sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Dez anos da Convenção da ONU

Em 2016, no Brasil entrou em vigor a primeira lei derivada da Convenção, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

Por Izabel Maior *
Quase não acredito que aconteceu há dez anos a conclusão do processo de elaboração da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e sua homologação pela Assembleia Geral da ONU em 13 de dezembro de 2006. Ainda estão vívidos na minha memória e, com certeza, na lembrança de todos que participaram, os debates e propostas dos 192 países e as vozes do movimento político mundial das pessoas com deficiência presente no Comitê ad hoc para a Convenção. 
A participação direta do movimento social nas negociações da ONU foi inédita e conferiu atualidade e arrojo ao texto aprovado. Os trabalhos dos bastidores estendiam-se pelas madrugadas, com intensa troca entre diferentes culturas e realidades de violação dos direitos humanos vividas pelas pessoas com deficiência. Tive a oportunidade de participar das reuniões formais dos países-partes, como representante governamental, e das conversas aprofundadas do segmento social. 
Aprendi muito, encontrei meu espaço no mundo, apresentei a realidade brasileira das pessoas com deficiência, desde a situação de pobreza e discriminação até às políticas públicas para favorecer oportunidades iguais na sociedade. Influenciamos em assuntos como acessibilidade, educação, vida independente, saúde sexual e reprodutiva, cooperação internacional, estatísticas e apoio ao Comitê para monitorar as condições de implementação da Convenção. Compreendemos e apoiamos os artigos sobre igualdade perante a lei, acesso à justiça, combate à violência e artigos para crianças e para mulheres com deficiência.
Dez anos depois, tenho a sensação de que trabalhamos arduamente e alcançamos o um excelente tratado de direitos humanos específico para promover e assegurar a autonomia, protagonismo, emancipação e não-discriminação, a acessibilidade como direito básico e a presença das questões das pessoas com deficiência na agenda política internacional. 
Cada conceito, a redação de cada artigo, com seus detalhamentos, as obrigações destinadas aos governos e às instituições sociais estão tomando vida em todo mundo. Até dezembro, 164 países ratificaram a Convenção e 89 países ratificaram o Protocolo Facultativo que submete suas ações ao Comitê sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. 
O Comitê avaliou o Brasil quanto à implementação da Convenção em agosto de 2015, levando em consideração o relatório governamental e aquele elaborado pelas organizações da sociedade civil. As recomendações do Comitê da ONU, traduzidas para o português, estão disponíveis em http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cpd/documentos/relatorio-do-comite-da-onu-sobre-os-direitos-das-pessoas-com-deficiencia-traduzido-em-portugues
Em 2016, no Brasil entrou em vigor a primeira lei derivada da Convenção, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) que adotou a avaliação funcional da deficiência como biopsicossocial, garantiu a igualdade perante a lei com a aplicação da tomada de decisão apoiada e restrições à interdição mesmo parcial, deu ainda mais ênfase à acessibilidade, trouxe a aplicação dos diversos direitos, como a educação inclusiva em todos os níveis, no âmbito público e privado, o trabalho com apoio como mais uma oportunidade de emprego, a garantia de cuidados de saúde, habilitação e reabilitação e acesso aos equipamentos de tecnologia assistivas, auxílio-inclusão em situações de maior vulnerabilidade para estimular a participação das pessoas com deficiência grave e moderada no mercado de trabalho formal. 
Esse e outros artigos importantes da lei aguardam a regulamentação para sua aplicabilidade. Ainda neste ano, o Supremo Tribunal Federal negou a pretensão das escolas particulares de descumprir a LBI e estabelecer custos adicionais para matricular alunos com deficiência. O status constitucional da Convenção favoreceu a decisão judicial em favor das pessoas com deficiência.
Dia 3 de dezembro, comemorado como o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, em 2016 dedica-se ao “Alcance dos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável até 2030”. É a mais importante agenda internacional e requereu grande esforço de países e do movimento social até que a participação das pessoas com deficiência surgisse de forma expressa. Assim, estão textualmente presentes nas ações do desenvolvimento sustentável pela educação inclusiva, trabalho e emprego digno, decente e inclusivo, redução das desigualdades pelo empoderamento e inclusão social e a acessibilidade nas cidades e nos transportes. 
As pessoas com deficiência são contempladas em todos os demais objetivos do desenvolvimento sustentável até 2030. Uma das estratégias para monitorar os avanços da qualidade de vida do segmento é a desagregação e elaboração de indicadores sociais que revelem as condições de desenvolvimento do segmento. Disponível em https://nacoesunidas.org/pos2015/agenda2030/
Nos dez anos da Convenção, em setembro passado, foi criado o Fórum Permanente UFRJ Acessível e Inclusiva, instância consultiva da Reitoria para discussão, elaboração e suporte ao desenvolvimento e implementação da política institucional em acessibilidade. Encontra-se em curso a pesquisa de identificação de alunos e servidores com deficiência nos espaços na sede, em Xerém e em Macaé. 
Também começaram as parcerias com setores-chaves da universidade para conhecer e encaminhar as demandas da comunidade, como a Ouvidoria, a Procuradoria, as áreas de projetos físicos e o Sistema de Bibliotecas. Dessa forma a Universidade Federal do Rio de Janeiro assume as responsabilidades definidas na Convenção, nas leis nacionais e nas políticas para a autonomia e inclusão das pessoas com deficiência.
* Izabel Maior é conselheira municipal e estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência no Rio de Janeiro e integrante da comissão executiva do Fórum Permanente UFRJ Acessível e Inclusiva.
Fonte: http://www.inclusive.org.br/arquivos/29964

Diminuir o Benefício de Prestação Continuada às pessoas com deficiência é um CRIME



As pessoas com deficiência, ao longo da história passaram por fases de extermínio, exclusão, integração e inclusão. Mesmo que estejamos sob o paradigma da inclusão, estas fases convivem simultaneamente ao longo da história da humanidade e isso é refletido no cenário brasileiro. [1]

De acordo com o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, 45,6 milhões de brasileiros (23,9% da população) declararam possuir algum tipo de deficiência: A deficiência visual, que atingia 35,8 milhões de pessoas em 2010, era a que mais acometia tanto homens (16,0%) quanto mulheres (21,4%), seguida da deficiência motora (13,3 milhões, 5,3% para homens e 8,5% para mulheres), auditiva (9,7 milhões, 5,3% para homens e 4,9% para mulheres) e mental ou intelectual (2,6 milhões, 1,5% para homens e 1,2% para mulheres).

A pesquisa MUNIC do IBGE[2], realizada em 2014, identificou que, 2.198 dos municípios declararam desenvolver ao menos um tipo de programa, sendo que destes, apenas 26,9% tinha ações específicas para pessoa com deficiência.

O Censo de 2010 apontou ainda que crianças e adolescentes, representam 60 milhões da população brasileira e idosos, 23,5 milhões. Quanto aos povos indígenas, são 896 mil pessoas em 305 etnias e 274 idiomas. Some-se a isso as mais de 2,4 mil comunidades quilombolas. É importante ressaltar que as pessoas com deficiência estão presentes em todos estes segmentos, porque fazem parte da diversidade humana.

Há ainda a ideia a ser desconstruída que a deficiência equipara-se a incapacidade. Moralmente, a ideia de caridade ainda é associada a este segmento social.

Essa mudança de conceito, no âmbito normativo foi instituído pela Convenção Internacional Sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, assinada em Nova York, em 30 de março de 2007, trouxe conceito mais adequado ao mundo contemporâneo:

Artigo 1 (...) Pessoas com deficiência são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.

Conceito da Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS):

Antes da Convenção (1993 a 2011)
Após a Convenção (2011 até hoje)
Art. 20. (...)
(...)
§ 2º Para efeitos de concessão deste benefício, a pessoa portadora de deficiência é aquela incapacitada para o trabalho e para a vida independente.
Lei 8.742, de 07 de dezembro de 1993

“§ 2o  Para efeito de concessão deste benefício, considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. (Redação dada pela Lei nº 12.470, de 2011)”
“§ 10.  Considera-se impedimento de longo prazo, para os fins do § 2o deste artigo, aquele que produza efeitos pelo prazo mínimo de 2 (dois) anos.”
Incluído pela Lei nº 12.470, de 2011



Os benefícios assistenciais servem para minimamente, equiparar oportunidades e prover bem estar social a aqueles cidadãos que não possuem meios de se sustentar ou de ser sustentado pela família.

Se o BPC (Benefício de Prestação Continuada) no Brasil corresponde a 100% do Salário Mínimo, é justamente por conta destes beneficiários estarem em desvantagem no acesso a políticas públicas com relação a população em geral! E foi uma conquista a Constituição de 1988, através da Emenda Popular, n° PE00077-6, de autoria da Associação Canoense de Deficientes Físicos, da Escola Especial de Canoas e da Liga Feminina de Combate ao Câncer, e que previa o pagamento de um salário mínimo mensal às pessoas com deficiência que não tivessem meios de se manter.

Uma das justificativas da desvinculação do BPC ao salário mínimo tem por base uma comparação internacional que mostra que os benefícios assistenciais não são vinculados ao salário mínimo na maioria dos países da Organização para Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Enquanto o BPC corresponde a 100% do salário mínimo no Brasil, benefícios similares equivalem a 65% na Holanda e na Bélgica, 64% na Nova Zelândia e 63% na Irlanda.

Comparar a situação do Brasil, com Holanda, Bélgica, Nova Zelândia e Irlanda não pode ser argumento para tomada de decisão no nosso cenário. Se nestes países os benefícios têm percentuais menores que o Salário Mínimo, alguns elementos precisam ser analisados.

Primeiro, são países tem os MAIORES salários mínimos do mundo. Na Bélgica, as pessoas que têm mais de 21 anos recebem salário de R$3,8 mil mensais. Apesar de ter carência de mão de obra, a Holanda detém um salário mínimo de R$3,9 mil por mês. Na Irlanda, os trabalhadores recebem R$3,5 mil mensais. Já na Nova Zelândia, os empregados recebem, no mínimo, US$8,60 dólares por hora trabalhada, o que totaliza R$3,3 mil mensais.

Também é preciso destacar que, além das condições geográficas, populacionais, históricas e sociais, são países que tem melhores Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo, assim, as pessoas com deficiência, por exemplo, enfrentam menos barreiras sociais, implicando assim, em maior qualidade de vida.

País
Salário Mínimo (R$)
Benefício
IDH[3]
Brasil
880,00
880,00 (100%)
75º
Bélgica
3.800,00
2.470,00 (65%)
21º
Holanda
3.900,00
2.535,00 (65%)
5º
Irlanda
3.500,00
2.240,00 (64%)
7º
Nova Zelândia
3.300,00
2.013,00 (61%)
10º


Com base nisto, o ideal seria ampliar os benefícios ao invés de reduzir seu valor. Como? Quem sabe iniciar reduzindo os privilégios do Judiciário e do Legislativo? 
Vejam bem, somente a verba de gabinete da Câmara Federal destinada é de 92.053,20 mensais, os quais multiplicados pelos 12 meses do ano e os 513 parlamentares temos um valor de pelo menos 2,2 bilhões a cada quatro anos. 
E se reduzisse a metade este valor? E o vergonhoso auxílio-moradia do judiciário? Há algum Grupo de Trabalho no Executivo, Legislativo ou Judiciário fazendo levantamento do quanto os privilégios impactam as contas públicas?



[3] A revisão do índice foi divulgada em 14 de dezembro de 2015, com dados referentes ao ano de 2014

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Jornalismo Literário - Entrevistas

A COMPLEMENTAÇÃO PELA CAPTAÇÃO

Por Vânia Coelho


           Jornalista é um representante do público, um
 embaixador da audiência  (Edvaldo P. Lima)


COMO ELABORAR A PAUTA PARA O LIVRO-REPORTAGEM?

            Captar é apreender, observar e, pela percepção, ver o que não é mostrado, ler nas entrelinhas, “naquilo” que foi dito pela metade, “daquilo” que é percebido nas onomatopéias, nas metáforas, nas metonímias, nas impressões e expressões humanas, nos sussurros e murmúrios, na lágrima, na dor e no grito. Grito este que clama por socorro ou denota uma alegria que contagia. Captar é enxergar os olhos que falam e os lábios que calam. É ver os olhos que se desviam em soslaio e ouvir o que não foi dito.           
O faro jornalístico do qual tanto falam os especialistas da área tem a ver, também com a captação da temática no jornalismo investigativo e interpretativo, isso porque os temas que tanto servem de alicerce para pintores e poetas do mundo todo, porque sensibilizam o lado humano e alguns grupos sociais que os compõem, devem, no jornalismo, ser de interesse público geral, portanto pertinente à sociedade em todos os sentidos, de forma a prestar um serviço com a pesquisa e a produção midiática. Logo, captar é apreender o essencial, as entranhas, o útero que germina personagens maus e bons, criaturas do poder e da submissão. Captar é ver de olhos vendados. Há olhos que captam a fotografia “perfeita”, pois o fenômeno é apreendido por um corpo sensível e inteligível. A captação faz parte da entrevista de compreensão.

        A Entrevista de Compreensão é um instrumento de captação do jornalista. No livro Páginas Ampliadas: o livro reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (2009) de Edvaldo Pereira Lima, no capítulo 2 intitulado Os procedimentos de Extensão, parte II - A complementação pela captação, o autor salienta a importância da pauta para o desenvolvimento da tarefa jornalística, no que tange à produção da grande reportagem impressa. Segundo ele, a pauta realizada para a produção de um livro-reportagem ganha relevância quando a meta busca o aprofundamento da contemporaneidade. Uma pauta bem elaborada, clara, precisa e bem planejada, de cujas abordagens objetivas facilitam o traçar das diretrizes para a coleta e a pesquisa (material registrado) em livros, internet, revistas, jornais, gravações digitais e audiovisuais, documentos, artigos, entrevistas, pesquisa social, etnográfica e observacional, deve ser clara e objetiva, portanto necessita-se de uma abordagem dedutiva sobre o tema e um estudo detalhado das linhas de força que a compõe. É preciso ter como registro na Planilha do PEX, uma pauta bem definida, e um roteiro (cronograma) para iniciar a etapa chamada de captação. A pauta eficiente deve conter:

a) Definição exata do assunto a ser abordado;

b) Objetivos claros e precisos;

c) A formulação do problema;

d) Plano de captação

Faz-se necessário, ainda, afirma Lima, localizar o assunto em vários âmbitos, tais como:

a) Área de atividade econômica;

b) Segmento social;

c) Campo de conhecimento;

d) Espaço: posicionamento geográfico-social;

e) Tempo: sentido cronológico dos acontecimentos e personagens.




            Os objetivos (que só podem ser definidos em função dos problemas e dos conflitos que os originam) que a matéria pode atingir direcionam a condução da pauta que deve ter ponto de alcance e visão integral. Para a professora Cremilda Medina (citada por Lima), o jornalista deve ter cautela com a cosmovisão desatualizada, o que ela chama de “primarismos”. Para Medina, não se pode caminhar pelas linhas do periférico e do pitoresco tão somente, pois a entrevista jornalística da grande reportagem é um instrumento de captação do real e, essa compreensão pressupõe, em seu aspecto humanizado, um diálogo interativo entre entrevistador e receptor. Isto é, o consumidor/leitor deve entender o diálogo traduzido e interpretado pelo jornalista e consumi-lo, aproveitá-lo, pois o resultado deve interferir no público de uma forma ou de outra, pelo riso ou pelo choro, pelo conhecimento ou pela denúncia, pela ampliação ou inferência.
     Isso porque o jornalista tem o papel consciente de estimular relações e diálogos, criar um clima autêntico de conexão entre entrevistado e receptor, auxiliar na compreensão do verdadeiramente real, mas também emocionar, sem o qual, diz Lima, “nenhum ato comunica na dimensão humana o que o jornalismo pretende”. Já Medina intitula de plurálogo o diálogo democrático que surge da entrevista de compreensão. Segundo ela, há duas tendências agrupadas na entrevista:

a. Espetacularização: caricatura das possibilidades humanas;
b. Compreensão: busca do aprofundamento (idiossincrasias)

a. Na Espetacularização, há quatro subgêneros:

1) Perfil pitoresco: caricatura com traços sensacionalistas;

2) Perfil inusitado
: aspectos exóticos da personagem;

3) Perfil do condenado
: coloca a personagem na posição de réu ou vilão;

4) Perfil da ironia: realiza um julgamento condenatório da personagem, de forma sutil, eufemista e intelectualizada por metáforas, metonímias, símiles, etc.
b. Na Compreensão, há vários subgêneros, a saber:

1) Entrevista conceitual;

2) Entrevista de enquete;

3) Entrevista investigativa;

4) Entrevista de confrontação;

5) Perfil  Humanizado.


            Lima cita outros subgêneros da Entrevista de Compreensão. Mais adiante, pretende-se tratar, particularmente, dos subgêneros citados por Medina e os demais citados pelo jornalista Lima, que somam: histórias da vida, observação participante, memória, visão pluridimensional simultânea e documentação. 
Deve-se desenvolver conceitos e classificações da Entrevista de Compreensão, de modo a tornar claros os procedimentos, gêneros e subgêneros que envolvem a captação como instrumento e eixo norteador das entrevistas que resultam no livro-reportagem. 

TEORIA DA ENTREVISTA DE COMPREENSÃO


            A entrevista de compreensão é uma técnica particular das grandes reportagens, ela não é aliada do grande espetáculo, nem da sociedade imagética, em que a aparência predomina, nem do sensacionalismo ou imediatismo.
Para Lima, o jornalista-escritor é o tecedor invisível da realidade que salta das páginas para o coração, para a mente e para todo o aparato perceptivo do leitor. Essa realidade deve fazer a diferença no público consumidor. A entrevista visa captar a essência através da compreensão, da observação, da percepção e apreensão da personagem. Objetiva-se, nessa entrevista que um diálogo possível seja estreitado e o repórter deve ser mais ouvinte e menos falante. A pauta da entrevista de compreensão é aberta, flexível e em movimento para que o repórter possa atingir uma percentagem alta na eficácia da meta.  
O processo noticioso da grande reportagem geralmente é alicerçado no pensamento dedutivo, em que se parte de uma verdade universal para uma verdade menos universal, isto é, do geral ao particular. O inverso também pode ser válido, depende da estrutura que se pretende edificar. Exemplo de dedução:Todas as mulheres praticam suicídio. Cleópatra é mulher. Logo: Cleópatra é suicida

No exemplo acima, o raciocínio caminha do particular para o geral, ou seja, de uma verdade menos universal para uma verdade universal, acontece nesse raciocínio lógico a particularização do fenômeno.

Sócrates é homem. Sócrates é mortal. Todos os homens são mortais

É um exemplo de indução, pois parte do pensamento de que Sócrates é um homem e é mortal, remete à mortalidade e à masculinidade de um homem: Sócrates (particular) e se caminha para a conclusão de que todos os homens são mortais, não apenas Sócrates, mas todos os seres masculinos (geral). Trata-se da indução. 

Tudo o que é espiritual é incorruptível. Ora, a alma humana é espiritual. Logo, a alma humana é incorruptível

No exemplo acima, parte-se de uma verdade universal para uma menos universal, ou seja, o processo do raciocínio é dedutivo, pois se particulariza o pensamento, vai-se da aparência, superfície (geral) à essência (submersa). Caminha-se a partir da ideia de que tudo, amplamente tudo é incorruptível e chega-se à ideia de que a alma humana, particularmente, é incorruptível. Deve-se perceber e investigar o que pode ser contestável e incontestável nessas afirmações/ negações. Exemplo de afirmação contestável:

Cleópatra é mulher. Cleópatra suicidou-se. Todas as mulheres são suicidas 

As entrevistas devem ser extensas, não que isso significa entrevistar uma personagem durante horas a fio, mas sim,  ter muitas horas de entrevista com as mesmas personagens ou personagens diferentes. O repórter deve ter sempre em mãos parâmetros de negatividade e de afirmatividade, munido de material teórico, documentação e das entrevistas, terá condição de usar as entrevistas de acordo com a estrutura pré-estabelecida na pauta da reportagem. Há várias formas de utilizar as entrevistas: 

a) Aproveitar diversas entrevistas ao longo das páginas construídas.
b) Reproduzir uma longa entrevista com trechos, ora mais aproximado a um subgênero, ora predominantemente classificável sob outro;
c) Aproveitar a entrevista para compor depoimentos coletados na condição de simples aval de um tema que se discute. Para afirmar, negar, contextualizar, contradizer, comparar, ou seja, como uma espécie de citação.
A entrevista é a essência integral de uma reportagem, é a forma de expressão e de representação da ação jornalística. Deve ser dotada de:

1) Individualidade

2) Atualidade

3) Força

4) Expressão

5) Tensão

6) Drama

7) Esclarecimento

8) Explicação

9) Emoção

10) Razão

11) Beleza

12) O que não foi dito

13) O que não foi mostrado

14) O que não foi informado

15) Novidade e atualidade.



O diálogo possível surge na relação entrevistador/entrevistado. Isso acontece devido ao contato humano e porque a pauta é aberta, não há o aprisionamento do lead e nem rigidez do poder de síntese e da objetividade, pelo menos não a objetividade das matérias de jornais. E isso não significa que deve haver subjetividade, muito pelo contrário, subjetividades são condenadas. O poder de síntese resulta na objetividade. O entrevistador, ao catalogar os resultados, não deve abrir mão da objetividade, mas deve ser profundo de forma clara, detalhado e preciso em cada parágrafo, cada imagem. Esse estilo de entrevista faz parte do processo de ampliação da notícia ou de um fato que ainda não virou notícia. É na construção dos diálogos que surgem o inesperado, a novidade, a beleza, a emoção, o drama, o conflito (tensão) etc. É o resultado da relação que se manifesta em forma de grande reportagem que edifica a história de uma personagem, a denúncia ou um confronto político, o perfil de um músico ou o retrato de uma nação. 
Para Lima, a entrevista de compreensão traz um painel de multivozes, e o repórter é apenas um sutil maestro que costura os depoimentos, interliga visões do mundo como tal talento, que parece natural tal arranjo, como se surgisse ali espontaneamente. O repórter necessita de um nível elevado de cultura e intelectualidade para poder comparar, inferir e interpretar determinados momentos de informação (visual, expressiva, motora, corporal, etc) durante as entrevistas. Para se realizar esse estilo de entrevista, o jornalista necessita de:

1) Apreender os fenômenos compreensíveis e incompreensíveis;

2) Observar o comportamento da personagem apreendendo os tiques nervosos, o teor das respostas, a fragilidade das exposições, a dificuldade de resposta, a austeridade, a descontração, o suor, as pálpebras (calmas, irritadas, trêmulas, tímidas, diretivas), os lábios (trêmulos, tranquilos, com tique nervoso, mordidas nos cantos da boca), etc;

3) Sabendo ouvir, o repórter pode mudar o teor da pergunta seguinte, caso contrário, não;

4) Dialogar e estender ao máximo os diálogos possíveis

5) Criar um formato descritivo da personagem, utilizando-se das técnicas da descrição: psicológica, física e comportamental. Nesse exemplo, dar ênfase ao cenário: personagem e entorno são indissociáveis (entorno pertinente);

6) Atingir o máximo de excelência, no domínio da entrevista.
Na entrevista de compreensão, o domínio e alcance das metas/pautas são exemplos de eficácia, estes resultados denotam excelência. Há outros estilos de entrevista que fazem parte da entrevista de compreensão, são os chamados subgêneros:

a) Conceitual;

b) Investigativo;

c) Confrontamento e  ou polemização;

d) Perfil humanizado;

e) Histórias de vida;

f) Entrevistas biográficas

g) Memória;

h) Documentação;

i) Visão pluridimensional simultânea;


Entrevista Conceitual

     Diz-se entrevista conceitual quando os resultados da entrevista apontam conceitos acerca da temática que pauta impõem. Lima exemplifica com o livro-reportagem Cheiro de Goiaba do jornalista colombiano Plinio Apuleyo Mendoza. No diálogo com Gabriel Garcia Marquez, autor do famoso Cem Anos de Solidão, o jornalista explora, com amplitude, o conceito de realidade no romance, pois está diante de uma autoridade literária. Ler trechos da entrevista, p.108. Vale a pena ler, é uma ilustração adequada ao conceito.

Entrevista Investigativa
O subgênero investigativo apóia-se em depoimentos em off que são confrontados com as coletas de dados realizadas em on, mais a pesquisa documental, tudo isso para comprovar a veracidade do que se vai transmitir, mais toda documentação do dossiê. Lima dá o exemplo do jornalista Jonathan Raban, autor que investiga a censura do Egito contemporâneo. Raban primeiro entrevista escritores em off, tendo o cuidado para não identificá-los. Conversa com escritores que conseguem traduzir a realidade política em metáforas, como faziam os compositores na época da Ditadura Militar, no Brasil. Entrevista um dramaturgo, cuja trilogia é camuflada e aprovada pela censura prévia somente para publicação, mas censurada para atuação no palco. Na investigação, o repórter deve ter conhecimento amplo sobre o tema, talento e perspicácia para confrontar distorções e contradições de um sistema político, contrapondo a uma realidade interna uma manipulação e uma conivência no plano externo, diz Lima

Entrevista de confrontação
No gênero confrontação/polemização, o repórter realiza a entrevista por meio de uma mesa redonda, um debate, em que os entrevistados são submetidos a um diálogo direto. Os posicionamentos de cada entrevistado vêm à superfície e são fotografados (capturados, observados, interpretados, traduzidos) pelo entrevistador. Lima exemplifica esse gênero com a obra Direto da selva: as aventuras de um repórter na Amazônia de Klester Cavalcanti que investiga um caso de contrabando de mogno na Amazônia. Ler a entrevista, p. 112.

Entrevista Perfil Humanizado
O perfil humanizado é um gênero que, como diz o nome, humaniza a personagem, traçando um perfil particular e singular ao mesmo tempo. Os resultados podem ser divulgados no formato de entrevista: pergunta e resposta. Exemplo desse gênero de entrevista encontra-se no livro-reportagem Conversas com Llosa de Ricardo Setti. Nesse exemplo, o repórter conduz um diálogo interativo de qualidade com o entrevistado, construindo-lhe um perfil humano, ancorado em alguns eixos:
·         Vida particular: família, sexo, drogas, dinheiro, lazer;
·         Amigos e Inimigos;
·         Escritor e homem;
·         Política e Futebol;
·         Escritor e fama
·         Livro e Ofício.
Na entrevista de compreensão e subgêneros, a pauta deve ser flexível para que o repórter possa abandoná-la, caso necessite. A qualquer momento, o repórter pode entrar numa variante mais empática com o entrevistado. Muitas vezes, a emoção e a descontração fazem surgir a pessoa atrás do mito. O resultado é a descoberta compreensiva do universo, por vezes, misterioso, exuberante e nem sempre comum do ser humano, diz Lima.

Histórias da Vida
          As histórias de vida são realizadas por meio de entrevistas de compreensão e, como resultado, tem-se a reprodução do diálogo entre o entrevistador e o entrevistado. Pode-se na construção do texto, misturar narrativas em primeira e terceira pessoas, conforme citações parciais ou integrais. As entrevistas podem ou não vir acompanhadas da observação participante. 
        Na história de vida, o modelo autobiográfico faz parte do processo de construção da personagem Um exemplo encontra-se no trecho dramático e tenso de John Reed, em que o autor coloca a sua vivência no turbilhão da insurreição mexicana de Madero e Pancho Villa em México Rebelde (1959) esboçando o que seria o potencial futuro, desse modo de captação são produzidas as histórias de vida. Ler exemplo da p. 115.

Entrevistas Biográficas
Nas entrevistas biográficas, o repórter resgata, às vezes, a oralidade de certos atores, contribuindo para a reprodução das idiossincrasias de determinadas culturas para o universo social. Os dados biográficos diferem amplamente do modo como se estabelece uma biografia no universo da história (diacrônica), faz-se necessário que surjam dos diálogos características particulares e ímpares que possam revelar as idiossincrasias do entrevistado. Ler exemplo nos trechos da obra Xingu: uma flecha no coração do jornalista Washington Novaes, cujo discurso resgata a oralidade, perdida no tempo, dos índios.

Observação do Participante
A Observação Participante trata da participação do repórter no ambiente da personagem ou do tema, é uma espécie de narrador-personagem. Surge com o News Journalism e está totalmente ligada à época de efervescência e transformação social, comportamental e artística (teatro, literatura, cinema e mídia). Inúmeros acontecimentos mudaram o mundo: o movimento hippie e o underground (negação ao entretenimento hollywoodiano) a contracultura, a luta pela liberdade sexual, o pacifismo, o naturalismo, o orientalismo, a negação do serviço militar obrigatório e a luta contra o armamento nuclear, entre muitos outros movimentos.
O filme Aconteceu em Woodstock foi baseado numa história real de 1969, o maior festival da época tem início quando o hotel dos pais de Elliot é ameaçado de despejo, então, ele oferece a área para promover um show de rock e arrecadar dinheiro. Só não imaginou as enormes proporções que o festival alcançaria. 
        O News Journalism vai criar uma forma de captação, diz Lima, dentro desses contornos de liberdade sexual e sensitiva, como um modo de acompanhar a revolução pacifista entre aspas, e dar conta do todo dessas mudanças. A realidade é retratada com cor, vivacidade e presença. Isso significa que, o repórter, dentro do gênero observação do participante pode mergulhar e se envolver totalmente aos acontecimentos e às situações.
Os jornalistas tentam viver na pele as circunstâncias e o clima do ambiente das personagens. A observação do participante corresponde ao narrador personagem, necessariamente não se precisa narrar em primeira pessoa.

Memória

       No gênero Memória, o repórter pode resgatar as impressões psicológicas e sociais de uma personagem. Objetiva-se chegar a uma dimensão superior de compreensão tanto dos autores sociais como da própria realidade maior em que se insere a situação examinada. Como diz o nome memória, trata-se de trazer à tona, registrar e publicar as riquezas psicológicas da personagem, e deste, na sociedade. Lima exemplifica com a obra Los mares de México do mexicano David Martin Del Campo que aborda o tema particularizando (processo dedutivo) e humanizando, com toque comovedor, um fragmento da vida de pescadores, recuperado pelo ouvir interessado da comunidade que observou e apreendeu. Ler p. 127.
Documentação

Essa parte é muito importante, sem ela não há dados, não há aprofundamento do conhecimento, não há comprovação. Documentação é a coleta de dados em fontes registradas, como base e auxílio da fundamentação temática. Um jornalista bem informado não passará por tolo ou ingênuo. Como escolher um tema, desenvolvê-lo apenas com a opinião do alter? Este estilo de pesquisa de captação focaliza a “situação” e a “questão” e não o fato isolado. Munido de documentação, a matéria do jornalista, salienta Lima, ganha vigor e poder de sustentação. A coleta de dados traz possibilidades ampliadas de sucesso para os demais instrumentos de captação. 
Lima cita como exemplo a pesquisa documental bastante sólida realizada pelo jornalista Fernando Moraes para a produção de Olga. Moraes recorreu às instituições de seis países, inclusive o Brasil, consultou inúmeros periódicos nacionais e internacionais, coletou dados bibliográficos e tomou depoimentos de vinte personagens vivas. Outros exemplos citados pelo autor foram as obras de Willian Meyers Los creadores da Imagem: segredos de criação publicitária, e o famoso Esta noite a Liberdade de Dominique Lapierre e Larry Collins.
Segundo ele, Meyers reuniu um dossiê documental que conta com uma bibliografia nunca inferior a dez livros, caminhou da psicologia do consumo à ideologia das tendências, dos métodos de aferição de valores às técnicas de marketing. Os dados coletados foram todos direcionados ao mundo da publicidade (tema do livro-reportagem), somou inúmeros depoimentos e realizou pesquisa conceitual.
Lapierre e Collins coletaram dados de modo a somar uma documentação memorável pela extensividade e quantidade: leram 10 mil páginas de arquivos e documentos; 400 obras; seis milímetros de película, mil fotografias, as quais 600 eram inéditas, 800 horas de entrevista. Os autores percorreram mais de 250 mil quilômetros.

Visão pluridimensional e simultânea
No exercício da captação do fenômeno cria-se uma ponte para que o “eu” que observa saiba mais do que o fenômeno observado. Nesse gênero, o livro-reportagem ensaia introduzir em seu enfoque uma lente que passa a observar a realidade na dimensão ampliada, perceptível através da ciência moderna. São monólogos interiores que surgem como resultado dessas entrevistas de visão plural e simultânea. Manifesta-se por meio do ponto de vista autobiográfico em 3º pessoa. Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Virgínia Woolf e Simone de Beauvoir são alguns exemplos de escrita literária que traz como condução o fluxo de consciência.


 O observador (narrador onisciente) entrevista as personagens de modo a retirar delas o que vai internamente: pensamentos e emoções e tudo o mais que conseguir. O resultado são os monólogos interiores das personagens. Cesário Verde, poeta luso da modernidade lisboeta, escreve O Sentimento de um Ocidental, poema em que dialoga, de luneta, com o fenômeno que observa. Escreve em primeira pessoa sobre as impressões que a cidade malfadada e inebriante de Lisboa causa-lhe, enquanto àquele que observa, àquele que não pertence à cidade, pois está fora dela para apreendê-la e evidenciá-la. 

FONTE:
http://literacomunicq.blogspot.com.br/2015/02/captacao-da-entrevista-de-compreensao.html