segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

70 Anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos




As Mulheres e Os Direitos Humanos

Por Carlos Alberto Lungarzo
Anistia Internacional (USA) – Reg. 2152711

Hoje, em pelo menos uma metade do planeta, a teoria dos DH básicos constitui um consenso. Mesmo que existam alguns elementos isolados e sombrios, que assomam suas horríveis cabeças em diversos meios (especialmente nos setores conservadores da política e nas forças de repressão), exigindo a volta da tortura e da pena de morte, e se opondo a igualdade racial, em geral, quase ninguém contesta abertamente sua validade. Entretanto, apesar dessa coincidência, sua aplicação mínima é inatingível em quase todo o continente americano e parte da Europa.
Pode imaginar-se, então, como era o desespero para a metade da Humanidade que os DH visam proteger, há menos de um século: as mulheres não tinham direitos formais nem reais. Ainda hoje, apesar de que a teoria dos DH tem sido estendida formalmente às mulheres, sua aplicação prática é ainda mais difícil que seu equivalente no caso masculino. Isso acontece porque, além da discriminação que existe nos empregos, na vida pública, na atividade intelectual, na política, a mulher é ainda explorada no lar e na vida sexual.
Como dizia o grande revolucionário vietnamita Nguyễn Sinh Cung, que nossa geração conheceu por seu nome de batalha Hồ CHÍ MINH (o que dá luz), nos duríssimos dias da luta daquele país por sua autonomia, a mulher sofre uma tripla opressão: “Ela é oprimida pelo sistema social, pelo clã e pelo marido”.
No obstante, a intuição dos Direitos de Mulher é muito antiga, e a primeira reivindicação dos Direitos Humanos em geral foram afirmados explicitamente, pela primeira vez, por uma mulher, Antígone.

O Desafio Feminino

Até o século 5º antes de Cristo, não havia sinais do protagonismo da mulher na vida pública, salvo por breves aparições em algumas comédias e tragédias. Tampouco ninguém tinha formulado o valor dos DH naturais, aqueles que, como dirá depois o jurista Ulpiano, “Deus dá a todos os animais e não apenas aos homens”.
Na Grécia Clássica, inclusive dentro de sua restrita democracia (que só atingia homens adultos, livres e não estrangeiros), a sociedade parecia pensar que os direitos formais gerados pelas guerras e pelo domínio de classe eram “naturais”. Afirmava-se que eram desse jeito porque não podiam ser de outro, e que ninguém poderia questioná-los, pois o direito de propriedade, de mandar sobre os outros, de punir os infratores da sociedade, eram direitos tão evidentes como os fenômenos naturais, tormentas e chuvas.
Entretanto, embora esta sacralidade do direito positivo era comum nos povos monoteístas, e se transformou em regra de ouro durante o  cristianismo, na Grécia pagã ainda existia um resquício para a liberdade, que o dramaturgo Sófocles (por volta de -450) personifica na heroínaAntígona.
Polinices e Etéocles, órfãos de Édipo, rei de Tebas, brigam entre si pela herança do governo da cidade e ambos morrem na luta. Creonte, irmão de Édipo, assume o poder e permite enterrar o cadáver de Etéocles, mas não o de Polinices, que era considerado traidor, pois tinha sido ajudado por inimigos da cidade. Creonte aplicou o direito positivo da época que proibia o funeral de traidores. Antígona, irmã dos mortos, desafia a proibição do tio e tenta sepultar o corpo de Polinices. Creonte manda prende-la e lhe pergunta se ela tinha ousado desobedecer suas leis. Num parágrafo célebre, Antígona responde com um argumento que se tornou símbolo do direito à liberdade de consciência:
Sim, pois não foi Zeus que deu [essas leis]
Nem a Justiça, que habita com os Deuses subterrâneos,
Quem delineou estas leis para todos os filhos dos homens;
Nem eu acreditei que teus editais [fossem] fortes o suficiente,
Vindos de um homem mortal, para reduzir ao Nada
As leis imutáveis não escritas de Deus.
Elas não são de hoje nem de ontem,
Mas existem desde sempre, e não pode o homem afirmar
Quando apareceram
(Da versão de Harvard Classics,volume 8, parte 6, 493/501, traduzida por E. H. Plumptre.)
Esta forma de pensamento de Antígone talvez teria conduzido a sociedade ateniense ao reconhecimento do valor da consciência acima da autoridade, do militarismo e do nacionalismo, já que o Deus a que ela se refere (Théus) é uma representação geral da gênese do Universo. Entretanto, alguns séculos depois, o cristianismo deu a Deus um caráter pessoal (interpretável pelos padres), tornando o direito natural numa forma arbitrária de direitos revelado. A Humanidade atrasou-se 20 séculos.
O filósofo inglês Stuart Mill (1806-1873), uma mente avançadíssima para sua época, denunciava que o sistema patriarcal era tão antigo como a humanidade, e escreveu um famoso livro sobre a opressão feminina:
Mill percebeu que a condição feminina é uma forma de escravidão. Mas, outras formas de dominação semelhantes que ele não menciona (omilitarismo e o classismo, por exemplo) foram geradas pelo mesmo método que a dominação da mulher: pessoas mais fortes, melhor armadas, mais rápidas, assumiram domínio sobre outras, e depois, sua opressão ficou justificada através de regulamentos e cumplicidades.
Em quase todas as culturas, a mulher ficou relegada à reprodução e ao lar, mas, apesar de sua falta de liberdade e de seu perfil discreto, a maior parte das religiões apresentou o feminino como nocivo e perigoso. Em poucas passagens da Bíblia se reconhece a importância de alguma mulher (como a juíza Deborah), mas em muitas outras, o feminino é tratado com desprezo. Por exemplo:
[Depois de uma batalha]. E se encontras entre os cativos uma linda mulher, e a desejas, deves apropriar-te dela e transformá-la em tua esposa –DT 21:11
Alguns sugerem que o Cristianismo teria favorecido à mulher, mas as passagens do Evangelho onde se demoniza o feminino são majoritárias. As singelas gentilezas de Lucas (8:13 e 23:27) e Mateus (27:55) ficaram esquecidas quando a Igreja assumiu o poder. A partir do século 12, o direito canônico enfatizou a “inferioridade” moral e intelectual da mulher. Anos depois, Santo Tomas adotou uma idéia de Aristóteles: o único gênero real é o masculino, pois a mulher é um “erro” da natureza (um erro esquisito que aparece um 50% das vezes). Não tendo raciocínio, deve manter silêncio e obediência ao homem, e ficar fora da vida pública. Aliás, deve ser castigada pelo marido por tê
-lo afundado no pecado original. O direito canônico autorizava a bater nela e privar-la de comida, mas evitando matar-la!
As religiões reformadas reconheceram parcialmente o valor da mulher. No século 16, na Inglaterra, várias escritoras ficaram famosas, e a mesma Elizabeth 1ª promoveu a educação feminina. As religiões alternativas, espiritualistas e naturalistas, amenizaram as diferenças de gênero; o credo Bahá’i, fundado em Irão em 1844, defendeu a igualdade de direitos entre os sexos, além de combater o racismo, a homofobia e qualquer outro preconceito. Nos Estados Unidos a misoginia prevaleceu até o século 19. Os puritanos que governavam as colônias queriam repetir a experiência católica do terror inquisitorial. Um caso lembrado todos os anos junto ao túmulo das vítimas, é o massacre de 14 mulheres consideradas “bruxas”, na cidade de Salem (Massachusetts), entre 1692 e 1693.

Discriminação Antifeminina

discriminação sofrida pelas mulheres está definida na Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra Mulheres da ONU de 1979:
“Discriminação contra mulheres” designa qualquer distinção, exclusão ou restrição feita com base no sexo, que possua o efeito […] de diminuir ou anular o reconhecimento, desfrute ou exercício pelas mulheres […] (sobre a base de igualdade de homens e mulheres) de Direitos Humanos e liberdades individuais […] em qualquer campo.
A primeira reivindicação da militância feminista foi o voto. Em Ocidente, a conquista do direito de eleger e se candidatar estendeu-se lentamente, mesmo para a mulher branca: o primeiro país que autorizou o voto feminino (com restrições) foi a Suécia, em 1718, mas o último foi Portugal, apenas em 1976. Os direitos econômicos, como salário, emprego, etc., nunca foram totalmente atingidos. No caso do emprego, aONU denunciou que em quase todos os países membros, as mulheres desfrutam de menos oportunidades que os homens. Nos Estados Unidos, fontes do governo afirmam que, apesar de que 50% dos mestrados são obtidos por mulheres, o 95% dos altos executivos nas maiores empresas são homens.
Em outros casos, a supremacia masculina se manifesta no controle familiar.  A família tradicional pode ter apenas um líder. Instituições repressoras, como o exército, algumas igrejas e os aparatos políticos apelam à importância da família para combater a diversidade. O pai de família tem a decisão final em todos os assuntos, mas a mulher deve inculcar os valores mais conservadores no dia-a-dia de seus filhos. A mulher também padece a falta de planejamento familiar. As religiões oficiais proíbem o planejamento, alegando que interfere nos desígnios divinos, enquanto nos estados totalitários ateus (como o chinês), o governo o impõe pela força.
Por uma razão ou pela oposta, a mulher é vítima. Mulheres sem parceiros assumem sozinhas a organização doméstica, mas, nos lares com ambos os conjugues, o compartilhamento de responsabilidade é geralmente ilusório. O marido costuma coagir à mulher para engravidar ou para abortar, a despeito de seu interesse e vontade.
A disposição do próprio corpo é a conquista mais difícil para a mulher de um lar patriarcal. Nos casos de “quebra feminina da monogamia”, o marido pode reagir com insultos, medidas legais e atos violentos. Nas culturas mais brutais (entre outras, Irã, Nigéria, Afeganistão), o estado pode executar à esposa “infiel”, mas inclusive em algumas regiões da América Latina, homens que assassinam suas mulheres por ciúmes podem ser absolvidos por juízes cavernícolas e ressentidos.

Dados de Anistia Internacional

Estes são dados do relatório 2004 de Anistia Internacional sobre violência contra mulher, baseados em fontes da ONU e da Organização Mundial para a Saúde:
Em algum momento de sua vida, 16,7% das mulheres sofrerão alguma ação violenta, e 10% serão vítimas de tentativa de estupro. Cerca de um 30% já foram espancadas, pressionadas sexualmente ou abusadas. Até 47% das mulheres denunciaram que sua primeira relação sexual foi forçada. Até 70% das vítimas de assassinato foram mortas por seus parceiros. Em Egito, 35% das mulheres denunciam ser espancadas por seus maridos em algum momento. Em Bolívia, 17% das mulheres com 20 ou mais anos tem sido vítima de violência no ano anterior. Vide a página de Anistia Internacional (em 4 línguas):

A Origem do Feminismo

feminismo é uma corrente formada por movimentos cujo ponto comum é a defesa de direitos justos para as mulheres. Ao dizer “direitos justos”, supomos que existe um critério de ética e justiça para determinar direitos. A afirmação usual de que devem defender-se “direitos iguais” é reacionária, pois alguns direitos dos homens são negativos, como servir no exército e trabalhar como carrasco.
Germes de feminismo aparecem na Modernidade. A igualdade de direitos (justos) foi aceita pelos Anabaptistas ingleses e pelos Quakers, que estimulavam às mulheres a manifestar-se sobre política e religião. Entre 1646 e 1649, um movimento popular chamado Leveller (Nivelador) organizou as primeiras grandes passeatas com cerca de 10 mil mulheres que exigiam liberdade de presos políticos, igualdade religiosafim da guerra, e direito ao voto universal.
Existem casos isolados de mulheres feministas desde o século 14º. Christine de Pizan (13631434?) foi criada na França, onde salientou como escritora, combateu a misoginia, e redigiu a primeira obra teatral onde todos os protagonistas são mulheres. Em 1622, a francesa Marie de Gournay (15651645) afirmou a igualdade intelectual entre homens e mulheres. A escritora sueca Hedvig Nordenflycht (17181763) reclamou  educação equivalente para ambos os gêneros e denunciou o casamento como forma de servidão. Mais influente foi OLYMPE DE GOUGES que assumiu a defesa teórica e prática da mulher.
MARIE GOUZE (1748 –1793) dita Olympe de Gouges, militou na Revolução Francesa, da qual celebrou seu papel libertador, mas criticou seu caráter antifeminino. Em seus textos, que tiveram enorme popularidade, apresentava críticas políticas e sociais, e fazia propostas de incitação à luta. Sua DECLARAÇÃO DOS DIREITOS DA MULHER E DA CIDADà(1791) foi idealizada como complemento da Declaração dos Direitos do Homem. Olympe teve uma visão muito completa dos Direitos Humanos também no combate ao escravismo, a cuja crítica dedicou a obra teatral A Escravidão dos Negros (1774), e se tornou militante da Sociedade Amigos dos Negros, fundada pelo matemático Jean A. de Condorcet (1743 –1794). Esteve contra a execução de Luis 16, por achar cruel e desumana a pena de morte.
A britânica Mary Wollstonecraft (17591797) escreveu romances, ensaios e livros para crianças. Ganhou celebridade com A Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), onde rejeita a inferioridade “natural” feminina. Foi a primeira que pôs em evidência um grande tabu: O RECONHECIMENTO DOS DESEJOS SEXUAIS DAS MULHERES.
Wollstonecraft influiu diretamente no surgimento da Primeira Onda feminista (1850-1920), identificada no Reino Unido e nos Estados Unidos pelo sufragismo. Em ambos os países, a Primeira Onda também exigiu direito a atendimento médico, educação e emprego, e estava formada basicamente por mulheres de classe média, brancas, com objetivos limitados.

Segunda e Terceira Ondas

Segunda Onda (19601970) começa, em sua maioria, nos Estados Unidos. No início dos 60, suas ativistas batalharam contra a tradição de colégios separados para homens e mulheres, e conseguiram institutos mistos. No emprego, lutaram contra a demissão de mulheres que envelheciam ou casavam. No plano ideológico, denunciaram os estereótipos femininos na mídia: mulheres frágeis, religiosas, pouco inteligentes, assexuadas, etc..
A Segunda Onda conquistou alguns direitos sexuais, como o acesso aos anticoncepcionais e (em alguns lugares) à interrupção da gravidez. Conseguiu que o abuso sexual e o estupro fossem denunciados e que suas vítimas recebessem proteção. Parcialmente, obteve leis para o cuidado dos filhos de mães trabalhadoras, e punições contra o assédio sexual no local de trabalho. Esta onda interceptou com a Guerra de Vietnam (1959-1975), à qual suas militantes se opuseram energicamente. Em 1964, criou-se um movimento feminista muito amplo, o frente deLibertação das Mulheres (Women Lib), que foi criticado por seu estilo genérico e sua falta de ações concretas para mulheres pobres e negras.
Na metade dos anos 80 surgiu a Terceira Onda, que ainda mantém sua força. Típicos da Terceira Onda são: a diversidade, e solidariedade com outros movimentos, e a crítica ao paradigma universal de identidade feminina, extraído da mulher branca pequeno-burguesa. Promove às interações com outras etnias, classes sociais e culturas.
A Terceira Onda incorpora assuntos mais amplos e profundos, especialmente a sexualidade em todas suas formas, e questiona a divisão binária dos gêneros, entendendo o feminino e o masculino como estados fluentes. Esta fluência reativou a palavra “queer” (utilizada antes para referir-se a homossexualidade), para designar as pessoas e condutas que faziam parte dessa fluência e podiam mudar o padrão de gênero. Esta onda está marcada por propostas sociais bem definidas:
(1) Anti-Racismo. Milita na luta contra o racismo, e reivindica a compreensão dos problemas de outras etnias para articular um feminismo coerente. (2) Atitude pós-colonial. Considera a variedade de problemas femininos criados pelo domínio imperial nos países ex-coloniais. (3)Transnacionalismo. Equivale ao internacionalismo socialista: a luta deve ser comum a todos os oprimidos, ignorando as identidades nacionais. (4) Ecofeminismo. Ressalta a afinidade entre a opressão da mulher, o domínio sobre outras espécies vivas e, em geral, sobre o conjunto da natureza.
O movimento central dentro da Terceira Onda é o feminismo Sexualmente Positivo, que trata a sexualidade explícita como objeto de prazer e não como degradação machista. Afirma que a pornografia nem sempre é degradante, como tinha afirmado a Segunda Onda, pois, desde que seu conteúdo não promova o ridículo, os estereótipos ou a violência, deve ser entendida como a difusão de atos prazerosos, cuja condena implicaria estigmatizar a própria atividade sexual.
Esta onda desafia os preconceitos contra mulheres e outros grupos discriminados, e defende o direito sobre o próprio corpo e a própria sexualidade, reconhecendo a influência fundamental da etnia e da classe social na luta feminista. Sua militância se baseia no esclarecimento, a educação, a comunicação, e as ações concretas em relação com trabalho, saúde, cuidados das crianças e reprodução.

A Luta pelos DH das Mulheres

Os movimentos feministas mais avançados trocaram solidariedade com outros movimentos e grupos, atingindo uma cooperação estável a partir da Terceira Onda. Isso fez possível a atual inclusão, pelo menos teórica, do gênero feminino dentro das conquistas dos DH. Vamos a apresentar uma tabela onde se mostram algumas destas relações de solidariedade.
Ver a tabela "Movimentos e Outros Grupos Solidários Externos com o Feminismo" no link: https://feminismo.org.br/as-mulheres-e-os-direitos-humanos/993/

O Reconhecimento dos DH das Mulheres

Os políticos aprovaram o sufrágio feminino porque esperavam receber votos como amostra de gratidão (como aconteceu no Chile, onde forças católico-fascistas ganharam as eleições municipais de 1935 graças ao voto das mulheres), mas se mostraram menos sensíveis com os outros direitos. A integração de gênero nos colégios foi demorada e parcial. Os empregos para mulher aumentaram na Europa e nas Américas, porque o sistema necessitava mais mão de obra, mas os salários não foram igualados. Medidas humanitárias, como salário família e licença maternidade só foram implantadas pela insistência de legisladores de esquerda.
Teoricamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 protegia de mesma maneira os direitos de homens e mulheres, mas na prática, os movimentos feministas deveram pressionar durante décadas para que a ONU assumisse seriamente sua causa. Desde 1975, a ONU celebrou várias conferências sobre as reivindicações femininas e em 1979, apresentou uma Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contras as Mulheres (CEDAW), um detalhado documento com 30 artigos contra as discriminações mais conhecidas.
Os Estados participantes condenavam todo preconceito, prometendo sua eliminação jurídica, a criação de organismos para problemas femininos, e a revogação de leis, hábitos e práticas discriminatórios. Esta medida visava eliminar costumes bárbaros, como o dote ou a virgindade nupcial, o que irritou às sociedades onde estas práticas eram comuns.
Sob a expressão “medidas especiais de caráter temporário”, o artigo 4º da Convenção estimula a adoção de ações afirmativas por parte do estado.
A Convenção previu ações educativas gerais para modificar preconceitos e estereótipos, e ações educativas familiares para ensinar aos homens e às mulheres sua responsabilidade conjunta no desenvolvimento dos filhos. Também obrigava os países membros a perseguir o tráfico de mulheres e a exploração da prostituição.
O Artigo 10º exigia eliminar a discriminação nos estudos, e garantir acesso equivalente a escolas, faculdades, bolsas, cursos de aprimoramento e aplicações em todos os níveis, e atacar os estereótipos profissionais que dividem os gêneros, revisando livros, programas, planos e métodos que veiculam esses preconceitos. No plano do emprego, a Convenção propôs a igualdade de gênero na escolha de profissão, e no direito a salário, promoção, capacitação e às diversas formas previdência, incluindo saúde e férias. Veja:
Esta Convenção foi ratificada por vários estados, mas apresentou menor nível de aceitação que qualquer outro instrumento da ONU, e foi alvo de reservas em artigos importantes por mais de 20% dos aderentes. Em 1999, a Comissão da Situação da Mulher da ONU apresentou o Protocolo Opcional da CEDAW, no qual se providenciam métodos para o controle do cumprimento da Convenção e para a investigação das infrações. Este Protocolo, porém, encontra ainda maiores resistências que a própria Convenção.
Portanto, a luta, inclusive jurídica, pela emancipação de mulher, continua agora com maior vigor do que nunca. Como disse Lênin durante a Revolução Bolchevista, nenhuma sociedade será livre se só for livre uma metade dela.
Fonte original deste texto: https://feminismo.org.br/as-mulheres-e-os-direitos-humanos/993/


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Não quero ser tolerada! Exijo RESPEITO!



Texto de Leandra Migotto Certeza

Eu nasci, existo e permaneço. A cada olhar de preconceito, devolvo com um sorriso. A cada ato de discriminação, combato com um grito! A cada exclusão, imponho minha presença! A cada porta fechada, abro muitas janelas pelas mídias digitais e denuncio!! E se for preciso PROCESSO!
Ninguém tem a obrigação de me aceitar, muito menos de me tolerar. Todos podem desejar que eu morra ou que viva bem longe. Mas NUNCA conseguirão que estes pensamentos tão mesquinhos ultrapassem suas mentes e corações. Nada e nem ninguém me atingirá! E muito menos me derrubará!
Então, sugiro que gritem bem alto de baixo do chuveiro ou entre os seus travesseiros para que ninguém ouça. Por que da porta pra fora do seu quarto, você vive em SOCIEDADE e eu FAÇO PARTE DELA!! Você tem a OBRIGAÇÃO LEGAL de me RESPEITAR!! Será que me expressei de forma objetiva, ou preciso repetir?
Leia esta frase como se eu estivesse falando bem alto no seu ouvido, tá? EU EXISTO E VOCÊ TEM A OBRIGAÇÃO LEGAL DE ME RESPEITAR – EXATAMENTE COMO EU SOU – SEMPRE QUE ESTIVERMOS NOS MESMOS ESPAÇOS CONVIVENDO EM SOCIEDADE!!
Ah… E só mais uma coisinha: EU TAMBÉM TENHO O DIREITO LEGAL E LEGÍTIMO DE ESTAR EM QUALQUER LUGAR QUE DESEJE! VOCÊ NÃO PODE ME IMPEDIR DE ABSOLUTAMENTE NADA! ENTENDEU?
Eu posso frequentar exatamente a mesma escola ou faculdade que o seu filho! Eu posso trabalhar no supermercado que você faz compras ou na multinacional da sua filha. Eu também vou aparecer ao seu lado na danceteria, hotel ou cruzeiro.
Posso morar bem ao seu lado, no mesmo condomínio, rua ou bairro. Eu estou passeando pelos parques, praças e vielas da sua cidade. Eu consigo visitar museus e centros culturais da sua comunidade. Viajo para praias, campos, e qualquer ponto turístico. Também ando pelas ruas, estradas, calçadas, passarelas, ciclovias, aviões, trens, barcos, metrôs, ônibus e elevadores!
E não esqueça que eu TENHO TOTAL DIREITO CONSTITUCIONAL de trabalhar em qualquer profissão que eu deseje e tenha qualificações. Então, não ‘se assuste’ se você for atendida por mim em um hospital, escritório de advocacia, táxi, igreja, centro de pesquisa científica, bar, multinacional, órgão público, universidade, casa de show, companhia aérea, padaria, restaurante, empresa de comunicação, salão de beleza, gabinete da câmara municipal ou da assembléia legislativa e do judiciário! E em tantos outros lugares!! Até pesquisando sobre vida em outros planetas!
Bem que eu gostaria de povoar um novo espaço nas galáxias totalmente livre de CRIMES DE DISCRIMINAÇÃO, mas por enquanto, vivo aqui na TERRA, juntinho com você e todos que me amam ou me odeiam!! Vou lutar até o último dia da minha vida para simplesmente SER FELIZ EM PAZ!
E a cada OBSTÁCULO, BARREIRA, PRECONCEITO OU ATÉ PROJETO DE LEI INCONSTITUCIONAL, que você ou qualquer um achar que colocou na minha frente para me atrapalhar, eu vou aumentar a minha carga de energia vital para PERMANECER COM ALEGRIA EXATAMENTE AO SEU LADO TE MOSTRANDO COMO É POSSÍVEL E ENRIQUECEDOR VIVERMOS JUNTOS, NOS RESPEITANDO!!
PS: Só mais uma coisinha: você não precisa me INCLUIR em nada porque eu JÁ FAÇO PARTE DA MESMA SOCIEDADE QUE A SUA!!

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A INVISIBILIDADE DA MULHER COM DEFICIÊNCIA NO MOVIMENTO FEMINISTA


                                                       Foto: Vera Albuquerque


Importância da inclusão das mulheres com deficiência tanto no movimento quanto na sociedade, abordando suas necessidades e pautas que precisam ser ouvidas por outras mulheres que fazem parte de movimentos feministas e pela sociedade como um todo.


Resumo
Esse trabalho de conclusão de curso pretende, com uma série de reportagem para o Jornal do Commércio, dar voz às mulheres que tenham qualquer tipo de deficiência e mostrar o quão importante é a inserção desse grupo de mulheres em movimentos feministas para tratar de assuntos imediatamente relacionados às pessoas com deficiência como: acessibilidade e os temas que são pautas recorrentes no movimento feminista como: mercado de trabalho, sexualidade, violência contra a mulher, (no caso da mulher com deficiência, a violência tem muito mais chances de acontecer dada a condição de vulnerabilidade dessa mulher).
Além das violências sofridas pelas demais mulheres, as com algum tipo de deficiência ainda sofrem daquelas advindas de preconceito e seguidas de discriminação causada pela condição da deficiência em que se encontram. Por isso não são consideradas como violências baseadas no gênero.
Para este trabalho, foram realizadas entrevistas com mulheres com deficiência para falar sobre como as mulheres com deficiência podem acrescentar no movimento feminista.
A pesquisa confirmou não só a invisibilidade da mulher com deficiência no movimento feminista, mas também, por muitas vezes, a mesma invisibilidade na sociedade, de forma geral, ao perceber as dificuldades que essas mulheres têm de, por exemplo, denunciar uma violência.
Palavras-chave: Gênero, reportagem, deficiência, mulher.

1. Introdução

Os estudos sobre a perspectiva feminista e de gênero tem avançado enquanto fala de questões tais como: raça/etnia, orientação sexual, classe social, religião. No entanto, as mulheres com deficiência ainda ficam à margem de discussões do movimento feminista. É notória a falta de diálogo entre o movimento feminista e o movimento das pessoas com deficiência, destacando-se para este estudo, as mulheres com deficiência.
Esse trabalho de conclusão de curso pretende, com uma grande reportagem, dar voz às mulheres que tenham qualquer tipo de deficiência e mostrar o quão importante é a inserção desse grupo de mulheres em movimentos feministas para tratar de assuntos imediatamente relacionados às pessoas com deficiência como: acessibilidade e os temas que são pautas recorrentes no movimento feminista como: mercado de trabalho, sexualidade, violência contra a mulher, (no caso da mulher com deficiência, a violência tem muito mais chances de acontecer dada a condição de vulnerabilidade dessa mulher).
Além das violências sofridas pelas demais mulheres, as com algum tipo de deficiência ainda sofrem daquelas advindas de preconceito e seguidas de discriminação causada pela condição da deficiência em que se encontram. Por isso não são consideradas como violências baseadas no gênero.
A hipótese desse trabalho é de que a mulher com deficiência é invisível na sociedade, invisível no plano pessoal, é invisível coletivamente.
Historicamente os abusos contra esse grupo de mulheres superam os crimes cometidos contra as demais, embora nas delegacias esses números não sejam tão precisos. Segundo pesquisas de organizações nacionais e internacionais, como a ONU Mulheres, que direcionam seus trabalhos para temas relacionados às mulheres, estima-se que, no mundo, cerca de uma em cada cinco mulheres vivem com algum tipo de deficiência e que a taxa de prevalência de deficiência no sexo feminino (19,2%) seja superior à dos homens (12%).
Aproximadamente 40% das mulheres com deficiência já sofreram algum tipo de violência doméstica no mundo. As mulheres com deficiência sofrem mais com a violência doméstica pelo fato de terem mais dificuldade de denunciar os agressores que estão, na maioria das vezes, entre familiares e ou cuidadores. Essas mulheres são duas a três vezes mais propensas a casamentos infantis forçados, a engravidar precocemente, entre outras violações de direitos humanos.
No Brasil, as mulheres com deficiência somam mais de 26 milhões de pessoas. Em sua expressiva maioria, elas encontram a invisibilidade e o silenciamento de suas vozes como barreiras iniciais, inviabilizando o exercício de seus direitos humanos e de cidadania. São alvos de desigualdades de gênero e de discriminação no acesso à saúde, à educação e aos direitos econômicos, políticos e culturais. Nas empresas, elas representam 0.8% dos 2% de trabalhadoras e trabalhadores com deficiência nas 500 maiores empresas no país. Mulheres que possuem algum tipo de deficiência têm maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho do que os homens, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2014, a participação das pessoas sem nenhuma deficiência, com idade entre 16 e 64 anos, na população economicamente ativa é de 81,8% dos homens e 61,1% das mulheres. Quando se coloca a questão da deficiência na pesquisa, essa proporção cai de 56,4% entre homens e 43,1% entre as mulheres.
Esse grupo importante da sociedade conta com ações quase inexpressivas no âmbito de atenção à saúde básica. O SUS (Sistema Único de Saúde) não tem profissionais amplamente qualificados para atender as necessidades individuais de cada mulher com deficiência, faltam mamógrafos adaptados e tantos outros aparelhos que deveriam estar disponíveis para melhor atender essas mulheres.
Mulheres com deficiência não têm espaço nos meios de comunicação de massa para falar sobre assuntos que são comuns a todas as mulheres, como filhos, mercado e trabalho, etc. Esse trabalho busca justamente abrir este espaço para esse grupo da sociedade e assim, colocar as pautas defendidas por essas mulheres em debate, cumprindo o papel do jornalismo de informar a população sobre essas pessoas que são, na maioria das vezes, invisibilizadas.
A intersecção da deficiência com o feminismo é um assunto muito complexo e por vezes ignorado dentro do próprio movimento feminista, assim como as pessoas com deficiência, de modo geral, são ignoradas pela sociedade. Estas barreiras, sejam elas físicas ou reflexos de estereótipos, condicionam a entrada de um dos grupos mais vulneráveis da nossa sociedade no movimento feminista que tem como ideologia ser um espaço seguro para todas as mulheres, independente de suas especificidades.
A construção de aspectos ideológicos e a ratificação de valores da sociedade acontecem de forma muito eficaz através dos meios de comunicação de massa.
As novelas são muitas vezes responsáveis por ditar modismos, enquanto o jornalismo dita aquilo que será debatido no nosso cotidiano. Os meios de comunicação vendem o produto que o público pede em contrapartida o público determina aquilo que deve ser noticiado. Mas, onde a problematização da relação entre deficiência e o gênero entra nessa história?
O distanciamento das causas sociais, especialmente da deficiência, é fruto da indiferença da mídia e da sociedade. Por muito tempo essa parcela da sociedade foi marginalizada, tinha que esperar que as outras pessoas fizessem tudo por elas, inclusive ser a voz de suas lutas por direitos. Foram convencidas que não podiam participar ativamente do convívio social, muito menos levantar a voz em movimentos de luta por direitos, como é o caso do movimento feminista. É exatamente por essa postura passiva, cheia de um preconceito histórico da sociedade que temas que vão além da acessibilidade, como a luta das mulheres com algum tipo de deficiência por direitos igualitários, não é posto em discussão pelos meios de comunicação. Assim sendo, esse projeto visa.
A universidade é parte importante do conhecimento da sociedade, e como tal se faz necessário nela o desenvolvimento de estudos sobre a relação de gênero e deficiência para que essa discussão possa ser ampliada para os meios de comunicação através dos estudantes de comunicação, em especial os futuros jornalistas, e assim poder chegar ao maior numero de pessoas em toda a sociedade.
A mídia não pode ser esquecida, pois possui um papel fundamental na promoção de atitudes positivas no sentido da inclusão de pessoas portadoras de deficiência na sociedade. A criação de equipes de mediação de sistemas e a presença de ombudsmen junto aos conselhos de defesa da pessoa deficiente, que mostrem ao governo, à sociedade e à mídia os acertos e desacertos da inclusão social e escolar e seus prognósticos para curto, médio e longo prazo, devem ser consideradas.

2. Objetivos

2.1 Objetivos gerais

Fazer uma grande reportagem para o Jornal do Commércio mostrando a ausência da mulher com deficiência no movimento feminista e falar sobre a importância da inclusão das mulheres com deficiência tanto no movimento quanto na sociedade, abordando suas necessidades e pautas que precisam ser ouvidas por outras mulheres que fazem parte de movimentos feministas e pela sociedade como um todo.

2.2 Objetivos específicos

  • Fazer uma pesquisa exploratória com coletivos feministas e mulheres com deficiência sobre a razão da invisibilidade da mulher com deficiência no movimento feminista e sobre a importância dessa representatividade.
  • Pesquisar assuntos pelos quais esse grupo tem interesse
  • Produzir matérias a partir desses assuntos pesquisados

3. Referêncial teórico

3.1 A História das pessoas com deficiência no Brasil

A trajetória do indivíduo com deficiência é marcada por preconceitos e lutas em favor do direito à cidadania, de acordo com cada cultura dentro das sociedades.
A história brasileira registra referencias diversas a “aleijados”, “enjeitados”, “mancos”. Mas assim como acontecia no continente europeu, a maior parte desses comentários estão relacionados aos pobres ou miseráveis. Portanto, por muitos séculos, também no Brasil as pessoas com deficiência foram marginalizadas, negligenciadas e levadas à categoria de miseráveis.
As questões que envolvem as pessoas com deficiência no Brasil – por exemplo, mecanismos de exclusão, políticas de assistencialismo, caridade, inferioridade, oportunismo, dentre outras – foram construídas culturalmente (Figueira, 2008, p.17. citado por GARCIA 2011).

3.2 População Indígena

Relatos históricos dão conta de práticas e costumes indígenas que provocaram a total eliminação de crianças com deficiência ou exclusão daquelas que adquirissem algum tipo de deficiência ao longo dos anos.
Tal conduta não difere daquelas adotadas por alguns povos medievais onde a deficiência era vista como um mau sinal, castigo dos deuses segundo as crenças desses povos.
Essas crendices e superstições continuaram a acompanhar a história das pessoas com deficiência no país. Assim como o povo indígena, os “negro-feiticeiros” também acreditavam que o nascimento de uma criança com deficiência era um castigo ou punição dos deuses.

3.3 Os Negros Escravos

Longe de ser um mal mandado por deuses, a deficiência física ou sensorial nos negros escravos foi causada, muitas vezes, pelos severos castigos físicos aos quais eram submetidos. A forma como se dava o tráfico negreiro, em embarcações superlotadas e em condições, muitas vezes, desumanas, já significavam alto risco de propagação de doenças incapacitantes, que deixavam sérias sequelas e até causavam a morte de um grande número de escravos.

3.4 Século XIX para a pessoa com deficiência

No século XIX, a questão da deficiência surge de maneira mais recorrente devido aos conflitos militares em que o Brasil se envolveu e que deixaram muitos militares com variados tipos de incapacidade física e sensorial. Foi então inaugurado no Rio de Janeiro, em 29 de julho de 1868, o “Asilo dos Inválidos da Pátria”, onde
seriam recolhidos e tratados os soldados na velhice ou os mutilados de guerra, além de ministrar a educação aos órfãos e filhos de militares (Figueira, 2008, p. 63. citado por GARCIA, 2011).
Apesar da intenção de cunho humanitário, a história registra um quadro de precariedade severa no funcionamento dessa instituição, mesmo assim, e talvez com alguma melhoria, o “Asilo Inválidos da Pátria” continuou com as atividades por 107 anos, sendo fechado somente em 1976.
O avanço da medicina no século XX representou uma atenção maior em relação aos deficientes. Havia uma clara associação entre deficiência e a área médica com a criação de hospitais-escolas, que funcionam até hoje, para a reabilitação e tratamento das pessoas com deficiência. Ainda no inicio do século XIX, com a criação do Imperial Instituto dos Meninos Cegos (1854), era explicita a relação entre doença e deficiência, que permanece até hoje (onde pesa a luta do movimento organizado pelas pessoas com deficiência a partir de 1981 pelo chamado “modelo social” para tratar dessa questão, em contra partida ao modelo médico-clínico).
O grau de desconhecimento da sociedade sobre as deficiências e suas potencialidades, no entanto, permaneceu alto pelo menos até a primeira metade do século XX, o que se registra pela grande quantidade de deficientes mentais tratados como doentes mentais.

3.5 Lei de Cotas e mercado de trabalho

A lei 8.213/91, conhecida como lei das cotas de deficientes, conseguiu aumentar a participação de pessoas com deficiências no mercado de trabalho, todavia, esta participação ainda é tímida, apenas cerca de 4,6% das vagas encontram-se ocupadas
E não é só a lei 8.213/91 que busca a diminuição dos tratamentos discriminatórios às pessoas deficientes no mercado de trabalho, hoje no Brasil existem normas constitucionais tratando do tema, entre elas podemos elencar o artigo 7º, inciso XXXI que garante proibição de desigualdade salarial quanto ao trabalhador com deficiência.
Observa-se que passados mais de 20 anos de vigência da lei 8.213/91, muitos empregadores ainda sofrem autuação pelo Ministério Público do Trabalho por não preencherem o mínimo necessário de contratação de pessoal com deficiência e os trabalhadores com deficiência, por outro lado, não têm suas formações levadas em conta na hora de uma contratação.
A Lei de Cotas não vem sendo usado pelos empregadores como deveria, em muitos casos as empresas contratam o trabalhador para alcançar a quantidade exigida de pessoas com deficiência numa empresa, mas não direcionam o empregado para a sua função de formação.

3.6 Políticas Nacional de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência

Essa política é voltada para a inclusão das pessoas com deficiência em toda a rede de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), caracteriza-se por reconhecer a necessidade de implementar o processo de respostas às complexas questões que envolvem a atenção à saúde das pessoas com deficiência no Brasil.

Entre as diretrizes dessa política pública está a “Atenção Integral à Saúde”, que visa assegurar o direito da pessoa com deficiência atendimento na rede pública de saúde pelo SUS (sistema único de saúde), desde os Postos de Saúde e Unidades de Saúde da Família até os serviços de reabilitação e hospitais,
Mas, o que se vê atualmente no sistema público de saúde brasileiro é uma alta incidência de negligência principalmente em relação à saúde da mulher com deficiência. Há muita reclamação por parte do público feminino com deficiência em relação à ausência de aparelhos acessíveis para a realização de exames importantes para a prevenção de doenças que atingem a saúde da mulher como também a ausência de tradutores de libras.

3.7 Convenção dos direitos das pessoas com deficiência

A trajetória de quando a pessoa com deficiência era segregada começa a ter fim no ano de 1981, declarado pela ONU como o Ano Internacional da Pessoa Deficiente (AIPD).
A partir daquele ano, o grupo de pessoas com deficiência passou a ter uma postura mais política pelos seus próprios direitos, tendo consciência de si e consequentemente passou a ser notado socialmente, atingindo importantes objetivos ao longo dos anos de militância percorridos até o momento.
A palavra chave do AIPD foi mesmo a “conscientização”, em vista as muitas manifestações para alertar sobre a própria existência e contra a invisibilidade dessas pessoas no meio social.
Esse movimento atinge a legalização da Convenção sobre os Direitos das pessoas com Deficiência (CDPD) pelo Brasil, dando-lhe status de emenda constitucional. A participação ativa dos deficientes na elaboração da Convenção foi fruto de grande fortalecimento desse grupo populacional que sobreviveu e passou a exigir os seus direitos políticos, sociais e econômicos.

3.8 Início do movimento Feminista no mundo e no Brasil

O documentário She Is Beautiful When She’s Angry” (2014), mostra o início da luta das mulheres nos Estados Unidos (EUA) pelo direito ao trabalho, educação, pelo direito ao corpo e por melhores salários, contudo como em tudo o que se refere ao Movimento Feminista, as mulheres com deficiência não são citadas durante todo o filme.
No Brasil, o Movimento Feminista tem início na época da ditadura militar, como citado por Cyntia A. Sarti no artigo “O início do feminismo sob a ditadura no Brasil: o que ficou escondido”
O feminismo no Brasil surge como consequência da resistência das mulheres à ditadura militar, depois da derrota da luta armada e no sentido da elaboração política e pessoal desta derrota (SARTI,1998).
A presença da mulher na luta contra a ditadura militar significava não apenas se levantar contra a ordem política vigente, mas também uma profunda rebeldia com o que era designado à época para a mulher. Sem uma proposta feminista definida, as militantes se opunham ao lugar tradicionalmente atribuído à mulher ao assumirem um comportamento sexual que colocavam em questão a virgindade e a instituição do casamento, “comportando-se como homens”, pegando em armas com êxito.
Entre os dois períodos ditatoriais vividos pelo Brasil, algumas conquistas se destacam, como: a criação da Fundação das Mulheres do Brasil, aprovação da lei do divórcio, e a criação do Movimento Feminino Pela Anistia no ano de 1975, considerado como o Ano Internacional da Mulher, realizando debates sobre a condição da mulher. Nos anos 80 foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, que passaria a Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, e passou a ter status ministerial como Secretaria de Política para as Mulheres.
A partir da década de 60, o movimento incorporou questões que necessitam melhoramento até os dias de hoje, entre elas o acesso a métodos contraceptivos, saúde preventiva, igualdade entre homens e mulheres, proteção à mulher contra a violência doméstica, equiparação salarial, apoio em casos de assédio, entre tantos outros temas pertinentes à condição da mulher.

3.9 Vertentes do Feminismo

O feminismo ganhou força no Brasil durante o período da ditadura militar, hoje o movimento feminista está mais amplo e se dividiu em várias vertentes dentro de um mesmo movimento.
O feminismo radical nasceu entre os anos 60 e 70, a partir de obras de Shulamith Firestone e Judith Brown. Essa vertente é contra a pornografia e a prostituição. Na visão desse grupo, essas situações exploram o corpo feminino e também existe a problematização da moda e maquiagem.
O feminismo liberal busca assegurar a igualdade entre homens e mulheres na sociedade por meio de reformas políticas legais.
As feministas liberais acreditam que as mulheres podem vencer a desigualdade social, política e econômica gradativamente através de leis mais justas e com cada vez mais representatividade política e social.
O fenômeno Beyoncé e a campanha “#HeForShe”, liderada pela atriz Emma Watson, que visa incorporar os homens à luta por igualdade, são exemplos de feminismo liberal.
O feminismo negro chegou ao Brasil nos anos de 1980, coincidentemente com o fortalecimento do movimento negro no país.
Essa vertente surge a partir da ideia que a mulher negra, por sofrer de dupla opressão, não é representada no movimento feminista. O feminismo negro aborda pautas que geralmente não são debatidas em “outros feminismos”, como a intolerância religiosa, a valorização das religiões de matrizes africanas e a violência contra a juventude negra, no caso do movimento no Brasil.
Audre Lorde, Suely Carneiro e Angela Day são algumas das formuladoras desta corrente do feminismo.
O feminismo interseccional busca contemplar todas as mulheres e conciliar as demandas de gênero com as de outras minorias, considerando classe social, religião, orientação sexual, raça e, teoricamente, a deficiência. Teoricamente, porque com tantas demandas, muitas vezes as mulheres com deficiência acabam silenciadas, mesmo que as outras minorias não percebam, por todas as demandas existentes nessa vertente.

3.10 Movimento Feminista e a mulher com deficiência

Trazendo a discussão de deficiência para a convergência com o gênero, é perceptível que dentro do grupo das pessoas com deficiência estão as mulheres, duplamente atingidas pelos estereótipos e práticas que as discriminam por causa do gênero e da deficiência. Essa junção discriminatória gera uma série de barreiras atitudinais, onde são impostas ideias como: não podem trabalhar, não podem cuidar da casa, são impedidas de vivenciar experiências sexuais e de maternidade, enfrentam dificuldades maiores do que qualquer outra mulher para ingressar no ensino básico, no ensino superior e posteriormente no mercado de trabalho, e quando conseguem serem inseridas no mercado de trabalho essas mulheres são remuneradas de forma incompatível com suas formações profissionais, chegando a receber menos do que uma mulher sem nenhum tipo de deficiência.
Essas opiniões apoiadas em caracterizações de gênero e dos impedimentos ocasionados pela situação de deficiência comprometem o contexto social da vida das mulheres deficientes, fazendo-as se sentirem afastadas e esquecidas perante o olhar julgador da sociedade.
Assim sendo, as mulheres com deficiência têm necessidades iguais às que não convivem com limitações físicas ou sensoriais e, portanto, deveriam estar mais representadas no movimento feminista contemporâneo. Afinal, foram as feministas que começaram a debater sobre a aceitação do corpo feminino em suas mais variadas formas, isso deve incluir até mesmo, e principalmente, a mulher com deficiência, dada toda a sua vulnerabilidade e a dificuldade que essa mulher tem de se encaixar no que é imposto pela sociedade a respeito de um corpo feminino perfeito.
Nesse sentido é imprescindível que a mulher com deficiência seja incluída nesse espaço de luta social que busca a quebra desses paradigmas que atingem todas as mulheres, e a mulher deficiente com muito mais força.
Com o avanço das diversas formas de informação é inegável que esteja acontecendo alguns avanços em relação aos direitos das mulheres com deficiência, como relatam dados das Nações Unidas:
Na condição de indivíduos, estão começando a compartilhar oportunidades iguais com homens na mesma situação que eles [...] estão se fortalecendo e conscientes de seu papel social enquanto mulheres. No que se refere à maternidade, cada dia muito mais mulheres com todos os tipos de deficiências estão experienciando a maternidade
(Nações Unidas, 2008, p.1 citado por de ALMEIDA).
No entanto ainda há muito que melhorar em todos os ambitos para a mulher deficiente para alcançar o que diz o artigo 6° da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada no Brasil pelo decreto n. 6.949/2009,
  1. Os Estados Partes reconhecem que as mulheres e meninas com deficiência estão sujeitas a múltiplas formas de descriminação e, portanto, tomarão medidas para assegurar às mulheres e meninas com deficiência o pleno e igual exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais
  2. Os Estados Partes tomarão todas as medidas apropriadas para assegurar o pleno desenvolvimento, o avanço e o empoderamento das mulheres, a fim de garantir-lhes o exercício e o gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais estabelecidos na presente Convenção (BRASIL,2009 citado por DE ALMEIDA).
Diante de toda a vulnerabilidade e a busca necessária de empoderamento da mulher com deficiência se faz necessária a inclusão dessa mulher no movimento feminista, pois tal movimento tem em sua filosofia os mesmos objetivos de empoderamento feminino e igualdade social, política e econômica.

3.11  Maria da Penha: símbolo da mulher com deficiência

Quando se fala em violência contra a mulher no Brasil, lembramos rapidamente da figura emblemática de Maria da Penha Maia Fernandes, a Maria da Penha, que dá nome à lei n°11.340, de 7 de agosto de 2006, que visa proteger as mulheres da violência sofrida por essa parte da população brasileira.
Maria da Penha sofria agressões constantes do ex-marido e em decorrência disso teve sequelas graves que ocasionaram uma deficiência física, deixando-a numa cadeira de rodas.
Mesmo sendo um símbolo da luta do movimento feminista contemporâneo no Brasil, o fato de Maria da Penha ser, por causa da violência sofrida, uma mulher com deficiência não é devidamente reconhecido pelo movimento feminista, isso acaba de certa forma, colaborando para o silenciamento da mulher com deficiência no movimento feminista e por consequência, muitas vezes, na sociedade.
A Lei Maria da Penha veio também para auxiliar e proteger a mulher deficiente, a mais vulnerável também em relação à violência doméstica, praticada geralmente por parentes próximos e/ou cuidadores.

3.12 Série de reportagem

É uma sequência periódica de reportagens veiculadas em jornais escritos ou televisivos que trata de um assunto em particular durante determinado intervalo de tempo, que pode ser diário, semanal ou mensal.
Jornal - É um meio de comunicação impressa e tem como característica: o uso de "papel de imprensa" - mais barato e de menor qualidade que os utilizados pelas revistas -, as folhas geralmente não são grampeadas, os jornais mais importantes possuem periodicidade diária.

4. METODOLOGIA

4.1 Delineamento da pesquisa

Este trabalho visa fazer uma pesquisa exploratória com mulheres com deficiência e coletivos feministas com o objetivo de buscar uma resposta para a falta de representatividade e inclusão da mulher com deficiência no movimento feminista.

4.2 Universo da pesquisa

Mulheres com deficiência e páginas de coletivos feministas nas redes sociais.

4.3 Procedimentos de coleta e análise de dados

Entrevista jornalística com mulheres com qualquer tipo de deficiência para saber sobre as pautas que elas têm para colocar em discussão nos movimentos feministas e porque precisam ser ouvidas por outras mulheres que já estão inseridas nele.

4.4 Estrutura e composição do produto

Grande reportagem, num suplemento de seis páginas diagramadas e impressas, abordando temas como:
  • Mercado de trabalho
  • Sexualidade
  • Direitos da mulher com deficiência
  • Violência contra a mulher

4.5 Limites e limitações da pesquisaI

A pesquisa tem como objetivo explorar apenas e especificamente o motivo das mulheres com deficiência não estarem incluídas no movimento feminista.
A pesquisa só obteve resposta de um coletivo feminista e dezoito mulheres com deficiências diferentes até o presente momento.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada confirmou a hipótese sobre a invisibilidade das mulheres com deficiência no movimento feminista e constatou que isso se deve à falta de inclusão dessa parcela da população na sociedade.
O estudo mostrou que é importante, para o aperfeiçoamento dos movimentos sociais e para uma sociedade mais justa e inclusiva, ouvir essas mulheres que são um dos grupos mais vulneráveis socialmente, pelo gênero e pela situação de deficiência.
O distanciamento das causas sociais, especialmente da deficiência, é fruto da indiferença da mídia e da sociedade. Por muito tempo essa parcela da sociedade foi marginalizada, tinha que esperar que as outras pessoas fizessem tudo por elas, inclusive ser a voz de suas lutas por direitos. Foram convencidas que não podiam participar ativamente do convívio social, muito menos levantar a voz em movimentos de luta por direitos, como é o caso do movimento feminista. É exatamente por essa postura passiva, cheia de um preconceito histórico da sociedade que temas que vão além da acessibilidade, como a luta das mulheres com algum tipo de deficiência por direitos igualitários, não são postos em discussão pelos meios de comunicação.

6. REFÊRENCIAS

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos todos feministas, 2014.
As pessoas com deficiência na história do Brasil. GARCIA, Vinicius Gaspar disponível em < http://www.bengalalegal.com/pcd-brasil > acessado em Maio de 2017.
A. SARTI, Cynthia O início do feminismo sob a ditadura no Brasil: o que ficou escondido. In XXI Congresso Internacional da LASA (Latin American Studies Association), The Palmer House Hilton Hotel, Chicago, Illinois, 24-26 de setembro de 1998. Universidade Federal de São Paulo, Brasil acessado em Maio de 2017. p 3.
BRASIL. Secretária de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. – Decreto Legislativo nº 186/2008 – Decreto nº 6.949/2009. 4a Edição Revista e Atualizada Brasília 2012.
DE ALMEIDA, Haynara Jocely Lima. Vulnerabilidade de mulheres com deficiência que sofrem violência. 2012. 55f. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais). Universidade de Brasília - UNB. Instituto de Ciências Humanas, Departamento de Serviço Social.
DE ALMEIDA, Welita Gomes. GÊNERO E DEFICIÊNCIA: A EXCLUSÃO SOCIAL DE MULHERES DEFICIENTES. In II Seminário Nacional de Gêneros e Práticas Culturais. Culturas, leituras e representações, 2009, Paraíba. Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
DINIZDebora. Modelo Social Da Deficiência: a crítica feminista. In VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em julho de 2003, Brasília. Universidade de Brasília- UNB.
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SOUZA, Jorge Pedro. Elementos de Jornalismo Impresso, Porto 2001.
DORE, Mary. KENNEDY, Nancy. She’s beautiful when she’s angry, Salt Lake City, 2014.
Sarah Gavron. As Sufragistas, 2015.

Publicado por: Natália Rosa

FONTE: 
https://monografias.brasilescola.uol.com.br/comunicacao-marketing/a-invisibilidade-mulher-com-deficiencia-no-movimento-feminista.htm