quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A ÚNICA VERDADE SOBRE O CRIME DAS APAES !!!!!!!

Fonte: http://jornalggn.com.br/noticia/como-a-educacao-inclusiva-enfrentou-o-preconceito-e-as-apaes#!

Como a educação inclusiva enfrentou o preconceito e as Apaes

No sábado passado, na mesa  da Livraria da Vila em São Paulo, Deborah, filha de Margarida, distribui autógrafos de seu livro de histórias infantis. Recentemente, formou-se em Magistério em Natal.
Na fila, o jovem Samuel, filho de Antônio Carlos, formado em designer de moda. Filho de Ana Cláudia, Pedro, aluno de culinária, não teve agenda para ir ao evento, assim como Bruno, filho de Rosane, também cursando educação física. Mas Vinicius, filho de Eugenia e aluno do Dante Aligheri esteve firme e atento, assim como Mariana, filha de Glória e Rogério.
Em comum, todos são portadores de síndrome de Down. E são filhos da educação inclusiva, uma luta civilizatória que ficou mais forte nos anos 90 quando um grupo de pais percebeu que o melhor caminho para a integração de seus filhos na sociedade seria através da escola regular - não em comunidades segregadas, como as das APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).
Hoje, essa bandeira está ameaçada por um arco do atraso que perpassa todos os partidos políticos, poderá provocar uma regressão de dez anos nas bandeiras da educação inclusiva e a desmoralização do Senado, como agente de direitos humanos difusos.
Na linha de frente do combate à educação inclusiva estão:
•      duas Ministras do governo Dilma – Gleise Hoffmann, da Casa Civil e Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos, ambas com pretensões ao governo de seus respectivos estados;
•      senadores situacionistas – como Paulo Paim e Lindbergh Farias (provável candidato ao governo do Rio de Janeiro);
•      líderes oposicionistas – como o senador paranaense Álvaro Dias e o ex-senador e atual vice-governador do Paraná Flávio Arns;
•      o governo tucano do estado do Paraná;
•      e políticos meramente pusilânimes – como o senador e ex-Ministro da Educação Cristovam Buarque.
Gleise, Maria do Rosário, Paulo Paim, LIndbergh Faria, Flávio Arns e Álvaro Dias
Por trás dessa aliança suprapartidária, interesses eleitorais menores em relação à rede das APAEs.
De instituição meritória de décadas atrás, quando comandada pela histórica dona Jô Clemente,  sob a liderança da Federação das APAEs e do ex-senador Flávio Arns a rede de APAEs transformou-se em uma máquina eleitoral  de duas faces.
A face legítima é composta por voluntários, pais empenhados em buscar o melhor para os filhos. A face deletéria é a da organização política controlada pela Federação das APAEs, colocando os interesses de dirigentes acima das pessoas assistidas, manobrando a deficiência como mero instrumento para o acesso às verbas públicas e para promoção política, recorrendo a um festival de desinformação sem paralelo e constituindo-se, hoje em dia, no principal obstáculo à educação inclusiva.
De como a inclusão tornou-se bandeira civilizatória
Antes de entrar na parte mais sensível da história, recomenda-se entender melhor o movimento pela educação inclusiva.
No primeiro código de educação de São Paulo, já se defendia que a educação das pessoas com deficiência deveria ser “preferivelmente” na rede escolar. Esbarrava-se na falta de estrutura.
No Brasil a luta ganhou consistência mais de três décadas atrás quando a educadora paulista Maria Teresa Mantoan, professora de uma escola especial para deficientes, visitou uma escola pública. Foi assistir a um show de dança. Lá, deparou-se com um rapaz sem braços e sem pernas com uma mochila ao seu lado.  Quando a dança começou, um colega pegou a mochila, encaixou nas próprias costas, colocou dentro o menino com deficiência e sairam dançando pela sala.
A cena descortinou um mundo novo para Maria Teresa, que entendeu a diferença essencial entre crianças convivendo com colegas sem deficiência e as demais, segregadas em escolas especiais, convivendo apenas com outras crianças com deficiência e entrando na vida adulta sem o menor preparo para enfrentar ambientes não segregados.
A luta ampliou quando a procuradora de Justiça potiguar Margarida Araújo Seabra de Moura conheceu uma escola avançada em Natal disposta a receber sua filha Deborah para educá-la em uma classe com colegas sem deficiência.
Foi um aprendizado histórico, o primeiro trabalho sistemático no ensino fundamental inclusivo. De lá, Deborah foi para a escola pública, enfrentou bravamente a discriminação e reverteu sozinha o preconceito de colegas.
Estava preparada para enfrentar o mundo, graças à educação inclusiva.
Em julho passado, tornou-se a primeira professora com Down, merecendo uma reportagem no Fantástico (http://glurl.co/cJZ).
Em Santos, o casal  Antônio Carlos Sestaro deu à luz Samuel, também com Down. Os pais quiseram que estudasse nas mesmas escolas dos seus irmãos. Inicialmente as escolas recusaram. O casal recorreu à Justiça para exigir o cumprimento do direito. Dessa luta nasceu a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. E formou um rapaz capaz de enfrentar plateias exigentes, palestrando sobre a eficiência da educação inclusiva.
A luta foi ganhando adeptos entre os pais de crianças com deficiência, como o casal Glória e Rogério Amato, pais de Mariana, a odontóloga Rosane Lowenthall, mãe de Bruno,  e simpatizantes da causa, como a jornalista carioca Cláudia Werneck. E conquistou o apoio de figuras emblemáticas, como dona Jô Clemente, a própria criadora da APAE.
Trecho do filme “Do luto à luta”
Em depoimento histórico, dona Jô contou que, na época de seu filho criança, a APAE era o único caminho existente para acolhe-lo. Mas hoje em dia não vacilaria em colocá-lo em uma escola da rede regular, por saber que lá seu desenvolvimento seria maior.
No mesmo documentário havia o depoimento da mãe de Vinicius, a procuradora da República Eugênia Gonzaga que, finalmente, colocou em prática o disposto na Constituição. A partir de sua luta, o Ministério Público encampou a tese de que a inclusão escolar é direito inalienável da criança - contra o qual nem os pais podem se insurgir. E a recusa em aceitar a criança com deficiência na escola constituía-se em crime.
Com a Constituição em punho, em 2002 começou a batalha da procuradora Eugênia para fazer valer a lei e permitir a outras crianças o acesso à educação inclusiva.
Em reforço à tese, em 2006 a ONU (Organização das Nações Unidas) promulgou a Convenção Sobre Direitos de Pessoas com Deficiência, reconhecendo o direito das pessoas (e a obrigação do Estado) de terem acesso à rede regular de ensino.  E o Brasil foi signatário.
As primeiras batalhas em torno da nova bandeira
No âmbito das políticas públicas de educação, havia três passos a serem percorridos para a consolidação das políticas de educação inclusiva:
1. O convencimento do MEC (Ministério da Educação).
2. A preparação da rede escolar para acolher as crianças com deficiência.
3. Dadas as condições, a uso da lei para obrigar as escolas recalcitrantes a aceitar alunos com deficiência.
As primeiras tentativas de sensibilizar o MEC ocorreram na  gestão Paulo Renato, ainda no governo FHC. A área de atuação do MEC - a Secretaria de Educação Especial (SEE) - passou anos sob direção de Marilene Ribeiro,  amplamente influenciada pela bancada das APAEs e contra toda forma de inclusão.
Antes de deixar o cargo, Paulo Renato convenceu-se da importância da educação inclusiva e demitiu Marilene. Assumindo, o novo Ministro Cristovam Buarque sentiu de imediato o peso do lobby das APAEs – já liderado pelo então senador Flávio Arns.
Buarque nomeou para a Secretaria Cláudia Dutra, esposa do deputado gaúcho Paulo Pimenta (PT). Boa professora, mas sem conhecimentos maiores da matéria, Cláudia juntou as partes, ouviu argumentos de lado a lado e se convenceu da importância da educação inclusiva. Dali em diante, seria peça fundamental para implementar as novas políticas.
Começava a tomar forma uma nova política de inclusão, que se materializou na gestão Fernando Haddad.
Em 2007, após muitas reuniões, discussões, negociações com todos os grupos envolvidos, o MEC lançou sua política de educação inclusiva.
Mesmo com a Constituição, no ano 2.000 havia menos de mil pessoas com deficiência física no ensino médio, por falta de preparo das escolas e de instrumentos que as obrigassem a receber os alunos com deficiência.
Com o movimento dos pais, a adesão do MEC, a criação de uma série de programas de apoio às escolas e de capacitação do quadro de professore - e com a obrigação legal das escolas de acolherem os alunos com deficiência - em poucos anos o novo modelo consolidou-se como uma das grandes obras de cidadania do país.
O Censo MEC/INEP/2012 revelou 102.682 estabelecimentos de educação, públicos e privados, com matrículas de estudantes alvo de educação especial, em um total de 820.433 matrículas, 67% do total. 39.683 instituições de educação básica já tinham se preparado arquitetonicamente para receber alunos com deficiência. Até 2013, 37.801 escolas de 5.021 municípios já recebiam regularmente materiais didáticos e pedagógicos do MEC através da implantação de Salas de Recursos Multifuncionais, cada qual com uma infinidade de equipamentos de acessibilidade. 1.713 veículos acessíveis já tinham sido disponibilizados até o primeiro semestre de 2013, atendendo 1.513 municípios.
A formação de mão de obra disparou também. Entre 2007 e 2012 foram disponibilizadas 76.800 vagas  em 91 cursos, por 27 instituições públicas de educação superior (IPES), no âmbito do Programa de Formação Continuada de Profissionais do Magistério da Educação Básica.  O censo escolar 2012 contou 88.244 professores declarando-se com formação em educação especial.
Não se descuidou da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). O Censo de 2012 indicou 3.012 escolas públicas de educação básica com professores tradutores/intérpretes de LIBRAS, e 1.787 IPES oferecendo intérprete/tradutor.
Houve reflexos no ensino superior. O número de universitários com alguma forma de deficiência saltou de 6 mil para 27 mil em poucos anos. No último ENEM, houve 70 mil solicitações de atendimento especial, desde a LIBRAS e provas em braile até recursos de mobilidade.

O papel chave que as APAEs se recusaram a seguir

Na estratégia desenhada por Haddad, caberia às APAEs dois papéis centrais. O primeiro, o de auxiliar a rede convencional a se preparar para acolher os alunos com deficiência. O segundo, o de atuar como fiscal, denunciando as escolas que se recusassem a cumprir a lei.
As fontes de recursos das APAEs são convênios com estados e municípios, doações de particulares, convênios com o MEC, através da Secretaria de Educação Especial e do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), do PDDE (Programa Dinheiro Direto na Escola), que paga sem passar pelos municípios, convênios com os Ministérios da Saúde e do Desenvolvimento Social.
Conseguiram esses recursos através de lobby junto à SEE, que em 1994 incluiu esse privilégio na LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional).
Para obter a adesão das APAEs aos novos tempos, Haddad imaginou um modelo que ampliasse ainda mais os recursos, através do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), uma conta onde União, Estados e Municípios registram seus gastos obrigatórios com educação.
Por definição, o FUNDEB só poderia apoiar escolas públicas. Haddad criou a figura da dupla matrícula para a inclusão, abrindo uma exceção para as filantrópicas.
Para cada aluno que matricula, a escola recebe R$ 670 por mês. Se for aluno com deficiência, receberá 1,2 x R$ 670, ou R$ 804,00. Se apresentar um plano de atendimento especial daquele ano, terá direito a 2,4 x R$ 670 ou R$ 1.608,00. Com esse recurso, poderá contratar professores especiais, além das linhas de recursos para aquisição de equipamentos.
Abriu-se a possibilidade para as escolas terceirizarem essa segunda matrícula para instituições filantrópicas – dentre as quais, as APAEs.
Cabe a cada Secretaria municipal ou estadual definir as parcerias. No caso da primeira matrícula, é obrigatória na rede regular de ensino. No caso de segunda matrícula, é "preferencialmente" na rede regular, mas podendo ser terceirizada para a filantrópica mediante a apresentação de um projeto de atendimento ao aluno. Esse acordo foi sacramentado no Congresso Nacional.
Imaginou-se, ali, um modelo redondo.
As APAEs não perderiam nenhuma de suas verbas tradicionais e ainda teriam direito aos recursos referentes à segunda matrícula do Fundeb, no caso de atendimento especial de crianças na rede pública.
Imediatamente a histórica APAE-São Paulo, criada por dona Jô, aderiu ao projeto, fechou sua escola especial e colocou seus especialistas para auxiliarem a rede regular a se preparar para os novos tempos. Ficou isolada.
Julgou-se que o objetivo maior das APAEs fosse a melhoria das condições de seus alunos. Engano! A esta altura, a máquina da Federação das APAEs havia consolidado outros interesses, de dirigentes com propósitos políticos, mais preocupados em ampliar o acesso às verbas públicas do que promover a inclusão de suas crianças.
A segunda matrícula foi um maná que, nos últimos quatro anos, carreou para os cofres das APAEs mais de  R$ 2 bilhões. Foi como dar carne fresca ao leão.
Garantidos os recursos da segunda matrícula, o lobby das APAEs decidiu avançar também sobre a primeira matrícula, desvirtuando totalmente os objetivos da educação inclusiva. A Constituição vetava, assim como a lei votada em 2007 e as próprias conclusões do PNE (Plano Nacional de Educação).
Liderada por Flávio Arns, com a adesão de Gleise Hoffmann, as APAEs se valeram da votação da PNE no Senado para torpedear a educação inclusiva, contando para isso com o apoio de senadores sem nenhum compromisso com direitos humanos e a universalização da educação inclusiva.
Como as APAEs aproveitaram o PNE para derrubar acordos
Através do artigo 214, a Constituição de 1988 instituiu os planos nacionais de educação, com duração decenal.
 O atual PNE é o segundo plano montado. A redação original foi discutida amplamente nas diversas conferências estaduais e, finalmente, aprovada na Conferência Nacional de Educação (CONAE) do ano de 2010, conforme previsto na Constituição (clique aqui para acessar do documento final). 
Conferências nacionais de educação tornaram-se, mundialmente, referências indiscutíveis de avanços sociais. As conferências mundiais de Jontien, Salamanca e Dakar definiram documentos essenciais para a universalização do ensino e passaram a inspirar as conferências nacionais.
A CONAE de 2010 foi a primeira oficialmente convocada pelo MEC. Foi em Brasília, de 28 de março a 1o de abril de 2010. Na fase preparatória, em 2009, houve Conferências Municipais, Estaduais e do Distrito Federal. As propostas foram consolidadas por uma comissão de mais de 30 órgãos públicos e da sociedade civil. No total, as conferências envolveram 700 mil pessoas.
Para uma proposta ser submetida à votação do CONAE, precisa passar, primeiro, pela aprovação de cinco estados.
Todos esses procedimentos foram seguidos na definição da Meta 4 do PNE. Por ela, a comunidade de educação defendia que a educação regular inclusiva deveria se dar obrigatoriamente na rede regular de ensino, acabando com o duplo sistema.
O PNE foi submetido, então, à aprovação do Congresso. Quando chegou no legislativo, o lobby das APAEs explodiu em toda intensidade. Atropelou acordos anteriores, leis anteriores, convenções internacionais, as decisões da CONAE,  aproveitando a votação do PNE para reverter um avanço já consolidado.
Chegou na Câmara com a redação de que pessoas com deficiência seriam atendidas sempre nas escolas comuns, com apoio especializado à parte.
Na Câmara, o lobby das APAEs derrubou o texto.
Todas as convenções estaduais, todos os educadores envolvidos na discussão da CONAE, as 700 mil pessoas que participaram das conferências, a própria Convenção da ONU foram deixadas de lado pelo deputado Ângelo Vanhoni, relator do projeto, pressionado pela Ministra-Chefe da Casa Civil Gleise Hoffmann.
A redação dada por Vanhoni foi a seguinte:
Meta 4: universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos, o atendimento escolar aos(às) alunos(as) com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, preferencialmente na rede regular de ensino, garantindo o atendimento educacional especializado em salas de recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou comunitários, nas formas complementar e suplementar, em escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.
Com essa redação, com a volta do termo "preferencialmente" liquidava-se com a obrigatoriedade das escolas regulares acolherem alunos  com deficiência e abria-se espaço para que as APAEs avançassem sobre as vagas do ensino regular. Sempre haveria o álibi para qualquer secretário de educação municipal se eximir da obrigação de preparar a escola para a inclusão e manter os alunos segregados nas filantrópicas.
Ao chegar no Senado, as distorções foram corrigidas pela Comissão de Assuntos Econômicos, tendo como relator o Senador José Pimentel. Retirou-se o termo “preferencialmente” para o ensino regular e limitou até 2016 os repasses do Fundeb para as APAEs. A medida provocou uma intensificação das pressões pelas redes sociais, onde se recorria a toda espécie de boato, inclusive o de que as APAEs seriam fechadas.
Na Comissão de Constituição e Justiça, deixou-se um texto dúbio.
Agora, o projeto encontra-se na Comissão de Educação do  Senado, presidida pelo Senador Álvaro Dias, paranaense como Flávio Arns e como Gleise Hoffmann. E que já se mostrou disposto a encampar o discurso excludente das APAEs.
Como as APAEs se tornaram uma máquina de lobby
Ao longo dos anos, as APAEs foram sendo apropriadas por grupos políticos criando uma rede de interesses que se superpôs aos próprios interesses das crianças com deficiência. E atuando com os mesmos métodos da política convencional.
Na teoria, cada APAE municipal é independente. Na prática, dependem da certificação da Federação das APAEs para terem acesso às verbas públicas. É por aí que se consolidam as influencias políticas e amplia-se o poder dos caciques.
Foi assim em 2006 na votação da CPMF. Para garantir o apoio da bancada da APAE, o senador Flávio Arns exigiu de Lula um decreto aumentando os privilégios das APAEs. Lula safou-se com um texto dúbio que, depois, foi devidamente corrigido pelo MEC.
Quando o Ministério Público Federal decidiu encampar a bandeira dos direitos das crianças com deficiência à rede básica, a campanha das APAEs tomou ares soturnos.
As palestras da procuradora Eugênia Gonzaga passaram a ser invadidas por dirigentes de APAEs arrastando consigo batalhão de crianças com deficiência, em uma exploração vergonhosa das vulnerabilidades.
Com apoio da Secretaria de Educação Especial, Eugenia e outras autoras prepararam uma cartilha explicando que era crime de abandono intelectual deixar criança com deficiência fora da escola. Aliás, é crime deixar qualquer criança fora da escola.
A procuradora foi  alvo de 3 mil ações de habeas corpus da rede das APAEs, com cópias xerocadas, que atravancaram por um ano a Secretaria do TRF (Tribunal Regional Federal) da 3a Região. Tudo sob a liderança velada de Flávio Arns.
A manipulação das crianças com deficiência tornou-se peça política permanente na atuação das APAEs.
Certa vez, o deputado mineiro Eduardo Barbosa enviou um grupo de pessoas com deficiência para manifestações no MEC. O então Ministro Fernando Haddad abriu o auditório e colocou todos para dentro. Desnorteado com a atitude de Haddad, Barbosa correu até o auditório e, com linguagem de sinais, tentava convencer os deficientes (muitos surdos) a se retirarem.
Esse interesse político menor foi responsável por um dos piores momentos do Senado: a audiência pública convocada para discutir a educação inclusiva no dia 5 de novembro passado.
Na plateia, claques das APAEs vaiando de forma acintosa os que pensavam de forma contrária,  provocando os debatedores. Na mesa dos debatedores, um show inigualável de oportunismo político por parte de muitos senadores,  interessados em obter apoio ou, no mínimo, a simpatia das APAEs.
Pai de uma menina com síndrome de Down - que frequenta escola regular -, o  senador Lindbergh Farias, candidatável ao governo do estado do Rio, defendeu com unhas e dentes as escolas especiais, alegando que a inclusão poderia ser boa para sua filha, mas não  para os autistas. 
Ministro que iniciou o modelo de educação inclusiva, Cristovam Buarque condenou a inclusão como direito indisponível das crianças.
Mesmo alertado que a redação que veio da Câmara é inconstitucional, o senador Rodrigo Rollemberg defendeu o fim da obrigatoriedade do ensino inclusivo na rede regular de ensino
O uso político das APAEs
A politização das APAEs traz à tona um vácuo legal na atuação das filantrópicas ligadas  à deficiência.
Hoje em dia não existe um Marco Regulatório das Organizações Sociais. Elas prestam serviço público, recebem recursos públicos, mas não obedecem às mesmas regras de transparência.
Em muitos municípios, por falta de informações, a prefeitura disponibiliza seus professores especializados para trabalharem nas próprias APAEs, em vez de serem instrumentos de inclusão nas escolas municipais. Como recursos de convênios saem da União, passam por estados e municípios, não há centraização das informações, padronização de procedimentos ou exigências de transparência e contrapartidas.
Na educação superior, por exemplo, o MEC certifica que as PUCs são instituições filantrópicas com direito à isenção de impostos. Mas recebe, como contrapartida, bolsas para o PROUNI. No caso das filantrópicas, não há nenhuma espécie de contrapartida nem de controle social.
A falta de transparência perpassa as atividades mais comezinhas. Por exemplo, nas escolas públicas há uma chamada geral para estudantes. Exige-se do gestor – seja o diretor da escola ou o Secretário Municipal de Educação – total transparência e isonomia para o preenchimento de vagas. As APAEs não estão submetidas a esse controle, o que confere a seus gestores um poder de arbítrio na definição das vagas.
No caso do Prouni (as bolsas para estudantes em universidades privadas) há regras claras de prioridade de acesso para os bolsistas. No caso das APAEs, não existe nenhuma regulamentação.
Como instituições auxiliares de educação, por exemplo, deveriam se submeter ao controle social dos Conselhos Tutelar, do Direito da Criança, de Educação e do Ministério Público. Mas nada disso ocorre, o que faz com que a seriedade de cada APAE dependa exclusivamente da seriedade dos seus dirigentes, não de formas institucionalizadas de controle.
Sem esse controle, muitas APAEs acabam sendo extensões de partidos políticos, obedecendo à mesma lógica de apadrinhamento e/ou aparelhamento do executivo.
Mas não se fica nisso.
Há uma exploração política disseminada, de dirigentes utilizando as APAEs como trampolins para candidaturas políticas, de vereadores a deputados e senadores.
A candidatura política de Flávio Arns, por exemplo, é pavimentada por uma montanha de recursos públicos para uma organização privada.
Investir R$ 420 milhões na rede pública do estado não lhe daria a visibilidade e os votos garantidos pela distribuição de verbas para as APAEs, como as que anunciou em agosto passado. 
O mesmo ocorre em outros estados.
Ex-presidente da Federação das APAEs, o deputado federal Eduardo Barbosa (PSDB-MG) conseguiu transferir R$ 1,2 milhão para bancar 37 eventos e um congresso estadual em plena campanha eleitoral de 2010. Tudo bancado por dinheiro público nas APAEs.
O jogo pesado das APAEs não se limita à eleição de seus candidatos.
Na campanha de 2010, a APAE de Poços de Caldas – trampolim político de seus dirigentes – chocou o eleitorado ao denunciar que  o MEC estaria sonegando recursos às crianças. A "denúncia" foi amplamente utilizada por José Serra no debate com Dilma Rousseff pela Rede Bandeirantes.
Era uma falsa denúncia.
A resposta do MEC – uma nota no site oficial, com todos os recursos do Fundeb, distribuídos às APAEs, passou desapercebida. E a “denúncia” se dava em pleno início da distribuição inédita das verbas da Fundeb às APAEs
A instrumentalização das APAEs não é obra de um só partido.
Nos últimos meses, Arns se valia do site da Secretaria da Educação do Paraná para proselitismo pró-APAEs. Anunciou R$ 420 milhões para a educação inclusiva. Nem se pense que a intenção primordial fosse preparar a rede pública para receber as crianças. O objetivo explícito era dar condições de “isonomia” às APAEs para competir com a rede regular de ensino.
Em Brasília, a Ministra-Chefe da Casa Civil Gleise Hoffmann valeu-se do site da Casa Civil para defender as APAEs, contra a obrigatoriedade da educação inclusiva na rede regular de ensino. Cabe à Casa Civil o filtro jurídico de todos os atos do governo. No site da Casa Civil, o comunicado da Ministra atropelava a Constituição, as leis vigentes e a Convenção da ONU, da qual o Brasil foi signatário.
Por seu turno, no Senado, o relator do PNE na Comissão de Justiça do Senado, senador Álvaro Dias (PSDB), já tinha pronto um email padrão para enviar a todo mundo da APAE que lhe escrevesse, garantindo-lhes apoio à sua causa.
Com tal nível de promiscuidade política, as APAEs acabam se tornando apêndices dos jogos políticos fisiológicos e do compadrio nas nomeações e contratações.
Tome-se o caso do ex-senador Flávio Arns. Tem atuação política, como vice-governador e Secretário da Educação do Paraná. E tem atuação como líder das APAEs.
No ano passado, o escritório de advocacia Arns de Oliveira & Andreazza Advogados, de seu sobrinho Marlus Arns, conquistou toda a advocacia trabalhista da Copel, a companhia de energia do estado (http://glurl.co/cLh). Um mega-contrato sem licitação. No início deste ano, o mesmo escritório foi contratado para atender à Sanepar, a Companhia de Saneamento do estado, por R$ 960 mil (http://glurl.co/cLm), duplicando a atuação do seu Departamento Jurídico. Também sem licitação.
Uma pesquisa rápida nos tribunais mostra que esse mesmo escritório atende, no mínimo, vinte APAEs do estado, prestando serviços jurídicos de toda espécie (clique aqui), entre elas para as APAEs de Califórnia, Cambira, Curitiba, Dois Vizinhos, Eneas Marques, Figueira, Icaraíma, Mandirituba, Nova América da Coluna, Nova Esperança, Nova Olímpia, Paranaguá, São João do Ivaí, São Sebastião do Amoreira, Telêmaco Borba.

A construção da cidadania

Não é o caso de demonizar as APAEs. Mas de definir regras de atuação que impeçam sua politização e esse método absurdo de se valer de pessoas com deficiência para pressões emocionais.
No evento de sábado passado, pessoas com deficiência intelectual, de todas as idades, conviviam com os demais, zanzavam pelos salões da livraria esbanjando simpatia, inserindo-se  em todos os ambientes. Junto com elas, pais que apostaram na educação inclusiva, viram os resultados alcançados por seus filhos e levantaram a bandeira de forma desprendida, para que todas as crianças com deficiência tenham acesso às mesmas possibilidades.
Nesses anos todos, as APAEs se valeram da pouca visibilidade do tema, da falta de atenção da mídia, para difundir  informações falsas, diagnósticos imprecisos para ampliar sua receita à custa do prejuízo de suas crianças.
Há a necessidade de um movimento maior de informação para que os pais saibam exigir os direitos das crianças nas escolas, conheçam todas as linhas de apoio à inclusão fornecidas pelo MEC. E até façam convênios com as APAEs, quando necessário.
E que os senadores deixem de lado o oportunismo político e abracem uma causa que poderá não render muitos votos individualmente, mas ajudará a legitimar o papel da casa na construção de políticas cidadãs.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Palestra da Caleidoscópio Comunicações é sucesso em Brasília


Descrição da imagem: Foto de Leandra sorrindo com o microfone na mão.


Leandra Migotto Certeza - Jornalista e Consultora em Inclusão, coordenadora da Caleidoscópio Comunicações realizou dia 20/09/13 a Palestra: "A diversidade humana faz parte da vida" em evento do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios de Brasília. O objetivo foi conversar com o público sobre a importância da reflexão da quebra de tabus, preconceitos e estigmas em relação às pessoas com deficiência. 

Leandra realizou uma dinâmica com perguntas e respostas levando os servidores à reflexão. “Todos nós somos diferentes, mas quanto a direitos e oportunidades, acabamos excluindo alguns. As pessoas precisam ter atitudes livres de preconceitos e discriminações, rompendo convencionalismos. Perfeição é a ausência de erros e defeitos, mas ninguém é perfeito”, disse.

Vejam as fotos: 


Descrição da imagem: janela do avião com linda paisagem de nuvens no céu.


Descrição da imagem: Foto de Leandra sorrindo dentro do avião a caminho de Brasília. 


Descrição da imagem: Foto da vista de cima da terra vermelha da cidade de Brasília. 


Descrição da imagem: Folheto de Divulgação do evento: "DiversiARTE" - 16 a 20 setembro de 2013. 


Descrição da imagem: folheto de divulgação com a programação do evento com o nome de Leandra.


Descrição da imagem: foto de Leandra com microfone na mão gesticulando com as mãos durante palestra. 


Descrição da imagem: foto de Leandra com a equipe do NIC - Núcleo de Inclusão: Maria José, Carla e Lianne.


Descrição da imagem: foto da platéia realizando pergunta durante a palestra. 


Descrição da imagem: foto de Leandra com microfone na mãos e a apresentação da palestra no telão.


Leandra Migotto Certeza na TV GLOBO


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Mundo do trabalho inclusivo ou exclusivo?

Em minha palestra: "A diversidade faz parte da vida" em evento do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios de Brasília, irei falar sobre a política afirmativa de inclusão de profissionais com deficiência.




terça-feira, 17 de setembro de 2013

Nova palestra da Caleidoscópio Comunicações



A Caleidoscópio Comunicações realizará a Palestra: "A diversidade faz parte da vida" em evento do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios de Brasília.

Em sua quarta edição, a DiversidArte de 2013 traz o slogan A diversidade enriquece a vida, mostrando que conviver com as diferenças promove o crescimento de todas as pessoas. A DiversidArte é realizada sempre nos meses de setembro quando se comemora o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência (21/9). 

A cada ano é promovida uma semana dedicada a atividades culturais, palestras e até esportes voltados à inclusão de pessoas com deficiência. Ao lado de mostras de pintura, escultura e fotografia, várias atividades inclusivas chamam a atenção dos visitantes.

Leandra Migotto Certeza - Jornalista e Consultora em Inclusão realizará a palestra: "A diversidade faz parte da vida" dia 20/09 às 16hs. 

Informações e programação: 



Como as flores, a inclusão embeleza a vida

Em virtude da correria do dia a dia, você talvez não tenha parado para pensar em algo aparentemente simples: o que as flores podem representar.

Independentemente das distintas impressões que nos causam, podemos, com um olhar  mais atento e deixando que se aflore a sensibilidade, perceber-lhes a variedade de  formas e cores que possuem. Ao admirar um jardim, devemos fazê-lo dirigindo o nosso olhar para o conjunto, pois a força de todas as plantas ali reunidas é que constituem a sua beleza.

Assim, ver-se incluído é notar que o inseriram em um conjunto, pois, quando se esquece da parte, não se consegue valorizar o todo. E é aí que nasce o belo. 

É dar a você a oportunidade de mostrar a sua importância e, mesmo havendo limitações, provar que é capaz de superar barreiras. É ser flor, mas sentir-se jardim. 

André Marques

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reportagens Setor 3 - Portal do Terceiro Setor do SENAC

Para gerente da IBM, inclusão de deficientes no mercado de trabalho evoluiu bastante, mas ainda há muito o que fazer.
Por Leandra Migotto Certeza - Repórter free lancer
Site: Portal Setor 3 - SENAC

A poliomielite adquirida aos seis meses de idade não impediu que Eliane Pelegrini Ranieri, 44 anos, Gerente de Operações de Vendas da IBM.com – Brasil, perseguisse seus objetivos e conquistasse um posto de trabalho numa importante multinacional. Este é mais um exemplo de como o processo de inclusão social de pessoas com deficiência pode dar certo.


Formada em Letras (inglês e espanhol), Eliane dirige hoje seu próprio carro (adaptado) e afirma ter total autonomia, tanto em sua vida pessoal como profissional. A executiva conta que já experimentou muletas e outros aparelhos ortopédicos, mas acabou fazendo opção pela cadeira de rodas, que, segundo ela, lhe dá mais mobilidade no seu dia-a-dia.

Eliane acredita que o fato de ter sido obrigada a conviver com a deficiência desde a infância acabou lhe facilitando as coisas depois. Ela avalia que aprendeu a tirar melhor proveito da situação e se diz mais preparada para enfrentar os desafios da vida, por já conhecer os obstáculos. O suporte familiar, considera Eliane, foi fundamental para se sentir incluída socialmente.

Em entrevista exclusiva ao Portal Setor3, concedida durante a conferência sobre Inclusão Social de Pessoas com Deficiência no Mercado, a executiva enfatiza, tomando como exemplo o próprio encontro, que a pessoa com deficiência pode plenamente exercer sua cidadania participando de atividades fora de seu ambiente de trabalho ou familiar. Ela conta também como foi seu processo de inclusão no mercado e das principais dificuldades que a pessoa com deficiência tem hoje pela frente.

Setor3: Como você avalia o encontro? Quais as palestras que lhe acrescentaram mais informações ou esclareceram dúvidas?

Eliane Pelegrini Ranieri: A conferência conseguiu reunir um grande número de pessoas interessadas na implementação deste processo dentro de suas empresas, o que demonstra que as empresas estão, cada vez mais, sentindo a necessidade de esclarecimento sobre o assunto e já identificam os benefícios sociais e para a própria empresa que o processo de inclusão pode trazer. A conferência foi muito interessante porque as empresas levaram suas experiências de implementação do processo e conseguiram mostrar todas as etapas necessárias, além das dificuldades a serem superadas. Sem dúvida, para o público que estava presente, estas experiências agregaram muito valor, inclusive para mim.

Setor3: O que mais a motivou a participar do evento?
Eliane: Meu interesse foi o de tomar contato com o que o mercado está praticando, além de desenvolver networking (contatos de trabalho). Auxilio o projeto de inclusão social dentro da empresa pelo setor de RH (Recursos Humanos), comentando sobre as necessidades das pessoas com deficiência em termos de adaptações, além de trazer as novidades da área como essa conferência. 

Setor3: Qual o trabalho que a IBM pretende realizar ou já realiza em relação ao processo de inclusão social de pessoas com deficiência?
Eliane: A IBM tem por filosofia igualdade de direitos e respeito pelo indivíduo. Isto já se pratica na empresa em todos os níveis e eu sou um exemplo disso já que sou "cadeirante". Estou na IBM há 18 anos e nunca tive qualquer discriminação ou exclusão, desde o processo de recrutamento até as oportunidades de carreira que surgiram ao longo destes anos. Mas é claro que o processo sempre deve ser melhorado e é preciso estruturá-lo bem, principalmente quando existe a disposição da empresa aumentar o quadro de funcionários com deficiências. Isto é parte de um programa corporativo fundamentado no princípio de que as diversidades ampliam a possibilidade de negócios para a empresa.

Setor3: Conte um pouco da sua história dentro da empresa? Você encontrou dificuldades de adaptação?

Eliane: Minha entrada na IBM foi através de contrato de trabalho para cobrir licenças maternidade. Fui chamada para cobrir três contratos. Na quarta chamada fui efetivada, o que demonstrou que a empresa apostou na minha capacidade de realização e também por eu estar preparada em termos de formação para assumir as responsabilidades da função. Durante estes 18 anos, trabalhei em muitas áreas e nunca houve qualquer tipo de exclusão, seja por parte dos funcionários ou da empresa.

Setor3: Qual a sua opinião a respeito da situação atual do processo de inclusão social das pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Eliane: Já evoluiu muito com relação à conscientização de indivíduos e empresas, mas ainda há muito trabalho, principalmente em termos de acessibilidade e capacitação. Nosso país tem muitas dificuldades de sobrevivência que precisam ser superadas e o trabalho com pessoas com deficiência, muitas vezes, implica em investimentos por parte das empresas por questões relacionadas à adequação de infra-estrutura. Além disso, ainda é muito raro o deficiente que consegue desenvolver seu potencial intelectual em escolas que permitam o ingresso no mercado de trabalho em igualdade com os não-deficientes. Por isso, as ações das empresas que participaram da conferência foram tão ricas em termos de criatividade e iniciativa para superar essas barreiras.

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Conferência debate a contratação de pessoas com deficiência

Trabalhar com a diversidade tem sido a tônica dos últimos anos. Em especial, após a publicação da Lei 8.213/91, que prevê a reserva de vagas, dentre as existentes no mercado, às pessoas com deficiência nas empresas e nos órgãos públicos.

Programas de capacitação profissional e inclusão social no mercado de trabalho promovidos por ONGs e empresas socialmente responsáveis vêm conquistando bons resultados e restituindo o exercício da cidadania às pessoas historicamente excluídas da sociedade. Durante a conferência "Contratação de Portadores de Deficiência - Como Implementar o Projeto e Atender a Legislação Vigente" realizada pela ACTsystem (empresa da área de recursos humanos) , no último dia 25 de fevereiro, na cidade de São Paulo. Os palestrantes foram unânimes ao admitir que muito ainda precisa ser feito em relação à tarefa de conscientizar os empresários e o governo sobre a importância da responsabilidade social.
 
Entretanto, dados divulgados pelo Ministério Público (MP) revelam que a situação, aos poucos, está mudando. De acordo com Adélia Augusto Dominguese, procuradora do MP membro da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade e Eliminação da Discriminação no Trabalho, nos últimos três anos, 20.400 pessoas com deficiência em todo o país foram incluídas no mercado de trabalho devido a ações movidas pelo MP. Por outro lado, segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de desemprego entre os portadores de deficiência ainda continua superior com relação às pessoas sem deficiência. 

Dentre os 24 milhões de brasileiros que possuem alguma deficiência (física, auditiva, visual, intelectual e/ou múltipla – dados Censo 2000 do IBGE), 12 milhões deles - que se encontram em idade economicamente ativa - ainda não encontraram espaço no mercado de trabalho. Fora isso, só no ano de 2000, 18.134 pessoas foram vítimas de acidentes que deixaram algum tipo de deficiência. Dois anos depois, elas continuam lutando para conseguir assegurar todos os direitos previstos na Constituição Federal como saúde, educação, transporte, esporte, lazer, entre outros. "Frente a um quadro como esse: o que fazer?" Essa foi a principal discussão levantada na conferência.

A inclusão social é a adequação da sociedade às necessidades de seus membros, para que eles possam exercer plenamente seu direito à cidadania. Essa inclusão deve ser feita principalmente por meio do trabalho, foi o que concluíram empresários, promotores, membros de ONGs, profissionais liberais, e estudantes os presentes no evento."Lidar com a diversidade inata ao ser humano é o segredo para uma nação mais justa, solidária e principalmente auto-sustentável. Até quando iremos suportar arcar com as despesas de um cidadão que não produz porque não tem suas potencialidades respeitas?", questionou Linamara Batistella, médica fisiatra, diretora da Área de Reabilitação do Hospital das Clínicas. 


Para José de Araújo Neto, presidente da AME (Associação Amigos Metroviários dos Excepcionais), "os fatores que determinam a exclusão são muito grandes, por isso é necessário um projeto de democratização, o qual aceite cada vez mais as pessoas com deficiência nas empresas". Já Flávio Gonzáles, especialista em reabilitação profissional de pessoas portadoras de deficiências da AVAPE (Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais), ressaltou que é sempre importante lembrar que ter ou não uma deficiência aparente não afeta a produtividade das pessoas. João Batista Oliveira, da HR. Shared Services Manager, completou dizendo que a empresa é o estrato da sociedade, por isso é importante valorizar a diversidade criando projetos eficazes de inclusão social.
    
No debate, os palestrantes também abordaram temas como legislação vigente; aspectos clínicos; sistemas implantados em outros países; avaliação de resultados e de novas formas de trabalho e de conscientização sobre a responsabilidade social.

José Guilherme Monteiro de Castro, vereador e presidente do CONDEF (Conselho Municipal das Pessoas Portadoras de Deficiência), da cidade de Matão (interior de São Paulo), cobrou mais compromisso dos empresários com a questão. "Tomara que as pessoas que estão aqui levem as outras o enfoque real do que foi tratado. Que os empresários, que ainda não o fazem [contratação de pessoas com deficiência], assumam de maneira séria a sua responsabilidade social com a comunidade, dando oportunidade de trabalho às pessoas com deficiência, que têm este direito assegurado por lei. Porém, só ela [a lei] não basta", alertou o vereador.
 
Alex Celestino dos Santos, estagiário do MP e portador de Síndrome de Down, e Luiz Eduardo Baudakian, fundador da ONG "Aprendendo a Viver" (http://www.aprendendoaviver.com.br/) alertaram o público para a importância da inclusão social durante seus testemunhos. "Estou aqui para dizer com muita alegria que gostaria que esse estágio fosse para sempre. Espero encontrar outro trabalho que eu goste tanto quanto este", disse Alex. Já Luiz, contou sua história de vida. Sugeriu para todos darem as mãos; fechar os olhos e ouvirem a voz de seus corações, dizendo "que o amor é o mais importante de tudo". Ele também pediu para que as pessoas se abraçassem como forma de expressar o espírito de união.

Fatores de exclusão social precisam ser eliminados

"Por que a sociedade ainda desconsidera o potencial das pessoas com deficiência?" Essa foi outra questão bastante debatida durante a conferência. Os palestrantes declararam que barreiras físicas e comportamentais, falta de informação e preconceito entre outros fatores, promovem o distanciamento com a diversidade. "Imagine, por exemplo, um engenheiro que sofreu um acidente e consegue explorar todo seu potencial com uma prótese (colocada no lugar de uma perna amputada) ter que parar de trabalhar? O problema não está nele e sim na sociedade que não pensou na acessibilidade universal. É por isso que falamos em direitos e não em criar oportunidades assistencialistas. O que não está bom nós mudamos", afirmou Linamara, médica do HC.

Para ela, os conceitos de deficiência, "incapacidade" e inclusão precisam ser revistos por todos os países. Segundo a médica, os dados do Censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2000 também precisam ser reavaliados. "As leis existem quando é instaurado um conflito entre as pessoas. Elas podem ser sempre reavaliadas, mas com certeza promovem mudanças de comportamento na sociedade. Com a reserva de vagas, as pessoas estão tendo que olhar mais para suas imperfeições. Afinal, quem o que é normal?", questionou.

Ana Maria Schneider Corrêa Araújo, do Departamento de Recursos Humanos da Bandeirante Energia, concordou com Linamara. "Isso é o que sempre buscamos: mobilizar o interesse da empresa para uma reflexão sobre a lei, a educação para o trabalho e a diversidade. É que a lei nunca está pronta, ela muda conforme mudamos", declarou Ana Maria.

Na opinião do presidente da AME, João Batista Oliveira, a falta de escolaridade e qualificação profissional, pouco estímulo da família, informação escassa, e preconceito por parte dos empregadores são os principais fatores de exclusão do mercado de trabalho. Segundo ele, esses obstáculos devem ser eliminados por meio de políticas públicas, cursos de profissionalização e campanhas de sensibilização sobre a inclusão social. "Para isso, é preciso engajar a direção de uma empresa desde o início do projeto", afirmou.

"O trabalho de consultoria em acessibilidade e o banco de 5.700 currículos da ONG 'Muito Especial' é um exemplo de capacitação das empresas e apoio aos PPDs. O nosso lema é: 'Lutando com Você para um Mundo Mais Justo", ressaltou Marcus Scarpa, presidente da ONG.             

Para empresários, respeitar o potencial de cada um é a chave para bons resultados

"Devemos olhar primeiro para as aptidões e os talentos de cada candidato, e não para suas supostas 'limitações'. A palavra chave é compatibilidade de funções", destacou Flávio Gonzáles da Avape.

João Batista, da AME, trouxe um exemplo para ilustrar a afirmação de Flávio: "Em uma das empresas que visitei, encontrei um rapaz que se candidatou a uma vaga e ao ser entrevistado pelo diretor da empresa, pôde mostrar como era capaz de realizar o serviço digitando com os pés. Hoje, o clima entre os funcionários melhorou bastante e não há mais atrasos nos relatórios. É por isso que acho importante aprender com a prática respeitando as potencialidades de cada um. O fundamental é fazer as coisas, não importa como", ressaltou.

Já Luciani Faria, da empresa Marelli Cofap, contou que um candidato surdo se expressou muito bem durante um processo de seleção e a equipe ficou surpresa com a facilidade de lidar com uma PPD. "Sua produção é exemplar e hoje ele até voltou a estudar. Está cursando Direito. O ambiente organizacional melhorou e pessoas reabilitadas de LER (Lesão por Esforços Repetitivos) voltaram ao seu rendimento normal", de acordo com ela.

Lei 8.213/91, umas das ferramentas para a inclusão social


O artigo 36, da Lei 8.213/91, estabelece que a empresa com 100 ou mais empregados é obrigada a preencher de 2 a 5% de seus cargos em aberto com beneficiários reabilitados da Previdência Social ou com pessoas portadoras de deficiências habilitadas, na seguinte proporção: 2% das vagas devem ser destinadas aos PPDs nas empresas com até 200 funcionários; 3% de 200 a 500; 4% quando o número de empregados for superior a 500; e, finalmente, 5% para as empresas com mais de 1000 trabalhadores. É importante ressaltar que as empresas não são obrigadas a abrirem vagas para contratarem as PPDs, e sim preencherem seu quadro de funcionários na medida que disponibilizarem as vagas dando preferência às pessoas com deficiência devidamente qualificadas e selecionadas para a função. 

Cabe ao Ministério Público (MP) e às Delegacias Regionais do Trabalho o poder de fiscalização. A empresa que não atender a lei sofrerá as autuações e também aplicação de multas, além de representação perante o MPT e a abertura de inquérito civil público. "O principal objetivo do MP é conscientizar. Após o levantamento do número de funcionários PPDs, sugerimos às empresas que implementem um projeto eficaz de inclusão, fazemos o acompanhamento das primeiras contratações e estipulamos um prazo para o cumprimento da lei. O mais importante é saber que as pessoas estão exercendo atividades compatíveis com a sua qualificação profissional, potencial e adequação à deficiência, nunca sendo colocado dentro da empresa para simplesmente cumprir cotas, gerando assim, outra exclusão", declarou a promotora Adélia Augusto.

 Outro ponto levantado pelos palestrantes foi a importância de saber usufruir corretamente dos benefícios que a lei traz para um bom projeto de inclusão. "É preciso deixar claro que o funcionário admitido pela lei de vagas não veio tomar o lugar de ninguém e nem ganhar mais do que os outros. Ele deve ser tratado em igualdade de condições, (pois não é nem santo nem diabo), e nem tampouco de forma assistencialista, só para cumprir a lei", esclareceu Luciani Faria.


Ela acrescenta que sua empresa demitiu um funcionário PPD pelo fato dele não estar correspondendo às expectativas de trabalho, como acontece com qualquer funcionário. "O PPD deve ser tratado como qualquer outro empregado, contanto que respeitemos suas necessidades de adaptação física ou de comunicação", explicou Luciani da Marelli Cofap.

V Conferência Municipal de Direitos Humanos de 2001

A paz só será possível se houver respeito à diversidade




Reportagem e fotos exclusivas: Leandra Migotto Certeza 
Inserida em: 20/12/2001 no Site Sentidos


Não há como negar que nos últimos anos, tendo em vista o novo paradigma introduzido pela Constituição Federal de 1988, ocorreram diversos avanços no campo legislativo na defesa e promoção dos direitos humanos. 

Há quem afirme: de que vale um rol de direitos fundamentais colocados no papel se não são criadas condições para a conscientização da titularidade desses direitos e sua concretização? Essa é uma questão polêmica, a qual permeia a maioria dos cidadãos conscientes, no momento em que são abordados temas sociais. 

Conquistar cada dia mais, os direitos humanos. Este foi o lema, daqueles que estiveram presentes na V Conferência Municipal de Direitos Humanos, realizada em São Paulo, dia 17 de dezembro de 2001. Foram apresentadas durante mais de 9 horas de debates, leituras de propostas, encaminhamentos de projetos e explanações a respeito das conquistas e derrotas, no que tangue a inclusão social das chamadas "minorias". Devido à complexidade dos fatos relatados, os resultados tanto quantitativos como qualitativos serão constatados no decorrer da realização de novos projetos em 2002.

Encerrando as atividades do ano, pessoas com necessidades especiais (deficientes visuais, auditivos, físicos, mentais e múltiplos), crianças e adolescentes carentes, mulheres, negros (as), imigrantes, representantes de povos indígenas, portadores do vírus da Aids, familiares e amigos de desaparecidos políticos na ditadura militar, gays, lésbicas, travestis, trabalhadores do sexo, idosos, encarregados e usuários dos serviços de saúde mental, entre outros, expressaram-se livremente na construção de um sistema de proteção e promoção dos direitos humanos. 

Foi muito mais, do que um simples alerta aos órgãos responsáveis, sobre os reais acontecimentos, mais principalmente, um verdadeiro raio X das violações que determinadas regiões da cidade vem sofrendo, como por exemplo: agressões físicas, sexuais e morais, falta de acessibilidade ao meio físico, desrespeito a diversidade cultural, preconceitos de raça, etnia, condição social, injustiças criminais, o abandono do sistema público de atendimento, entre outros fatores. E aproximadamente 90 ofícios, contendo diversas denúncias foram encaminhados à Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara Municipal e da Prefeitura do Município de São Paulo.

Fazendo com que a sistematização das políticas públicas ganhe um maior embasamento, este canal de participação entre as comunidades e os governantes, foi criado em 1997, e vem se expandindo por meio dos fóruns municipais das entidades. Uma das maiores conquistas foi a publicação do Guia Municipal de Direitos Humanos, sobre coordenação do vereador Ítalo Cardoso, e a ampliação de suas atividades juntamente com a Prefeitura de São Paulo. Saiba mais sobre a comissão."A Comissão foi uma grande conquista, que vai continuar acompanhado as ações públicas. Agradecemos a todos que sempre estiveram conosco participando das atividades durante esse ano", afirmou o vereador durante a solenidade de abertura.

Aproximadamente mais de 40 organizações não governamentais, associações, e entidades como: ONG Fala Preta, SOS Tortura, Associação Indígena Pankararu, Coordenadoria Especial da Mulher, Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes, Pastoral Carcerária de São Paulo, Associação de Mães e Amigos do Adolescente em Situação de Risco, Centro de Referência do Idoso da Zona Leste, entre outras, apresentaram suas propostas por escrito lendo detalhadamente os principais pontos reivindicatórios mais polêmicos. Que em sua maioria, de acordo com suas especificidades, afirmaram a importância de se criarem mecanismos públicos de defesa dos diretos básicos de sobrevivência como: acesso à saúde, educação, habitação, emprego, esporte, lazer e cultura, entre outros fatores.

O manifesto "Pela Criação da Defensoria Pública", entregue à comissão, resume o desejo de todos os presentes na conferência: a aplicação da Lei Municipal nº 11.300/92, a qual cria o Sistema de Apoio Jurídico à População Necessitada. Segundo informações das chamadas "minorias", "Prestar assistência jurídica integral e graduada à população, entidades e grupos comunitários necessitados, promovendo a integração social dos direitos e garantias fundamentais de modo a viabilizar o pleno exercício da cidadania", é o que diz a lei, porém ainda encontra-se apenas no papel. "As pessoas que estão aqui lutando pelos seus direitos, são aquelas realmente comprometidas com a causa social", afirmou Luiz Hespanha, secretário de comunicação do vereador Ítalo Cardoso. 

A participação política proporcionou maior densidade durante os discursos. Esteve presente durante a conferência entre outros ilustres líderes políticos: Sr. Hélio Bicudo, excelentíssimo vice-prefeito de São Paulo, Ítalo Cardoso, vereador da Câmara Municipal, Renato Simões, deputado estadual, Sr. Marco Aurélio Garcia, secretário municipal da cultura, Sr. Walter Jorge, presidente da OAB (Organização dos Advogados do Brasil). "É urgente que essa comissão se estruture o mais rápido possível, para que possamos avançar muito em relação aos direitos humanos. A questão mais preocupante sem dúvida é a violência urbana", afirmou o vereador Ítalo Cardoso. "Os ataques terroristas às torres gêmeas de 11 de setembro, nos Estados Unidos, é sem dúvida um grande retrocesso aos direitos humanos", afirmou o excelentíssimo vice-prefeito de São Paulo.

Mais de trinta pessoas com alguma deficiência, em sua maioria, representantes da FCD, deram voz e esse segmento, de forma contundente. "Nós temos o direito de começarmos a abrir a boca. Temos como objetivo uma sociedade nova, igual e justa. Eu ficaria muito feliz, o dia em que eu sair na rua e ninguém me olhar com um ar de piedade, porque eu sou diferente, mas me olhassem apenas como um cidadão! Tudo o que nós conseguimos foi só o início de um longo caminho pela inclusão social", concluiu José Roberto, portador de deficiência, membro da FCD. A conferência foi encerrada com um ato público, em que todas as ONGs resumiram em poucas palavras o significado da importância da continuidade da luta pelos direitos humanos. Maiores informações na íntegra sobre os conteúdos, dos documentos apresentados, durante a conferência, podem ser obtidos na Câmara Municipal de São Paulo. 

Quem colocou a "boca no mundo" e falou por um mundo melhor foi ... 

Maiores informações:
Câmara Municipal de São Paulo - Gabinete do vereador Ítalo Cardoso.
Tel: (0xx11) 3111-2023 ou 3111-2499 A/C Amelinha ou Hespanha.