sábado, 4 de março de 2017

Presidente de Associação de Mulheres cobra ações de acessibilidade


Fonte: http://www.oestadoonline.com.br/2016/12/associacao-de-mulheres-com-deficiencia-cobra-acoes-de-acessibilidade/.

Vitória Ribeiro

‘Queremos um futuro de inclusão’, diz Mirella Ballatore Tosta (Foto: Valentim Manieri)







Mirella Ballatore Tosta recebeu a equipe do jornal O Estado em sua casa, apontando adaptações necessá- rias para que ela e o marido, ambos deficientes físicos, tivessem, ao menos ali, o mínimo da comodidade que não é encontrado na maior parte de Campo Grande. portadora da síndrome dos ossos de cristal –um dos nomes mais comuns da osteogênese imperfeita, doença congênita que torna o esqueleto frágil–, ela afirma que muitas vezes se irritou com tentativas de ajuda que, na verdade, poderiam prejudicar sua saúde por meio de fraturas. Contudo, lembra-se de que a educação da mãe lhe forjou uma pessoa autônoma, que preza essa atribuição para ela e tantos outros portadores de diferentes deficiências físicas em Campo Grande. E é exatamente na falha da Capital para comportar essas pessoas que repousa sua indignação. “A acessibilidade em Campo Grande é zero”, sentencia, listando os poucos lugares que ela e várias outras pessoas podem frequentar na cidade e a infinidade de outros locais vetados por não permitirem uma livre circulação. A fiscalização será um dos trabalhos da Associação de Mulheres com Deficiência do município, existente desde 25 de março de 2015 para solucionar vários dilemas –que incluem a “tradução” da Lei Maria da Penha para libras, braille e audiovisual, necessário diante de escabrosos relatos que chegam à instituição.
O Estado – Fale um pouco de sua condição?
Mirella Ballatore Tosta – Tenho a síndrome dos ossos de cristal, uma má formação por falta de colágeno, na qual se fratura muito. Em qualquer buraco na rua a roda da cadeira de rodas pode prender e eu cair. Alguém que queira ajudar diz que não vai derrubar, mas sou eu quem posso cair e me machucar gravemente. Às vezes sou mal-educada porque a pessoa quer ajudar e, no final, atrapalha e se chateia. Não é isso, eu não posso cair de jeito algum, por isso não quero que me ajudem.
O Estado – Onde está o limite entre querer ajudar e realmente ser necessário isso?
Mirella – Em perguntar. Sempre pergunta. Se você vê um cego parado com a bengala, supõe que ele queira ajuda. Pode ser alguém de baixa visão, que anda mais devagar e precisa da bengala, mas vê um pouco, ou um cego total. Ele está parado no semáforo porque não tem sinal sonoro, e alguém o vê. A pessoa pega nele sem avisar. Imagine o susto. Ele é quem tem de pegar no seu braço para sentir seu corpo, a movimentação, os gestos. Não é pegar e levar. O melhor é perguntar: “precisa de ajuda?”. Muitas vezes isso ocorreu comigo, e é um dos motivos de eu não andar no centro de Campo Grande. Primeiro porque é impossível; quando não tem rampa é impossível, e quando elas existem são malfeitas ou malconservadas. Veja na rua 14 de Julho, a maioria está quebrada, e se junta uma poça de água ou lama você não sente a profundidade. Como vai andar? E há o motorista que não respeita, para o caro. A falta de cidadania e educação no trânsito são o que você representa na sociedade. Se não tem educação no trânsito, não terá em lugar algum.
O Estado – Qual sua avaliação sobre a acessibilidade em Campo Grande?
Mirella – Zero. Eu não ando pelo meu bairro nem para ir à igreja, pelas calçadas, porque é impossível. Vou para a rua, é uma avenida movimentada, mas é o único jeito, porque é a uma quadra e meia daqui, e não vale a pena pegar o carro, pôr a cadeira e não ter onde estacionar. No centro da cidade é impossível, sozinho não tem como. O Estado – Desde quando existe a associação? Mirella – Ela foi criada em um encontro de mulheres em 25 de março do ano passado como uma comissão, que depois foi crescendo e virou a associação. Entramos com o registro em 7 de novembro. Surgiu com um grupo de mulheres, naquele encontro inédito, organizado pela Secretaria Municipal da Mulher e a SAS (Secretaria de Assistência Social). Da comissão as coisas cresceram e surgiu a associação.
O Estado – Qual o papel da entidade no poder público?
Mirella – Visibilidade, protagonismo e empoderamento. O principal objetivo é empoderar mulheres, meninas e suas famílias. Existe muita violência contra mulheres e meninas com deficiência. Fazemos também muitas rodas de conversa sobre a Lei Maria da Penha. Como começamos agora não temos recursos para ir aonde queremos, mas queremos ir em todas as obras, inclusive as pagas com o nosso dinheiro e que são feitas em acessibilidade, embora as pessoas achem que tem.
O Estado – Você deixa de ir em muitos lugares por conta da falta de acessibilidade?
Mirella – Os shoppings são os únicos lugares em que vou porque têm acessibilidade. Sou independente, as pessoas dizem que podem ajudar, mas quero autonomia. Desejamos autonomia para sair, ir a algum lugar sem levar ninguém. Eu e meu marido, que é cadeirante, somos independentes. Para descer uma rampa temos problemas, mas todos os shoppings são acessíveis, nos banheiros é mais ou menos, nas praças de alimentação não há acessibilidade, têm lugares onde não somos vistos. Os mercados são difíceis, porque deixam mercadorias em lugares altos e temos de pedir ajuda.
O Estado – As pessoas se aproveitam da deficiência das mulheres para violentá-las, por ser mais difícil se defenderem?
Mirella – Dependendo da deficiência é impossível, fazem o que quiserem. Há um tempo, alguém filmou um homem abusando de uma deficiente mental, vizinha dele. Parecia uma boneca inflável, sem reação. E vai falar para quem, quando ninguém acredita? As crianças falam e ninguém acredita, imagine uma pessoa assim? E a muda, como vai falar? Ninguém vai acreditar. Por isso do empoderamento, para a mulher se apoderar dos seus direitos e denunciar isso. Queremos um futuro melhor para essas meninas, que serão mulheres daqui a uns dias.
O Estado – O foco maior dos atendimentos é nas meninas?
Mirella – É para todas, porque queremos viver. Queremos um futuro de inclusão. Pai e mãe não serão eternos, elas terão de se virar. Fui educada pela minha mãe para ser independente, mesmo em uma cadeira de rodas. A falta de acessibilidade irrita. Claro, é ruim ser deficiente, mas se tivesse acesso à cidade, Estado ou país, eu não me sentiria excluída, não teria dificuldades. Há falta de acessibilidade na TV, onde não tem intérprete de libras nos programas, só agora colocaram legendas. Demorou muito, e às vezes é errado, não entende o que puseram ali, falam coisas que nada tem a ver. Sequer tem sinal sonoro para cegos, nem em elevador, são poucos.
O Estado – Recentemente houve um seminário sobre enfrentamento à violência doméstica contra cadeirantes. Qual foi o resultado?
Mirella – Foi em 1º de dezembro e foi ótimo. Pena que o público foi muito pequeno, não teve interesse nem das próprias pessoas. Foram umas 13 participantes, fiquei feliz que veio uma gestora de Camapuã só para o seminário. Foi bem divulgado, porque é o Mês Internacional da Pessoa com Deficiência, no dia 3 teve até um desfile de moda inclusive.
O Estado – Há muitos casos de violência doméstica contra portadores de deficiência?
Mirella – Na verdade não há um censo, um número não atualizado. Não existe, e em sistema algum de Campo Grande. Se você vai ao posto de saúde não há cadastro. A associação participa do Conselho [de Usuários] do SUS para ver se muda alguma coisa, porque não existe. No SUS deveriam dissecar você: apontar a deficiência, o que aconteceu. Estaria no cadastro e seria possível ver quantos deficientes existem. Não existe acessibilidade nos postos de saúde. Voltando à pergunta, existem violências de pessoas da própria família, a maioria, principalmente contra a mulher com deficiência intelectual, que muitas vezes não quer dizer problema mental, e sim um deficit. Alguém se casa com ela apenas para usufruir do benefício, ou a dopa, a deixa sem cadeira de rodas em casa, não a apresenta à família e amigos, faz dela só um objeto de prazer, é escabroso. Não conheço casos, mas sabemos que existem. As mulheres surdas sofrem muito, também. Falamos muito: “denuncie o agressor”. Como a mulher surda vai denunciar se não ouve, muitas vezes não fala. Como vai ligar no 190, no 180, no Disque 100, se não há um serviço acessível por WhatsApp ou SMS? Lutamos por isso, também. E é tão simples, falta vontade política, na verdade.
O Estado – Falta acesso à Lei Maria da Penha?
Mirella – Nossa maior conquista foi a Lei Maria da Penha em áudio, libras, braille e audiodescrição. Temos em DVD e CD. É algo que se demorou para perceber: quando fizemos o encontro de mulheres de 25 de março de 2015 a procuradora Jaceguara Passos falou de nossos direitos e perguntou onde estávamos, porque encheu de mulheres com todo o tipo de deficiência lá. E a maioria das famílias esconde também, não expõe por vergonha ou desconhecimento. Havia surdos que não sabiam da Lei Maria da Penha, inclusive mulher casada e com filho.
O Estado – Como a associação atende às mulheres surdas?
Mirella – Tudo lá é voluntário. A associação tem um grupo de WhatsApp com 30 mulheres, entre parcerias e voluntárias, sem deficiências e de vários segmentos da sociedade: advogadas, psicólogas, jornalistas, a gestora Luciana Azambuja, pessoas de vários partidos, mesmo com a entidade sendo apartidária. O grupo se ajuda, e graças a isso conseguimos. Hoje em dia não se admite mais fazer evento sem intérprete de libras. É lei. Mas a mulher vai ao médico, sendo surda, chega ao posto e não tem intérprete. Como vai falar do problema quando chega a atendente? Precisa levar alguém, mas se for algum problema íntimo? A lei brasileira prevê intérprete de libras ao menos nos órgãos públicos, uma coisa que não tem. No Ceam (Centro de Atendimento à Mulher), na Casa da Mulher Brasileira, têm. Temos uma voluntária, Flávia Pierete, que faz doutorado em Violência contra a Mulher com Deficiência e é intérprete de libras. No tempo que ela trabalhou na Casa da Mulher atendeu a dez surdas.
O Estado – Como foi o trabalho de vocês?
Mirella – A Defensoria Pública criou no Núcleo de Atendimento à Mulher uma cartilha simples sobre a Lei Maria da Penha, com os pontos mais importantes. Fizemos a roda de conversa com a subsecretária, cegas, surdas, várias mães de meninas com deficiência, para adaptar melhor a cartilha.
O Estado – E como foi a recepção das mulheres surdas?
Mirella – Não digo que as mulheres sofriam, mas não sabiam da lei. Saiu em DVD em CD, é inédito no Estado, não sei se no país existe em outro lugar. Foi uma conquista nossa. Foi uma parceria com a Subsecretaria Estadual de Políticas Públicas da Mulher, a Secretaria de Educação e o Centro de Atendimento ao Surdo. Fizeram o vídeo, pegaram a pessoa. Imagine pegar um livro e interpretar todo ele em libras, DVD, braille e audiodescrição.

Desafios do ensino superior para as mulheres com deficiência


Fonte: http://azmina.com.br/2016/09/os-desafios-do-ensino-superior-para-as-mulheres-com-deficiencia/

Espaços não adaptados, professores despreparados e preconceito dificultam que elas concluam o ensino superior.
publicado 13/09/2016 por 
#PraCegoVer: Ao lado esquerdo, vemos os contornos do rosto de uma moça. Ela está diante do computador, utilizando um programa. Foto: Lorena de Paula
#PraCegoVer: Ao lado esquerdo, vemos os contornos do rosto de Thaiane. Ela está diante do computador, utilizando um programa sintetizador de voz voltado para pessoas com deficiência visual . Foto: Lorena de Paula
No computador, ao som do Dosvox (um software sintetizador de voz voltado ao público com deficiência visual), Thaiane Martins digita. Marca entrevistas, prepara pautas, se prepara. A moça de voz terna, que não abriu mão do curso superior, traz consigo a certeza de que a disputa é grande e as barreiras são muitas: não vai ser fácil entrar no mercado. “Deixei currículo em muitas empresas. Nenhuma me chamou, nem mesmo pra testes. Por isso, sempre me pergunto: ‘será que não me contratam pela competitividade do curso, ou pelo fato de eu ser deficiente?’. Eu sigo com essa dúvida”.
Esguia, de cabelos escuros e pulsos delicados, é estudante do quinto semestre do curso Jornalismo na Universidade Federal do Pará (UFPA). Deficiente visual de nascença, a moça foi diagnosticada com retinopatia da prematuridade nos primeiros meses de vida. A patologia, descrita como o crescimento desorganizado dos vasos sanguíneos que suprem a retina, atinge principalmente bebês prematuros que nascem abaixo do peso. Manifesta-se em diferentes níveis de gravidade; no mais extremo, pode gerar deslocamento da retina e ocasionar cegueira. Foi seu caso.
Ocultas pela voz meiga, as atribulações e asperezas da trajetória de Thaiane até o nível superior não são diferentes das ocorridas com tantas Pessoas com Deficiência (PCDs) no Brasil. Desde a infância, o espectro do preconceito se fez presente na vida da jovem. No Ensino Fundamental, os colegas de classe se recusavam a fazer atividades escolares com ela. No Médio, os alunos a excluíam das equipes de trabalho. Essa discriminação, aliada a fatores como técnicas educacionais não-inclusivas, arquiteturas escolares inacessíveis e despreparo e desinteresse docente, resultam no alarmante dado divulgado no Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Dos 41,6 milhões de deficientes acima de 15 anos – o equivalente a cerca de 22% da população nacional –, 61% não tinham instrução, ou possuíam somente o ensino fundamental incompleto.
Diante desses números, não posso deixar de me lembrar do livro Ação Cultural para a Liberdade, de Paulo Freire, no qual o autor escreve que “o analfabetismo nem é uma ‘chaga’, nem uma ‘erva daninha’ a ser erradicada (…), mas uma das expressões concretas de uma realidade social injusta”.
Creio que por isso foi árdua a busca por mulheres com deficiência que tivessem concluído ou cursassem o nível superior. Nas idas e vindas, encontramos algumas histórias dentre esse público reduzido e tão à margem da escolaridade. Talvez por timidez ou por ainda não terem concluído a graduação, algumas personagens confirmavam entrevistas e depois recuavam.
Como afirma a estudante de pós-graduação Hellen Raiol, “nós, pessoas com deficiência, mulheres com deficiência, precisamos provar constantemente, diariamente, que somos capazes”.
Ela começou a ter perdas visuais aos 16 anos. No furor de sua juventude, precisou aprender um novo jeito de olhar o mundo. Por ter nascido com retinose pigmentar, que se caracteriza por ser um conjunto de doenças oculares hereditárias que causam degeneração na retina e levam a perda visual gradativa, a mulher de cabelos negros como ébano hoje é considerada baixa visão – isto é, o declínio visual severo que não pode ser corrigido por tratamento, cirurgias ou óculos convencionais.
#PraCegoVer: No centro da imagem está Ellen. Ela olha pra câmera com um braço sobre a mesa da carteira escolar. Ao lado dela, notamos uma grande mochila preta. Foto: Lorena de Paula
#PraCegoVer: No centro da imagem está Ellen. Ela olha pra câmera com um braço sobre a mesa da carteira escolar. Ao lado dela, notamos uma grande mochila preta. Foto: Lorena de Paula
“Mas eu precisava seguir. Porque ser deficiente significa que vamos ter dificuldades e limitações, como qualquer outra pessoa! E que não é por isso que devemos recuar e não ir atrás de nossos sonhos”, confidencia.
E ela não só sonhou: realizou. Como sempre gostou de lidar com público e se identificava com a luta pela garantia de direitos e igualdade de oportunidade, Hellen ingressou em 2010 no curso de Serviço Social. No início da graduação, contudo, já precisou enfrentar o olhar de desconfiança de alguns colegas de turma.
“Percebi que existia certo distanciamento, uma resistência em se relacionar comigo. E que alguns deles achavam que eu, por ter deficiência visual, não raciocinava, não tinha opinião própria. Por essa ideia distorcida, muitas vezes, em trabalhos em grupo, meus colegas queriam me isentar da responsabilidade de realizar a tarefa. As dificuldades enfrentadas, contudo, não se restringiram ao preconceito inicial de alguns alunos da sala. Entre os desafios com que se deparou, destacam-se as barreiras atitudinais que dificultavam sua compreensão dos conteúdos estudados. “Por exemplo: em algumas aulas, os professores acrescentavam imagens aos slides, imagens importantes para entender o assunto e que eu não podia ter acesso por não conseguir enxergá-las”, ela cita, uma nota de aborrecimento tingindo sua voz. “Há muito ainda a ser trabalhado nas universidades, os docentes não receberam o devido preparo para o ensino de pessoas com deficiência. Em toda minha graduação, apenas um professor teve esse olhar inclusivo”.
Os demais professores, ou não a incluíam ou dificultavam sua participação. “Mas o mais grave foi quando um deles disse que achava que eu deveria ficar em uma “classe especial e não com os demais alunos”.

Despreparo e falta de informação

Na contramão, o francês Jean-François Deluchey, residente no Brasil há 12 anos, foi o professor que ofereceu formas de inclusão para Hellen em suas aulas. Ele atribui o despreparo docente à falta de informação a respeito da causa das pessoas com deficiência. Admite ainda que se não fosse por Hellen, não saberia que existem recursos pedagógicos disponíveis a esse público. “Eu entendo que meus colegas se sintam desnorteados e muitas vezes até desconfortáveis com a própria falta de conhecimento. Mas acho que é preciso levar em conta a diversidade social e a inclusão dos deficientes no sistema de ensino. É função nossa, quanto docentes, nos informarmos e nos adequarmos aos serviços técnicos”.
E o professor acredita que uma das formas de alcançar acessibilidade na educação seria o corpo diretivo disponibilizar tablets gratuitamente aos alunos com deficiência visual, a partir do primeiro semestre de curso. Além disso, os docentes ficariam responsáveis pela digitalização sistemática dos conteúdos trabalhados em sala.

“Eles foram aprendendo comigo”

#PraCegoVer: Na foto,  Thaiane encontra-se em um estúdio de rádio e tem a frente de si um microfone vermelho, posicionado rente aos próprios lábios.  (Foto/reprodução: Lorena de Paula)
#PraCegoVer: Na foto, Thaiane encontra-se em um estúdio de rádio e tem a frente de si um microfone vermelho. Foto: Lorena de Paula
A jornada de Thaiane na graduação é um pouco diferente da de Hellen. Com a aprovação no vestibular, encerrou o capítulo da discriminação nas salas de aula. “Na universidade, não enfrentei nenhum preconceito”, assegura. “Meus colegas de turma da UFPA só ficaram curiosos, querendo saber como era o mundo pra mim. Mas atribuo isso à sorte, porque já ouvi muitos relatos de outros deficientes que sofreram preconceito no ensino superior”.
Quando pergunto se a universidade estava acessível a ela, a resposta imediata é não. “Eu fui a primeira aluna cega do curso de Comunicação da UFPA, e a faculdade não estava nem um pouco preparada. Eles foram aprendendo comigo, se esforçando pra suprir todas as necessidades”.
E é para atender às demandas, garantir a permanência e acesso pleno das PCDs aos institutos federais de ensino superior, que desde 2005 o Ministério da Educação (MEC) implementa o Programa Incluir, cujo objetivo é assegurar a integração dos deficientes ao âmbito acadêmico através da eliminação de barreiras comportamentais, pedagógicas, arquitetônicas e comunicacionais. Entre as ações do programa está o incentivo a criação de núcleos de acessibilidade.
“Na UFPA, o Núcleo de Inclusão Social, também chamado de NIS, se pauta nessas diretrizes”, explica a coordenadora do projeto, Rosilene Prado. Criado em 2012 pela Pró-Reitoria de Ensino e Graduação (PROEG), com o intuito de executar a Política Institucional de Inclusão, o NIS atende, atualmente, 55 universitários com deficiências diversas.
Entre as atividades desenvolvidas, estão o apoio ao aluno deficiente visual com a transcrição de materiais para o sistema Braille e grafia ampliada, disponibilização de intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras) para estudantes com deficiência auditiva, entre outros.
“Também conversamos com os alunos com necessidades especiais, para saber do que eles verdadeiramente precisam e prestamos orientações aos professores, para que ministrem as aulas de forma a incluir toda a classe”, afirmou a coordenadora de cabelos curtos e negros.
Thaiane foi uma das estudantes atendidas pelo Núcleo. Ela me conta que ao ingressar na faculdade, duas especialistas da área de Educação Especial a procuraram para saber com quais técnicas de ensino inclusivo estava familiarizada. “Braille, tecnologias assistivas como Dosvox e outros programas sintetizadores de voz”, e de posse dessa informação, conversar sobre adaptações de aulas com o corpo docente do curso de jornalismo.
“Perguntaram também se eu gostaria que realizassem dinâmicas com a minha turma, se eu me sentiria à vontade com isso Como eu disse que tudo bem, elas vendaram alguns colegas meus, para mostrar a eles como era a minha realidade. Também ensinaram como conduzir um deficiente visual”, conta. Além disso, os professores passaram a digitalizar e enviar antecipadamente os materiais abordados em sala.
De acordo com a deficiente visual, a estrutura arquitetônica da UFPA é outra questão para PCDs, uma situação que compromete a mobilidade livre e autônoma desses estudantes.  Mas independente dos tropeços na jornada, ela segue trilhando os caminhos da graduação. Já nos primeiros semestres, ingressou voluntariamente na equipe da Rádio Web da UFPA. Pouco tempo depois, tornou-se bolsista do veículo. Na mídia, ela desempenha a função de repórter-produtora Nos próximos anos, a futura jornalista espera que a recém-descoberta afinidade com rádio e TV se consolide: são os veículos em que deseja exercer a profissão.

SOBRE @ AUTOR@:

Pérola de Souza
Pérola de Souza, belenense cabana e deficiente visual. Seu lema é não Pérola de Souza, belenense cabana e deficiente visual. Seu lema é não temer desafios e caras feias, até porque não consegue se ver no espelho. Graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela Estácio-PA, e pós-graduando em Marketing eleitoral e jornalismo político, mantêm-se convicta no ofício da profissão, muito embora as portas permaneçam cerradas como/pelas mentes obscurecidas pelo preconceito. Já publicou reportagens como profissional independente e foi premiada no FUSCA – Festival Universitário de Criação e Audiovisual pela telereportagem Faculdade sem fronteiras. Criou e dirigiu “SIM, sou capaz”, vídeo institucional da Associação Paraense das Pessoas com Deficiência (APPD), com o objetivo de dar visibilidade a ONG que defende a bandeira dos deficientes no Pará. Acredita piamente no ideal do sociólogo Boa Ventura de Souza Santos, que diz: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza”.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Leandra fala sobre Diversidade Humana na TV Unesp de Bauru


Vamos falar sobre a diversidade humana?


O Artefato de hoje traz como debate um assunto de extrema importância para todos nós: a diversidade humana e as dificuldades que as pessoas com deficiência enfrentam, seja por problemas de acessibilidade física ou pela discriminação e preconceito que sofrem pela sociedade. 

Para discutirmos esse assunto, convidamos Leandra Migotto Certeza, que conta para gente como superou as dificuldades e se tornou uma pessoa realizada, tanto em sua vida pessoal quanto em sua profissão como jornalista, consultora e palestrante. 





quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Leandra fala sobre Sexualidade das Pessoas com Deficiência em Congresso Gratuito e ON LINE sobre Sexualidade!



Pessoal, a minha palestra teve uma ótima repercussão ontem dia 26. 

Por isso, hoje - dia 27 de Janeiro de 2017 - estará disponível para ser vista novamente de graça!  

A querida Vanessa Cesnik-Geest escreveu: 
"Estou muito feliz com a repercussão e pelo reconhecimento do trabalho da Leandra Migotto Certeza. Em agradecimento a você que está nos acompanhando e à Leandra que nos ofereceu esse material tão rico ficará disponibilizada a palestra dela dia 27 o dia TODO para você assistir novamente. Se você perdeu essa transmissão aproveite, está incrível. Ah... Lembre-se de comentar e deixar o seu depoimento".


O CONGRESSO CONTINUA ATÉ 29 DE JANEIRO. 

1° Congresso ON LINE totalmente GRATUITO sobre Sexualidade para Profissionais de Saúde e pessoas interessadas. 


O evento é ABERTO ao público e não precisar pagar NADA! 

Façam suas inscrições agora SOMENTE neste link:


https://go.hotmart.com/F5125553L?ap=e696






Pessoal, mais uma NOVIDADE!!! Vocês podem assistir a todas as palestras do Congresso sempre que quiserem. 

Adquira o pacote por um valor bem abaixo do mercado!! 

E GANHE vários BRINDES como: ENTREVISTAS, PALESTRAS EXTRAS, FÓRUNS E ENCONTROS ON LINE PARA ESCLARECER DÚVIDAS!! 

Entrem SOMENTE neste link: 









Trilha sonora de 2017

Queridas e queridos, 

Elegi esta linda música, esta poesia pura como a trilha sonora da minha vida em 2017! 

É uma obra de arte perfeita para os meus 40 anos... E será o mote dos meus próximos anos... 

Simplesmente, fantástica, forte, inspiradora, tocante, emocionante e ideal para continuarmos caminhando... 

Abraços apertados e beijos estalados, Lê





sábado, 7 de janeiro de 2017

Leandra fala sobre sexualidade das pessoas com deficiência em congresso internacional ON LINE gratuito



TÁ CHEGANDO A HORA!! FAÇAM SUAS INSCRIÇÕES!

1° Congresso ON LINE totalmente GRATUITO sobre Sexualidade para Profissionais de Saúde e pessoas interessadas. 


O evento é ABERTO ao público e não precisar pagar NADA! 


Façam suas inscrições agora SOMENTE neste link:


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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Meia idade, sonhos inteiros!




Rumo aos 40 anos (dia 08 de janeiro), sinto o peso das primaveras, mas minha alma voa cada vez mais alto e forte! Tenho mais dores nas coluna e nas pernas, ando menos, me canso bem mais, não tenho mais a mesma força física, ganhei peso. A minha deficiência física avança um pouco mais e tenho que diminuir o ritmo, deixar de fazer algumas coisas, e respeitar meus limites. 

Porém, o amadurecimento e a serenidade fazem cada vez mais parte da minha vida! Sou bem mais leve... Tenho mais confiança em mim mesma, auto estima em alta, força de continuar lutando. Não me preocupo mais com coisas insignificantes; e não ligo para pessoas que não tem importância em minha vida. 

Gosto cada dia mais do meu corpo, sou amada pelo meu marido, querida por toda a minha família e amigos, e o mais importante: me sinto muito bem comigo mesma! E aprecio mais ficar só com meus pensamentos... 

Não tenho mais medo das cobranças, não preciso provar nada pra ninguém e nem para mim mesma. Aceitei as condições adversas e diversas da vida, aceito o amor das pessoas exatamente como são, e consigo viver tranquila na casa que habito: minha parte externa. Respeito minhas dificuldades, aprecio minhas qualidades, e busco constante evolução...

A leitura ganhou um peso bem maior de uns anos pra cá, e eu sinto o bem que as palavras fazem ao meu coração e a minha alma. Conhecer histórias de vida, e abraçar pessoas queridas é o que acalenta meu espírito e impulsiona a seguir em frente. 

Agora o mais significativo de tudo é que eu voltei a estudar e estou com muito planos para 2017! Vou fazer pós graduação em Jornalismo Literário e aprender a escrever sempre mais e melhor! 

Sempre soube que amava as palavras e elas me faziam existir, mas o namoro virou amor! Agora, não consigo mais largar a minha vocação: escrever! E para isso, leio cada vez mais e com prazer! Estou FELIZ!!!

Desejo a todas e todos a paz que sinto hoje em todos os próximos anos de suas vidas!!! 

Abraços apertados e beijos estalados, Leandra.    

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Autoras brasileiras e suas produções

Conheçam as ótimas autoras brasileiras e suas produções reconhecidas no Brasil e no mundo.  





Heloisa Pires Lima nasceu em Porto Alegre. Aos nove anos, mudou-se para São Paulo, onde reside até hoje. Estudou Psicologia na PUC e Ciências Sociais na USP, onde também concluiu mestrado em Antropologia (2000), e doutorado em Antropologia Social (2005). Tem priorizado em sua produção acadêmica questões teóricas acerca das fronteiras entre História e Antropologia, na especificidade do tema das representações culturais, com ênfase em relatos de viagem e arte. 

O período alvo de suas pesquisas tem sido o século XIX. Sua aproximação com a literatura se dá no âmbito da biblioteca da Ibejí Casa Escola – projeto desenvolvido em São Paulo na juventude. Heloisa é também educadora. Após constatar a ausência ou inadequação de personagens negros no universo da literatura, começa a pesquisar acerca desses personagens e, mais tarde, passa à criação. Além disso, coordena para uma editora do Rio de Janeiro uma coleção de títulos infanto-juvenis protagonizados por personagens afrodescendentes. 

 Em 1998, publicou Histórias da Preta, pela editora Companhia das Letrinhas, um compêndio que aborda os vários aspectos da história de uma construção da identidade de uma menina negra. A obra vem sendo adotada por inúmeras escolas públicas e particulares. A Preta, como o chama a escritora, recebeu reconhecimento crítico, como os prêmios José Cabassa e Adolfo Aizen (1999/UBE), além de ter sido selecionada para o Brazilian Book magazine (1999/FBN-FNLJ) divulgado no Bologna Book Fair. 

Em 2004, coordenou a coleção O Pescador de Histórias, pela Peirópolis, cujo primeiro título foi O Espelho Dourado (PNBE 2005). Já em 2005, tivemos A semente que veio da África, pela Salamandra (PNBE 2005). Nesse projeto editorial, propôs, ao invés de produzir um texto sobre a África, uma conversa entre duas Áfricas. Convidou Georges Gneka, da Costa do Marfim, e Mário Lemos; de Moçambique, e todos trouxeram histórias sobre um mesmo tema, ou seja, uma árvore muito especial e riquíssima como inspiração literária. 

Foi responsável pela criação da Selo Negro Edições, do Grupo Summus Editorial, além de ter atuado como editora entre 1999 e 2000. É uma das autoras do volume De olho na cultura: pontos de vista afro-brasileiros, obra vencedora do I Concurso Nacional de Produção de Livros e Vídeos Sobre História, Cultura e Literatura Afrobrasileiras, modalidade Livros, na categoria cultura afro-brasileira. Em 2006, Ano do Brasil na França, participou da Journée Littéraire Foyalaise realizada na Martinica e em Guadalupe.


LIVROS DE HELOISA


https://www.estantevirtual.com.br/busca?utf8=%E2%9C%93&type=q&new=&q=Heloisa+Pires+Lima


ARTIGO DE HELOISA

O desenho do racismo à brasileira


Por Heloisa Pires Lima* em 08/03/2011 na edição 632 do Observatório da Imprensa.

Dois monstros sagrados, ícones da produção editorial voltada para o público infantil e juvenil, acabaram reunidos numa mesma polêmica acerca do racismo no Brasil. O poder inegável do que representam para a sociedade parecia, até o momento, ter o reconhecimento das massas, do Estado e da mídia de capital privado. Mas, se a sacralidade lhes atribuída já adquirira a condição de perene, vimos aparecer o lado monstruoso dessas moedas valiosas.

Ano de 2010. Em novembro, um manifesto pró-Monteiro Lobato circulou em nome da falsa ideia de suas obras haverem sido proibidas pelo governo às vésperas de uma eleição. Longe disto, o parecer assinado pela conselheira Nilma Lino Gomes com o aval, por unanimidade, dos demais analistas do Conselho Nacional de Educação recomendava um conjunto de ações frente ao teor racista localizado na obra Caçadas de Pedrinho (original de1933). A partir da distribuição do título pela Secretaria de Estado da Educação do Distrito Federal, um educador mais atento toma a iniciativa de protocolar à denúncia. A análise, de instância a instância, acabou pauta para o CNE, que chamou para si a responsabilidade de emitir o parecer com as sugestões. O critério considerou o objetivo de promover uma educação anti-racista que prevê a formação do educador para lidar com o assunto.
‘Racismo sem ódio não é racismo’
O viés eleitoral amplificou o caso, com manchetes do tipo ‘querem proibir Lobato para as crianças’. Foram inúmeros adeptos da hora a multiplicar o arsenal de matérias em defesa do escritor. Os blogs replicaram artigos afiados no desejo de interpretar o momento e impuseram o assunto. Os grandes jornais, revistas, programas radiofônicos, televisivos, enfim, tiveram à disposição uma pauta embasada em manifesto tornado celebridade. Somente a voz dos conselheiros demorou a ganhar a atenção da grande mídia. Até o ministro da Educação, paradoxalmente, emitiu opinião informal antes de ouvir o próprio CNE. Mas em pouco tempo a espetacularização foi serenando, tornando cada mais insustentável a defesa do racismo em nome da bio-bibliografia de um autor. O debate amadureceu nos meios de comunicação com elementos inéditos para o grande público auxiliando na flexibilização do juízo de valor anterior. E eis que, enquanto a posição definitiva e oficial do MEC estava ainda sendo aguardada para encerrar o caso aberto lá atrás, surge a ação protagonizada pelo cartunista Ziraldo. Numa tentativa de se adiantar ao ministro, o ponto final da polêmica, na concepção que ele adotou, foi desenhar um bem vestido Lobato agarrando uma mulata de poucas vestes para a estampa de um bloco de carnaval no Rio de Janeiro.


Não fosse a provocação do tema, a livre expressão do cartunista tinha tudo para reacender os melindres acerca da representação da mulher negra. Não suficiente, a imagem ficou mais animada com a voz, em off, do próprio Ziraldo, que afirma:

‘Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista.’

O pau do gato
O chiste é plausível na vida intelectual. A espirituosa capacidade de rir de si mesmo ou de realizar junções inesperadas, o duplo sentido ou o trocadilho são jogos que a linguagem permite para sutilezas bem construídas. No entanto, não há nada mais desagradável do que uma piada sem graça. Maldita, então, é a jocosidade ofensiva. O humano é capaz de exacerbar fragilidades emocionais produzindo prazer para si e para o público para o qual exibe a própria esperteza. Somente a sensibilidade crítica inibe esse tipo de prazer. O dado de realidade localiza o impulso e tem força para a suspensão do conteúdo que agride. A percepção da dor do outro na plenitude da sua dignidade, dos seus direitos e, sobretudo, da sua diferença, é o princípio da alteridade, noção cara para os dias atuais.
Por isso, a ‘gracinha’ de Ziraldo soou como um tapa na cara, sobretudo pela maneira displicente de referir o racismo que atinge a cidadania da população negra no país. A agressão veio acompanhada da asneira conceitual que pressupõe racismo com ódio e sem ódio. Mas a excrescência teve troco. A densidade e o estilo conhecido das análises definitivas da ágil intelectual negra Ana Maria Gonçalves (ver aqui) foi um golpe preciso. Outro, o isolamento do cartunista carente de eventuais defensores públicos da ‘carnavalização do racismo’.
A vinculação entre os escritores a partir de uma mesma ocorrência pode vir a ser um marco para a atenção sobre o racismo, quando sobreposto à sociedade brasileira. Todavia, a etiqueta racista entregue a um ou a outro esgotaria o evento nele mesmo. Certamente, Ziraldo não está sozinho na sua livre expressão. É comum os pleitos racistas invocarem a liberdade de expressão associada à absolutamente condenada ideia de censura. Esta é uma das nuanças do ‘deixe meu politicamente incorreto em paz’, como se a criação artística não devesse satisfação nem ao constrangimento que possa submeter seja ao gato, ao urubu ou à infância negra. Se a razão do Estado é garantir a proteção e a defesa dos incluídos em seu território, a cidadania é livre para agir, mas deve responder pelas consequências dos seus atos. Os aperfeiçoamentos legais conquistados arduamente são demandas que resultam do embate de argumentos culturais.
Portanto, não há como considerar irrelevante o racismo difundido por meio de aparentemente ingênuas obras ou o dimensionado no mapa da violência 2011 a demonstrar o extermínio de jovens negros. Se estampado fosse o slogan – ‘não somos racistas’ –, a mensagem a circular no carnaval seria a mesma. Todavia, por trás dessa opinião há a dificuldade para reconhecer a história particular da parcela negra da população do país e o esmero em atrasar intervenções que superem a desigualdades que a atinge. É braço da manutenção de privilégios.
E com a ‘mulata’ impressa, Ziraldo consegue animalizar mais ainda a mulatice das mulas que a semântica oferta às moças negras. Despida da história do uso semântico para racismos criadores de hierarquias entre mulheres reais, a do desenho está numa situação pior do que a do gato que segura numa das mãos o pau enquanto a outra lhe passa a mão na bunda.
O saber compartilhado
O argumento aí implícito defende que não ser racista é sair ridicularizando uma pedagogia anti-racista. A indignidade sexista recupera ainda a contenda da miscigenação, ora exaltada, ora condenada como síntese sociológica do Brasil. A máxima de sermos todos mestiços, concepção, aliás, soberana em princípios racialistas a priorizar o aspecto genético da questão, está da mesma forma dimensionada. Essa conotação social do feminino negro o transforma em categoria apaziguadora de conflito racial. É a mesma lógica presente em teorias do relacionamento harmônico que tendem a evidenciar a felicidade do convívio inter-racial nas ruas e a silenciar no que diga respeito à segregação dos mesmos nas esferas de poder do país. 
A evidente desigualdade para acessos sociais e as iniciativas que afirmem a condição da diferença na escala dos fenótipos tem sido um importante desafio para a sociedade compreender, demandar e alterar padrões de poder no país. O principal entrave está nas visões que insistem ser o fator classe suficiente para o desdobramento de políticas universalistas gestadas pelos governos. Para o Estado, essa homogeneidade atrapalha a nuança da história da escravidão e suas consequências para os que dela descendem como uma variável particular na administração do bem comum.
Se o que os escritores protagonizaram pode ser visto como dimensionamento do racismo enrustido ou explícito, condenado ou negligenciado na sociedade dos nossos e de outros tempos, a inesperada reunião propicia uma circunstância ainda mais singular: a de ambos serem sujeitos nativos e informantes de conteúdos vinculados ao setor editorial.
Aproveitando a problemática relação nativo-informante para a teoria, dicotomia central para o saber antropológico, área que adotei como profissão, ela não deixa esquecer a busca de sistemática fundamentação a lançar luzes sobre o intercâmbio entre argumentos culturais e produção de conhecimento. A revisão incessante teve para exame as contingências imperialistas, colonialistas e tantas outras istas imbricadas nesse conhecer o ‘outro’. Os inúmeros alertas apontando a condição de monólogos discursivos para a imagem do ‘outro’ confirmaram ao menos uma certeza: o acesso à produção a garantir o espaço para pontos de vista distintos, para o embate de ideias, é a única e a mais louvável das lapidações em prol da democracia a gerar o saber compartilhado.
A ilustração como foco
Mas e quando o tema passa a considerar a perspectiva infantil de ser informada pelo mundo e sobre o mundo? No caso brasileiro, podemos nos dar conta do imenso espaço que Lobato e Ziraldo ocupam na cabeça de várias gerações de brasileiros, o que ressalta o tema da presença negra na história editorial. As figurinhas negras elaboradas por suas mentalidades fazem parte do imaginário que produziram abundantemente, quase como um monólogo promovido e consentido. A representação ofertada por esses autores quase não teve contraponto.
Pensando ainda sobre os polos que se opõem, é hora de recordar o fato de sermos mais complexos que a teoria. Se a filiação ao partido político pode enviesar o julgamento de um relatório do MEC, o que dizer dos males da xenofobia? Reveladas as ideias racistas de Lobato, como o fez, recente e brilhantemente, Ana Maria Gonçalves, examinando inclusive o acervo de cartas do escritor, a análise da produção do autor ganhou em redimensionamentos. Não há como negligenciar que, para a história da presença de personagens negros no universo da literatura infantil, os textos que ele produziu foram inovadores, assim como o valor positivo para gênero, ou o protagonismo do idoso e outros aspectos que o exame atento pode, infinitamente, revelar. Caso o foco seja a ilustração de seu material, lá também está a Nastácia pelas mãos de Voltolino recebendo tratamento visual mais equitativo do que se poderia esperar quando relacionada à Benta. 
 
O contrário também é exemplar. Uma leitura contemporânea das edições, ilustradores afora e além do período original, reserva as mais grotescas formas da personagem. Idiotizada, bestializada, animalizada, inferiorizada sob todos os aspectos, tornada monstrenga, suja o que facilmente contrasta com a composição das demais figuras.

Racismo editorial produziu história de violência
O dado, sem dúvida, tem muito a dizer a respeito da livre circulação de preconceitos para as gerações de diferentes contextos. Por sua vez, Ziraldo, com seu trabalho O menino marrom (1986), produziu uma narrativa datada deixando como depoimento a dificuldade do cartunista em construir um personagem negro bonito, que é o que o enredo propõe. E ele cumpriu a tarefa reservando o cuidado gráfico ao personagem. O que se depara, nesse caso, é a dificuldade em desenhar um menino negro. Negro, não; marrom. A estrutura da obra testemunha que nos anos 1980 ainda não havia meninos negros bonitos retratados nos livros. Também deixa dicas sobre a resposta da época em afirmar a identidade negra. A interlocução com o menino cor-de-rosa reduz a densidade da história pela da cor.

 

É um ângulo para lidar com a questão, mas não o único. É provável que tanto Lobato quanto Ziraldo precisassem localizá-lo para traçar mapas, itinerários e rotas de viagem em terras desconhecidas, como a de facultar seus modelos de humanidade negros. Dá para imaginar os dois submetidos a uma série de circunstâncias políticas e de logística expedicionária durante o processo de suas criações. E, se muito se sabe das práticas coletivas de atribuir significados aos povos negros pelos não tão negros, pouca é a investigação dos processos em que a paisagem humana negra vai surgindo no universo desconhecido do explorador. 
E é nessa brecha que pode surgir o destaque para a força dos personagens em sua soberania a propor conteúdos para a autoria. Na verdade, as Nastácias ou os Barnabés lobatianos são expressões da narrativa popular se impondo. O autor se serviu da saborosa fonte para as suas elaborações. A alusão ao menino negro, apesar da assimetria com o cor-de-rosa também conquistou visibilidade. E todo o escritor sabe que a construção do sentido literário nunca é unilateral. Ela indaga e negocia o tempo todo com a criação. 
O personagem, como espessura inconsciente, adquire vida, espaço e autonomia. Incluir a imagem da população negra por Lobato e Ziraldo foi uma condição advinda do contato com o tema, já que antes ele não havia. Apesar das concepções racistas, é a demanda por um protótipo negro que chama a atenção para si, a ponto de entrar para o livro. E é esta soberania que torna mais notória ainda a ausência/presença da imagem como nativos e/ou informantes para dar a conhecer o mundo.
O outro lado dessa mesma moeda é o comparecimento de escritores negros no cenário das publicações. A existência negra expressa na literatura pouco abasteceu bibliotecas, videotecas, acervos de brinquedos. O racismo editorial produziu uma história de violência. O personagem, mas também o autor negro, são heróis da mesma jornada contra o preconceito. A desigualdade das cenas ficcionais dentro das obras é a mesma fora delas. Temos a chance de percebê-la.
Cadê o bloco do anti-racismo?
Em pleno século 21, não fosse o educador bater à porta do MEC, os conteúdos do livro de Lobato continuariam pouco problematizados. Da mesma forma, o tabu de questionar seja quem for o autor consagrado nas bibliotecas escolares. Por sua vez, não estariam colocadas na mesa as indagações extensivas, como o acesso à produção diversificador de pontos de vista. Não havendo confronto, a ignorância lúcida ou ingênua é mantida e não conseguirá identificar a dor do racismo. A ‘mulata’ impressa na camiseta, nesse ínterim, se olharmos bem, começa a falar da violência e da assimetria em que a posicionaram e que está ali sufocada e constrangida. A passividade simbolicamente sugerida, no entanto, acabou tridimensionalizada pela realidade. A entrada da internet como variável para os principais polêmicas nacionais tornou o nativo informante e aponta a precariedade da dicotomia. Este é um ponto de inversão cultural.
O racismo, enfim, é um desafio para todas as sociedades e todas as esferas. O acervo de obras singelas é a extensão de obras acadêmicas. A prevalência de fórmulas racistas em material aparentemente ingênuo também significa a falta de analistas formados para a temática. A tecnologia, consenso para aperfeiçoar o desenvolvimento do país, deveria tornar mais apto o saber acerca do racismo. Assunto de impacto, as diretrizes da tecnologia das relações raciais ocupam qual o espaço no gerenciamento da ciência produzida no país? Cadê o bloco do anti-racismo no investimento e na inovação tecnológica voltada para circunscrever as dinâmicas raciais? Ou a gestão de financiamento da pesquisa em centros universitários atenta para a diversidade e equanimidade dos pesquisadores? Estas, entre outras, são histórias a serem impressas no desenho de Brasil.
*Heloisa Pires Lima é Doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo. Também escreve para crianças e é consultora para os episódios do Livros Animados – programa Acorda cultura – TV Futura.
FONTE: 
http://observatoriodaimprensa.com.br/jornal-de-debates/o-desenho-do-racismo-a-brasileira/