domingo, 18 de setembro de 2011

Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência

Dia 21 de setembro chegou de novo e a história ainda é a mesma... 

Árvore da vida - Pessoas com deficiência protagonistas de suas histórias

Conversa franca entre os “dinossauros” da inclusão e os “super-jovens” do século XXI.

Por Leandra Migotto Certeza.

Quando eu nasci, em 1977, muitas mudas já tinham sido plantadas em solos afofados por mãos calejadas. Todas regadas com suor e lágrimas: de dores e alegrias. No solo, muitas sementes preciosas, que não chegaram a germinar, alimentaram com encorpados nutrientes, as fortes raízes de pequenas árvores que começavam a crescer. Depois vieram as folhas. Uma a uma brotando. Tudo só foi possível, graças à luz do sol, ao frescor das águas, a leveza da brisa, a força das chuvas, e principalmente, ao olhar atendo de poucos, mas fortes mulheres e homens de coragem. Cada um doou um pedacinho de sua alma àquelas mudinhas cheias de determinação em viver e mostrar ao mundo a transformação de sonhos em realizações, que nascem da união entre seres humanos.

Mãos, braços, mentes, próteses, pés, corações. Pernas, rodas, olhos, órteses, ouvidos, muletas, sentimentos. Idéias, aparelhos, bengalas, cães-guia, ações. Todos juntos cultivaram as mudas, acompanharam o crescimento de cada caule, de cada galho, de cada folha. Os guerreiros e saudosos amigos com deficiência: Rui Bianchi do Nascimento, Sérgio Cunha Lisbôa, Maria de Lurdes Guarda, Araci Nallin, Maria Neide de Palma, Sérgio Del Grande e muitos outrosde igual importância, viveram cada dia para plantar árvores da inclusão, da cidadania, da autonomia, da independência, da tolerância, da diversidade, da fraternidade, do amor, da solidariedade, da união, da gratidão, da persistência, da fé, e da PAZ.

Os queridos amigos com deficiência: Messias Barbosa, Maria Amélia Galan, Gilberto Frachetta, Ana Rita de Paula, Elza Ambrózio, Suely Satow, Claudia Sofia Pereira, Doralice Simões, Francisca das Chagas Felix de Sousa, Lia Crespo, Flavia de Paiva Vital, Elisabete Araki, Tuca Munhoz, Francilene Rodrigues, Galeno Silva, Pérola Ventura, Sidney Tobias de Souza, Salete Fernandes, Juovelina Nunes, João Bentin, Marco Antonio Pellegrini, Izabel Maior,e muitos outros de igual importância, vivem hoje para polinizar cada semente de inclusão plantada por seus amigos. Hoje, eu e muitas outras pessoas com deficiência; começaram a sentir o perfume de suas flores, mas só nossos filhos, sobrinhos, primos, netos, e bisnetos colherão seus primeiros frutos.

Para manter as árvores da inclusão vivas é preciso cultivá-las e preservá-las sempre. Afofar o solo, cortar as ervas daminhas, matar os parasitas, regar, adubar, tirar as folhas mortas. E deixar o solo, a chuva, e o vento agirem na medida certa do amanhecer ao anoitecer. É uma intensa e eterna vigília. É uma ação que requer muita perseverança, tenacidade, esperança, força de vontade, determinação, e principalmente, fé em abundância.

Quando vemos garotos e garotas, jovens e crianças com deficiência, que vestiram a camisa da inclusão pela primeira vez - mas já abraçaram os troncos dessas árvores com tanta garra - creio que devemos sentir muita alegria em saber que as sombras frondosas das antigas inspiraram o plantio de novas mudas. Mas é preciso urgentemente que esses meninos e meninas com deficiência, NUNCA se esqueçam da floresta que seus antepassados plantaram.
Cada árvore tem uma história, uma raiz, uma idade, uma trajetória. Deve-se sempre ouvir - atentamente e respeitosamente - o que estes antepassados têm a dizer sobre as batalhas que enfrentaram pela inclusão, pois muitas guerras ainda precisarão ser vencidas. Cada folhinha nova revigora essa floresta, mas sem raízes que as sustentem com firmeza, nenhuma flor nascerá mais e nenhum fruto surgirá mais. Os jovens guerreiros da inclusão têm a obrigação de aprender as lições com quem deixou suas marcas de sangue pelas estradas da diversidade.   

Os movimentos sociais - protagonizados por pessoas com deficiência- que se articularam mais a partir do Ano Internacional das Pessoas com Deficiência, em 1981, como: o CPSP – Clube dos Paraplégicos de São Paulo, ADEVA – Associação de Deficientes Visuais e Amigos, FCD – Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes, o NID – Núcleo de Integração do Deficiente, MDPD – Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes, ONEDEF - Organização Nacional de Entidades de Deficientes Físicos, FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos, APCB – Associação de Paralisia Cerebral do Brasil, CVI – Centros de Vida Independente, Conselho Estadual para Assuntos da Pessoa Deficiente, Conselho Municipal da Pessoa Deficiente, entre outros de igual importância, foram os principais responsáveis por mudanças significativas na história mundial e nacional.

Muitas batalhas foram travadas, barreiras transpostas e dificuldades vencidas para que hoje; os jovens com deficiência (adquiridas ou não), seja de qual for sua classe social, idade, gênero, etnia, opção sexual ou nacionalidade possam usufruir os vários direitos conquistados. Os jovens de hoje têm o dever de conhecer a única história desses movimentos sociais contadas somente pelas bocas dos “dinossauros” da inclusão. Pois, muitos deles nem eram nascidos, ou eram crianças de colo, quando as primeiras mudas destas árvores foram plantadas. Estes jovens não têm o direito de renegar o verdadeiro e único passado de suas vidas! Só poderão continuar plantando essas árvores em solos férteis adubados pelos seus antepassados. Mudas em solos áridos não vingam.

É claro que muitas mudanças precisam surgir, discussões devem ser travadas, novidades devem ser testadas e outras vozes devem ser ouvidas. O rio segue seu curso, mas a paisagem muda com o passar dos tempos. A evolução é inevitável e muito benéfica, desde que beba na fonte daqueles que abriram suas margens com suor e lágrimas. Revolucionar é fundamental. Quebrar com estruturas arcaicas também. Nada é imutável. Ninguém é perfeito. Nenhuma idéia é universal e inquestionável. Os valores do amor, paz, cidadania, autonomia, independência, liberdade, e  fraternidade podem vestir novas roupas, desde que NUNCA percam suas essências.     

Creio que os “super-jovens” do século XXI precisam aprender as diferenças básicas e fundamentais entre: políticas públicas e projetos isolados; integração e inclusão; manifestação política popular e eventos privados ou do terceiro setor; acessibilidade e desenho universal; pessoas com deficiência física e pessoas com deficiências em geral; associações e órgãos públicos; assistência social e direitos sociais; assistencialismo e empoderamento; entre outras. Também precisam conhecer o significado de conceitos básicos e fundamentais como: democracia, políticas afirmativas, movimento social, sociedade civil organizada, discriminação, desigualdade social, preconceito, entre outros. Além de saberem como realmente funcionam os poderes e serviços públicos, as leis, e ações relativas às pessoas com deficiência, antes de falarem aos quatro cantos, em nome de mais 14,5% da população brasileira e 10% da mundial.

E também creio que cabe aos “dinossauros” da inclusão muitaHUMILDADE, paciência, lucidez, tranqüilidade, flexibilidade, espírito de equipe, abertura ao novo, jogo de cintura, e diplomacia para ouvir com muita atenção o que a nova geração tem a dizer. Dar bronca quando preciso, e corrigir duramente os erros por eles cometidos, mas nunca se colocarem em cima de pedestais, desejando serem glorificados e reverenciados. O isolamento dos grupos que se dizem donos da verdade, com certeza absoluta, também não leva a lugar algum, a não ser a um retrocesso no processo de inclusão duramente conquistado.   

Os conflitos só são saudáveis quando os dois lados têm igual número de argumentos. Ninguém deve ser simplesmente ignorado por ser jovem, assim como ninguém deve ser duramente pisoteado por ser velho. Todos vivenciam experiências enriquecedoras que somente trocadas, compartilhadas, multiplicadas, somadas, misturadas, dividias, dialogadas, e discutidas ganharão força para continuarem plantando muitas outras árvores da inclusão, tão necessárias quando as que fazem parte da atual floresta da DIVERSIDADE!        
  

“Ilusões do amanhã”

“Por que eu vivo procurando um motivo de viver,
Se a vida às vezes, parece de mim esquecer
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja para você
Mas às vezes você parece me ignorar sem nem ao menos me olhar
Machucando-me pra valer
Atrás dos meus sonhos eu vou correr,
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente para cada um o meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito
Quando estou só, penso na minha solidão,
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão

Juro que às vezes, nem ao menos sei quem sou.
Talvez eu seja um tolo, que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo, ainda tem jeito,
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que ainda acredita no amor”.

O autor desse poema é Alexandre Lemos – o príncipe sonhador. Ele era aluno da APAE – Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais do Rio de Janeiro, e tinha na época 28 anos. O texto foi publicado na Revista “Cartas Abertas”, número 31 de julho/agosto/setembro de 2003, criada pela FCD – Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes. 


“Caminhada”

“É preciso caminharmos juntos,
É preciso acreditar sem medo,
Buscar o amor mesmo sob as guerras do pranto;
É preciso acreditar na esperança
Tentar até a última gota
Persistir contra o limite
É preciso se dar as mãos, e fazer-se forte na luta pela vida
Não importa o poço que se faz presente
A fé é bem mais importante
É preciso gritar por um mundo mais justo
Esqueça sua cor, sua religião, seu orgulho, sua dor
O amor é bem mais importante
É preciso evitar a lágrima do amigo
Para que a nossa não seja esquecida
É preciso um amigo para não estar sozinho
E assim se conseguirá
Porque já se reuniram forças
É preciso caminhar juntos
Acredite...”

Antonio Reis Sobrinho, autor deste poema é de Feira de Santana - BA e faz parte da FCD – Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes. O texto foi publicado na publicação da FCD, a Revista “Cartas Abertas”, número 63 de 1989.    

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Religião acessível

Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32687

Catedral do Rio de Janeiro celebrará missa com recursos de acessibilidade

Blog da Audiodescrição
Rio de Janeiro - RJ, 12/09/2011

Celebração da Santa Missa com recursos de acessibilidade

Deborah Prates

Há católicos que não frequentam a nossa Igreja por simples razões a saber: os cadeirantes informam que as suas cadeiras de rodas não passam pelos espaços garantidos à circulação. Os cegos reclamam que não conseguem ter o global entendimento dos fatos que acontecem na Missa. Os Surdos e surdocegos também não têm como participar prazerosamente dos encontros nas Igrejas em geral. Até para os idosos têm reclamações quanto a mobilidade, audição e visão nas cerimônias. Hão, outrossim que igualmente ser computados como excluídos das cerimônias as pessoas com deficiência intelectual, idosos e disléxicos.

Diante dessa breve explanação e por serem os católicos 57% (censo demográfico 2000) da população é que cumprirá ao nosso admirado e estimado "D. ORANI" celebrar a PRIMEIRA SANTA MISSA TOTALMENTE ACESSÍVEL NA nossa "CATEDRAL". Sem titubeios foi que "D. ORANI" disse SIM ao ouvir a solicitação e marcou a cerimônia para o DIA 23/SETEMBRO/2011, ÀS 10:00H., NA "CATEDRAL".

De forma concisa, a AUDIODESCRIÇÃO é a TRANSFORMAÇÃO DAS IMAGENS EM PALAVRAS. Com esse importante recurso de acessibilidade o cego pode, verdadeiramente, sentir-se INCLUÍDO no contexto dos acontecimentos ao mesmo tempo que as pessoas SEM deficiência visual. Vale frisar que a audiodescrição amplia também o entendimento de pessoas com deficiência intelectual, idosos e disléxicos.

A presença de intépretes de LIBRAS também se faz obrigatório com os demais recursos, a fim de que as pessoas surdas também usufruam igual direito as INFORMAÇÕES em condições de IGUALDADE com todos os demais.

Algumas providências bem mais simples hão que ser tomadas, de modo a beneficiar o trânsito/acesso/circulação das pessoas com mobilidade reduzida, tais como os cadeirantes, usuários de bengalas, de muletas e outros meios de locomoção. Para tanto hão que ser redimensionados os espaçamentos entre os bancos, bem como deverão ser observadas se as rampas de acesso permitem a esse seguimento uma afluência confortável, sem constrangimentos/impedimentos. Por mais esse contexto é que foi escolhida a "CATEDRAL", vez ser uma Igreja de construção moderna, o que facilita o conforto nesses aspectos.

Algumas Instituições estão apoiando a iniciativa, pelo que a sua participação será imprescindível na inteiração da semana da conscientização da sociedade na "LUTA DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA". Pedimos a divulgação dessa iniciativa de amor e solidariedade. Convide o seu vizinho, amigo, colega de trabalho, ...

Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro

Quando: 23 de setembro de 2011
Horário: 10:00h
Endereço: Avenida Chile 245, Centro - Rio de Janeiro, RJ
Informações: (021) 2240-2669 ou 2262-1797

Ela vai dançar sim!

Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32682

“Não mudaria nada em Beatriz”, diz Lindbergh Farias, sobre a filha Down

Época
Rio de Janeiro - RJ, 12/09/2011

Senador do Rio de Janeiro fala da experiência de ser pai de uma menina com Síndrome de Down

Isabel Clemente

O jeito expansivo lembra o líder estudantil dos cara-pintada, os jovens que saíram às ruas pedindo o impeachment do presidente Fernando Collor em 1992. Mas quem fala agora é o senador e pai de família Lindbergh Farias (PT-RJ), 41 anos, casado há 17 com Maria Antonia, união que resultou em Luiz (15) e Beatriz (1 ano e 2 meses). “A gente já pensa em outro filho, e só de pensar o clima fica maravilhoso”, diz Lindbergh, rindo, gesticulando, animado.

Beatriz nasceu em junho de 2010, pouco antes do início da campanha eleitoral que faria de Lindbergh o senador mais votado do Rio de Janeiro, com 4,2 milhões de votos. Beatriz, pequena demais, apareceu no colo do pai, ao lado do irmão e da mãe, no momento “esta é minha família” da propaganda eleitoral na TV. Baixa o pano. Nada mais foi dito. O que ninguém viu, e nem todo mundo soube depois, é que Beatriz é diferente. Tem Síndrome de Down. Pai e mãe foram informados depois do parto. Descobriram o universo das pessoas com deficiência e suas necessidades especiais. Entraram de cabeça nele. “Eu já abracei muitas causas na minha vida, mas esta causa me abraçou”, diz Lindbergh.

A probabilidade de nascer um bebê com Síndrome de Down é de um para 600 nascidos vivos. A chance aumenta com a idade dos pais, mas pode acontecer em qualquer família, em gestações de mulheres de qualquer idade e raça. A Síndrome de Down é um acidente genético. Todo ser humano tem 23 pares de cromossomos. O portador da Síndrome tem um cromossomo a mais ligado ao par 21. “Não existem graus de Síndrome de Down e as diferenças de desenvolvimento decorrem de fatores individuais, como carga genética, educação e meio ambiente”, diz o texto explicativo do site Fundação Síndrome de Down, uma boa referência para quem quer saber mais sobre o tema. As crianças com a Síndrome apresentam atrasos no desenvolvimento motor e na fala.

A filha de Lindbergh está com 1 ano e 2 meses. Fica de pé e ensaia os primeiros passos. O senador saca o celular e mostra o vídeo da neném. Aparece uma menininha de cabelos lisinhos, franja e perninha grossa se apoiando numa cadeira. Depois de uns instantes, ele cai sentadinha. Sem tirar os olhos da telinha, ele me pergunta:“Não é uma gostosa? Olha, é uma paixão en-lou-que-ce-do-ra. Ela sai do colo de qualquer um para o meu. Até da mãe! É um prestígio!!”.

Dia desses, num avião ao lado da presidente Dilma Rousseff, Lindbergh fez a mesma coisa. Mostrou fotos de Beatriz e viu fotos de Gabriel, o neto da presidente. “Você sabia que a presidente também conhece a Galinha Pintadinha!?”, diz, às gargalhadas, revelando o sotaque paraibano no “pintadinha”. “A gente com filhos vive num mundo paralelo. Eu quero sair na rua com Beatriz atrás dos cachorros. Conheço todos da vizinhança, tem o Luigi…tem o…”, diz, se divertindo com a própria história. “Tem coisa mais simples e feliz do que isso?”

A entrevista é interrompida porque há novidades no Plenário, um assessor avisa. É quarta-feira, dia que quase tudo acontece no Congresso. O senador pede licença. Precisa votar, mas promete retornar ao gabinete. Está disposto a falar mais da família. Lindbergh é daqueles que atribuem aos filhos o dom de tornar os pais pessoas melhores, “mais sensíveis”. Faz troça de si mesmo. Desanda a contar cenas domésticas corriqueiras.

“Noite dessas, eu estava tomando cerveja com um grande amigo, falávamos de família e tal. Lá pelas tantas eu viro para ele, já quase com um certo ar de superioridade, e tasco um ‘mas sua filha é normaaaal!’, diz, elevando o tom de voz, antes de rir de si mesmo com a onda que tirou. “É que Beatriz é maravilhosa”.

Lindbergh volta do Plenário, como prometido. A conversa segue. Sobre as dificuldades de lidar com uma criança especial, ele para pra pensar e diz o seguinte: “Eu sou tão feliz com ela. Ela é tão maravilhosa. Eu não queria um detalhe diferente em Beatriz”. E, para deixar claro que não está encarando tudo como um problemão, revela que sua maior preocupação são os outros.

O inferno são os outros

“Tem deficiências e deficiências”, diz Lindbergh, propositadamente evitando enveredar pelas dificuldades maiores que muitas famílias enfrentam, conforme revelam esses dois posts antigos aqui do blog. “O Down tem muitas alegrias, grandes conquistas. Às vezes, os de fora olham de um jeito que não é o mesmo jeito de quem vive de perto. Você fica preocupado com o preconceito, claro. Vai ter a escola…Como vai ser na escola? A gente não quer que nosso filho sofra”, diz, sério, pensativo. “Mas vai rolar, ela vai ter que enfrentar, e nós também”.

Lindbergh parece lembrar de algo mais, antes de mudarmos de assunto. “No início, é sempre mais difícil. Teve uma coisa que um geneticista me disse…”. Ele se cala de repente. “Ele disse assim ’ninguém vai chamar tua filha para dançar’”. A voz faltou em algum trecho da frase. Com os olhos vermelhos e marejados, ele tenta prosseguir. “Eu desabei…eu desabei. Como assim ninguém vai chamar minha filha para dançar!?” Num esforço para se recuperar da emoção, ensaia continuar. “Desculpe, é bobeira minha…”
Silêncio no gabinete.

Beatriz, como outras crianças com a Síndrome, irá conviver com iguais e diferentes. Perceberá com o tempo as próprias limitações e aprenderá a lidar com elas. Ela vai dançar sim, remenda o pai. “Vai ter a festa das crianças e dos adolescentes como ela, vai ter festa com outros. Ela vai dançar. Vai freqüentar esses dois grupos. Maria Antonia diz que ela será independente, que vai morar sozinha!!”, diz Lindbergh, com o sorriso fácil de novo no rosto. 

Um dos mais graves erros de conduta com as pessoas Down, num passado não muito distante, era encará-las como doentes. A Síndrome de Down não é doença, mas muita gente não sabe disso. Por ser uma alteração genética, não tem cura. Hoje, o grande equívoco é infantilizar essas pessoas. Tratá-las eternamente como crianças, alertam os especialistas, o que só faz reduzir suas potencialidades. Essas crianças podem e devem estudar. Quando adultos, terão direito ao trabalho e poderão ter um relacionamento afetivo e vida sexual. Precisam, portanto, de educação e informação.

Como presidente da subcomissão permanente de Assuntos Sociais da Pessoas com Deficiência, Lindbergh decidiu buscar soluções para entraves corriqueiros e sérios na vida dos brasileiros necessitados de assistência especial. Em vez de brigar por uma lei e enveredar por complicadas negociações, ele resolveu bater na porta do Palácio do Planalto e convidar a presidente Dilma a comprar a briga. “Muita coisa pode ser resolvida com decretos presidenciais, portarias ministeriais e outros atos legais menos complicados”, disse.

No mesmo dia em que tomou posse na Casa Civil, a ministra Gleisi Hoffman chamou o senador para conversar. Foi encarregada pela presidente da República de tomar conta do assunto.Voaram ofícios do senador para a presidência, e para 11 ministérios. Seguiram-se reuniões e negociações. Esse trabalho-formiga está dando forma a um grande programa a ser anunciado por Dilma Rousseff no dia 21 de setembro. Trata-se de um conjunto de ações que vão da obrigação de incluir o diagnóstico precoce de autismo e Síndrome de Down no protocolo médico de atendimento aos recém-nascidos até a criação de um regime especial de aposentadoria para os trabalhadores com Down. A expectativa de vida dessas pessoas gira em torno de 43 anos. Não faz sentido exigir delas 30 anos de contribuição com o INSS como os demais, para ter o mesmo direito à aposentadoria.

Outras histórias

Políticos são procurados por pessoas em busca de soluções para os problemas mais diversos. Foi assim que Lindbergh conheceu Fausto, um rapaz carioca autista que havia sido aprovado na prova de habilidade específica de Música para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas foi reprovado no Enem. Fausto estava frequentando as aulas como ouvinte, até uma reunião entre o reitor, Lindbergh e os pais do candidato a aluno. Agora, ele estuda oficialmente e poderá se formar. “Olha que sensacional. A gente fica aqui no Congresso pensando em grandes projetos, e de repente tem essas pequenas vitórias que fazem toda a diferença na nossa vida”. O mais engraçado, conta Lindbergh, foi a sinceridade do rapaz. “No primeiro encontro ele foi logo me avisando ‘ó, não votei em você não. Votei no Cesar Maia!”.

No último domingo, o senador Lindbergh Farias embarcou para Nova York. Com a deputada federal Rosinha da Adefal (PTdoB/AL), uma das cadeirantes eleitas em 2010, ele integra a delegação brasileira da Conferência dos Direitos da Pessoa com Deficiência, das Nações Unidas.
Dados preliminares do Censo 2010 indicam que o contingente de brasileiros com deficiência aumentou em pelo menos 3 milhões de pessoas, estatística inflada cada vez mais por vítimas de acidentes de trânsito. Se esse dado se confirmar, há 28 milhões de brasileiros convivendo com deficiências. O maior problema desse grupo não são as próprias limitações, mas a falta de estrutura no país para exercerem a própria autonomia.

Deixo com vocês um vídeo do Ariel e suas “dicas de cidadania”. Esse vídeo é um trabalho da Oscip Vez da Voz, que se propõe a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência. É um recado, curto, bonito e necessário. Divulguem. As nossas diferenças fazem do mundo um lugar mais interessante.

Inclusão escolar é possível


Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32689

Para incluir deficiente auditivo, escola do RS alfabetiza em libras

G1
Rio Grande do Sul, 12/09/2011

Aluno não se adaptou a aulas especiais e voltou para a escola do bairro. Professora da rede municipal do RS cursou libras para ensinar a turma

Ana Carolina Moreno

Os 19 alunos de uma turma do 1º ano do Fundamental no Rio Grande do Sul estão sendo alfabetizados em duas línguas: português e libras, a linguagem brasileira de sinais. Em nome da inclusão de um dos alunos, que desenvolveu surdez profunda depois de contrair meningite quando era bebê, o colégio desenvolveu uma parceria inovadora. E o resultado vem beneficiando toda a classe.

Filho de ex-alunos da Escola Municipal Professor Gilberto Jorge Gonçalves da Silva, na periferia de Porto Alegre, o garoto, hoje com oito anos, estudou lá desde o jardim de infância, mas foi transferido para um colégio especial para surdos ao iniciar o ciclo de alfabetização, em 2010.
Como não se adaptou à nova rotina e à longa distância entre a casa e a escola, a mãe do aluno decidiu fazer uma campanha para rematricular a criança no colégio do bairro.

A campanha deu certo. O menino voltou à antiga escola. Para recebê-lo, a orientadora educacional da instituição, Suzana Moreira Pacheco, criou um sistema de parceria com a escola especial para surdos Salomão Watnick, também da rede municipal. Desde agosto do ano passado, um estagiário foi contratado para servir de intérprete.

Três vezes por semana, o garoto frequenta a escola regular, onde a professora Valéria Cé Guerisoli guia a turma de 19 crianças na alfabetização com letras e sinais.
Nos outros dias, ele participa de atividades na escola especial, onde pode interagir com outras crianças surdas.

Segundo Suzana, a Prefeitura de Porto Alegre mantém a escola dedicada a atender às necessidades das crianças com deficiência auditiva. Mas, como não houve adaptação nesse caso, foi desenhada uma "organização que funciona para o aluno". Ela afirmou que "entre o ideal e o possível existe um intervalo, mas muita coisa dá pra fazer".

Benefícios 

Aos 40 anos e com 17 de carreira no ensino público, Valéria conta que frequentou um curso de libras durante um ano, já sabendo que poderia receber o garoto em sua turma. Segundo ela, aprender a linguagem de sinais não é só um conhecimento a mais para os alunos.
"Ela contribui para todos. Aquela criança que estava levando mais dificuldade para reconhecer a letra C, por exemplo, quando eu faço o uso do sinal com a mão ela começa a sentir mais facilidade", explicou.

A aprendizagem dos números também fica mais fácil, segundo Valéria. "Eles não sabem escrever '34', porque não associam o 'tri' de 'trinta' ao 'tre' de 'três', mas em libras eles sabem contar."
A professora afirmou que as crianças veem a linguagem de sinais "como um brincar, é quase um jogo de mímica". Elas inventaram sinais que correspondem ao nome de cada uma e, às vezes, querem até inventar novos sinais, quando não sabem se referir a algo.

Inclusão 

A escola Gilberto Jorge Gonçalves já vivenciou outras experiências de inclusão. "Temos alunos autistas, cada um é de um jeito completamente diferente", explicou Valéria, que se lembra de uma turma com até seis crianças portadoras de algum tipo de deficiência.

A diversidade nas salas de aulas incentivou a tolerância e o convívio pacífico entre os alunos. Certa vez, contou a professora, um colega emprestou sua cola para o aluno surdo, mas ele se esqueceu de devolvê-la. Em vez de se irritar ou tomar o objeto à força, o colega buscou Valéria para aprender o sinal que deveria usar na conversa com o amigo. "Isso é muito natural para mim, para os outros professores e para os alunos da escola", disse ela.

Aumento de alunos com deficiência matriculados

Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32694

Frequência escolar de crianças com deficiência triplica em três anos

Pantanal News
12/09/2011

Acompanhamento dos alunos que recebem Benefício de Prestação Continuada incentiva frequência

da Redação

O acompanhamento das crianças com deficiência, beneficiárias do Benefício de Prestação Continuada da Assistência Social, resultou num aumento de três vezes na frequência escolar: o índice de presença desses jovens passou de 21% para 53% entre 2007 e 2010. Há quatro anos, dos 375, 3 mil beneficiários, 78 mil estudavam. Em 2010, essa proporção saltou para 229 mil em 435,9 mil beneficiários nessa faixa etária.

A experiência brasileira, existente em 2.622 municípios, será apresentada em um debate promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nesta quinta-feira, 8 de setembro, nos Estados Unidos. Na 4ª Conferência das Nações Unidas sobre Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência, o programa do Brasil servirá de exemplo a ser seguido por países em desenvolvimento que queiram adotar o modelo brasileiro.

Parceria entre os ministérios do Desenvolvimento Social, da Educação, da Saúde e a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, o BPC na Escola desenvolve ações que estimulam a matrícula, na rede de ensino, de estudantes de até 18 anos.

Falando em nome do MDS, a diretora da Secretaria Nacional de Assistência Social, Maria José de Freitas, explicará como funciona o BPC na Escola. “O BPC na Escola foi escolhido como uma das experiências de sucesso do Brasil por aportar melhor qualidade de vida a esse público, criando mais oportunidades de inserção escolar e junto às demais políticas”, garante a diretora.

BPC – Garantido pela Constituição, o BPC equivale ao pagamento mensal de um salário mínimo a idosos a partir de 65 anos e a pessoas com deficiência. Atualmente, mais de 3,7 milhões de pessoas recebem o benefício, incluindo crianças e adolescentes.

Pedagogia ao alcance de todas e todos

Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32685


Educação Inclusiva é tema de estudo do curso de Pedagogia Unesp/Univesp

Unesp
12/09/2011

Aula inaugural contou com entrevista, ao vivo, da professora autora, pela Univesp TV

Pamela Bianca Gouveia

Estudantes do curso semipresencial de Pedagogia, oferecido pela Unesp no projeto Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) começaram, em 22 de agosto, os estudos do Eixo Articulador: Educação Inclusiva e Especial. A proposta dessas aulas, que serão intercaladas entre as disciplinas do currículo base, é oferecer instrumentos de análise das políticas e práticas de inclusão escolar de pessoas com deficiência.

O material foi elaborado pela professora Elisa Tomoe Moriya Schlünzen em conjunto com as assistentes Renata Rinaldi e Danielle Santos, todas do Câmpus de Presidente Prudente. A temática será dividida em cinco partes, com um total de 120 horas.

Na primeira aula, os estudantes assistiram a uma entrevista ao vivo com a professora Elisa, no estúdio da Univesp TV – canal digital (2.2) da multiprogramação da TV Cultura, e participaram com o envio de perguntas pela internet. O vídeo também está disponível no Acervo Digital da Unesp, no link:http://www.acervodigital.unesp.br/handle/123456789/40184

Durante as aulas de todo o Eixo Articulador, os alunos - que são professores em exercício na Educação Básica, serão instigados a realizar atividades e estudos sobre as ações práticas e pedagógicas da classe comum, refletir sobre o apoio do Atendimento Educacional Especializado (AEE). “Ao final deste Eixo, esperamos criar um espaço de análise da própria atuação profissional. Eles serão levados a analisar as práticas e os recursos que podem ser utilizados para uma perspectiva de escola inclusiva - como a promoção de atividades escolares que desenvolvam as habilidades de todos os alunos, incluindo as pessoas com deficiência”, afirma Elisa.

Dentre os principais temas que serão abordados, estão: política de educação inclusiva e adaptações curriculares; trabalho com projetos e apresentação de tecnologia assistiva e objetos educacionais; tecnologias educacionais digitais para o trabalho com conteúdos específicos e planos de Ensino e Projetos - para articulação dos diferentes conteúdos das metodologias de ensino.

Sobre o Projeto Unesp/Univesp

O programa da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) surge com a proposta de ampliar as chances de acesso à educação pública superior, oferecidas à população do Estado de São Paulo. No âmbito da Univesp, a Unesp oferece o curso semipresencial de Pedagogia, cujo objetivo é oferecer formação em nível superior para professores em exercício na Educação Básica, preferencialmente na rede pública de ensino. Este é o primeiro curso de graduação a distância oferecido pela Universidade.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Vivo intensamente com o meu corpo do jeito que ele é




Descrição das imagens: foto minha com o Marcos na praia nos beijando na boca em 2009, e outra foto quando posei para um lindo ensaio sensual de Vera Albuquerque. 

AMO ser uma LINDA baleia pequena!


BALEIA OU SEREIA?

por Gabi no facebook


Ontem vi um outdoor da Runner, com a foto de uma moça de biquíni e a frase:


"Neste verão, qual você quer ser? Sereia ou Baleia?


"Respondo:Baleias sempre estão cercadas de amigos.
Baleias têm vida sexual ativa, engravidam e têm filhotinhos fofos.
Baleias amamentam. 
Baleias nadam por aí, singrando os mares e conhecendo lugares legais como as banquisas de gelo da Antártida e os recifes de coral da Polinésia.
Baleias têm amigos golfinhos. 
Baleias comem camarão à beça.
Baleias esguicham água e brincam muito. 
Baleias cantam muito bem e têm até CDs gravados.
Baleias são enormes e quase não têm predadores naturais. 
Baleias são lindas e amadas.
Sereias não existem.
Se existissem viveriam em crise existencial:"Sou um peixe ou um ser humano?"


Runner, querida, prefiro ser baleia !
Garotas Reais Não São Perfeitas
Garotas Perfeitas Não São Reais

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sem torcer o nariz!


Hoje é o dia das alegrias com os amigo do peito. Primeiro o Zé Roberto e agora o Alex. 

Maravilhoso ler esta crônica do meu querido amigo-primo (torto porque eu empresto ele do meu primo rsrsrs). Alex foi um dos poucos caras que não torcia o nariz quando me acompanhava ao cinema junto com o meu amado 'priminho'. Explico a cena: eles têm provavelmente quase 2 metros e eu 96 centímetros (de puro convencimento rsrsrs)!!!


Esse menino doce (carinhosamente chamado por mim assim porque sou 'chata' mesmo com quem gosto e gosta de mim), é um ótimo profissional, escreve bem pra caramba, e ainda tem um coração de ouro e uma paciência de Jó para cuidar do lindo Lar dos Cães, deixado por seu pai de herança (que presente... rsrs). 

Quanta saudade dos nossos encontros.. Graças à ele e os amigos legais dos meus primos Dadu e Sil, tive uma adolescência um pouco mais tranquila. Aprendi a dar bananas aos garotos idiotas preconceituosos que viravam o rosto para não me beijar.  

Espero que conviver comigo um pouco tenha sido legal também para o Alex pensar sobre a diversidade da vida. 

Continuem assim querido Alex: inteligente e com um humor incrível! Beijos, Lê


Prova de obstáculos

Item emprestado: um par de muletas; Linha do tempo: só esta semana

Comentário SACI: Alex Xavier tem 36 anos, vive em São Paulo, “está” jornalista e trabalhou na Rede SACI em 2003.

Alex Xavier

Ironias do destino: logo após publicar o post anterior, sobre caminhadas, torci o tornozelo e fui obrigado a imobilizar o pé. Até ontem, estava de muletas ou dando pulinhos em uma perna só. Eu deveria ter sossegado o facho em casa, aproveitando que me dei folga por uma semana (é bom ser meu próprio chefe). Mas não consegui ficar parado. Nos últimos dias, tropecei em desníveis, trombei em postes e caí em buracos em agradáveis passeios pelas caóticas ruas de São Paulo.

Uma hora ou outra, todos nós seremos pessoas com mobilidade reduzida. Seja porque engessamos o pé, estamos carregando malas ou, simplesmente, envelhecemos e não temos mais a agilidade da juventude. Acessibilidade deveria ser uma questão de toda a sociedade e não apenas de deficientes físicos. Tomei consciência disso em 2003, quando voltei ao Brasil após um ano sabático na Europa e tive dificuldade de encontrar emprego em redações (muita gente sendo demitida na época e eu querendo entrar…).

Fui atuar como jornalista, a convite da socióloga Marta Gil, na Rede SACI, um projeto da Universidade de São Paulo que trabalha com divulgação de informações sobre deficiência e acessibilidade. Além de atualizar o portal com notícias sobre o tema, a gente produzia reportagens e entrevistas e participava de encontros e congressos. O mais bacana é que a página investe em inclusão e possui ferramentas para que todos a acessem, mesmo deficientes visuais ou auditivos.

Eu adorava o ambiente de lá, bem jovial. Foi uma oportunidade de experimentar a vida no campus. Já que não passei na Fuvest quando prestei e a Fiam, onde cursei, tinha um prédio com jeitão de colégio, aqueles meses saciaram minha curiosidade acadêmica. Principalmente, no que diz respeito à alimentação, almoçando no bandeijão, no dogão ou na lanchonete do teatro, nas imediações da Praça do Relógio, onde ficava o nosso escritório. Também foi lá que conheci histórias de pessoas que não colocavam sua deficiência como desculpa para abandonar seus sonhos.

Não sou uma pessoa otimista. E até gosto disso, pois não conto com a vitória antes da hora. Sou bastante racional e tenho consciência de tudo que pode dar errado. Sinto até medo de falhar. Agora, nada disso me impede de tentar. Acho que aprendi a não desistir fácil diante de dificuldades. Às vezes, surpreendo-me com a forma como enfrento algumas situações bastante complicadas mantendo o bom humor. E aquela temporada “uspiana” de 2003 tem certo mérito nisso, pois me ensinou a não ver um obstáculo maior do que ele é. Hoje, não é qualquer torção que me derruba.

***
Assento preferencial

Na ausência de deficientes físicos, idosos, gestantes e pessoas com criança de colo, aqueles assentos preferenciais em ônibus e metrô podem ser usados por qualquer um. Mesmo assim, fujo deles. Não apenas por respeito, mas para não me estressar. Primeiro, porque, em São Paulo, nenhum transporte público fica tão vazio por muito tempo e logo eu teria de dar lugar a alguém. Segundo, porque tem velhinhas que não assumem a idade e se ofendem quando um jovem oferece o lugar. Inédito foi quando experimentei uma troca de papéis. Antes de operar o estômago, fiz um exame horrível (acho que se chama manometria ou PHmetria), que consistia em enfiar um catéter pelo meu nariz, passando pelo esôfago, para medir como minha digestão agia. Um dia inteiro com aquilo. Fui de metrô e, na volta, com aquela aparelhagem nada discreta, chamei a atenção. Tanto que uma senhorinha se levantou do assento preferencial para que eu sentasse.

__ Calma, minha senhora – respondi – Não estou morrendo. Este é apenas o meu iPod.
Destino: voltam hoje mesmo para as mãos do dono

A vida como ela é!

Reportagem ótima! Texto gostoso de ler e escolha certa para falar sobre a importante data 21 de setembro - Dia Nacional de Luta pelas Pessoas com Deficiência (não é dia 29 como está na matéria).

Leiam e comentem. Eu recomendo porque conheço o querido e inteligente Zé desde 2001, sou amiga do pessoal da FDC de SP (carinhosamente chamados de dinossauros da inclusão), e temos muitas histórias para contar sobre a vida com deficiência em um país ainda muito excludente e com uma das maiores disparidades sócio-econômicas e má distribuição de renda do mundo!

O Zé e sua linda família são um exemplo de vida sim! Principalmente para os políticos corruptos que não tem um pingo de vergonha na cara!! 

Fonte: http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=32583


Uma vida com paralisia cerebral

Saci
São Paulo, 23/08/2011

Zé Roberto, com paralisia cerebral, nos abriu a casa e a vida.

Eduardo Nascimento e Lia Segre

Casa

Zona Leste, rua Plínio Cavalcanti. A estação do metrô mais perto era a Artur Alvim, mesmo que não parecesse perto. Deve ter levado entre dez e quinze minutos subir aquelas ruas curvas e íngremes até a casa térrea de José Roberto Amorim - conhecido como Zé Roberto, ou só Zé. Bairro residencial, algum comércio. Não avistamos prédios nem no horizonte. Uma São Paulo bem diferente do centro e de outros bairros - até o céu, um azul intenso que não passou desapercebido.

Zé está sentado em sua cadeira, sua esposa atrás - blusa rosa pink - e sua filha sentada em uma pequena poltrona fúcsia, aos seus pés, do seu lado direito. Ao fundo uma parede branca com alguns retratos, e uma porta de madeira que dá para um quarto. O chão é de piso cor de laranja, como cerâmica.
Zé com a família
A casa, simples, três quartos, bege. Amarronzada. Roberto nos esperava a poucos metros do portão de grade, que só estava fechado, não trancado. Ouvia rádio – uma mania, disse – sentado na sua cadeira de rodas doada, que não era boa, reclamou, mas era doada pelo menos. Uma adaptação rústica, como um caixote de madeira, mantia seus pés firmes e atados à cadeira de rodas. Desligou o rádio com a língua e nos convidou a entrar.

Na sala ampla, uma grande estante de madeira com todos os tipos de tralha de uma casa de família. Nas paredes fotos antigas, preto e branco, de rostos que não reconhecemos. Zé mora com sua mãe, percebemos depois.

Longe de ser uma casa cheia de tecnologias sofisticadas, de aparências esdrúxulas, ganchos, fios, jeringonças, a casa de Zé Roberto era parecida com a maioria das que já tínhamos visto.

O banheiro talvez seja a parte mais modificada da casa. Com vaso rebaixado, sem divisória para o box. Na cozinha, não notamos alguma adaptação, a não ser uma boa parte da mesa sem cadeiras em seu entorno, de modo que Zé Roberto poderia se aproximar empurrado por alguém. Até gosta de comer sozinho às vezes - “como um cachorrinho”, brincou, pegando a comida com a boca já que não tem coordenação nas mãos. Seu maior sonho é que um dia sua filha, Yara, de dois anos, lhe dê comida na boca.

Tivemos a impressão de que a única parte que ele não podia freqüentar era o banheiro dos fundos, visto que era separado do chão por um par de degraus. O quintal é também o depósito da casa, com caixas de brinquedos, e cadeiras de banho, uma para ele e uma para sua mãe, que já está com 92 anos.

Quem vê Roberto pela primeira vez talvez não imagine que ele escreva no computador. Mas além de escrever, está preparando um livro com a história de sua vida. O título provisório é “Memórias”. Para isso, ele usa o Word e faz tudo com a língua. Por isso, o teclado é inclinado verticalmente – quase 90° -, e o mouse, com os botões invertidos, tem uma grande bola vermelha, que ele também mexe com a língua. Durante nossa visita, escreveu apenas seu nome como demonstração, sem erro de digitação. Seus espamos o impediram de escrever mais urante nossa visita. Quando está nervoso sua deficiência aflora, nos explicou.

Essas adaptações no computador foram feitas para ele especificamente. Comentou de um amigo que prefere o computador na posição horizontal usual. É por isso que não dá pra fazer linha de montagem com objetos adaptados, cada um tem uma necessidade. A melhor adaptação é com o deficiente opinando junto. Não importa terem os melhores profissionais de TO do mundo, se não tiver a opinião da própria pessoa que usará a tecnologia - há de se levar em conta muitas particularidades.

Zé utiliza muito o telefone também. Tinha um telefone adaptado, mas quebrou, mandou pro conserto e até agora não voltou (há dois anos). Uma boa coisa é viva voz. Hoje em dia tem um telefone com viva voz. Quando fala no celular, é preciso que segurem para ele. Zé, desde quando você tem deficiência física?

O teclado é fixado na vertical, com um suporte que o aproxima da cabeça de Zé. Ao lado esquerdo do teclado está o mouse, um suporte com uma grande bola no meio e dois botões dos lados.
Teclado de Zé, adaptado para que ele possa mexer com a língua

Primeiros anos

Eu já nasci assim, a paralisia cerebral é falta de oxigenação no cérebro. Em algum momento na gravidez, ou na hora do parto, faltou oxigênio e alguns neurônios morreram e, vocês sabem, eles não se regeneram. Em 1953 a ciência não tava tão avançada, a parteira que ajudou minha mãe foi minha vó. Mas hoje em dia continua tendo gente com paralisia cerebral, ainda não sabem porque.

Com um ano, eu não conseguia ficar sentado nem tinha firmeza no pescoço. Os médicos achavam que era falta de vitamina e me entupiram de vitamina. Mais tarde minha mãe descobriu que eu tive a paralisia e começou a me levar no fisioterapeuta. Não tinha nem cadeira de rodas e minha mãe me levava no colo.

Não fui para a escola, não tinha alternativa naquela época, tinha vontade de estudar, mas as escolas não aceitavam. Aos seis anos, eu fui internado na AACD - Associação de Assistência à Criança Deficiente -, que naquela época ficava nos Campos Elíseos, e fiquei oito anos lá, até 1967.

Cursei até a quarta série e aprendi muita coisa, mas uma coisa que nunca entendia era quando os terapeutas ocupacionais me colocavam num exercício de por cadarço em tênis. Tudo bem, treina a coordenação motora, tal, mas hoje em dia eu não ponho cadarço no meu tênis, e fiquei uns quatro anos fazendo isso - pra que? O que isso significa na minha vida atual?. Me colocavam num aparelho e eu conseguia andar, mas pra que, se hoje eu não consigo andar?

Lá eu descobri que havia muitas pessoas como eu. Mas meus pais só me visitavam uma vez por mês e me sentia um pouco sozinho, mas vendo hoje acho que foi positivo eu ter ficado lá. Naquela época não tinha opção. Família pobre ainda...

Quando saí de lá, não sabia me comunicar com meu vizinho. Fui para casa aos 14 anos, e me senti lesado. Na AACD Não te diziam que você não ia conseguir pegar ônibus, andar de cadeira de rodas na rua. Lá tudo é adaptado, mas do lado de fora num tem banheiro adaptado, rampa em todo lugar. Aqui em casa, meu pai, toda vez que juntava um dinheirinho, construía mais um cômodo e já adaptava.

Eu praticamente não saí de casa até os 30, era uma “internação domiciliar”. Vi meus três irmãos crescerem, se divertirem, namorarem, irem a festas com os amigos, e eu só com meus pais. A rua era de terra e tinha um degrau na saída, então eu quase não saía. Sábado a noite era um tédio.
Além disso, meus pais não entendiam meus desejos de adolescente, e reprimiam minha sexualidade. 

Eu ficava o dia inteiro olhando o portão, vendo as pessoas passarem. Via a menina bonita passando e acontecia o que é natural, meu pais diziam que eu tinha feito xixi na calça, não me explicavam que aquilo era normal.

Fraternidade Cristã

Só comecei a sair quando conheci a Fraternidade Cristã de Pessoas com Deficiência (FDC). Foi a melhor reabilitação possível. Lá na Fraternidade falavam o contrário do que falaram na AACD: que eu podia fazer tudo. Todo terapeuta devia perguntar a seus pacientes: “o que o deficiente quer ser na vida? o que ele tem vontade?” Não adianta a sociedade dizer que você não pode. Por que aí que eu vou ficar com mais vontade de fazer mesmo. O importante é eu descobrir o que posso e não posso.

A FCD começou na França, em 40. Tinha um seminarista - Henri François - que tinha uma doença pulmonar e queria porque queria ser padre, aí acabaram ordenando ele, mas colocaram ele para trabalhar no hospital da cidade – Verdun. Lá, ele realizava reuniões entre os deficientes do hospital, que eram muitos, por causa da guerra. Essa organização cresceu eu se tornou internacional.

Ela veio para o Brasil na década de 70, na mesma época em que muitas outras entidades começaram a surgir no País, como o Núcleo de Integração de Deficientes (NID) e o Movimento dos Direitos da Pessoa com Deficiência (MDPD).

A unidade de FCD daqui segue o modelo francês. A gente faz grupos de debate, luta pelos nossos direitos e integra a comunidade. São cerca de 30 pessoas e nem todos têm deficiência e vocês não sabem o quanto é importante a comunidade para a pessoa com deficiência. Porque se eu não consigo pegar essa almofada, você consegue. Deus me tirou as duas mãos, mas me deu dez, vinte. Fico feliz quando percebo, no fim do dia, que eu não deixei de fazer nada.

Em 1998 eu voltei a estudar, tinha 48 anos. A escola que me aceitou não tinha adaptação, e eu ficava só nas salas do térreo. No começo, ninguém chegava perto. Aí, na época de provas, comecei a ajudar os colegas. A professora fazia uma prova oral comigo na sala de estudos, e meus colegas passavam para ir ao banheiro, e acabavam por ouvir as respostas. A partir daí eu me entrosei e a gente passou a, juntos, a reivindicar melhorias na escola, já que eu era o mais “cara de pau”.

Depois de completar os estudos, fiz vários cursos - de fisioterapia na USP, de artesanato -, e num deles conheci a Zelinda, minha esposa - que também tem deficiência física. Eu esbarrei no trabalho dela e ela ficou brava comigo. Depois, pedi desculpas e acabamos saindo pra jantar. Precisava de alguém para me dar comida na boca, ela se ofereceu e continua dando até hoje. Nos casamos há três anos, e há dois temos a Yara, nosso maior tesouro!

Vida pública

Depois que começou a militar via FCD, não parou mais. Uma das suas atuações mais importantes foi no Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência. O movimento brigou por transporte, rampa, atendimento.“Se as entidades não atuassem, hoje nenhum deficiente pegaria metrô. Hoje, quem vê o elevador na Sé não sabe, mas aquilo foi briga de anos”. Zé conta que, depois de muita luta, o metrô pediu que as entidades vistoriassem todas as estações para checar a acessibilidade.

Zé Roberto está na esquerda da foto, levemente de perfil na sua cadeira de rodas. Leva camiseta polo azul marinha, e calça de moleton branca. Na direita, duas das alunas. Elas sorriem e escrevem no caderno. Ao fundo uma estante de madeira cheia de objetos, como pastas, cadernos,papés, caixas, cestas.
Zé Roberto durante nossa visita. Ao seu lado, duas alunas da Terapia Ocupacional - USP

Também mandaram sugestões para a Constituinte de 88, “a gente acreditava que depois que a Constituição estivesse pronta, tudo se resolveria, e que quando as pessoas com deficiência conseguissem tudo, iam parar de militar”. A legislação, opina, é avançada, mas não é cumprida.

O Conselho, nessa época, só tinha representantes de entidades e Zé acredita que assim ele deixava de ouvir vozes muito importantes, da própria pessoa com deficiência. 





Acabou extinguindo-se na mesma década de 80, e só foi retomado na gestão de Luíza Erundina, em 89, seguindo um modelo de participação democrática. Hoje as decisões do Conselho são tomadas em plenárias abertas à participação das pessoas com deficiência. 


Mas os problemas de agora são outros: apesar de não ser mais conselheiro, Zé participou da última eleição e disse que “sentiu vergonha do Conselho que ajudou a criar”, pois viu candidatos a conselheiro sem a vontade política e motivação que ele tinha quando participava.

Atualmente faz parte do Conselho de Segurança da sua região, Artur Alvim, representando as pessoas com deficiência. Zé nos lembrou que o dia 29 de setembro, próximo, é dia da luta da pessoa com deficiência. Dia de luta, salienta, não de churrasco - apesar de gostar de churrasco. “Porque se a gente não chutar o pau da barraca, não sai do quarto!”

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