quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Gentileza gera Gentileza

A Gentileza e a Felicidade Comum




Para além do sentido semântico da palavra gentileza, que significa delicadeza, amabilidade e cortesia, ser gentil compreende a capacidade de ser empático. A pessoa gentil, portanto, é aquela que trata aos outros com respeito não apenas porque aprendeu que isso é sinal de boa educação, mas porque é capaz de reconhecer no outro um igual. Quando somos empáticos tendemos a nos colocar no lugar da outra pessoa, a ver o outro como um ser humano como nós: com sonhos, problemas, necessidades, dúvidas, medos, qualidades, defeitos, etc. Assim, resistimos à tentação de julgar o outro nos baseando em impressões momentâneas. Digo isso porque ser gentil é antes de tudo ser capaz de perceber as necessidades dos outros. Quando dizemos bom dia a alguém estamos não apenas sendo corteses, mas também estamos atendendo a uma necessidade humana de ser visto e percebido por seus iguais. Quem tem a consciência de que há necessidades humanas comuns a todos nós, independentemente de classe social, etnia, religião, etc., consegue ser gentil.
A relação entre ser gentil e ser capaz de reconhecer o outro como igual pode ser sustentada pela teoria da “sobrevivência do mais gentil”. Segundo essa teoria a gentileza foi um fator preponderante para a evolução da espécie humana, e um dos seus principais defensores é o cientista comportamental Sam Bowles. Bowles é professor do Instituto Santa Fé, nos Estados Unidos, e passou boa parte da vida acadêmica estudando as características socioeconômicas de sociedades antigas. Em seus estudos ele verificou que a gentileza foi um componente fundamental para o bom funcionamento das comunidades e para sua manutenção no longo prazo. Para ele, as pessoas gentis contribuem para o bem-estar do grupo favorecendo a sobrevivência de todos, incluindo a delas.
Se no passado a gentileza foi tão importante para a sobrevivência humana, em nossa época diz-se que tem se tornado um bem raro. Compartilho desta percepção. Penso que várias razões podem explicar o porquê de estarmos abandonando as atitudes gentis. Em parte isso reflete um modo de vida que aparentemente leva à perda da capacidade de prestar atenção em nós mesmos e ao outro. Diferentemente da vida em uma pequena tribo ou em uma vila da antiguidade, o ritmo no qual vivemos atualmente nos dá a sensação de fragmentação, seja do tempo, das experiências ou das relações que estabelecemos. Até há bem pouco tempo, uns 30/50 anos atrás, o comum era a pessoa nascer, crescer, casar, ter filhos e morrer na mesma cidade, ou pelo menos no mesmo estado.
Estudava-se todo o ensino fundamental e médio na mesma escola, que geralmente ficava no bairro em que se morava, no qual os professores eram os vizinhos. No bairro em que se morava também era onde se conhecia “o amor da vida” frequentando a praça, a igreja ou o clube. As férias eram passadas na casa de alguém da família, no máximo na mesma praia de sempre. Os amigos da infância e os primos se tornavam os padrinhos de casamento e dos filhos tidos. Ainda, no passado bem recente, um profissional costumava se aposentar na mesma empresa em que teve o primeiro emprego, e a profissão escolhida no vestibular garantia emprego e boa renda com apenas a graduação.
Podemos ver, assim, que o ritmo das nossas vidas mudou muito. Hoje, mesmo quem vive em pequenas cidades é afetado pela organização do espaço geográfico em grandes regiões urbanas industrializadas e habitadas por pessoas de origens diversas. Recebemos notícias, nos comunicamos e temos contato com modelos de vida de habitantes do mundo todo. Passamos por vários espaços educacionais entre a creche e a pós-graduação. Trabalhamos em diferentes empresas e em diferentes funções ao longo da vida. Moramos em diferentes bairros, cidades e até países. Quando não moramos, nos deslocamos em viagens, seja a passeio ou a trabalho. Resumindo, o universo das nossas relações ampliou-se consideravelmente, tal qual o uso que fazemos do tempo, seja estudando, trabalhando, se deslocando, se comunicando, etc.
Essa “pulverização” do tempo e do espaço vividos nos leva a estabelecer relações superficiais, ficamos sem muita condição de aprofundar o contato com as outras pessoas, e até mesmo de nos observarmos mais atentamente. A correria diária nos leva a ouvir e a ver mal, os outros ou a nós mesmos. Temos vizinhos dos quais não sabemos sequer o nome, colegas de estudo e de trabalho que não fazemos ideia de onde moram, nos envolvemos afetivamente com várias pessoas e raramente visitamos os parentes.
Ao mesmo tempo em que nos aproximamos fisicamente das pessoas, morando e trabalhando em espaços cada vez menores e mais lotados, nos distanciamos emocionalmente. Não nos conhecemos mais. Uma das formas de aprendermos a respeitar outra pessoa é conhecê-la, é saber quem ela é, o que viveu, o que pensa, o que sofreu, o que conquistou. A história de uma pessoa a humaniza, a aproxima de todos nós porque na história de vida do outro acabamos por reconhecer aspectos da nossa. Isso nos permite olhar o outro como igual, e esse reconhecimento nos leva a ser mais respeitosos, a ter mais consideração, a ser mais gentis.
A gentileza torna a vida em geral mais aprazível, proporciona a criação de vínculos com maior qualidade e melhora os contatos superficiais tornando-os menos estressantes e mais significativos, ou seja, com maior valor pessoal. Além disso, a gentileza é um instrumento relacional que ajuda a abrir portas, a facilitar processos de negociação de forma mais igualitária sem que prevaleça os interesses de um lado em função da autoridade ou da força puramente. Ao sermos gentis conseguimos adicionar valor às ações cotidianas, dotando-as de um caráter mais espontâneo e menos mecânico. Quando agimos com gentileza percebemos com maior clareza que nossas ações exercem efeitos sobre as outras pessoas. Como esses efeitos são positivos tendemos a nos sentir melhor.
Essa melhora exerce influência tanto ao nível subjetivo (emocional e cognitivo) quanto ao objetivo (fisiológico). Pelo menos é o que relata o médico e pesquisador Stephen Post. Post, que é professor da Stony Brook University, também nos EUA, realizou um estudo envolvendo mais de 2000 pessoas, no qual encontrou indícios de que ser gentil faz bem à saúde. O que faz sentido, uma vez que as sensações positivas que temos quando somos gentis geram reações químicas em nosso cérebro que liberam neurotransmissores associados ao prazer, ao relaxamento e à alegria, como é o caso dos hormônios serotonina e ocitocina. Esse efeito físico e emocional da gentileza seria válido tanto para quem é gentil quanto para quem é beneficiado pela gentileza.
Dito de outra forma, há indícios de que a gentileza pode contribuir para uma vida mais feliz. A psicóloga Sonja Lyubomirsky, da Universidade da Califórnia, tem se dedicado a investigar a felicidade, e em um de seus estudos pediu aos participantes que praticassem ações gentis durante dez semanas. O que ela averiguou foi que a percepção de felicidade dos participantes aumentou durante o período no qual estavam envolvidos no estudo. O mais interessante em relação aos resultados encontrados por Lyubomirsky foi quanto à natureza das ações gentis. A pesquisadora encontrou uma correlação entre variedade das atitudes gentis e níveis de felicidade. Os participantes que foram gentis de diferentes formas – por exemplo: dizendo bom dia a estranhos, dando lugar a alguém no metrô, dando preferência aos pedestres no trânsito, etc., – registraram níveis bem mais altos de felicidade do que quem sempre repetia um único gesto de gentileza. Ainda, mais relevante, passado um mês depois do fim do estudo, os mais felizes continuavam pontuando alto nos testes para medição dos índices de felicidade.
Assim como os efeitos positivos da gentileza parecem ser potencializados quando somos gentis de diferentes formas, a prática da gentileza não diz respeito a apenas um conjunto de regras de conduta e de etiqueta. Aparentemente, a gentileza expressa uma forma de se relacionar com as outras pessoas que é pautada no respeito e na consideração. Pode-se dizer que ela é também um sinônimo de postura ética. Melhor dizendo, a gentileza ou a falta dela pode ser a expressão mais visível do caráter de uma pessoa e de seus valores. Nesse sentido, o exercício ou não da gentileza pode sinalizar o quanto uma pessoa está comprometida com a produção de vivências cotidianas melhores. Uma vez que a melhoria do que vivemos no dia-a-dia passa necessariamente pela qualidade das relações estabelecidas entre as pessoas. Sendo assim, a gentileza, como está sendo abordada aqui , pode contribuir para que as relações humanas de forma geral sejam mais justas, mais éticas e mais prazerosas. Seja num ambiente de trabalho, social ou íntimo, o exercício da gentileza pode nos ajudar a entender o posicionamentos do outro, sua forma de agir, pensar e sentir, ou pelo menos nos tornar mais tolerantes para lidar com as diferenças e os conflitos.
Ser gentil, portanto, tem mais a ver com o desejo de contribuir para uma vida melhor para todos do que com querer agradar a todos. A gentileza seria, então, tanto fruto da nossa capacidade de observar e respeitar o outro quanto a nós mesmos. Não dá para ser gentil quando negligenciamos e anulamos a nós mesmos em função das necessidades de outra pessoa. Quando ignoramos nossas próprias necessidades nos tornamos reféns da mágoa e do ressentimento, e nesse estado dificilmente somos capazes de sermos gentis. Fazemos “papel de bobo” quando nos sujeitamos ao lugar de perfeitos, certinhos, bonzinhos, etc. Nesses papeis tendemos a nos esforçar para satisfazer os interesses alheios. Isso não tem nada a ver com ser gentil. Quando desenvolvemos consideração e respeito por nós e pelos outros aprendemos a reconhecer os sinais de exploração, de abuso, etc.
Enfim, ser gentil não é ser bonzinho, mas atuar no sentido de tornar a vida melhor, ou pelo menos mais palatável. O bonzinho que assume as responsabilidades de outro, e nunca diz não, não é gentil. Quando assumimos as responsabilidades de outra pessoa estamos permitindo que alguns paguem pelos erros de outros, ou que alguns lucrem com o trabalho e a dedicação alheia, e isso de forma alguma pode ser confundido com gentileza. Ao agirmos assim não estamos sendo éticos e, ao mesmo tempo, reforçamos valores como preguiça, egoísmo, acomodação e outros que não contribuem para um mundo melhor. Similarmente, quando nunca dizemos “não” estamos reforçando em alguém a ideia de que tudo é permitido, de que não há limites, de que a vontade dela é soberana o suficiente para passar por cima de tudo e de todos e isso, definitivamente, não é ser gentil!
Em resumo, a gentileza verdadeira pode ser reconhecida quando o resultado do seu exercício gera uma condição que é percebida como boa para os dois lados, para quem faz a gentileza e para quem a recebe. Quase sempre, quando se é gentil tem-se como retorno apenas um sorriso, um “obrigado”, ou a simples sensação de ter feito o que é correto. Para muitos esse retorno tão “pequeno” pode não parecer o suficiente para fazer do mundo um lugar melhor para todos… Mas pergunte a alguém que costuma exercer a gentileza. Ousaria assegurar-lhe que a resposta comprovaria uma feliz percepção: a de que o que a princípio parece tão pouco é capaz de transformar o dia de uma pessoa, e até mesmo a forma como ela encara a si mesma, os outros e a própria vida. Experimente!
Fonte: 
https://www.psicologiasdobrasil.com.br/gentileza-e-felicidade-comum/

Angelita Corrêa Scardua
Psicóloga, Mestre e Doutoranda pela USP (SP). Especializada em Desenvolvimento de adultos, na experiência de Felicidade e nos estudos da Psicologia Social.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Leandra participa do projeto Episódios do Sul do Goethe-Institut com SESC Consolação SP

Pessoal, é com muita alegria e emoção que compartilho uma das minhas participações mais significativas da minha vida! 


O debate todo é extremamente interessante com Marta Gil e Estela Lapponi. Os meus questionamentos estão a partir de 35 minutos do vídeo até o final. 



Amei estar ao lado de pessoas são interessantes, e finalmente, dentro de um ambiente inclusivo e não apenas no meio da área do movimento das pessoas com deficiência (como em ONGs, associações, eventos voltados para o tema e o público, escolas e universidades entre outros) 



OCUPAR os espaços públicos, culturais, acadêmicos e sociais é extremamente importante para todas as pessoas com deficiência, mostrarem para 90% da sociedade que já estão INCLUÍDAS por simplesmente EXISTIREM! Mas que infelizmente, ainda NECESSITAM romper gigantescos ESTIGMAS, PRECONCEITOS, DISCRIMINAÇÕES E TABUS para simplesmente VIVER EM SOCIEDADE COMO TODOS OS SERES HUMANOS!!





À mesa – Narrativas sobre o corpo imaginado, tecnológico e morto

Instalação

Uma instalação dialógica, em cinco atos, da Academia Móvel de Berlim como parte do projeto Episódios do Sul do Goethe-Institut.

O projeto reúne narrativas da conglomeração contínua entre corpos e implantações, seres humanos e dispositivos, de interfaces entre o corpo humano com artefatos e diferentes tecnologias.

Modificações tecnológicas e transformações do corpo parecem sensatas e legítimas sempre que apresentam caráter terapêutico ou socialmente integrador, como por exemplo um marca-passo cardíaco, dentaduras ou uma prótese de perna. Porém, inevitavelmente surge a questão sobre onde traçar a linha de limite em relação à tal autorremodelação. Até que ponto a problemática de recursos e a justiça social deve ter prioridade sobre o direito à auto-otimização? Será que o desejo de autotransformação corresponde — em última análise — à lógica da ideologia global de crescimento que sonha com um futuro intricadamente conectado, neoliberal, assustadoramente injusto e militarizado? Ou podemos imaginar tecnocorpos e ciborgues fantásticos, que propagam o reconhecimento da diferença, capazes de aglutinar máquinas, o orgânico, desejos e a imaginação?
Especialistas de diferentes disciplinas sentam-se à mesa e nos contam do potencial transformador – por meio de tecnologia e ficções — de nosso corpo..
Especialistas de diferentes disciplinas sentam-se à mesa e nos contam do potencial transformador – por meio de tecnologia e ficções — de nosso corpo.

Começamos com os mortos, corpos esquecidos e não identificáveis, nos quais está enterrado nosso futuro. Seguem diálogos sobre corpos com deficiências, os quais desafiam nossas possibilidades tecnológicas e sociais. E terminamos com os desejos e com a imaginação de corpos que estão no limiar de algo diferente, uma forma incipiente de existência que potencialmente se funde com outros seres humanos, animais, deuses e máquinas.

Sente-se à mesa. Ou participe no karaokê da imagem, e juntos vamos interpretar estas imagens inexplicáveis de corpos.

A partir de um conceito desenvolvido por Hannah Hurtzig em 2004, a Mobile Academy Berlin encena performances e encontros para o intercâmbio e a geração de conhecimento em colaboração rotativa com outros pesquisadores, teóricos, artistas e animais. Por meio de instalações performáticas, gestos convencionais de transferência de conhecimentos são colocados à renegociação, quer em diálogos, quer em formatos antigos ou novos de assembleia. Cada projeto é dedicado a um tema específico, sendo realizado e documentado em eventos ao vivo e depois disponibilizado em arquivos diferentes.

Episódios do Sul é um projeto iniciado pelo Goethe-Institut em cooperação com o Sesc e que reflete as dimensões metafóricas, culturais, sociais, históricas e políticas do que se chama de “Sul”. 

Fonte: http://www.goethe.de/ins/br/lp/prj/eps/epd/pt14367488.htm

terça-feira, 29 de maio de 2018

Muitos adultos com deficiência que vivem em instituições são vítimas de detenção ilegal no Brasil

“Eles ficam até morrer”

Uma vida de isolamento e negligência em instituições para pessoas com deficiência no Brasil

Um grupo de crianças com deficiência em uma instituição superlotada com 109 crianças na Bahia. 30 crianças, incluindo uma que tinha no máximo 5 anos, viviam nessa ala.



Leonardo, 25 anos, tem distrofia muscular – uma deficiência que causa fraqueza progressiva e perda de massa muscular. Desde os 15 anos, ele morou em uma instituição de acolhimento para pessoas com deficiência no Brasil. Sua mãe achava que não tinha escolha a não ser colocá-lo lá. 

“Sofri muito quando Leonardo precisou ser transferido para a instituição…, mas não tive outra escolha. O Estado não me dá nenhum apoio para cuidar dele em casa”, ela disse. 

Sua esperança era que a instituição pudesse cuidar dele de uma forma que ela não poderia. Leonardo dividia um quarto com outros 24 homens e mulheres com deficiência. As camas eram colocadas diretamente uma ao lado da outra, sem sequer uma cortina para dar privacidade. Leonardo não tinha controle sobre sua vida; ele estava sujeito ao cronograma e às decisões da instituição. Ele ficava na cama a maior parte do dia, mesmo para as refeições, sem nada relevante para fazer: 

"Eu sou colocado na cadeira de rodas de manhã, mas tenho que ser colocado de volta na cama porque... não há ninguém para me colocar de volta à noite. Sinto falta da minha casa e gostaria de morar com minha mãe, mas entendo que ela está envelhecendo e que não poderia me aguentar fisicamente". 

Em 2017, Leonardo voltou a morar com sua mãe por um curto período porque a instituição onde morava não podia mais fornecer o apoio especializado que ele precisava. No final de 2018, ele se mudará para outra instituição que está em construção. 

Carolina (nome fictício), uma mulher de 50 anos com deficiência física, descreve sua experiência na instituição quando conversou com a Human Rights Watch: 

"Este lugar é muito ruim, é como uma prisão. Eu não quero ficar aqui. Eu sou obrigada a ficar aqui. Meus filhos não querem me ajudar em casa. Embora dois dos meus filhos venham me visitar a cada duas semanas, eu nunca saio. Eu gostaria de sair, ir embora daqui. É o meu sonho. Quando você fica assim [com uma deficiência], acabou". 

Adultos com deficiência tinham pouca ou nenhuma privacidade em 12 das instituições visitadas. Cerca de 30 pessoas viviam em grandes alas ou quartos com camas colocadas lado a lado, sem uma cortina ou qualquer outra separação. Algumas instituições tinham salas menores, com um número menor de pessoas, mas também com privacidade limitada. 

A maioria dos adultos e crianças com deficiência tinha poucos itens pessoais, ou nenhum, e, em alguns casos, eram forçados a compartilhar roupas – em um caso até mesmo escovas de dentes – com outras pessoas da instituição. 

Em uma instituição, os funcionários não forneciam absorventes higiênicos às mulheres durante o período menstrual, e sim fraldas. Funcionários de várias instituições não auxiliavam alguns adultos a se vestirem totalmente, de modo que os adultos usavam apenas camisas ou blusas e fraldas. 

A Human Rights Watch constatou que as condições e o tratamento oferecido eram particularmente ruins nas instituições visitadas que abrigavam um grande número de pessoas com necessidade de apoio intensivo. As condições e o tratamento eram desumanos e degradantes em algumas instituições para pessoas com deficiência visitadas pela Human Rights Watch no Brasil. 


Embora a legislação brasileira determine que a institucionalização de crianças não deva durar mais do que 18 meses, salvo comprovada necessidade fundamentada por autoridade judicial, muitas crianças com deficiência são colocadas em instituições por períodos muito mais extensos. Na maior parte das instituições visitadas, funcionários contaram à Human Rights Watch que a maioria das crianças tinha pelo menos um dos pais vivos. Muitas crianças com deficiência perdem contato com suas famílias e permanecem segregadas em instituições durante toda a sua vida. Em uma instituição, por exemplo, todos os 51 residentes estavam lá desde que eram crianças. Vários residentes tinham mais de 50 anos de idade. O diretor de uma instituição em São Paulo nos disse: “Eles ficam até morrer”. 

Segundo dados da Secretaria Nacional de Assistência Social, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Social, até 2016 havia 5.078 crianças com deficiência vivendo em instituições no Brasil. Este número provavelmente não reflete o número real, pois os dados são obtidos por meio de questionário preenchido pelas próprias instituições, sem posterior checagem ou supervisão por autoridade competente. De acordo com a mesma base de dados, 5.037 adultos com deficiência viviam em instituições.  


Leiam o Relatório Completo neste LINK:





sábado, 5 de maio de 2018

Viver com Osteogeneis Imperfecta é...





Viver com Osteogenesis Imperfecta é um desafio trágico e gostoso. Assim como é a vida de muitas pessoas... Com ou sem alguma deficiência. 


Nasci em 1977 quando pouco se conhecia sobre a condição física e menos ainda se falava sobre ela. Tive o privilégio de ter uma família que sempre me acolheu desde o momento que os médicos não acreditassem que eu sobrevivesse mais de uma semana; passando por uma infância alegre em meio as inúmeras fraturas; apoiando a complicada fase da adolescência e juventude; incentivando a vida adulta; e estando ao lado de cada conquista e desafios da maturidade. 


Graças ao grande esforço e dedicação constantes da família e dos amigos, nunca me faltou, tanto carinho e amor; como recursos financeiros para ter acesso à tratamentos médicos, educação inclusiva e vida cultural. 

Nasci em uma cidade grande com hospitais e clínicas de reabilitação de qualidade o que me permitiu evoluir ao máximo fisicamente e emocionalmente. 



Mas tudo isso só foi possível porque eu sempre batalhei incansavelmente para conquistar meus espaços em uma sociedade que aprendeu a conviver comigo e respeitar minhas limitações e direitos! 

Em uma sociedade que conheceu a minha forma de estar no mundo, fazendo dele um lugar bem melhor e mais acolhedor para evoluirmos como seres humanos!


É claro que passei por diversas situações de preconceitos e discriminações, desde as mais terríveis até as mais veladas. Também enfrentei momentos difíceis de super proteção que me trouxeram problemas complicados de se resolver. 

Porém, conseguir lidar com cada pedra no caminho e construí a minha história. Que não é melhor e nem pior do que a de ninguém, com Osteogenesis ou não. É apenas diferente e única! 


Sei que existem milhares de pessoas com a mesma deficiência física que a minha que não tiveram as mesmas condições de se desenvolverem e conquistarem uma vida de qualidade na medida de suas potencialidades. 

Devido principalmente, a gigantesca falta de distribuição de renda e equidade do nosso país, e principalmente, ao histórico de discriminação e completo abandono que existe em muitas regiões com pouquíssimos recursos!

Por isso, eu admiro - do fundo do coração - todas essas pessoas que batalharam trilhões de vezes mais do que eu e minha família para ultrapassar barreiras bem mais altas e pesadas do as que eu encontrei pelo caminho. 

A essas pessoas, eu parabenizo por terem alcançado tantas vitórias! Mas espero que a cada novo amanhecer cada vez menos seja preciso que quem tem Osteogenesis necessite sofrer tanto com quase nenhum acesso a uma verdadeira inclusão! 

Eu sonho e luto para que um número cada vez maior de famílias de pessoas com Osteogenesis consigam que seus direitos sejam respeitados! Que suas vidas sejam valorizadas e incentivadas a seguir em frente, sem medo de serem felizes! 



Porém, como esta realidade ainda está um pouco longe, sugiro e acredito que o melhor a ser feito - não apenas para lembrar o dia 06 de maio - mas todos os demais; que a UNIÃO seja uma constante! E a que a solidariedade esteja sempre PRESENTE!! 


  

quarta-feira, 7 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER



O corpo de uma mulher é múltiplo.

Por Leandra Migotto Certeza.

A mulher é um universo profundo. Comecei a mergulhar nela aos 30 anos, quando meus desejos se afloram. Meu corpo sempre foi fraco, intocável. Meus desejos sempre estiveram no mais profundo poço do inatingível.

Pecado tocar. Errado querer. Feio. Todos apontam. Todos comentam. Todos olham. Eu nunca pude dizer há que vim. O que sou. O que desejo. O que espero. O que luto. O que preciso mostrar.

Sempre fui tolhida. Sempre fui quebrada. Sempre senti dor. Sempre me senti presa a um corpo infantilizado. A um meio corpo. A uma meia criança-menina-mulher. A algo indefinido.

Hoje quebro. Mas não o corpo. O que ele realmente é. A massa una entre alma e carne. Entre desejo e pudor. Entre vida e morte. Entre explosão e dor. Entre prazer e abrigo. Entre eu e muitas pessoas que moram em minha alma.

O corpo de uma mulher é múltiplo. É preciso mostrar ao mundo cada pedacinho que pulsa em corpos diferentes. São bocas em cabeças tortas, pernas grossas e curtas, bumbum arrebitado e torto, coxas arredondadas e cheias de ruguinhas infantis, púbis ardendo de tesão, seios pequenos em um tronco pequeno demais.

Não há cintura, não há quadril definido. Não há pernas finas e compridas. Não há balanço dos quadris. Não há andar sensual. Não há mini saia que leva ao mistério escuro como o céu que agora está em minha janela.

Não há uma mulher padronizada, robotizada, perfeita! Não há o esperado. Há outra possibilidade de ser mulher inteira com todos os sentimentos e sentidos que pulsam do corpo de alguém que sempre foi quem é.

Amar e ser amada trouxe força a minha alma para conseguir se libertar do corpo da sociedade que sempre me toliu. Da mãe interna que sempre me proibiu de ser eu mesma. Da mãe externa que sempre teve medo de me ver despedaçada.

Eu não posso engravidar, mas tenho o direito de ser mãe tendo uma deficiência física! Eu não posso dançar flamenco e tango, mas tenho o direito de me arrepiar quando vejo os corpos se unirem com a alma, a cada passo dos bailarinos.

Queria estar no lugar de quem tem um corpo diferente do meu. Tenho o direito de desejar ser outra pessoa, e como é bom! Não preciso bancar a conformada, aceitar a roupa de heroína (que me colocaram) ou me afundar no poço da depressão. Escolhi o caminho do meio.


Eu não posso fazer amor com tanta volúpia, e em posições que sempre sonhei; mas posso ter orgasmos estupendos! Eu não posso sentir meu corpo mudar, ao abrigar um novo ser em meu ventre, mas posso amar – incondicionalmente – as crianças que habitam e irão habitar o meu coração. Eu não posso amamentar um bebê quentinho em meus braços, mas tenho muita seiva escorrendo, pelos fios da minha alma, para alimentar espíritos sedentos.




Imagem de borboletas e ramos de flores rosas claras e escuras do lado direito e círculos leves e soltos na cor rosa clara do lado esquerdo. No centro da imagem está escrito: Somo iguais nas Diferenças".





Foto de uma mulher negra com os cabelos compridos e levemente ondulados. Ela está de vestido branco, sentada de lado na sua cadeira de rodas, olhando para a câmera com uma pose sensual e a mão na cabeça jogando os cabelos para trás.




Foto colorida de duas mulheres. Uma tem surdocegueira e está com as mãos no queixo da outra para se comunicar por um método próprio usado por pessoas com esta deficiência. E a outra mulher sem deficiência está ao lado falando baixo o que ela escuta em um evento dentro de um auditório. As duas mulheres são brancas e tem cabelos castanhos escuros na altura dos ombros.





Foto de uma mulher branca com deficiência física passando roupa somente com a parte superior dos dois braços. A imagem foca o ato dela passar a roupa e não mostra o rosto da moça que está com os cabelos castanhos escuros cacheados sobre os olhos e de lado para a câmera.





Foto de duas mulheres brancas e loiras namorando. As duas estão sentadas em suas cadeira de rodas e tem deficiência física. Uma usa blusa de cor preta e a outra de cor branca. A mulher de cabelos curtos está com a cabeça jogada pra trás e sorrindo de alegria porque a sua namorada está dando um beijo apaixonado no rosto dela.




Foto de uma mulher japonesa sentada em sua cadeira de rodas branca. Ela usa vestido de noiva branco, não tem os dois braços e está com um laço rosa no cabelo longo, liso e castanho escuro.




Foto de uma moça com nanismo em uma pose sensual, olhando para a câmera e sentada em cima de um violão. Ela está nua com uma das mãos na frente dos seios, e as pernas cruzadas. Veste apenas sapatos de salto alto bico fino e um colar de pérolas. A foto em preto e branco.




Foto colorida de uma mulher com deficiência física cuidando do seu filho bebê com os pés porque ela não tem os dois braços. Ela é branca, tem os cabelos curtos e ruivos e usa óculos escuros. Parece estar em uma praia ou piscina porque tem uma imagem de uma bóia ao fundo.




Foto de um casal com sua filha nos braços. A moça e mãe é branca, tem cabelos louros e Síndrome de Down e usa óculos. E o rapaz e marido é branco com cabelos castanhos escuros e não tem deficiência. Eles estão sorrindo e vestem camisetas de cor azul, e filhinha branca um vestidinho estampado preto e branco e tem um laço na cabeça.




Foto de um casal com deficiência visual. A moça e mãe (branca de cabelos castanhos) está gravida e tem nos braços uma réplica da imagem de um feto para ter a ideia da imagem do seu exame de ultra sonografia. E o rapaz e pai (branco de cabelos um pouco grisalhos) tem nas mãos a réplica de uma imagem do que seria a cabeça do bebê. Eles estão sorrindo e sentados um ao lado do outro.




Foto de uma mãe com duas filhas pequenas que tem microcefalia. Ela está com as meninas no colo e todas são brancas e tem cabelos louros; e vestem camisetas amarelas e estão sorrindo.




Imagem de uma mulher (branca de olhos e cabelos castanhos) sem as pernas sentada em um skate com o filho bebê branco no colo por meio de um colete.




Logo da campanha de combate a toda violência contra mulheres com e sem deficiência. A imagem com o texto: "Violência contra uma é violência contra todas" está escrita em LIBRAS - Língua Brasileira de Sinais e em Braille, sistema de leitura e escrita para pessoas com deficiência visual.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Leandra escreve em Oficina Literária no SESC Pinheiros


A cidade que pouco conheço

Por Leandra Migotto Certeza

É múltipla! Caótica! Frenética! Inspira e transpira… Sonha e destrói. Une e acelera. Tem verde, e muito mais cinza. Caminha e engarrafa. Tudo, agora e ao mesmo tempo hoje. Nos bairros, ainda tem casinhas. Mas os arranha-céus são a maioria nas avenidas. As ruas podem ser bem sujas, mas nos muros tem grafite colorido (quando o Prefeito deixa!).

Cinemas e teatro vários, mas pra bem poucos. As freiras livres são ponto de encontro de aromas, cores e texturas. Nos parques, brinquedos, árvores, riachos e grandes museus se misturam. E quem vive nela é camaleão. Todas as estações aparecem em um único dia. E desaparecem com a mesma intensidade.

Nasci em um hospital bem conhecido e também vivo há 35 anos em um dos bairros que muita gente sabe onde fica. Mas conheço pouquíssimo as regiões da cidade. Sou turista em Sampa! Minha viagem está só começando… Quero sair do reduto Av. Paulista e bairro de Pinheiros / Butantã. Porém, quando passeio nos finais de semana, ainda procuro ir ao que está mais perto. Afinal, rodar pelas calçadas é um gigantesco enduro! Aventura total!

Transporte público acessível? Não sei para quem… Mesmo com a minha cadeira de rodas motorizada eu passo por perrengues fenomenais. Buracos? Prefiro chamar de crateras! Sem me esquecer das montanhas que surgem no meio dos passeios públicos.

Públicos? Penso em como está se tornando a maior megalópole do país agora que tudo virou lucro de bem poucos… O parque Villa Lobos, na região Oeste, tem bem mais gente com carro do ano do que bicicleta ou à pé. Afinal, estacionar agora custa caro.

Os pequenos sacolões de bairro, em sua maioria bem administrados há anos por famílias, serão aniquilados! O monopólio dos mega supermercados irá abocanhar mais este filão! Carnaval e Virada Cultural? Cada um no seu quadrado da segregação social! Misturar? Para quê?

O lema desta administração é TRABALHO! Nem que para mostrar serviço seja preciso passar por cima dos pequenos comerciantes e da diversidade cultural. Só que não! Trabalho sem desenvolvimento de todas e todos e distribuição de renda, é CAPITALISMO SELVAGEM.

Triste é ver que várias ciclovias estão sendo destruídas para os carros passarem, agora com a velocidade maior permitida novamente! Mas o que dói mesmo é o nosso dinheiro gasto com os altos impostos indo para pagar passagens de avião e despesas - de quem se diz trabalhar pela cidade - mas na verdade faz campanha eleitoral desde o primeiro dia de mandato.


Problemas? A cidade que ainda pouco conheço, tem inúmeros! E terá muito mais todos os dias, com esta ou outra administração. Creio que o que falta é a noção básica do que seja PÚBLICO e PRIVADO. E do que seja: LUCRO e AÇÃO SOCIAL. Afinal, a cidade só existe porque as pessoas vivem, trabalham, consomem, pagam altíssimos impostos e se divertem nela! Cabe a cada um de nós repensarmos o nosso papel na Pólis!   

Manhã em Sampa

Manhã cinzenta
Nojenta
Na lama da cidade luz
Manha opaca
Calada
Na calma da cidade grande
Manhã amena
Pequena
Na falta da cidade cheia
Manhã macia
Tranquila
Na clara cidade escura             


Textos produzidos por Leandra durante a Oficina Literária de Arte e Expressão realizada no SESC Pinheiros em Janeiro e Fevereiro de 2018.

Professoras da oficina: Maria de Lourdes Chaves Ferreira. Jornalista, publicitária, com pós-graduação em psicopedagogia. Finalista do Prêmio Flip de Literatura 2017 – categoria poesia e Maria Regina Chaves Ferreira. Psicóloga – Especialização em psicologia junguiana.              

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Ética da diversidade na abordagem da deficiência


Há duas formas distintas de se pensar a deficiência: uma, mais antiga, se baseia no modelo médico; a outra, representando a tendência atual, baseia-se no modelo social.

O modelo médico tem como principal característica a descontextualização da deficiência, isto é, toma-a como incidente isolado e sem relação com questões de interesse público e relevância econômica, política ou social. No enfoque do modelo médico, o problema reside na pessoa, com consequências somente para ela e sua família, ficando a sociedade isenta de qualquer responsabilidade e compromisso para com a desconstrução de processos de discriminação. A cura ou quase cura das lesões e limitações torna-se condição para acesso a determinados direitos.

Já o modelo social considera que a maior parte das dificuldades enfrentadas pelas pessoas com deficiência resulta da forma como a sociedade trata as limitações físicas, intelectuais, sensoriais ou múltiplas de cada indivíduo. A deficiência é entendida como construção coletiva e condição flexível, não necessariamente permanente. Afinal, se as barreiras de acesso são removidas, a relação de desvantagem passa a ser parcial ou, mesmo, completamente abolida.

O modelo social está relacionado ao desenvolvimento inclusivo e à ética da diversidade, que combate a homogeneidade e privilegia ambientes heterogêneos, celebrando toda e qualquer diferença entre pessoas. Cada um, da forma como é, contribui com sua experiência e seus recursos, em benefício de todos. Do ponto de vista da ética da diversidade, as pessoas com deficiência não representam um equívoco, um deslize da natureza que gerou seres anômalos, a serem aceitos, tolerados, ou respeitados.

Estratégias vêm sendo incorporadas por organizações empresariais, governamentais e não governamentais — regionais e internacionais —, nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, na busca de alianças e ações que gerem programas e políticas públicas inclusivas. Beneficiam-se não só as pessoas com deficiência, como outros grupos em situação de vulnerabilidade, como crianças trabalhadoras, coletores de lixo, indígenas, pessoas com vírus HIV e pessoas com orientação homossexual.

No que se refere à implementação de políticas de desenvolvimento inclusivo, a ética da diversidade deve ser sistematicamente trabalhada e incentivada pelos meios e profissionais de comunicação, levando-se em conta orientações como:

1) Manter, ao escrever sobre deficiência ou ao analisar qualquer política pública, o mesmo rigor que caracteriza a abordagem de temas de outras áreas, como a econômica, por exemplo, entre outras.

2) Desconfiar de qualquer enfoque que marque pessoas com deficiência como pertencentes a um grupo homogêneo de cidadãos. (Exemplo: crianças com síndrome de Down têm sempre muito carinho para dar...)

3) Lembrar que sobre-estimar pessoas com deficiência, transformando-as em super-heroínas, é tão discriminatório quanto subestimá-las, porque ambos os enfoques lhes tiram o direito à individualidade.

4) Desenvolver uma visão crítica de discursos que valorizam ambientes homogêneos como ideais para o desenvolvimento humano.

5) Provocar e/ou reforçar alianças entre profissionais de diferentes áreas.

6) Tomar como base para suas reflexões e análises diárias as seguintes associações: modelo médico/ambiente homogêneo e modelo social/ambiente heterogêneo.

Partindo-se do princípio de que os modelos médico e social não se apresentam de forma clara, como aprender a diferenciá-los? O quadro a seguir põe lado a lado as características de cada um, de modo a evidenciar suas diferenças.

Fonte:
http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/92/comunicacao_e_saude/etica-da-diversidade-na-abordagem-da-deficiencia