quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O sonho da causa própria

Por Pedro Ulsen - Fonte: Rede SACI - 13/03/2008

Provocações

Leandra está sentada na cadeira. Sente-se bem. A data é 17 de novembro de 2002. Aos 25 anos, acabara de se formar em produção editorial, atuava como jornalista e militante pela sua causa. Havia pedido para ir ao programa. O som de vozes entrecortadas e destoantes anuncia o início e Antônio Abujamra declama um poema de Mário Sá-Carneiro: “Feminina”. Leandra está no Provocações, da TV Cultura. Está pronta para provocar?

Diz Antônio Abujamra: – Nós não queremos fazer o que as televisões fazem, que é o aproveitamento de uma estética da pobreza, uma estética da tragédia. Não. Nós queremos pegar as pessoas e colocá-las para baixo se for preciso e para o alto se elas quiserem.

E anuncia: – Ela veio para conversar sobre os seus vinte e cinco anos, sobre a vida, o mundo, as coisas. Ela é Leandra Migotto Certeza!

Leandra está tranqüila. De fato, solicitou à produção do Provocações ser entrevistada pelo apresentador que sempre admirou. Neste 2007, cinco anos depois, ela relembra com alegria aquele momento em que bateu um papo com um grande jornalista – em sua avaliação.

Questionada sobre sua deficiência física, Leandra explica que apresenta má-formação óssea, uma deficiência no colágeno, que dá sustentação para a calcificação dos ossos. Com isso, sofre muitas fraturas e dificuldades de crescimento.

– Você já se perguntou “por que eu”, Leandra?

– Há um tempo atrás, na adolescência. Hoje consigo pensar de uma forma realista. Por que cada um é do jeito que é? É porque é, não tem muito o que discutir.

– Como você vê o mundo?

– É um desafio que a gente enfrenta a cada dia. É uma loucura. Eu acho que é uma loucura. Mas eu acho divertido às vezes. Acho que se fosse tudo perfeito, como a gente quer que seja, como o ser humano quer, não teria graça.

Leandra escreve também. Comenta sobre seus textos. Fala que o que escreve é empírico. Escreve sobre o que vê, o que vivencia, o que sente. Tem se dedicado a poesias e crônicas ultimamente. A última recebeu o título de “O amor transforma”.

De frente com Abujamra, ela fala sobre a situação do deficiente no Brasil. Para ela, ser deficiente significa matar um leão a cada dia. Não alcança o caixa do banco, e quando se depara com uma escada, não há chances. Ônibus então, impossível. Transporte é o mais difícil para um deficiente. Para viver bem, o deficiente tem que ter um padrão de vida muito alto.

Na Idade Média, conta-se, o deficiente era jogado precipício abaixo; a velha questão da lei da natureza.

– Você preferia isso?

– Não, porque eu adoro viver.

– E a vida, o que é a vida pra você?

– Um desafio gostoso e trágico.

– O que falta?

– Quero ser vista como cidadã. Temos que cada vez mais tentar estar no mundo para exercer o que a gente é, sendo o que a gente é. Falta, na verdade, inclusão social.

Da mesma forma que Suely, sua grande amiga e também personagem desta história, Leandra recebeu, ao se formar na faculdade, um presente. Quando havia entrado para o curso de Comunicação Social, habilitação em Produção Editorial na Anhembi Morumbi, em 1996, a faculdade não contava com nenhuma estrutura de acesso para deficientes. Quando já se formava, em 1999, na última semana de aula, viu concluída algumas obras de acesso para os deficientes na faculdade. “Saí chorando. Pelo menos consegui algo”, lembra-se.

Conseguir algo não é assim, de repente. Conhecendo melhor Leandra, posso entender como é a situação do deficiente no Brasil e por quais caminhos andam aqueles que buscam mais; como estará sendo a trajetória dessa personagem real que batalha como todos os dias para ter o seu lugar ao sol e que, cotidianamente, vence preconceitos e tem dificuldade de ser vista, respeitada e aceita.

Antes mesmo de nascer, Leandra já sofria, no útero de sua mãe, fraturas por todo o corpo. Os pais ainda não sabiam, mas aquela garotinha que estava a caminho, 30 anos atrás, tinha uma deficiência genética não muito comum e nasceria com “osteogenesis imperfecta”.

A deficiência rara – que atinge um a cada 21 mil nascidos, ou cerca de 15 mil brasileiros – rendeu à Leandra ossos frágeis e certas dificuldades próprias da deficiência. Depois de passar uma semana na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), Leandra recebeu alta do hospital, de onde saiu deficiente física.


Casos diferentes

Aos seis meses e meio de gestação, Suely nasceu em um sítio no interior de São Paulo, sem nenhum tipo de assistência médica ou hospitalar. Passou por um parto difícil, que lhe deixou seqüelas. A prematuridade e a demora na realização do parto lhe trouxe anóxia (falta de oxigenação no cérebro), e danificação de alguns neurônios que estavam em formação. Ainda bebê, Suely viu-se com dificuldades motoras, de articulação da fala e da escrita, sem, contudo, apresentar nenhum grau de deficiência mental. Seu quadro era o de paralisia cerebral do tipo atetóide, com dupla hemiplegia.

Com poucos recursos para tratamento, fora dos grandes centros urbanos, a família decidiu mudar-se para São Paulo, onde teriam o acesso facilitado a certos cuidados. Quando criança, Suely lembra-se, brincava muito, principalmente com um vizinho, ainda hoje seu amigo. Com carinho, ela recorda daqueles momentos em que tinha grande liberdade para se divertir na rua, o que incluía brincar de carrinho de rolimã. O começo da história de Suely.

Paralisia cerebral (PC) é um termo que descreve um grupo de disfunções que afetam os movimentos e a coordenação motora do corpo. Na prática, o que ocorre é uma desordem de movimentos e/ou de postura. Se há algum dano na formação do cérebro do bebê até os seus três anos de idade, pode haver um quadro de paralisia cerebral.

Os efeitos da paralisia variam de pessoa para pessoa. Na sua forma mais leve, o resultado pode ser movimentos desajeitados ou controle deficiente das mãos. Na sua forma mais severa, pode haver falha de controle muscular, com alterações nos movimentos físicos e na fala. Algumas vezes pode haver outras conseqüências, como convulsões, e dificuldades de aprendizagem. O grau da deficiência física da pessoa com PC, no entanto, não tem nada a ver com o grau da sua inteligência.

O caso de Leandra é diferente. Ela tem “osteogenesis imperfecta”, ou “síndrome dos ossos de cristal”, como é popularmente conhecida. Trata-se de uma deficiência de origem genética provocada por uma falha no colágeno (tecido formador dos ossos), que resulta em uma estrutura óssea extremamente frágil, sujeita a fraturas contínuas, inclusive durante o período de gestação.

Os deficientes com OI, como Leandra, apresentam fragilidade óssea, com fraturas e deformidades. Normalmente, são de baixa estatura, têm desvio na coluna vertebral e deformidade torácica. Geralmente também apresentam deformações nos ossos longos e limitações de movimentos. Dores são constantes em decorrência das fraturas freqüentes. “Durante minha infância tive fraturas continuamente. Até os meus 14 anos, já eram mais de cem fraturas. Um sofrimento muito grande.”

Para uma criança que requeria certas cautelas, Leandra foi bem brincalhona. Cursou o pré-primário em meio às delícias da infância, era livre em sua espontaneidade, não entendia muitas coisas e a maioria delas sequer ouvia. Abusou da criatividade e, sem medos, traumas ou cercas, viveu como toda criança tem que viver.

A seguir, alguns trechos (em itálico) escritos por ela mesma, em outros momentos de reflexão:

Comi muita areia, brinquei de pega-pega, pulei corda, cantei cantigas de roda, visitei parques, fiz desenhos, aprontei com massinha de modelar, subi em trepa-trepa, brinquei de roda, aprendi a ler e escrever. Aos cinco anos, dava um jeito de participar de tudo. Como minhas pernas ainda não tinham forças para agüentar meu corpo, usava o bumbum e corria pelo pátio junto com os amigos. Sabia que para fazer algumas coisas precisava de ajuda, como: subir em cadeira ou escada, pegar um livro na estante, ir às excursões... Mas nunca deixei de ser e estar na escola!

Depois de ser alfabetizada, justamente pela dificuldade enfrentada em encontrar vagas em escolas, Leandra viveu a amarga experiência de estudar dois anos em uma escola considerada “especial”, e consideravelmente famosa, própria para crianças deficientes. O modelo era puramente assistencialista. Não promovia a inclusão de ninguém.

Lá estagnei. Pois, numa mesma sala, uma vitoriosa professora tinha o árduo e mágico objetivo de ensinar crianças com diferentes graus de deficiência e séries distintas. Mas, sem dúvida, o fato mais marcante era a existência de uma grade que nos separava do outro mundo – o das crianças ditas “normais”. Isso era um horror! Tínhamos que tomar lanche também em um pátio separado. Parecia que iríamos transmitir alguma doença contagiosa ou “aterrorizar” as outras crianças com a nossa aparência diferenciada.

Leandra, criança, queria era brincar, estar ao lado de todas as crianças. Leandra Certeza começava a conhecer o mundo, mas este a rejeitava. Jogava-a de lado. Como explicar isso a uma criança? Que coisa é essa de segregação? Ela não entendia era nada...

Naquela época era muito complicado para uma menina de sete anos, esperta como eu, ser ignorada e ter de pedir “por favor” para ser vista pelo mundo. Por isso, sempre que possível, dava uma fugida e passeava pelos corredores do colégio no colo das “tias”. Elas me levavam de volta ao sonho do qual despertara: o convívio com todas as crianças.

Dos 7 aos 14 anos Leandra não andou. Sofria de recorrentes fraturas e o processo de crescimento do seu corpo impedia-a de desenvolver uma coordenação motora mínima para simplesmente andar. Aos 14, já em melhores condições, batalhou firme pela reabilitação. Utilizava sempre a cadeira de rodas e, praticando exercícios com barra paralela e muletas, voltou a andar aos 18 anos. Quando adolescente, com 14, conta, começou a encarar psicologicamente a deficiência, reconhecendo, inclusive, outros deficientes. Antes disso, não aceitava sua condição, diz.


Escola e militância

Suely, na escola, era aluna aplicada. Dentro da sala de aula era vista como estudiosa e inteligente; sempre foi colocada como um exemplo a ser seguido.

A seguir, reflexões escritas por ela própria (em itálico):

Como isso pesava! E eu não me considerava nada disto, e, ao mesmo tempo, tendia a acreditar e a carregar este peso. Na verdade, esta identidade atribuída foi produto de uma dificuldade que eu tinha em escrever, falar, e de coordenação motora, devido à paralisia cerebral.

Suely não se sentia bem em seu ambiente escolar. Estudava muito e procurava fazer tudo como as outras crianças. Queria estar bem, e queria ser como as outras crianças – mas estava fora de lugar. Na hora do lanche eu ficava num grupinho de "marginais" — uma era gorda demais para a idade, outra era pobre e simplória para a categoria do colégio, ainda havia uma que era filha de pais desquitados e outra, negra.

Após terminar o primeiro grau e ingressar no colegial, Suely continuava a sentir uma angústia que a prendia, um sentimento que a levava, sempre, ao seu próprio mundo interior. Era uma excelente aluna, por assim dizer, mas cautelosa. Tímida, e ao mesmo tempo com necessidade de autoconfiança e auto-estima.

Continuando a minha trajetória, freqüentei o colegial todo, sem problemas aparentes. Sem problemas aparentes porque, no final de 1º ano, a psicóloga da escola chamou a minha mãe e eu para ter uma conversa séria. Pensei: “É hoje! Fui reprovada!” Mas não era esse o assunto a ser tratado.

O assunto era a minha atitude de não falar em classe. A psicóloga me chamou de egoísta porque não queria compartilhar a minha experiência de vida com as colegas. E eu pensando: “Por quê? Não há nada demais na minha vida. Ela é desinteressante”. E não era bem assim. Com o passar do tempo é que fui entender a bronca que levei.

Eu entrava muda e saia calada da sala de aula porque eu não achava que aquilo que ia colocar era importante, muito pelo contrário. Muito mais tarde, fui ver que o medo de ser descoberta na minha deficiência mental, que eu não tinha, pesava muito. Ao mesmo tempo, lutei para provar, inclusive para mim, que eu era capaz intelectualmente. Após o colegial, prestei o vestibular e entrei para a PUC em Filosofia.

Leandra movimenta-se atualmente utilizando cadeira de rodas. Em contraste com seu corpo – pequeno para a média de um adulto –, Leandra mantém mãos fortes, vigorosas, que apertaram com muita energia as minhas mãos. Possui cabelos castanho-claros, de comprimento médio, e no olhar carrega alta dose de inteligência, atenção e determinação. É enfática quando fala. Não faz o tipo boazinha e muito menos maldosa. É valente, firme e raçuda, mas absolutamente doce e solícita com quem propõe a ela uma amizade verdadeira. Leandra tem algo a nos contar.

Foi durante o curso de Produção Editorial, iniciado em 1996 na Universidade Anhembi Morumbi, que Leandra partiu para uma nova visão sobre a situação e as dificuldades de outros deficientes no Brasil. Dedicou-se a melhorar isso. “Na faculdade nenhum acesso era adaptado aos deficientes, conforme necessário. Eu me incomodava com isso. Queria fazer mais coisas, agir mais.” Envolveu-se com o Clube dos Paraplégicos, em São Paulo. Entre umas reuniões e outras também se dedicava a campeonatos de natação.

Também participou de grupos de discussão, com os colegas do curso e outros alunos da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Escreveu para jornais e revistas especializadas. Agitou e militou. Até que, em 1999, juntamente com amigos de militância, se uni à ABOI – Associação Brasileira de Osteogenesis Imperfecta.

A Associação fundada por amigos de Leandra é uma organização que se dedica a ajudar os portadores de OI a lidar com os problemas associados a esta doença. A sua missão, em que Leandra Migotto Certeza responde como diretora de divulgação, trabalhando voluntariamente, é melhorar a qualidade de vida das pessoas afetadas pela OI por meio da informação, conscientização da sociedade e ações coletivas junto aos órgãos de saúde e justiça. Também trabalha pelo incentivo à pesquisa sobre a deficiência e fornecendo dados e estatísticas sobre a OI. Todas as pessoas que administram a ABOI são portadoras de osteogenesis imperfecta elas mesmas ou são familiares de portadores da doença. Nela se reúnem, atualmente, cerca de 400 voluntários que buscam apoio mútuo e especialmente seus direitos de cidadãos.


Graduações

Estudar filosofia na PUC de São Paulo foi a primeira e única opção de Suely quando prestou vestibular. O ano era 1972. Iniciava-se ali, exatamente ali, naquele início de curso, um processo que faria parte de todos os outros momentos da sua vida. Ela atirava-se, como se atira aquele que sabe que há o que buscar, que há o que colher. Ela sabia que com o início desse processo teria mais condições de se transformar. Não sabia muito bem o que encontraria, mas não lhe restava dúvidas de que era preciso navegar. Suely navegou e foi longe. Muito longe. Hoje pode dizer o que buscava. Àquela época, o que a movia era puramente uma busca espontânea e incerta, porém necessária.

No segundo ano do curso, em busca de cura, Suely Satow partiu para um tratamento diferenciado, o método Dowman. Em seis meses de tratamento – fracassado – Suely não se curou. Teve mais dor de cabeça, espasmos fortíssimos e crises de labirintite terríveis. A faculdade teve que ser interrompida.

Vejamos outros trechos de textos (em itálico) escritos por ela:

Após procurar muito, encontrei um neurologista que, depois de três consultas, disse para eu tirar o cavalinho da chuva, se estava com esperanças de “cura”. Eu fiquei muito agradecida a ele por isso. Depois, na consulta posterior a isso, ele disse que mais de 70% dos problemas físicos que eu apresentava eram de origem psicológica, e me mandou para um psiquiatra.

Com o início da psicoterapia, Suely estava de volta à sua jornada. Com muito incentivo dos médicos e da mãe estudou e se dedicou muito. Foi aluna aplicada. Graduou-se filósofa e, não satisfeita, também cursou Comunicação Social pela mesma universidade. Já tinha na bagagem não somente uma, mas duas graduações. Passou por um longo período de amadurecimento.

Suely já conseguia ver mais claramente por onde poderia seguir para encontrar as compreensões que necessitava. Já via que ali, naquele caminho de universidade e conhecimento, podia, na verdade, tratar de conhecer melhor a si mesma. Podia, claro, entender o seu próprio mundo, com as especificidades do seu ser e do seu ser paralisada cerebral.

Nesse meio tempo, consegui me ver na condição de deficiente, com a ajuda de muita psicoterapia, e me tornei militante pela nossa causa.

Partiu para a dissertação de mestrado, também na PUC-SP. Foi pesquisar o preconceito que sofrem os deficientes físicos. Estudou a identidade de um militante político revolucionário deficiente físico. Mestrado. Depois doutorado.

Hoje, sou Doutora em Psicologia Social e minha tese foi referente à Identidade dos Paralisados Cerebrais Socialmente Ativos. Esta pesquisa acabou sendo editada em livro pela Cabral Editora Universitária com o nome “Paralisado Cerebral: Construção da Identidade na Exclusão”.

Após um longo período de estudo, reflexões e muita dedicação, Suely aponta com muita clareza o que tanto a instigava em seus estudos.

Agora sei, com certeza, de que eu estava à procura de minha identidade como ser humano desde a escolha de meu curso de graduação em Filosofia. E, vejo que, apesar dos sofrimentos causados pelos preconceitos e conseqüente discriminação, sou uma pessoa com muita sorte, pois na minha militância e na pesquisa sobre os PCs, encontrei pouquíssimas pessoas com esta deficiência que chegaram a concluir um curso universitário com muito esforço, pois havia limitações nos próprios corpos e também as barreiras arquitetônicas e os preconceitos. Outros, não chegaram a finalizar sequer o primeiro grau, pois as barreiras atitudinais e físicas são enormes. Ainda, há os que simplesmente foram deixados de lado, ou escondidos, pelas condições não “normais” de seu físico. Chego a colocar, em minhas palestras, que eles são trancados no armário.

Para Leandra, tudo o que ela fazia era ainda insuficiente. Ela queria participar, atuar, mudar. Tomou uma decisão: “Ser jornalista na área social”. Em 2000 envolveu-se no Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, em cujas reuniões debatem-se políticas públicas voltadas aos deficientes, que representam 15% da população brasileira de acordo com o Censo Demográfico de 2002 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). No Conselho Municipal Leandra conheceu mais sobre as leis voltadas aos deficientes e envolveu-se com o grupo de dedicado à apresentação de propostas para o acesso dos deficientes ao transporte público de São Paulo, capital.

Ainda enquanto atuava no Conselho Municipal, buscando emprego na área social, Leandra tornou-se colunista colaboradora do site da revista “Sentidos”, publicação da Áurea Editora focada em deficientes. E era lá mesmo que sonhava trabalhar. Finalmente, teria espaço para ampliar sua luta e trazer à tona outras tantas discussões sobre inclusão social. A vivência durou dois anos. Lá, Leandra relembra, fez muita cobertura de eventos, entrevistas, escreveu colunas para o site e fez muita edição de textos.

– Acredito no ativismo por direito, não por assistencialismo. Estamos aí para viver, e eu sou cidadã como qualquer outro cidadão, também pago meus impostos e exijo meus direitos.

– E o que te incomoda Leandra?

– A sociedade me incomoda, por ser preconceituosa. Também não poder engravidar e ter meus próprios filhos é um pouco triste para mim, e também o fato da minha deficiência se agravar com o tempo. Também tenho muito incômodo com a corrupção deste país, discriminação racial e desigualdades sociais. Mas também tem uma coisa. Isso tudo me incomoda, mas não me paralisa. Tenho um caminho de ação e de aceitação, que não significa conformismo.

Considerando a necessidade de melhoria da condição social de muitas pessoas, notadamente dos deficientes, Leandra coloca-se de maneira muito semelhante ao que pensa Suely Satow: “Cada vez mais a inclusão social é necessária. Mas uma inclusão bilateral, que significa a participação entre eu e a sociedade, cada qual no seu papel”.


Ao banco

Fazia um friozinho lá fora, mas nada desanimava Leandra a retirar seu benefício do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), no Banco do Brasil, no Largo da Batata, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. São 15h34 do dia 31 de maio de 2007. Estamos no Sesc Pinheiros, local em que Leandra pratica natação duas vezes por semana. Estão indo ao banco, então, Leandra, Marcos dos Santos, seu noivo – que teve paralisia infantil –, e eu.

– Precisamos que você empurre a cadeira até lá. Tudo bem? – Ela me pergunta.

- Claro.

O percurso, de aproximadamente 400 metros, é nos arredores do Largo da Batata. Estamos entre centenas de lojas, camelôs, carros, pedestres, motos, ônibus; a cidade fervendo em ritmo alucinado. Vida social cotidiana. Neste pequeno tempo, o que encontramos pela frente foi muito desrespeito e atitudes agressivas, principalmente por parte dos motoristas e motociclistas.

– Você viu que os caras não respeitam! – Leandra ratifica.

– Tem razão - concordo. – Também vi que cada degrauzinho, mesmo esses pequenos das rampas de acesso, representam uma grande dificuldade. Também percebi que todo o percurso de quem usa cadeira tem quer ser muito bem planejado, por conta dos acessos.

– Olha lá aquele carro – Marcos aponta. – Entra com tudo! Cuidado, gente! Aqui é cada um por si, se não tomar cuidado eles passam por cima mesmo, viu?

Em notáveis gestos, e usando as suas muletas, Marcos me auxilia a guiar a cadeira de Leandra. No banco, ela recebe atendimento, embora não consiga entrar dentro da agência pela falta de adaptação aos cadeirantes. Resolve suas operações com a atendente enquanto converso com Marcos.

Marcos dos Santos usa boné azul, blusa cinza de moletom, calça jeans simples. Vez ou outra, pára, olha para longe. Leandra, em sua cadeira de rodas, estava bem à vontade. Em uma das rodas da sua cadeira, um adesivo do Clube dos Paraplégicos de São Paulo, redondo, azul, me chama atenção. Nele, o desenho de um boneco brincando com uma bola de basquete.

– Ele é louco por boné, se você quer ver ele feliz é só ele ganhar um boné – diz Leandra.

– Esse, faço a quinze pra você – o camelô faz uma oferta a Marcos.

– Agora você quer me ver feliz é em uma loja de CDs, uma loja de livros, aí sim, fico feliz – diferencia-se Leandra.

Já no percurso de volta, na rua Paes Leme, paramos em uma loja de tintas. Leandra precisa pintar sua cadeira de rodas para o congresso que participará em junho de 2007, no Peru.

– Temos esta aqui fosca, e também a tinta brilhante, diz o vendedor.

De volta ao SESC os namorados se curtem enquanto escrevo o texto. Entre cochichos e beijinhos, um pedido:

– Você não vai me ver sábado, paixão? – Ela pergunta.

Marcos olha, calmo, tranqüilo, enquanto mastiga um pão com qualquer coisa, embrulhado em papel alumínio. A despedida deles se encerra com um “Tchau, vai com Deus” de Leandra.

Após a ida de Marcos, conversamos mais uns pares de minutos. Leandra usa uma blusa roxa, de gola branca, protegida do frio paulistano. Tempo louco. Ela me conta que está passando por uns processos seletivos para emprego.

– Tenha calma. Tenho certeza que está preparada. É só manter a calma e depois fazer a prova. Você já chegou até aqui... – Conforto-a.

– Eu acredito que tenho capacidade, mas o meu problema é físico. Eu simplesmente não posso trabalhar o dia inteiro, e se eu passar e eles não aceitarem minha condição? A minha deficiência piorou. Tenho que fazer natação duas vezes por semana, além da fisioterapia.

Leandra está preocupada. É uma boa oportunidade de emprego, ela precisa dele, mas algumas situações dificultam seu acesso.
– E olha que esta Lei de Inclusão do Deficiente é de 1991... Mas só agora as empresas começam a respeitar, a contratar!

Entendimentos

Um longo caminho para se encontrar algo, e, algo encontrado, interiorizar algo. Interiorizar, reconhecer, entender, compreender. Mas o que virá depois disso? E como será o caminho de autoconhecimento, auto-análise, auto-afirmação de uma identidade caricaturada por preconceitos e ignorâncias sociais? Como será a trajetória de Suely Harumi Satow, esta mulher de riso fácil?

Sentada ao sofá, Suely está tranqüila e à vontade em seu ambiente doméstico. Nas paredes da sala de visitas, muitas pinturas e outros trabalhos de tapeçaria. No seu quarto, logo ao lado, um armário abarrotado de conchas do mar, sua coleção particular. Um computador do lado oposto, armário, cama. Tudo muito limpo e organizado.

Suely Satow tem 54 anos de vida. Aparenta muito menos, talvez 40. Veste calça de moletom azul e uma blusa Lacoste vermelha sobre outra blusa branca. Tem os olhos puxados, rosto arredondado, cabelo liso e curto – sinais da sua descendência japonesa. Transparece serenidade. Mantém as mãos constantemente colocadas ao lado das pernas, ou sob elas. Fala calmamente e articula um notável vocabulário. De quando em quando ajeita seus óculos com o indicador; aí a gente vê melhor o seu olhar. Pausa um segundo, dois segundos. Inspira e continua a falar.

Está se tornando adulta, cada vez mais adulta, cada vez mais madura; enfrentando questionamentos sobre sua própria identidade; sofrendo preconceito pela paralisia cerebral; afetando-se por eles; querendo desconsiderá-los; voltando-se para si mesma; buscando entender-se a si própria; autoconhecimento livre de qualquer tipo de preconceituação; procurando sua identidade. Quem é Suely?

Em diversos momentos de amadurecimento, Suely deparou-se com a necessidade de se autoconhecer. Todos passam por isso, naturalmente, e com ela não foi diferente. Mas havia uma questão. “A paralisia cerebral é um ponto crucial na vida de um paralisado cerebral. Se ele não fosse PC, seria outra pessoa”, entende Suely.

Desde sempre convivendo com situações peculiares ligadas à sua condição, Suely viu-se com a necessidade de entender a sua própria identidade. Levou essa busca para a academia – entenda-se mestrado e doutorado. Alguma coisa a buscava lá, alguma coisa a buscava, já devia imaginar que, lá no fim do túnel, encontraria a resposta para seus anseios. Partiu e se dedicou com afinco. Estudou muito. Aos poucos, enquanto estudava, entendia como se forma a identidade de um paralisado cerebral; entendia a si mesma.

Em meio a todos os envolvimentos em busca de mais justiça social, Leandra caiu envolvida. Por amor. Conheceu Marcos dos Santos em setembro de 2005, enquanto participava da ONG Espaço da Cidadania, na cidade de Osasco, na Grande São Paulo. Freqüentar aquele ambiente, que para Leandra era militância, tornou-se “uma questão muito pessoal”. Assim ela entende.

– Ele começou a me paquerar, mas não tinha nada a ver comigo. Mas aos poucos eu fui dando atenção a ele, e percebi que estava gostando dele. Quando vi, estava apaixonada. Ele é minha alma gêmea, me faz muito feliz.

Leandra está diferente. Está apaixonada.

– O amor transforma muito, e para melhor, graças a Deus. Ser amada é maravilhoso.

Afirma e transparece felicidade por este neste momento vivendo a sua sexualidade, seu relacionamento, seu namorado. O momento é de paz e amor. Também de aceitação.

– As pessoas precisam aparecer pra isso. O encontro com Marcos foi decisivo. Antes não estava tão tranqüila.

– E o primeiro beijo, como foi?

– Foi no cinema. Estávamos assistindo “Dois Filhos de Francisco” – lembra, meio envergonhada, mãos juntas, cabeça levemente inclinada, quase se escondendo entre os ombros.


Tese

Depois de finalizar a dissertação de mestrado, em que estudou a identidade de um militante político revolucionário deficiente físico, Suely decidiu partir para o doutorado, também em psicologia social pela PUC-SP. Nesta nova empreitada, se propôs a “estudar como se constrói a identidade do deficiente”. Para isso, estudou duas histórias de vida de paralisados cerebrais. A proposta da tese carregava em si algumas características únicas: primeiro que se tratava do estudo da história de vida deles, a partir da fala deles próprios. E, segundo, que a própria pesquisadora da tese era paralisada cerebral.

A tese de doutorado foi editada e tornou-se livro: “Paralisado Cerebral: Construção da Identidade na Exclusão” (Cabral Editora Universitária). A tese a que Suely chegou é a seguinte:

Os paralisados cerebrais não são considerados humanos. Para a sociedade, são caricaturas, tratados como objetos, e sempre da mesma forma. Isso cria neles uma identidade cristalizada, não móvel, o que significa um rótulo para eles. A partir disso surge muito preconceito e o paralisado cerebral absorve isso, não trabalha a sua própria noção de identidade.

Eis aqui um trecho (em itálico) do prefácio escrito pela orientadora de Suely, a professora Bader Burihan Sawaia:

Este livro é indicado a todos que se preocupam com a dignidade do viver. Ele fala de pessoas vitoriosas na dolorosa batalha contra políticas de identidade que definem modelos de participação social e atribuem papéis estereotipados. (...)

Mas não espere o leitor atos heróicos e transformações mágicas ou a demagogia do happy end hollywoodiano. O que se encontra é a renovação da esperança fundamental do gênero humano em poder traçar e retraçar seu próprio projeto de vida, mesmo que modestamente e com muito sofrimento. Processo que só termina com a morte.

O aspecto desconcertante do livro é que, por traz de uma trama simples, que se desenrola em torno da história de vida de dois portadores de paralisia cerebral, complementada na conclusão, pelas histórias de outros sete, ele apresenta reflexões teóricas que ampliam a nossa compreensão, tanto do processo de construção da identidade singular quanto do processo social da exclusão. (...)

Exclusão não é um estado que uns possuem, outros não. Não há exclusão em contraposição à inclusão. Ambos fazem parte de um mesmo processo. – “o de inclusão pela exclusão” – face moderna do processo de exploração e dominação. O excluído não está à margem da sociedade, ele participa dela, e mais, a repõe e a sustenta, mas sofre muito, pois é incluído até pela humilhação e pela negação de humanidade, mesmo que partilhe de direitos sociais no plano legal. A inclusão pela humilhação se objetiva das mais variadas formas, desde a inclusão pelo “exótico” até a inclusão pela “piedade” (personagem coitadinho) e não tem uma única causa. O estigma de ser portador de deficiência se interpenetra com outras determinações sociais como classe, gênero etnia e a capacidade de autodiferenciação dos indivíduos, configurando variadas estratégias de objetivação da reificação das diferenças.

A autora deste livro passou por esse mesmo processo, o qual analisa sem autopiedade, para transformá-lo em conhecimento “virtuoso”.


 “Amor transforma”

Quando eu encontrei minha alma gêmea, vi que o ser humano ainda é capaz de amar. Marcos dos Santos tem um olhar doce. Uma ternura... Sorri de dentro para fora. É puro e verdadeiro. Brinca feito criança na piscina do Sesc. Fala o que sente. Sabe o valor de um prato de arroz com feijão. Trabalhou muito para conquistar o pequeno teto que lhe abriga. Construiu cada pedacinho com seu próprio suor. É o homem que eu amo! É a alma que habita meu coração. Falar dele é muito intenso. É um oceano de emoções.

Eu sou a mulher mais feliz do mundo. Sou MUITO amada, e ganhei o maior presente da vida: uma pessoa íntegra. Infelizmente, muito rara hoje em dia. Com ele aprendo a falar mais baixo. A ter paciência. A ter calma. A ser humilde. A apenas ser. Estar com ele me faz crescer. Ser minha essência. Deixo de criar mais rugas na testa para rir das coisas simples, como comer bolo de chocolate com chá. Dormir abraçado respirando o mesmo ar. Sentir o calor da pele. Fazer um carinho no rosto. Colocá-lo para dormir.

Marcos me faz bem. Enche meu espírito de luz. Sinto-me segura ao seu lado. Amada. Desejada. Querida. O carinho com que ele acaricia o meu cabelo é tão único... Ele sempre me viu como uma pessoa. Para ele não sou uma deficiente. Uma menina. Uma coisa estranha. Uma eterna criança. SOU. Ele É. Nós somos! Talvez não existam palavras para explicar. Não, eu é que não tenho o dom de colocá-las para fora da alma e exprimir o quanto é vivo esse amor. E o que significa amar.

Escrever para mim é respirar. Não consigo viver sem as palavras. O mundo precisa saber que ainda é possível evoluir. Estender a mão a quem está do nosso lado. Nos amamos porque temos plena certeza que o que mais importa na vida é nos ajudarmos. Ele sempre foi generoso e solidário com quem ama, mesmo com quem não o conhece. Marcos não é capaz de ficar com 1 centavo que não seja dele. Sempre divide um prato de comida. Fica com frio para esquentar uma criança. Todo dia que vem até a minha casa cumprimenta o vigia que trabalha no consultório em frente. É simpático. Conversa com todo mundo na rua e dentro das casas. Sorri. Fala sempre a verdade.

Estranho falar que ele é assim? É que hoje, infelizmente, existem muitas pessoas que se fecharam em seu egoísmo. Vivem em uma redoma. Têm medo de serem que são. Colocam máscaras e fingem ser algo que não são. Marcos não é perfeito. É um ser humano. É teimoso, cheio de manias, turrão, bate o pé quando não quer alguma coisa, se pela de medo de ir ao médico, não gosta de cuidar da saúde, é bagunceiro, esquece chaves, óculos, e blusas por aí, é distraído, e às vezes muito triste...

Ao seu lado eu me libertei de pré-conceitos, quebrei tabus, desfiz mitos. Aos 28 anos, quando fui amada por inteiro, apossei-me de mim mesma. Não tenho mais que provar nada para ninguém, muito menos para mim. Sinto-me confortável dentro do meu corpo. Sou uma mulher amada e desejada. Sou uma super tia-mãe das crianças que chegam até mim. Sou FELIZ. Minha alma gêmea tirou o medo de me assumir. Pena que perdi tanto tempo tentando viver uma perfeição que não é humana... Hoje a diversidade é tão natural...

Estamos juntos há 1 ano e 6 meses. Até agora, o que mais me marcou em nossa relação foi a minha verdadeira aceitação. É por isso que sinto necessidade de falar sobre. Comigo foi assim: sempre vivi ouvindo que eu devia ser como os outros. Como a maioria. “O mundo não foi feito para a minoria. As pessoas são normais. Normal é morar numa casa legal, ter boas roupas, carro, estudar, viajar, ter um emprego, ter pernas, andar, poder dar à luz a um filho, ter uma altura mediana, fazer parte da sociedade”. Mas que sociedade? Falar da desigualdade é uma coisa, vivê-la é completamente diferente. Quando chego na comunidade onde Marcos mora, os vizinhos brigam para ver quem vai levantar a minha cadeira de rodas e subir-me pelas escadas. Na minha casa, meu pai se incomoda muito em ter que colocar minha cadeira de rodas dentro do carro, quando vamos almoçar num restaurante.

Na casa do meu noivo sou mulher. Converso na porta com as vizinhas, peço que batam um bolo para mim, cuido das crianças quando elas estão ocupadas. Ser pequena, andar em cima de uma cadeira de rodas, e ter um corpo um pouco mais diferente do que o delas não importa. Comem da minha comida. Aceitam o meu dinheiro quando compro algo que vendem. Ouvem os meus conselhos. Aceitam o meu convite para ir à lanchonete. Se sentem seguras em deixar seus filhos comigo.

Na minha casa me tratam feito criança. Tudo fica alto para que eu não possa alcançar sozinha. Tem tapetes por toda a casa. Não tenho privacidade em meu próprio quarto! Para eles, meu noivo é “mais um para dar trabalho”. Um pobre e deficiente. Uma escolha errada. Sexo? É a maior loucura que eu não deveria fazer. É como seu eu estivesse brincando de ser mulher. Quando era adolescente usar saia era proibido. Passar batom então... Tento não os culpar e, principalmente, não me culpar. Mas a responsabilidade é de ambos. Eu, que permiti ser tratada a vida toda dessa forma; e deles, que levaram anos para começar a me enxergar como realmente sou (se é que enxergam...). Infelizmente, um processo bem provável em um país sem caráter como o Brasil, que prefere esconder as todas as diferenças debaixo do tapete.

Esperança! É a palavra. Ainda bem que existem alguns Marcos por aí. Temos o melhor clima, a terra mais saudável, os animais mais bonitos, a flora mais rica em diversidade, a cultura mais criativa, as pessoas mais amáveis, mas muito a evoluir. A sociedade é formada por pessoas. E as pessoas se transformam. O amor transforma!

(“O amor transforma”, de Leandra Migotto Certeza)


Avante

A idéia de superação, comumente associada à transcendência de alguma dificuldade, apoiada em ações pessoais sobre-humanas e finitas, no sentido de não contínuas, têm, para Suely, que cotidianamente convive com paralisia cerebral, um sentido mais amplo e concreto.

– Tive, em primeiro lugar, muito apoio dos meus pais. Minha mãe inclusive sempre falava que não sabia se os outros me consideravam uma doida varrida ou uma batalhadora. Ela sempre apostou que eu era intelectualmente capaz, me apoiou muito. Também pude ter acesso a um tratamento muito adequado, exercícios de fisioterapia e psicologia, que me ajudaram muito. Mas também é claro que a gente precisa ter muita força interior. Fora isso, é necessário que a sociedade esteja preparada para a inclusão. Isso significa que temos que ter professores preparados para lidar com os deficientes e programas sociais que incluam os marginalizados. Uma prática de inclusão social mesmo, não de assistencialismo. Isso ajudaria e muito a acabar com os preconceitos, que na verdade não são racionais, em grande parte partem do inconsciente coletivo.

– Algo mais?

– Quero lembrar que os paralisados cerebrais são pessoas com necessidades diferenciadas, porque apresentam diferenças e graus de dificuldades físicas. Se estas necessidades forem atendidas, não haverá mais o desperdício de potencialidades como vem ocorrendo atualmente. E, assim como todos os incluídos pela exclusão social, somos seres humanos, não sendo super-humanos ou sub-humanos, como apregoam os preconceitos, que geram segregação, desamor, ódio, guerra, porque faz do outro uma coisa e não uma pessoa com diferenças, mas também igual em sua humanidade ao preconceituoso.

– Fique à vontade...

– Eu diria para os outros deficientes que se assumam e que batalhem pelo que é deles. Que busquem autonomia, que busquem ser respeitados como seres humanos e que busquem seus direitos. Acredito que o caminho é assumir, e assumir significa aceitar sem revolta. Depois, temos que pensar onde estamos e como podemos ir para frente. Chorar de nada adianta. Temos que manter a postura, cabeça, corpo e mente. E pegar o touro de frente!


Fundo profundo

Sábado, 23 de junho de 2007. São oito horas da noite e Leandra está no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) embarcando rumo ao Peru. A cadeira de rodas, devidamente pintada e reformada por seu namorado, vai novinha em folha. Leandra participa, entre os dias 27 e 29 de junho, do VI Congresso Internacional Prazeres Dês-Organizados – Corpos, Direitos e Culturas em Transformação.

O evento é uma organização da Associação Internacional para o Estudo da Sexualidade, Cultura e Sociedade, e é realizado na Universidad Peruana Cayetano Heredia. O convite veio pela amiga e jornalista Maria Esther Mongollón, coordenadora de um grupo de estudos sobre mulheres e deficientes. No congresso, Leandra participa da mesa “Corpos, Prazer e Bem-Estar”. Também expõe seu trabalho “Fantasias Caleidoscópicas”, ensaio fotográfico com deficientes físicos nus. O projeto, que conta com parceria da fotógrafa Vera Albuquerque, propõe um repensar sobre juízos prévios.

Diria Leandra:

Numa estrela, um brilho,

A princípio inatingível

Ofuscado pelo brilho

Oprimido, impedido,

Ilhado por sentido

Fundo, profundo,

Dentro de si mesmo.


Pedro Ulsen é jornalista e pós-graduando em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), turma de São Paulo (SP), 2007.

A boneca que falava e vivia no sol

Por Leandra Migotto Certeza - 23/06/2009

Flutuava. Era de cristal. A boneca que vivia no sol começou a falar. Tinha mais ou menos 9 meses e só alguns centímetros. Tão pequena que parecia um bebê, mas não era. Tati era o centro das atenções do céu. Raio e chuva, seus pais, viviam brigando por ela, e para saber o que fazer com ela. Brisa, sua avó materna, nunca a tirava do colo. Vento, seu avó materno, a admirava com muita tristeza, e a provia de todas as necessidades.

Tempestade, sua tia-avó materna, cuidada com tanto zelo dela, que se esqueceu de ouvir as primeiras palavras que Tati disse quando deixou de ser um bebê. Nuvem, sua tia materna, a olhava com o rabo de olho, e o pé atrás. Tinha receio de perder seu lugar no céu, por isso, tratava Tati como uma eterna criança.

Tati gostava de ser criança, e ao mesmo tempo não. Adorava o colo da avó, mas sabia que um dia iria cair do céu e deixar de viver no sol. Sabia também que viver na Terra era muito dolorido, por isso, preferia a dor de ser levada de um lado para o outro, como um saco de batatas que seus pais carregavam para cima e para baixo, sempre com o coração do tamanho de uma ervilha.

Ser uma boneca era muito bom. Tinha tudo sempre à mão: guloseimas, brinquedos, passeios, carinho e, principalmente, atenção. Era o centro das atenções. O raio, a chuva, a tempestade, a brisa, a nuvem e o vento, viviam ao seu redor. Nunca a abandonavam, nem mesmo para deixá-la sozinha com seus pensamentos. Isso era bom? No começo sim. Foi ótimo ter todas as dores aplacadas por remedinhos, comidinhas e carinhos. Ser o centro das atenções a livrou da insuportável dor do medo de viver quebrada, por dentro e por fora.

Tati nasceu toda esfacelada. Os pedacinhos do seu corpo foram colados de qualquer jeito, e ela nem teve tempo de dizer como queria ser. Não entendia porque tanto sofrimento. Não sabia o que tinha feito para merecer tanta dor. Viver no sol era seu maior conforto. Lá era quente, acolhedor, seguro, e o mais legal, era um lugar privilegiado.

As estrelas tinham seu brilho, mas Tati era o centro delas. Viver no sol, trouxe calor para cada pedacinho do seu corpo, tão frágil e desamparado. Sem ele não seria capaz estar no céu. Lá pode ser feliz. Brincou como uma criança até mais ou menos 14 anos. Mas era muito engraçado como Tati sabia que não era mais criança, e mesmo assim gostava de ser uma marionete nas mãos das pessoas, em especial de seus pais.

O peso do seu leve corpo era tão grande que ela achava que não conseguia carregar sozinha, por isso, optou por fingir ser criança até mais tarde, quando encontrou o mar, seu eterno, único e verdadeiro amor, e tudo começou a tremer dentro dela. Mas esta é uma outra estória que ela conta depois.

Agora Tati quer se lembrar de quando era uma ‘boneca-bebê’ que falava. Nasceu com olhos grandes; cabeça maior e em forma de triângulo; cochas roliças; pernas curtas e braços compridos; cabelos castanhos bem finos; dedos alongados, e mãos perfeitas. Tati adorava suas mãos e dedos. Era a única parte do seu corpo que achava igual a das outras bonecas do céu. Ela não queria ter nascido feita de pano, palha ou plástico, mas ser de cristal era extremamente perigoso e trabalhoso. Chato até.

Tinha sempre que se proteger. Até de si mesma. Quebrava qualquer pedacinho do seu corpo, só de respirar. Por isso, fingiu que era feita de aço, e nunca deixou de se divertir pulando de bundinha pelo céu. Suas pernas não tinham força, mas em compensação, sua voz era mais forte do que o trovão, seu único irmão. Gritava tanto que o sol tremia, mas seu coração não percebia o mal que fazia a si mesma. Ganhou fama de dona do céu. Adorava esse título, mas não sabia até quando conseguiria carregar o peso de ser o centro das atenções.

Falar cedo foi sua tábua de salvação. O céu era muito grande e o sol muito quente. Quando disse as primeiras palavras, pode conhecer o horizonte da imaginação. Perdeu-se nele, e se entregou a ele em seus mais doces sonhos. Trovão, seu único irmão, sempre a despertava com tanta violência que Tati, voltava a se entregar nos braços do horizonte, com medo do barulho que todos os trovões têm. Como uma onda no mar, foi e voltou da sua imaginação várias vezes. A cada retorno quebrava um pedacinho da sua alma. Eram marcas que nunca seriam apagadas da sua memória, principalmente, no momento de fazer a primeira viagem ao Centro da Terra.

As outras bonecas tinham inveja da sua condição de rainha, mas Tati não achava a menor graça o peso de sua coroa. Era obrigada a exibi-la para todos no céu. Era o troféu mais esquisito que o céu ganhara, sem saber o motivo. Luz só tinha dito ao céu que foi um acidente, Tati ter nascido de cristal.

A boneca que falava e vivia no sol, perguntou inúmeras vezes porque não tinha nascido igual às outras, que eram como lindas bailarinas, mas nunca encontrou uma resposta verdadeira. Por isso, pensava que tinha sido ela quem pediu para vir ao céu em um corpo de cristal. Achava que era sua máxima e eterna culpa. E que a carregaria para todo o sempre. Por isso, tinha que levar alguma vantagem nessa estória.

Viver no reino da fantasia sabendo que já tinha crescido, foi a melhor tática que encontrou para continuar viva, mesmo sem saber. Assim, conseguia observar de longe, e bem segura, todas as outras bonecas se transformando em seres humanos, ao chegarem a Terra. Ela seria a última, ou uma das últimas, pois até então, ainda não conhecia outras bonecas iguais a ela. Raio e chuva a escondiam dentro de suas capas feitas de aço. Assim, era bem mais difícil Tati conseguir fugir e dar as mãos para o arco-íris rumo ao Centro da Terra.

Um dia, a boneca que falava e vivia no sol, conseguiu ver o pote de ouro do outro lado do arco-íris, e resolveu dar uma espiada nas condições da viagem que sempre soube que faria um dia, mais cedo ou mais tarde. Antes tarde do que nunca, já dizia sua outra tia-materna, a estrela cadente. Tati tirava todas as suas dúvidas com ela porque sabia que era a única capaz de entender seus mais íntimos desejos. Tão íntimos que o mar, seu eterno e único amor verdadeiro, ainda está conhecendo bem devagar, cada desejo seu.

Tati deu várias espiadas ao Centro da Terra, mas sempre amparada pelo cometa, que na verdade, era uma cometa com cara de anjo, mas que de boazinha não tinha nada. Passava tão depressa que Tati, às vezes, não conseguiu segui-la, mesmo que desejasse com seu mais profundo desejo. Um dia a cometa surgiu em sua vida com tamanha força que Tati não resistiu e subiu em sua cauda. Viajaram juntas por muitas galáxias, mas a boneca que falava e vivia no sol ainda não estava preparada para virar gente; e a cometa entendeu suas emoções.

Hoje Tati viaja na cauda da cometa com muito mais segurança, e principalmente, conforto. É uma viagem longa, cheia de tempestades, trovões, maremotos, vulcões, rochas, e muitas pedras pelo caminho, mas a boneca que falava e vivia no sol, está decidida a virar gente e entrar bem devagar no Centro da Terra, para ser de cristal, mas deixar de chamar a atenção de si mesma.

Não vai mais carregar nenhum peso nas costas, ser marionete de ninguém, e muito menos o centro das atenções. Será apenas mais uma boneca que virou gente e conquistou seu espaço na Terra, e não no centro dela. O maior desafio agora é Tati aprender a viver parecendo uma simples boneca, que sempre será de cristal, e chamará a atenção de todos, mas nunca deixará de ser e viver como gente, com todas as dores e delícias de ser humana.

Fantasias Caleidoscópicas

É um projeto de pesquisa que busca retratar a imagem (na maioria das vezes, preconceituosa) que a sociedade tem em relação à sexualidade das pessoas com deficiência, e desmistificá-la por meio de um ensaio fotográfico sensual; exposição itinerante; duas publicações com entrevistas, depoimentos, ilustrações e artigos; e oficinas educativas interativas sobre saúde sexual, em instituições de ensino e centros culturais pelo Brasil, e países interessados em receber o projeto.

Pessoas com deficiência física, visual, auditiva, intelectual, múltipla e/ou surdocegueira, sejam elas: jovens; idosas; gestantes; obesas; casais homossexuais e/ou heterossexuais; de várias etnias e classes sociais foram convidadas pela fotógrafa Vera Albuquerque, junto com a jornalista, Leandra Migotto Certeza a mostrarem sua beleza e sensualidade.

Para a fotógrafa, questiona-se, assim, o padrão de beleza - instituído pelos meios de comunicação e pela moral dominante - ressaltando a possibilidade de uma democratização do prazer, uma igualdade de direitos sexuais, uma disposição das mentes (e dos corações) contra os juízos prévios e os preconceitos.

Para a jornalista, dar voz às imagens é tão importante quanto o registro fotográfico, pois é interessante conhecer as histórias de vida dessas pessoas, que em sua maioria ainda são bem pouco ouvidas. O enfoque está na arte e na educação como agentes transformadores da realidade, aliados à palavra, como testemunha dos fastos e detentora de um poder de mudança na sociedade.

A exposição será totalmente acessível: com piso podotátil, catálogos em Braille e em formato digital para pessoas com deficiência visual; intérpretes de LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais para pessoas com deficiência auditiva; entre outros recursos. As publicações e as oficinas também serão totalmente acessíveis para todas as pessoas com deficiência, produzidas e ministradas por esses profissionais.

Toda a renda obtida com a venda das duas publicações e as oficinas será destinada, exclusivamente, às instituições não governamentais idôneas brasileiras, que proporcionam oportunidades de inclusão na sociedade às pessoas com deficiência, por meio de atividades artísticas e educacionais.

Á convite da Associação Internacional para o Estudo da Sexualidade, Cultura e Sociedade, as primeiras nove fotos foram expostas no 6º Congresso Internacional Prazeres Dês-Organizados – Corpos, Direitos e Culturas em Transformação, em Lima no Peru, em junho de 2007. O projeto ficou em segundo lugar (categoria pôster) na premiação do congresso!!

Á convite do Ministério da Saúde, o projeto Fantasias Caleidoscópicas também foi apresentado no "I Seminário Nacional de Saúde: Direitos Sexuais e Reprodutivos e Pessoas com Deficiência", em Brasília, em março de 2009. Em virtude deste seminário, a TV Brasil - www.tvbrasil.org.br fez uma reportagem sobre a Sexualidade da Pessoa com Deficiência e entrevistou Leandra Migotto Certeza.

Hoje as idealizadoras de Fantasias Caleidoscópicas buscam patrocínios, apoios e/ou parcerias (cotas ou integral) de empresas particulares ou públicas; instituições de ensino e/ou não governamentais (nacionais e/ou internacionais) para viabilizar a realização completa do ensaio (cachê para as pessoas fotografas, transporte, estadia e todos os gastos com a produção das fotos); montagem da exposição acessível; produção das duas publicações também acessíveis; e custos das oficinas, ministradas por educadores com deficiência, em escolas públicas e privadas, universidades; além de centros culturais.

Mais informações sobre o projeto no link:

http://www.sxpolitics.org/mambo452/index.php?option=com_content&task=view&id=135.

Contatos com as idealizadoras do projeto:

Leandra Migotto Certeza – Jornalista - Tel: (11) 3453-5370 ou 8697-9067.

E-mail: leandramigottocerteza@gmail.com.

BLOG: http://leandramigottocerteza.blogspot.com/.

Vera Albuquerque – Fotógrafa – E-mail: vera_foto@yahoo.com.br.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Blog: Eu, OI e ETC

A dica de hoje é o blog da minha amiga Simone Urbano.

Em "Eu, OI e ETC", ela conta como é viver com Ostegenesis Imperfecta, a mesma deficiência física que eu tenho.

Vale muito a pena seguir os ótimos relatos cheios de alegria, contados com carinho e muita experiência.

http://euoietc.blogspot.com/

Parabéns Si! Você é uma grande mulher!

Descrição da imagem: Logo da 2° Caminhada Mundial dos Portadores de Doenças Raras - 27 fevereiro de 2011 - Parque da Aclimação. Desenho estilizado de uma pessoa sentada na cadeira de rodas na frente e outra andando. Ambas tem um trevo colorido no meio do corpo. A frase sobre a Caminhada está escrita no meio do logo.

Viver a vida!

Sou Leandra Migotto Certeza. Nasci em 1977. Os médicos disseram que eu não iria sobreviver.

Já no útero da minha mãe tive várias fraturas. Minha deficiência física era desconhecida, rara e grave. Hoje, muitas crianças com Osteogenesis Imperfecta, conhecida como “ossos de vidro” vivem sem dor e com autonomia.

Eu tive mais de 50 fraturas. Andei com 5 anos, e parei aos 7. Voltei a andar e aprendi a nadar com 14, e hoje me locomovo em uma cadeira de rodas com muita independência.

Minha infância foi muito alegre. Brincava na areia, de pega-pega, e corre cotia, andando de bundinha no chão. Meus amiguinhos nunca me deixavam de fora da diversão. Dos 5 aos 6 anos, vivi doces anos de criança feliz.

Tenho 96 cm, sou jornalista desde 1999, e estou junto (desde 2005) do meu grande companheiro, Marcos dos Santos. Sou muito feliz no amor! Estou apaixonada e vou me casar no civil.

Quando tinha 7 anos estudei em uma sala especial de um colégio público que segregava os alunos com deficiência dos demais por uma grade de ferro, como se eles tivessem uma doença contagiosa. O nosso pátio era escondido, e entrávamos pelos fundos da escola.

Eu sempre tive muita força de vontade para saber crescer em um corpo 'diferente' do que a sociedade convencionou como padrão. Tive 6 namorados, e tenho muitos amigos e amigas fiéis.

A fase mais difícil da minha vida foi na adolescência. Todos os garotos sempre viravam o rosto para não me beijarem. Uma ginecologista enfiou um livro de anatomia na minha frente, e disse que eu não podia fazer nada com o meu corpo!

Contei com o fundamental apoio da família e dos verdadeiros amigos, mas ainda enfrento MUITOS preconceitos, todos os dias, por várias pessoas, e por todos os lados.

Ganhei madalhas em campeonatos de natação, desfilei 5 vezes em escolas de samba, andei de moto, viagei sozinha para o Peru, e com o meu noivo para praia, várias vezes. Fiz vários cursos, subi muitas escadas na faculdade, carreguei mochilas muito pesadas e dancei noites inteiras.

Participei sempre das baladas e festas, bebi bastante até cair, assisti muitos shows, filmes e peças de teatro, vi várias exposições de arte, e trabalhei como educadora em outras.

Fui revisora de textos, monitora educacional, colunista, repórter, atendente, recepcionista, e hoje sou jornalista, e aprendiz de escritora. Sou consultora sobre Deficiência, e ministro cursos, palestras e oficinas em empresas, escolas, centros culturais, ONGs e/ou grupo de pessoas.

Meus principais artigos estão no link: http://twixa.com/ryjMA

Recebi dois prêmios pelo meu trabalho como jornalista: um na Colômbia, por meu depoimento sobre educação para todos e todas, e outro no Peru, pelo projeto de fotos em equipe: "Fantasias Caleidoscópicas" que está no blog: http://fantasiascaleidoscopicas.blogspot.com/

Tornei-me uma forte ativista pelos Direitos Humanos das Pessoas com Deficiência, já fiz fotos sensuais, e coordeno um projeto sobre a sexualidade das pessoas com deficiência, um dos maiores tabus que ainda existem na sociedade.

Em fevereiro de 2010, o depoimento sobre a minha vida foi ao ar na novela "Viver a Vida", do Manoel Carlos na TV GLOBO para o mundo inteiro assistir! Os links são: http://www.youtube.com/watch?v=a9xC5DOLiQY  e http://www.youtube.com/watch?v=TyxaoaO13bA

Recebi um grande reconhecimento profissional na Universidade Federal de São Carlos: http://leandramigottocerteza.blogspot.com/2010/11/reconhecimento-profissioanal.html

Sou feita de honestidade, humildade, solidariedade, ética, companheirismo, sinceridade, amizade, simplicidade, energia positiva, força de vontade, carinho, lealdade, fidelidade, garra, corragem, e principalmente, fé no ser humano.

Sou eternamente e absolutamente contra: qualquer forma de CRIME, discriminação, preconceito (principalmente velado), racismo, homofobia, exploração, hipocrisia, injustiça, corrupção, sacanagem, enganação, falta de caráter e ética, desonestidade, maldade, traição, humilhação, hierarquia, prepotência, arrogância, maxismo, ganância, senssacionalismo, pieguiçe e falta de esperança.

Gosto muito do cheiro de terra molhada, comida feita em casa com amor, barulho de criança e bate papo de amigos, alegria e carinho de familia reunida, aventuras, novas experiências, beber vinho, pôr do sol, mar, praia, sexo, chocolate, silêncio, olhar doce de crianças e idosos, trabalhar, conversar, vibração de jovens, livros, e mais livros, falar, falar, falar, e falar, palavras e mais palavras...

Não sou melhor ou pior do que qualquer ser humano. Hoje busco minha autonomia financeira, equilíbrio emocional, paz interior e auto-conhecimento.

Sou muito auto-crítica, solidária, intensa, verdadeira, forte, 'justiceira', libidinosa, transparente, alegre, e companheira. Gosto de uma boa briga, falo pelos cotovelos, amo discutir ideias, trocar experiências, e viver cada dia como se fosse o único e o último.

Para mim a diversidade faz parte da vida!

O que mais gosto de fazer é escrever. Eu amo viver!


“Em uma estrela, um brilho

Em princípio inatingível

ofuscado pelo vidro

oprimido, impedido

Ilhado por sentido

fundo, profundo

Dentro de si mesmo.”


Leandra - 1997 à ...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Experiências educacionais de pessoas com deficiência

Por Leandra Migotto Certeza - jornalista.

A educação inclusiva é uma proposta em construção, e a medida que se propaga tem evidenciado suas vantagens pedagógicas e sociais. A professora de Educação Inclusiva com deficiência visual, Naira Rodrigues, afirmou em entrevista, que o Brasil está passando por uma grande transformação positiva no sistema educacional.

Os depoimentos inéditos de alunos com deficiência, apresentados comprovam que este processo desfaz preconceitos, incentiva o convívio com as diferenças individuais e estimula o aprendizado mútuo. Todos foram questionados sobre como foi o seu processo educacional: em escolas especiais ou inclusivas; quais as adaptações necessárias e como é a convivência com professores e colegas de classe.

Francelene Rodrigues - “A educação inclusiva deve ser uma lição de casa para o mundo”.

A estudante Francelene, 37 anos, tem quatro filhas adolescentes e um neto. Sua deficiência física, a tetraplegia, foi adquirida após uma violência doméstica do meu ex-marido, em 1998. Atualmente, atua como líder comunitária no Itaim Paulista; é Conselheira de Saúde do Centro de Testagem e Aconselhamento em DST/AIDS Sérgio Arouca; e agente educacional de prevenção às DSTs e AIDS, por meio do projeto: “Elas por Elas”.

“Estou no 4º semestre do curso de Serviço Social da faculdade Unicastelo do campus de Itaquera. Logo que cheguei à faculdade, foram feitas adaptações para garantir a acessibilidade em quase todos os espaços, e ainda faltam alguns ajustes. Mas hoje me sinto livre para me locomover, pois fizeram rampas e instalaram dois elevadores. Fiquei muito feliz pelas mudanças. Os professores da faculdade sabem respeitar e compreender as limitações dos alunos com deficiência”.


Kátia Fonseca – “É importante conversar e conviver com os alunos com deficiência”.

A jornalista, Katia, 53 anos, tem acondroplasia, uma das classificações do nanismo. Formou-se na Faculdade São Leopoldo de Santos, onde nasceu. É presidente do Centro de Vida Independente de Campinas, ONG em defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Estudou 15 anos na Aliança Francesa, e trabalha como Editora Assistente de Opinião do Jornal Correio Popular, em Campinas, onde também reside.

“Sempre estudei em escola regular privada. Não foi necessária nenhuma adaptação, recursos técnicos ou sala de apoio. Eu sempre contava com a ajuda dos colegas e dos professores. Fiz cursinho pré-vestibular, e como o local não era acessível, meus colegas também supriam as minhas necessidades, como, por exemplo, ajudar a subir as escadas ou a ir ao banheiro”.

Sidney Tobias de Souza – “O desafio da educação inclusiva é apenas no início, depois tudo segue naturalmente”.

O paulista Analista de Sistemas, 44 anos, é casado e pai de dois estudantes universitários sem deficiência. Perdeu a visão aos 13 anos, voltou aos estudos aos 15. Trabalhou como office-boy (pois se locomove com autonomia pela cidade), cursou programação de microcomputadores, e hoje é formado em Administração de Empresas pela Universidade Bandeirantes – UNIB, onde estudaram também alunos com deficiência visual, física e auditiva, além de um professor com deficiência física.

“Logo na primeira semana de aula da faculdade, um aluno que fazia as anotações da lousa em um lap topo se ofereceu para me repassá-las por e-mail. Depois os alunos da turma se revezavam para enviar as anotações de cada matéria. Quanto às provas, elas não estavam disponíveis em Braille; então, me deixaram livre para optar entre fazer num computador ou prova oral”.

Samara Andresa Del Monte – “A escola ideal e inclusiva é aquela que respeita a capacidade e as necessidades do aluno com deficiência”.

A estudante paulista de 21 anos mora em Diadema (SP), está no segundo ano do curso de Jornalismo na Universidade Paulista – UNIP, e há oito anos é editora da revista “Mais Deficiente”. Quando nasceu o cordão umbilical estava enrolado no meu pescoço, por isso, faltou oxigênio no cérebro, o que ocasionou Incapacidade Motora Cerebral (conhecida antigamente como Paralisia Cerebral). Ela usa cadeira de rodas para me locomover, o sistema Bliss para see comunicar, e escreve apenas no computador. O Bliss é uma prancha com diversos símbolos que facilita a comunicação. Samara aponta o símbolo e a pessoa que estiver conversando, já sabe o que significa porque cada símbolo tem uma legenda, assim ela não precisa soletrar cada palavra. Estudou até os 14 anos em escolas especiais quando sua matricula foi aceita em um colégio regular. Hoje seus projetos são se formar e trabalhar na profissão que escolheu.

“As salas são acessíveis, e a UNIP disponibiliza uma vaga no estacionamento dentro da própria universidade. Para estudar, leio os textos normalmente, mas preciso de alguém para escrever. Esse ano quem me ajuda é a minha irmã Sarita. Quanto às provas, levo meu laptop, digito com o auxílio de um capacete e uma ponteira (pois não tenho coordenação fina nas mãos), e a Sarita redige na folha. E caso precise, os professores permitem que eu fique até depois do horário para terminar a prova”.

PALAVRA DO EDUCADOR

Diversidade em sala de aula: contexto atual da educação.

Por Leandra Migotto Certeza - jornalista.

A experiência de Adriangela Bonetti, com a Escola Municipal de Educação Infantil José Prestes de Guaporé no Grande do Sul, é um exemplo de que a educação inclusiva de alunos com deficiência é cada vez mais freqüente. Pedagoga pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões e Especialista em Administração Escolar pela Faculdade Portal de Passo Fundo, a educadora conta os principais desafios encontrados e os resultados obtidos.

Seu depoimento inaugura a nova sessão do Caleidoscópio: "Palavra do Educador", um convite aos professores a compartilharem suas vivências enviando artigos para o e-mail: leandramigottocerteza@gmail.com

"Acredito, sinceramente, que as diferenças existem para o crescimento de todos e não para a segregação” - Adriangela Bonetti

Minha experiência como coordenadora da capacitação em educação inclusiva, surgiu da necessidade de adaptar recursos didáticos para todos os alunos aprenderem; além de modificar a cultura que permeava no contexto escolar de que os alunos que possuem deficiência ‘deveriam’ ser atendidos somente em classes especiais e não na escola regular.

O objetivo foi possibilitar, por meio de estratégias diversificadas, que todos os alunos desenvolvessem habilidades essenciais à vida e à convivência com a diversidade, tanto em sala de aula, como na sociedade, de acordo com suas capacidades intelectuais e físicas. Iniciei um planejamento que previa várias atividades por dia, com no máximo 30 minutos para cada uma, pois percebi que além de serem alunos inteligentes com boa motivação para aprender, eram também muito dinâmicos.

Realmente, os primeiros dias não foram fáceis de trabalhar com a turma de 26 alunos e vários ritmos de aprendizagem. Por isso, conversei com a professora, e fui informada que antes do meu trabalho, haviam optado por um monitor em sala, para ‘atender’ os alunos com deficiência, e que talvez isso tenha contribuído na insegurança e dependência de alguns, principalmente na aluna com incapacidade motora cerebral (deficiência física), pois o monitor a acompanhava fazendo atividades diferenciadas da turma.

As refeições eram oferecidas em horários distintos, ela só subia e descia escadas se apoiando nele, e não interagia com os colegas nas atividades do recreio. Ela ainda não havia aprendido todas as letras do alfabeto, não conhecia números, e apenas com bastante limitação ortográfica e motora, escrevia seu nome. Por isso, demorou mais tempo para que ela conseguir abandonar os ‘vícios e privilégios’ e ter autonomia.

O caso dessa aluna me fez perceber que era necessário desenvolver conteúdos interessantes com recursos adaptados e diversificados para os alunos produzirem de forma autônoma, além de acabar com a cultura de que os alunos com deficiência deveriam ser tratados de forma diferenciada. Só assim superariam suas limitações. Além disso, como os alunos apresentavam ritmos de aprendizagem bem diferenciados, eu precisava estar constantemente atenta para sempre ‘mantê-los ocupados’. O objetivo principal foi fazer com que os alunos conseguissem alimentar-se; subir e descer escadas sem ajuda; e participar do recreio com os demais colegas e das atividades que a turma realizaria fora da escola.

A família também foi orientada sobre como proceder em casa com eles, a fim de cooperar com o que já se fazia na escola. Pois, para mim estava bem claro que naquela turma não havia ‘aluno problema’, e ‘indisciplinado’ como alguns falavam, mas sim alunos com muita vontade de aprender; dinâmicos e que não estavam sendo compreendidos e atendidos da forma como poderiam produzir. Por isso, as aulas eram mescladas por atividades bem lúdicas. Iniciávamos sempre com a “Hora do conto”, seguida de análise dos ‘problemas’ do texto. E às vezes eu mesma fazia a leitura, e em outras os próprios alunos. Nem sempre um texto era lido, e os ‘problemas’ surgiam de uma novidade que um colega contava, por exemplo. O importante era começar a aula chamando a atenção dos alunos para o que seria estudado.

Os resultados começaram a aparecer: não havia indisciplina fora do controle, pois estavam ocupados em realizar as atividades juntos; os apelidos preconceituosos que alguns possuíam foram esquecidos; e o trabalho em grupo já era rotina, pois ao contrário do que às vezes se pensa, os alunos produzem e se concentram mais trabalhando juntos.

Porém, percebi resistência por parte de alguns em trabalhar com os colegas com deficiência. Assim, foi necessário conversar bastante para vencer o preconceito antes que se arraigasse no coração e mente dos pequenos. Para isso, contamos com Ziraldo, que de forma tão sábia escreveu FLICTS, um livro fantástico sobre as diferenças. Não demorou muito e os frutos começaram a aparecer. Vários alunos se alfabetizaram e já conseguiam auxiliar outros colegas para ler e escrever. Percebia-se também que a cooperação e o espírito de equipe cresciam a cada dia. Mas ainda era necessário elogiar, pois além de merecê-los os alunos precisavam ser mais motivados e incentivados a progredir.

O desafio com certeza era grande, mas tentador; e exigia um trabalho coletivo. Então, busquei ajuda para conseguir que todos se desenvolvessem conforme suas possibilidades, e orientei aqueles que eram rotulados de ’indisciplinados’. Obtive apoio de colegas da Secretaria Municipal de Educação, Direção e Vice, além dos Coordenadores que ajustaram algumas situações no cotidiano escolar para todos participarem do recreio juntos. A família fosse convidada a acompanhar mais de perto a vida escolar; e para os alunos com deficiência foi elaborado um Plano Educacional Individualizado metas e ações visando o seu bom desenvolvimento. Além disso, os educadores previram no Projeto Político-Pedagógico, como fariam a inclusão escolar.

Depois passei a me preocupar em mediar mais situações de aprendizagem. Isso foi necessário, pois alguns alunos produziam muito, em um ritmo bom, por isso, era justo ajudá-los também a avançarem no conhecimento. Caso contrário, eles poderiam se tornar indisciplinados, se não tivessem à sua disposição atividades nas quais canalizassem suas inteligências e energias. Pensando nisso, desenvolvi alguns projetos intitulados: “Biblioteca Na Sala de Aula: Um Ambiente Propício à Leitura” e “Meios de Transportes e Educação para o Trânsito”. E graças ao apoio financeiro do Ministério Público local, conseguimos realizar todas as etapas dos projetos, e transformamos a sala de aula um ambiente mais prazeroso, lúdico e de aprendizagens múltiplas, além de promover a socialização e interação da comunidade escolar.

Os dias foram se passando e a turma manifestava progressos significativos também nos relacionamentos; atitudes e valores entre si. Então, logo percebi que a aluna com incapacidade motora cerebral começou a se alfabetizar, começando escrever no quadro-negro seu nome, letras, sílabas, palavras e frases, e as lia, mesmo que incompletas (pois, faltavam os elementos de ligações). Mas o que importava era que ela escrevia três palavras, e lia cinco ou mais. E depois de dois meses de aula já não necessitava de ajuda para subir ou descer escadas. Alimentava-se com autonomia; brincava no recreio como os demais participando da fila; das aulas de educação física, e das atividades junto com a turma.

Desse momento em diante percebi ainda mais claramente que o desenvolvimento é do aluno, mas com a estimulação por meio de recursos adaptados será de forma mais plena. Por isso, sempre demonstrei aos meus alunos interesse e confiança: informando-os constantemente sobre aquilo que poderiam produzir, mesmo que estivesse além de suas capacidades, em um primeiro momento, o que os motivava bastante. Foi desta forma que o aluno com graves problemas psicológicos aprendeu logo a usar o banheiro sem ajuda, começou a se alimentar com mais calma e firmeza, e agora participava com os outros colegas de todas as atividades dentro e fora da sala de aula.

E embora não tivesse ainda a compreensão dos sinais gráficos, ele lia livros para os colegas, observando as gravuras. Fazia gestos e mudava a expressão facial em alguns trechos do livro. Manuseava bem o caderno, mesmo não escrevendo ordeiramente. Esforçava-se para desenhar, gostava de trabalhar com massa de modelar e adorava dançar e cantar. Aulas com música o deixavam muito feliz. E era comum ele ficar cantando a música trabalhada na aula por dias. Também manuseava jogos pedagógicos e ganhava muitas vezes no jogo de memória. Como a escola recebe alunos de bairros carentes, muitos alimentos e outros objetos eram conhecidos somente por meio das figuras dos jogos que ajudaram todos a melhorar o vocabulário.

Não fizemos um planejamento separado para aos alunos com deficiência, e sim, métodos diferentes com recursos adaptados, diversificando estratégias para que todos possam acessar os conteúdos conforme suas possibilidades. Certamente, se para muitos parece pouco ou nada o que se faz para incluir todos nos sistemas de ensino, para outros os avanços são enormes, e às vezes gigantescos.

O que faz a diferença, para mim, é que não existem esforços sem conquistas, existem, sim, metas sem ações. É preciso mudar a atitude e ver a educação como um espaço para todos. Os educadores devem ser os primeiros a acreditar que é possível transformar as escolas em espaços de aceitação, acolhida, interação, desenvolvimento e aprendizagem para todos. Conduzir esta experiência de forma tão direta me fez ver que a limitação está em todos nós.

Algumas são mais raras, menos familiares e aceitáveis, porém mais evidentes. Por isso, é necessário valorizar e destacar o que dá certo, o que evoluiu, e o que é bom. Assim, será possível a cada um enxergar o que tem de bom no ‘mau’ e o que tem de mau no ‘bom’. Acredito, sinceramente, que as diferenças existem para o crescimento de todos e não para a segregação.

Que trabalhar com elas no seres humanos é uma oportunidade de provarmos a nós mesmos o quanto estamos dispostos a aprender, e admitimos a necessidade de sempre buscar novos meios para ajudar os alunos a se desenvolverem; além de mediar o processo para que todos tenham inicialmente autonomia e gerencie suas vidas e aprendizagens significativas em sociedade.

Concluo que enquanto educadora não necessito de formação específica para trabalhar com alunos com deficiência, até porque, nenhum educador conseguiria, durante seu curto período de vida, conhecer e saber trabalhar com todas que existem. Nem que ele vivesse dentro de uma universidade.

O que é preciso é assimilar a ideia de que ao professor da sala de aula regular compete ofertar ao aluno a apropriação dos conteúdos. E isso é possível quando o professor se apropria (com conhecimento) dos diversos recursos e estratégias que estão à sua disposição, e oferece a todos aos alunos no mesmo tempo e espaço. Pois, o professor é responsável pelo atendimento educacional regular; e pelo atendimento educacional especializado que o aluno com deficiência receberá nas salas de recursos multifuncionais.

“Os educadores devem ser os primeiros a acreditar que é possível transformar as escolas em espaços de aceitação, acolhida, interação, desenvolvimento e aprendizagem para todos” - Adriangela Bonetti.

“Antes de tentar, não diga que você não consegue".

“A escola ideal e inclusiva é aquela que respeita a capacidade e as necessidades do aluno com deficiência”.

Por Leandra Migotto Certeza - jornalista.

Entrevista com Samara Andresa Del Monte

A estudante de 21 anos mora em Diadema (SP), está no segundo ano do curso de Jornalismo na Universidade Paulista – UNIP, e há cinco anos é editora da revista “Mais (D) Eficiente”. Segundo ela, é um importante espaço para avaliar o quanto a sociedade é deficiente em muitos aspectos.

Samara estudou até os 14 anos em escolas especiais, por não ter sido aceita em escolas regulares, devido a sua deficiência física. Hoje seus projetos são se formar e trabalhar na profissão que escolheu. Sarita abre uma das edições de sua revista com a seguinte frase: “Antes de tentar, não diga que você não consegue. E se você conseguir? Você não tem uma pessoa a toda hora com você. Então, tente! As coisas que parecem ser impossíveis podem se tornar possíveis; só depende de você”. Um grande incentivo aos educadores.

Caleidoscópio: Conte um pouco sobre sua vida.

Samara: Quando nasci o cordão umbilical estava enrolado no meu pescoço e faltou oxigênio no cérebro, então tive Incapacidade Motora Cerebral (conhecida antiga Paralisia Cerebral). Uso cadeira de rodas para me locomover, o sistema Bliss para me comunicar, e escrevo apenas no computador. Amo ouvir música.

Caleidoscópio: Quem são seus amigos? Qual a importância da sua família em sua vida?

Samara: A minha família é fundamental para mim. Devo a ela tudo o que consegui. Ela me incentiva e auxilia muito para que eu possa fazer as coisas como qualquer pessoa. Tenho amigos que estão comigo desde pequena, amigos recentes como os da faculdade e os de todas as idades.

Caleidoscópio: Como foi o seu processo educacional? Estudou em escolas especiais em instituições (somente com alunos com deficiência) ou em escolar regulares junto com todos os alunos?

Samara: Desde pequena queria estudar em uma escola igual a da minha irmã. Mas entrei para escola especial com 4 anos, e aos 7 anos estava alfabetizada. Mas somente com 14 anos encontramos uma escola regular que aceitasse fazer a minha inclusão. Foi a Espaço Livre. Antes estudei nas escolas especiais: Aptho, Bela, Quero-Quero, e Centro de Reabilitação Uniban. Só fiz o supletivo do ensino médio e a universidade em estabelecimentos de ensino regulares.

Caleidoscópio: Como era a acessibilidade física em cada uma dessas escolas? Em quais escolas você encontrou mais dificuldades para estudar? E em quais encontrou mais facilidade?

Samara: As escolas especiais tinham acessibilidade. A escola Espaço Livre era térrea, então não havia dificuldade. Na que eu fazia o supletivo tinha uma escada e precisava que alguém ajudasse. A UNIP é adaptada com: elevador, banheiro adequado, vaga reservada para estacionar o carro, e computador para eu fazer as provas.

“Educadores: as portas de sua escola e de seu coração para um aluno com deficiência, vocês não vão se arrepender” - Samara.


Caleidoscópio: Você passou por situações de preconceito e discriminação em alguma dessas escolas?

Samara: Quando eu estava na 7ª. Série - na aula de educação artística - fiz o primeiro desenho e, para o segundo, o meu colega pediu uma folha. A professora pegou o meu desenho, olhou, virou no verso e deu para ele, como se o meu simplesmente não existisse. Alguns professores do ensino regular me consideravam um objeto: quando eu tinha dúvidas, precisava me movimentar muito para eles me olharem e mesmo assim ignoravam. Os colegas no início me ajudavam muito, depois ajudavam algumas vezes.


Caleidoscópio: Os colegas de sala e os professores da universidade te aceitam e respeitam as suas características? Quais são as adaptações físicas, e de comunicação que utiliza para estudar?

Samara: A UNIP respeita os alunos com deficiência. Os meus colegas demoraram um pouco para chegar até a mim, mas agora já somos amigos, e eles consideram muito as minhas opiniões, quando fazemos trabalhos em grupo, por exemplo. Alguns professores têm mais facilidade em me entender, outros nem tanto. Sabendo disso, tenho uma acompanhante para intermediar a minha comunicação, e agilizar o registro das aulas. Não há adaptações físicas, pois na própria cadeira de rodas já tem uma mesa acoplada. As salas são acessíveis, e a UNIP disponibiliza uma vaga no estacionamento dentro da própria universidade. Para estudar, leio os textos normalmente, mas preciso de alguém para escrever. Esse ano quem me ajuda é a minha irmã Sarita. Quanto às provas, levo meu laptop, digito com o sistema de comunicação Bliss (com o auxílio de um capacete e uma ponteira), e a Sarita redige na folha. Se precisar, os professores permitem que eu fique até depois do horário para terminar a prova.
Caleidoscópio: Quando começou a escrever e a editar da revista Mais (D) Eficiente? Como surgiu a publicação?

Samara: A revista foi lançada em 2001, de forma bastante artesanal. Depois, com ajuda de colaboradores, ela foi diagramada, e impressa em gráfica com tiragem de 3000 exemplares. Faço uma por ano, e ela está na 8ª edição. A idéia surgiu para mostrar e explicar um pouco mais sobre a vida das pessoas com deficiência. Escolhi este nome porque cada vez mais há pessoas nascendo ou adquirindo deficiência. E, também, para mostrar o quanto nossa sociedade é deficiente em relação a tudo.

Caleidoscópio: O que você mais gosta de fazer na revista? Qual a importância dela para os professores que também têm alunos com deficiência nas escolas?

Samara: Tudo o que é feito na revista eu gosto muito: artigos sobre as dificuldades do dia a dia; informações sobre patologias; dicas de como se relacionar com pessoas com diversas deficiências; entrevistas com profissionais; poesias; denúncias; leis; histórias de superação; sugestões de filmes entre outros assuntos. Muitos professores têm aprendido a lecionar para os alunos com deficiência e, principalmente, a acreditar mais neles. E, digo isso, porque sempre recebo mensagens de professores dizendo o quanto foi importante para eles conhecerem a revista, e também recebo convites para dar palestra em escolas.

Caleidoscópio: Como você acha que deve ser a escola ideal e inclusiva? E como você avalia que as escolas são hoje? O que precisa ser melhorado e o que está funcionando bem?

Samara: A escola ideal e inclusiva é aquela que respeita a capacidade e as necessidades do aluno com deficiência. Foi muito importante para a minha aprendizagem, o trabalho dos terapeutas em conjunto com os professores. Então, acredito que deveria ser assim em todas as escolas. As escolas mudaram depois das leis que garantem a matrícula dos alunos com deficiência, mas as escolas com turmas pequenas, professores capacitados, acessibilidades, têm mais condições de serem realmente inclusivas.

“Muitos professores têm aprendido a lecionar para os alunos com deficiência e, principalmente, a acreditar mais neles” - Samara.


Caleidoscópio: Quais são seus principais sonhos e projetos de vida? Qual mensagem deseja deixar para os alunos e professores que estudam em escolas inclusivas?

Samara: Muitos de meus sonhos eu já realizei e o maior de todos foi de entrar para faculdade e fazer jornalismo. Já escrevo artigos para o jornal da igreja, mas quero me formar, ser uma boa jornalista e trabalhar. A mensagem que eu deixo é: se hoje estou conseguindo o meu espaço e reconhecimento é porque um dia uma escola abriu, além de suas portas, o seu coração. Educadores: abram também as portas de sua escola e de seu coração para um aluno com deficiência, vocês não vão se arrepender.