessoas com deficiência, independente do grau, têm um potencial ilimitado para se tornar não o que nós queremos que sejam mas o que elas desejam ser.

10. Lembre-se de que as pessoas com deficiência devem encontrar sua própria maneira de fazer as coisas - impor-lhes nossos padrões( ou os da cultura) é irreal e até mesmo destrutivo. Existem muitas maneiras de se amarrar os sapatos, beber em um copo, chegar até o ponto do ônibus.

11. Há muitas formas de se aprender e se adaptar. Elas devem encontrar a forma que melhor se lhes ajuste. Lembre-se de que as pessoas com deficiência também precisam do mundo e das outras pessoas para que possam aprender.
O aprendizado não acontece apenas no ambiente protetor do lar ou em uma sala de aula, como muitas pessoas acreditam. O mundo é uma escola, e todas as pessoas são professores. Não existem experiências insignificantes. Nosso trabalho é agir como seres humanos afetuosos, com curativos emocionais sempre prontos para uma possível queda, mas com novos mapas à mão para novas aventuras.

12. Lembre-se de que todas as pessoas com deficiência têm direito à honestidade em relação a si mesmas, a você e a sua condição. Ser desonesto com elas é o pior serviço que alguém pode lhes prestar. A honestidade constitui a única base sólida sobre a qual qualquer tipo de crescimento pode ocorrer. E, acima de tudo, lembre-se de que elas necessitam do que há de melhor em você.
A fim de que possam ser elas mesmas e que possam crescer, libertar-se, aprender, modificar-se, desenvolver-se e experimentar, você deve ter essas capacidades. Você só pode ensinar aquilo que sabe. Se você é aberto ao crescimento, ao aprendizado, às mudanças, ao desenvolvimento e às novas experiências, permitirá que elas também o sejam

Declaração de Manágua:

"Queremos uma sociedade baseada na igualdade, na justiça, na equiparação e na interdependência, que assegure uma melhor qualidade de vida para todos, sem discriminação de nenhum tipo, que reconheça e aceite a diversidade como fundamento para a convivência social. Uma sociedade onde o primeiro direito seja a condição de pessoa, de todos os seus integrantes, que garanta sua dignidade, seus direitos humanos, sua autodeterminação, sua contribuição à vida comunitária e seu pleno acesso aos bens sociais."

Declaração de Manágua, 3 Dezembro 1993

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Museus Acessíveis

Profissionais trabalham para o acesso à cultura. A especialista em acessibilidade em museus Viviane Panelli Sarraf, lança um pesquisa para conhecer melhor o público com deficiência que visita os museus.
Por Leandra Migotto Certeza*
Portal Sentidos - 18/10/07 - www.sentidos.com.br

Segundo o Iphan - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional existem aproximadamente 2.208 museus no Brasil. São 366 só no Estado de São Paulo. Você costuma visitá-los? Com que freqüência? Por quê? Quais são suas expectativas em relação a eles?
Caso você tenha alguma deficiência visual (dependendo do grau) pode precisar de ajuda para consultar os sites dos veículos de comunicação - que ainda não são acessíveis - e saber as principais atividades dos museus.

Você consegue chegar até os museus e permanecer neles com tranqüilidade? Se você utiliza cadeira de rodas para se locomover, poderá encontrar dificuldades de transporte e barreiras arquitetônicas, externas e internas. Se você quebrou o pé e precisa, temporariamente, de um par de muletas para conseguir andar, encontrará dificuldades para subir degraus e/ou escadas.

Ao visitar um museu, você compreende o que os educadores explicam durante as visitas guiadas? Se você tem alguma deficiência auditiva ou intelectual, poderá encontrar dificuldades para se comunicar, pois os museus estão começando a treinar os monitores para falar a Língua Brasileira de Sinais, e como se relacionar com diferentes formas de pensar.

Você interage durante as atividades propostas pelos educadores? Se você tem surdocegueira encontrará dificuldades, pois os museus estão começando a produzir recursos sensoriais, como maquetes e/ou réplicas de 'obras', por exemplo.

Você encontra sanitários com portas mais largas dentro dos museus? Caso você se locomova com ajuda de um andador, devido à idade; ou vá ao museu acompanhado do seu filho (carregando-o em um carinho), encontrará dificuldades, pois os museus começaram a se tornar acessíveis há pouco tempo.

Viviane Panelli Sarraf, especialista em acessibilidade em museus,explica que até meados do século XX, os europeus ainda estavam muito voltados às suas origens, às elites. O público dos museus, ou seja, as pessoas, só começaram a receber atenção da museologia, após o término da segunda guerra mundial. Museu do Louvre, Museu D'Orsay, Museu do Prado e Tate Gallery, são exemplos de instituições acessíveis.

Já os brasileiros começaram a respeitar a diversidade humana no final do século XX e início do século XXI. Os principais museus que se tornaram acessíveis foram o MAC - Museu de Arte Contemporânea da USP (Universidade de São Paulo); o Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro; a Pinacoteca do Estado de São Paulo, e o Centro de Memória Dorina Nowill, em São Paulo.

Para conhecer o público com deficiência que visita os museus, Viviane lança uma pesquisa.
Programa de Orientação para Museus Acessíveis O Centro de Memória Dorina Nowill foi criado em 2002, na FDNC - Fundação Dorina Nowiill para Cegos, com o objetivo de preservar a história da inclusão da pessoa com deficiência visual no Brasil.

O Centro de Memória também é acessível às pessoas com deficiência física. E desde 2003, vem ampliando sua atuação em prol da inclusão, com a criação do Programa de Orientação para Museus Acessíveis. O programa faz visitas de sensibilização e ministra workshops de formação sobre acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

"Durante as visita, estamos na companhia de pessoas videntes que nos descrevem com detalhes o local, além do que, utilizamos as escadas; rampas (quando existem); sentimos sinais pódo-táteis (quando os mesmos estão lá); verificamos se existem publicações acessíveis (folhetos em braille, catálogos digitais etc) e recursos sensoriais (maquetes, réplicas, etc), além de áreas de descanso, e principalmente, se os monitores foram treinados", explica Antonio Carlos, um dos voluntários do programa.

Coordenados pela especialista em acessibilidade em museus, Viviane Panelli Sarraf, os voluntários do programa (em sua maioria pessoas com deficiência visual) já estiveram no Museu de Zoologia da USP; Museu de Geociências da USP, Museu Lasar Segall; Espaço Cultural do Banco Real; Museu do Instituto Biológico; Museu Biológico; Museu de Microbiologia do Instituto Butantã; Museu da Bíblia; MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo; Museu do Instituto Adolfo Lutz; Museu de Arte Brasileira da Faap; e exposições na OCA; (Parque do Ibirapuera), todos no município de São Paulo.

"Os museus que efetivamente implantam programas acessíveis começam a receber mais visitas", comenta Viviane. Desde abril de 2005, a exposição "Fundação e Suas Muitas Histórias" do Centro de Memória Dorina Nowill recebeu aproximadamente 1.200 pessoas com deficiência acompanhadas de educadores. Segundo a especialista, esse número é maior ainda, somado aos visitantes espontâneos.

Para Viviane, "a acessibilidade torna o museu mais atrativo para um maior número de visitantes potenciais. As rampas para pessoas em cadeiras de rodas também são úteis para carrinhos de bebê; e sinalizações e identificações de peças em letras grandes também facilitam a leitura de crianças e de pessoas da terceira idade, por exemplo. No entanto, o grande desafio hoje é tornar a informação acessível e eliminar as barreiras mais difíceis, as atitudinais (o pré-conceito de cada indivíduo)".

Para tornar ou criar ambientes convidativos a todas as pessoas, é preciso unir forças e trabalhar em conjunto. Parcerias eficazes e de baixo custo com ONGs, instituições, órgãos públicos, escolas e universidades, centros culturais, empresas privadas, e profissionais é o melhor caminho para levar cultura a todos. Os museus são um dos melhores exemplos de como é possível que a arte esteja ao alcance de todos. Basta querer!
Texto originalmente publicado no Site Sentidos em 15/10/07 - Link: http://sentidos.uol.com.br/admin/leandra/inserir_pagina2.asp?codpag=12947&codcanal=4