Racismo e Impunidade no Brasil

Apesar
de os estudos da Genética afirmarem que não há raças na espécie humana,
o que não falta no mundo são racistas – dos mais variados tipos. De
fato, os estudos confirmam aquilo que os espiritualistas sempre
disseram: os humanos são uma espécie muito homogênea. A cor da pele, por
exemplo, fator crucial para uma ação racista, é resultado de adaptações
biológicas que o organismo humano desenvolveu ao longo do tempo para se
proteger. Para o calor da África: pele mais escura e cabelo crespo para
se proteger do sol. Na gelada Europa, pele clara para sintetizar a
vitamina “D”. De qualquer forma, os humanos surgem no planeta na região
que hoje se denomina África. Portanto, o homo sapiens não era um tipo que hoje poderia ser chamado branco.
Por Helio Santos Do Brasil de Carne e Osso
No
Brasil há muita dissimulação, mas em inúmeras ocasiões o racismo tem
vindo à tona com todos os seus dentes. Segundo o professor Joel Rufino
dos Santos, o brasileiro vem “perdendo a vergonha” de ser racista.
Durante muito tempo o racismo veio metamorfoseado por uma verdadeira
“arte” que se desenvolveu nesses trópicos ao longo do tempo: o
fingimento como filosofia nacional. A expressão “democracia racial” é um
insulto à inteligência brasileira e, em particular, à dos negros.
Nos
últimos tempos têm havido atos explícitos de racismo. O campo esportivo
é um dos setores que tem maior destaque. Todavia, não é nesse setor que
os negros têm o maior prejuízo. Além da violência policial, há a
discriminação no mercado de trabalho, por exemplo.
Um caso que
chamou a atenção do país se deu em 2012, quando uma anciã, em plena
avenida Paulista, no coração de São Paulo, ofendeu duramente a três
pessoas negras em um shopping. O esporte dessa megera é xingar e
menosprezar negros por todos os lugares onde vai: porteiros, balconistas
e transeuntes. As ofensas são do tipo: “macaca, eu não gosto de negro”;
“negros imundos” e “eu sou superior a vocês, porque sou descendentes de
alemães”. À primeira vista, alguns dirão tratar-se de uma louca. Ledo
engano: ela nunca foi vista rasgando dinheiro e nunca tentou pular
debaixo do metrô.
Assista o vídeo no:
http://www.geledes.org.br/racismo-e-impunidade-no-brasil/#axzz3a1zkWx8U
http://www.geledes.org.br/racismo-e-impunidade-no-brasil/#axzz3a1zkWx8U
A decisão final desse caso ocorreu em abril no Tribunal de Justiça de São Paulo. Em primeira instância, a racista já fora condenada a 4 anos em regime semiaberto (ela tem 73 anos). Essa pena de reclusão foi agravada com a exigência de indenização de R$28.960 para cada uma das três pessoas ofendidas. Foi uma boa decisão: mexer no bolso de pessoas e organizações racistas pode vir a ser uma forma eficaz de atenuar o racismo. Todavia, houve recurso e a pena em regime semiaberto se transformou em aberto. Ou seja, a pena será cumprida em casa. Para aqueles que alegam a idade avançada da criminosa é importante lembrar que os canalhas também envelhecem. A pena pecuniária também caiu. O bolso de Davina Aparecida Castelli não sofrerá danos. A condenação foi positiva, mas inócua. Além de não ser presa em uma cadeia, a condenada nada pagará.
É FUNDAMENTAL REAGIR
A parte positiva dessa
história foi a reação de uma das vítimas que levou o caso até o final
com determinação e firmeza: Karina Chiaretti “não deixou “barato”.
Karina,
quando foi vítima das ofensas verbais, estava em companhia de sua filha
de 9 anos e a sua fala revela uma posição que precisa ser difundida:
“Não foi exatamente a pena que a gente esperava, mas foi um ganho para
toda a comunidade negra. Para todos é uma vitória porque esta causa não é
única. É pela minha filha, pelas nossas crianças”.

Para
orgulho meu, Karina é minha sobrinha e afilhada. Cresceu ouvindo de sua
família: pais, avós e tios que ela era bonita, inteligente e que
merecia o que há de melhor na vida. Autoestima positiva e consciência
racial. Sua atitude deixou claro para mim que o diferencial está de fato
na educação e postura familiar. As pessoas não necessitam ser
ativistas, mas têm de ter consciência racial. É lamentável a forma como
reage algumas personalidades negras, especialmente esportistas e
artistas em geral. Fogem da raia, em vez de se defenderem. Costumam
dizer: “vou deixar barato”. Erro: sai caro duas vezes. Primeiro, aquela
ofensa fica “atravessada” na mente do ofendido que não reagiu, pois
“guardou” para si aquilo. Depois, o ofensor se sente impune para
“repetir a dose” com outras pessoas negras. Reagir é sempre positivo –
sempre.
O pior racismo é o institucional; que eu sempre denominei
inercial. A própria justiça, quando não mantém uma decisão que pune de
fato o racismo; a máquina pública (polícia inclusa). Enfim, a engrenagem
social e política que naturalizou o racismo. Isto ocorre ainda, apesar
da posição do STF a favor das ações afirmativas, o que denota o
reconhecimento do racismo na sociedade brasileira. Por essa situação, em
pleno século 21, temos de radicalizar nas políticas públicas
específicas.
Mas, simultaneamente, ações como a de Karina
Chiaretti têm de se tornar uma rotina em nosso cotidiano. Cessada a fase
criminal, minha sobrinha recorrerá à instância cível na busca dos seus
direitos ofendidos. Respeito e cidadania não vêm como brindes. Você tem
de conquistar sem medo.
Leia a matéria completa em: Racismo e Impunidade no Brasil - Geledés
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Tire seu racismo do caminho, que eu quero passar
com a minha cor: no Dia 13 de maio, há 127 anos, era assinada a Abolição
da Escravatura; o que mudou desde então?
Há exatos 127 anos foi decretada a Abolição da Escravatura, assinada
por princesa Isabel, no dia 13 de maio de 1888, que libertava todas as
crianças nascidas de pais escravos após centenas de anos de resistência e
opressão.
Apesar disso, qual a real situação da população negra no Brasil dos
dias atuais? O que de fato representou a Lei Áurea para um povo que,
ainda hoje, sofre as consequências de um racismo não-declarado, mas
presente na hipocrisia de uma sociedade incapaz de aprender com os erros
do passado?
Reprodução

O Brasil é o maior país de população negra (51%) fora da África e, no mundo, só perde para a Nigéria
Não para celebrar, mas para chamar atenção ao tema e questionar a falsa abolição, o Catraca Livre relembra 13 notícias que abordam a questão do racismo nos dias atuais.
Fonte: https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/13-razoes-para-lembrar-que-o-racismo-ainda-existe-e-precisa-ser-combatido/
13 de maio dia da abolição da escravatura?
A Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, foi assinada em 13 de maio de 1888. A data, no entanto, não é comemorada pelo movimento negro. A razão é o tratamento dispensado aos que se tornaram ex-escravos no País. “Naquele momento, faltou criar as condições para que a população negra pudesse ter um tipo de inserção mais digna na sociedade”, disse Luiza Bairros, ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).
Após
o fim da escravidão, de acordo com o sociólogo Florestan Fernandes
(1920-1995), em sua obra "A integração do negro na sociedade de
classes", de 1964, as classes dominantes não contribuíram para a
inserção dos ex-escravos no novo formato de trabalho.
“Os
senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança
dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição
assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o
novo regime de organização da vida e do trabalho”, diz o texto.
“Essa data é, desde o início dos anos 80, considerada pelo movimento negro como um dia nacional de luta contra o racismo. Exatamente para chamar atenção da sociedade para mostrar que a abolição legal da escravidão não garantiu condições reais de participação na sociedade para a população negra no Brasil”, completou a ex-ministra.
Ela defende, porém, que as mudanças nesse cenário de exclusão e discriminação estão acontecendo. “Nos últimos anos, o governo adotou um conjuntos de políticas sociais que, aliadas à política de valorização do salário mínimo, criou condições de aumento da renda na população negra”.
Inclusão do negro ainda é meta
Apesar dessas políticas, tanto a ex-ministra quanto Braga entendem que ainda há muito por fazer.
O representante da Unegro cita algumas das expressões do racismo e da desigualdade, no país: “No Congresso, menos de 9% dos parlamentares são negros, enquanto que a população que se declara negra, no Brasil, chega a 51%. Estamos vendo também manifestações de racismo nos esportes, principalmente no futebol. Ainda temos muito a caminhar”.
“Ainda estamos tentando recuperar a forma traumática como essa abolição aconteceu, deixando a população negra à sua própria sorte. Como os negros partiram de um patamar muito baixo, teremos que acelerar esse processo com ações afirmativas, para que possamos sentir uma diminuição mais significativa das desigualdades”, explicou Bairros.
Fonte:http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2015-05-13/por-que-os-negros-nao-comemoram-o-13-de-maio-dia-da-abolicao-da-escravatura.html
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Os maiores percentuais de pessoas com deficiência foram encontrados entre os brasileiros que se declararam negros ou amarelos. Em cada um desses grupos, quase três em cada dez têm algum tipo de deficiência, de acordo com o Censo Demográfico 2010 – Características Gerais da População, Religião e Pessoas com Deficiência, divulgado dia 29 de junho de 2012 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Cerca de 40% das
mulheres com deficiência já sofreram violência doméstica e seus
agressores estão entre as pessoas das quais elas dependem diretamente
para terem cuidados básicos
Nossa cultura lida com a questão da
deficiência de uma forma bastante imprecisa. São muitas as mensagens
inspiracionais que parecem dizer “seja grato por ser ‘normal“,
usando pessoas com deficiência como uma espécie de fetiche que trará
motivação. Enquanto essa abordagem é problemática e reducionista, poucas
são as pessoas que conseguem refletir sobre o tema, dessa forma
questões muito urgentes são totalmente ignoradas. Afinal, o que sabemos
de fato sobre o assunto?
Segundo dados do
IBGE baseados no Censo 2010, 23,9% da população brasileira possui algum
tipo de deficiência, seja física ou intelectual. As informações
disponíveis levam à uma problematização das questões de gênero e raça
que devem ser colocadas para discussão.
De acordo com os dados coletados pela
pesquisa, o número de pessoas com deficiência é predominante entre a
população não-branca e feminina, sendo que as mulheres negras compõem a
parte principal desse grupo. Além disso, o Nordeste é a região
brasileira com maior prevalência, o que nos leva a uma reflexão sobre a
relação que há entre gênero, deficiência, raça e pobreza. Essas
informações são bastante alarmantes, uma vez que a educação e o mercado
de trabalho já são extremamente inacessíveis para pessoas negras e
pobres, assim como para mulheres, que recebem menos que os homens pelos
mesmos trabalhos realizados. Ao somarmos as informações, nos deparamos
com um quadro agudo de exclusão.
O Feminismo Negro há muito tempo vem
chamando atenção para a situação de desprivilégio que as mulheres negras
enfrentam em sociedade. No entanto, a necessidade de avaliar as
interlocuções que a misoginia e o racismo fazem com as deficiências
ainda é muito generalizada em todos os movimentos sociais. Há muito para
ser discutido e o assunto pode ser assustador: cerca de 40% das
mulheres com deficiência já sofreram violência doméstica e seus
agressores estão entre as pessoas das quais elas dependem diretamente
para terem cuidados básicos. Denunciar, para elas, pode ser uma tarefa
quase impossível; se para mulheres sem deficiência já há dificuldade em
quebrar o silêncio em casos de violência, quando as vítimas dependem
vitalmente de seus agressores o contexto se torna ainda mais complicado.
A instabilidade dessa situação resulta na necessidade urgente de
promover mudanças.
Um dos motivos por que é tão difícil
mudar esse quadro é que não basta responsabilizar uma entidade singular e
independente pelos problemas existentes; tudo depende de como as
pessoas agem em sociedade, em nossa cultura. As mulheres negras já
enfrentam barreiras para conseguir um emprego ou ter acesso a educação,
mas a situação fica muito mais severa quando elas possuem algum tipo de
deficiência. Valores racistas e machistas se unem para reforçar ideias
criminosas, como a cobrança por uma “boa aparência”. Assim, não é uma
surpresa o fato de que esse grupo esteja em uma situação de
vulnerabilidade e marginalização tão profunda.
Também é preciso analisar a ausência de
dados a respeito das mulheres em situação de rua. O próprio modo como é
feita a coleta de dados tem vários furos, já que o Censo é realizado em
residências. Basta um simples exercício de observação das ruas para
identificar um número preocupante de pessoas com deficiência que têm
seus direitos constantemente violados. Além disso, o Censo trabalha com a
autodeclaração no quesito de raça e etnia, o que leva a muitas pessoas
afrodescendentes, negras ou com ascendência indígena que não se declaram
como tais, mesmo que os números indiquem um aumento na identificação
pessoal da população negra no Brasil.
Um assunto de tamanha complexidade
carece de abordagens mais diversas e aprofundadas. É preciso falar
ativamente sobre as situações de racismo e misoginia contra pessoas com
deficiência. Fetichização e “pena” não geram transformações concretas e
nem respeito sincero; é preciso divulgar dados, propor debates e
reivindicações e buscar garantir dignidade e espaço para quem é
esquecido e excluído socialmente. Entendamos de uma vez por todas que
falar de “mulher” não necessariamente significa falar de todas as
mulheres: muitas ainda estão esperando o momento em que serão
efetivamente lembradas.
Fonte:http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2013/09/23/mulheres-negras-deficiencia-e-invisibilidade/
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Escola é o espaço onde crianças de religiões afro mais se sentem discriminadas, afirma pesquisadora.

Portal Aprendiz: Bom, começaria com o título de seu livro:
como a escola se relaciona com as crianças do Candomblé? Quais foram as
principais descobertas dos seus mais de 20 anos de pesquisa?
Stela: Os terreiros de candomblé são espaços de
circulação de imensos conhecimentos. Crianças, jovens e adultos cultuam
seus ancestrais e, se não podemos dizer que o Candomblé é uma religião
africana porque é brasileira, podemos dizer que o culto aos ancestrais é
comum em toda África. Os negros e negras escravizados para o Brasil
chegaram aqui com seus ancestrais e nos ensinaram a amá-los a
cultuá-los. Para poder fazer isso, criamos o candomblé que, nos
terreiros, foi mantido e ressignificado. As línguas dos povos africanos
que aqui chegaram é mantida nos terreiros pela oralidade, e isso se
aprende todos os dias, há séculos, em cada casa de axé. História,
geografia, biologia, ecologia, filosofia, literatura. Um conjunto de
conhecimentos poderosos passados de geração em geração e do qual
crianças e jovens se orgulham, mas que, nas escolas, são obrigados a
sentirem vergonha daquilo que os anima e os faz viver. A educação nos
terreiros não é racista, não discrimina as diversas orientações sexuais,
as famílias que se organizam e se formam a partir dessas diferentes
orientações sexuais. O candomblecista não discrimina qualquer outra
religião. Acredito que, por ser assim, a educação nos terreiros pode
ensinar o antirracismo e o humanismo do qual precisamos todos os dias.
Fonte:http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/05/12/escola-e-o-espaco-onde-criancas-de-religioes-afro-mais-se-sentem-discriminadas-afirma-pesquisadora/
Escola é o espaço onde crianças de religiões afro mais se sentem discriminadas, afirma pesquisadora.
A escola não é um dado. Ela
nem sempre existiu, e tampouco sempre foi do jeito que conhecemos hoje.
Em sua construção e consolidação como instituição social, ela passou
por diversas transformações e foi moldada por determinados setores. É o
que o professor Jurjo Torres, em entrevista ao Portal Aprendiz, chama de currículo oculto da educação.
Lembrando da imagem do Cavalo de Troia, Torres afirma que
existem muitas aprendizagens não intencionais, ou seja, que não estão no
programa do professor de maneira expressa. “São as consequências das
cosmovisões e ideologias nas quais fomos educados e assumimos como
‘naturais’, ‘óbvias’ e ‘lógicas’.
Uma ideologia, quando se torna hegemônica, se plasma em
determinadas práticas, rotinas, tradições, motivações e interesses que,
de uma maneira consciente e reflexiva, nós não tratamos de trazer à luz,
investigar, analisar e questionar. Esses tipos de tarefas que
programamos e que cremos que são educativas pois são parte do ‘senso
comum’, ‘sempre foram assim’, ‘aprendi assim’”.
E como isso se dá numa sociedade com passado escravocrata e um presente que ainda padece de diversas formas de racismo?
Essas e outras perguntas estão presentes na pesquisa de
Stela Guedes, doutora em educação e professora do Programa de
Pós-Graduação em Educação da UERJ (PROPED-UERJ) e autora do livro “Educação nos terreiros – e como a escola se relaciona com crianças de candomblé”, lançado em 2012.
Ao longo de 20 anos de pesquisa, a professora buscou
analisar o preconceito contra religiões de matriz africana no ambiente
escolar e as dificuldades da implementação da lei 10.639, de 2003, que
prevê o ensino de cultura e história afro-brasileira e africana nas
escolas e descobriu que, para os estudantes de religiões afro que
frequentam as instituições de ensino brasileiras, esse é o espaço onde
mais se sentem discriminados.

“Primeiro, temos de reconhecer que o Brasil é um país racista. Esse é o primeiro passo para olharmos para os espaços sociais.”
Arquivo Pessoal
“Uma vez entrevistei uma professora de Ensino Religioso que
afirmava que a disciplina não era proselitista e não discriminava e
que, na mesma resposta, comemorava o fato de ter tido no ano anterior 8
alunos ogans que se converteram ao cristianismo (ogan é um cargo
masculino cuja responsabilidade são muitas, entre elas, tocar os
atabaques nos rituais). A escola, que é o lugar dos diferentes entre si
por natureza, deveria ser o lugar mais preparado para não só lidar, mas
também para aprender profundamente com essas diferenças. Infelizmente
não é”, afirma Stela.
Para ela, a “escolarização pública em nosso país foi e
continua sendo marcada pelo espírito de catequese” e precisa ser
transformada. A pesquisadora, que ministrará neste mês o curso “A escola e o terreiro: diversidade e educação antirracista em pauta”, em São Paulo, conversou por e-mail com o Portal Aprendiz,
sobre os resultados de sua pesquisa, o caráter racista da educação
brasileira e os possíveis caminhos para uma educação antirracista e
transformadora. Confira:
Stela Guedes: A escolarização pública em
nosso país foi e continua sendo marcada pelo espírito de catequese. Não é
difícil entender o porquê. Em 1549, trazidos pelo governador geral Tomé
de Souza, três jesuítas chegam ao país e, em Salvador, fundaram o
colégio da Companhia de Jesus. Duzentos e dez anos depois, quando os
jesuítas foram expulsos do Brasil, o ensino público passou para as mãos
de outros setores da igreja católica. Quase 500 anos depois e, apesar
de, em 1891, a primeira Constituição republicana ter separado Estado de
Igreja e afirmar que “será leigo o ensino ministrado nos
estabelecimentos públicos”, o papel da escola pública ainda é catequisar
e converter. A conversão é um conceito amplo e não se refere apenas a
conversão religiosa. A conversão é uma submissão à lógica dominante que
aí sim diz respeito a uma padronização em função da religião dominante,
aos valores dominantes conservadores sobre família, sexualidade,
aparência, raça, ou seja, aos modos de ser, estar, crer, não crer e agir
no mundo. Dentro dessa lógica a escola não acolhe as diferenças entre
elas, as diferenças religiosas. Em mais de 20 anos de pesquisa todas as
crianças e jovens de candomblé são unânimes quando afirmam que todos os
espaços da sociedade são cruéis, mas nenhum lugar é tão cruel quanto a
escola quando se trata de humilhar e excluir alunos e alunas de
candomblé ou umbanda.
Aprendiz: Que tipos de impactos sociais uma educação intolerante e racista pode trazer?
Stela: Primeiro, temos de reconhecer que o
Brasil é um país racista. Esse é o primeiro passo para olharmos para os
espaços sociais e entendermos que todos eles são espaços racistas. Isso
porque o racismo é um sistema em que um grupo se considera superior e
submete de diversas formas um outro grupo considerado inferior. O mais
fundamental é, ainda, entender que fomos educados em uma escola branca,
cristã e racista. Então a pergunta deve ser “Que tipo de impactos e
consequências a nossa sociedade e, portanto, a nossa educação racista
nos trouxe? Que tipo de relações criamos?”
A dominação colonial na
África, como bem se refere o pesquisador Kabengele Munanga, com sua
missão “civilizadora”, teve como objetivo reduzir negros e negras
ontológica, epistemológica e teologicamente. Isso fez com que os países
colonizadores se servissem de seus saques econômicos e históricos.
Roubaram por séculos a riqueza material e a história dos povos de
África. No nosso caso, negros e negras escravizados não “contribuíram”
com a formação do que se chama “povo brasileiro”. Foram os negros e
negras roubados, aprisionados, desterrados e escravizados que ergueram
esse país.
Uma das consequências quando um grupo de seres humanos passa
a se achar superior a outro grupo de seres humanos é a total subtração
da história do grupo considerado inferior. Essa foi uma consequência
drástica na educação brasileira. A história de um continente inteiro foi
subtraída de nossas escolas. Não se trata de ser tolerante. Nenhum
indivíduo ou grupo quer ser tolerado. A tolerância, apesar de ser um
conceito aparentemente interessante, é sempre uma ação que prevê alguma
benevolência ou aceitação daquele ou do grupo considerado como
referência nas tensas e complexas relações de poder. Ou seja, não
podendo te eliminar eu te tolero. Não podendo eliminar este ou aquele
grupo eu os tolero e aceito. A tolerância sempre exige algum grau de
assimilação e estabelece limites. Uma vez ultrapassados os limites do
jogo da assimilação, o tolerante deixa de tolerar.
Aprendiz: Como a educação poderia se relacionar com
os diferentes tipos de saberes? Você saberia mencionar alguma
experiência em que um terreiro e uma escola se articularam para discutir
história e cultura-afro?
Stela: A escola não tem de tolerar pessoas
as quais considera diferente de sua lógica hegemônica. A escola precisa
reconhecer que a vida no planeta é constituída por seres humanos
diferentes. A escola é o lugar dos diferentes e, por ser esse lugar, a
escola é um lugar tenso, porque não há harmonia na diferença e nem pode
haver. O ideal é que busquemos a convivência respeitosa entre pessoas e
grupos. E essa convivência respeitosa, essa experiência intercultural
pautada nos direitos humanos não acontece se um dado conhecimento for
erguido ao reino da importância e, portanto, legitimado, enquanto outros
tantos conhecimentos são submetidos ao reino da desimportância e,
portanto, deslegitimados e excluídos das escolas. A escola deve
reconhecer o conflito e apostar nele, para que, a partir das diferenças,
todos e todas possam ser vistos e compreendidos uns pelos outros. Não
conheço experiências como as que você menciona, conheço projetos
individuais de alguns professores e professoras que tentam fazer com que
alunos e alunas conheçam terreiros e falem na escola a partir dessa
experiência.
Aprendiz: O que mudou desde a aprovação da lei Lei 10.639?
Stela: A Lei 10.639 foi sancionada em 2003
e diz que nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e
particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura
Afro-Brasileira. Todos os pesquisadores e pesquisadoras que estudam a
aplicação da lei descrevem inúmeras dificuldades. Falta formação para
professores e professoras e o obscurantismo crescente na educação também
é um dado que dificulta. Professores, professoras, pais, alunos e
alunas, funcionários obscurantistas acreditam que qualquer referência à
África é um passaporte para o inferno, pois associam África ao Diabo.
Como isso aconteceu? Com a mesma inferiorização dos povos africanos
sobre a qual falávamos há pouco. A lei foi uma conquista importante, mas
temos muito a caminhar e é preciso uma luta cotidiana contra o racismo,
incluindo as faculdades de formação de professores e professoras.
Aprendiz: Porque as crianças afirmam que a escola é
o lugar que mais discrimina? Como se dá essa discriminação? Como isso
afeta a auto-percepção dessas crianças?
Stela: Por toda essa realidade racista e
obscurantista que estamos tratando aqui em todas as perguntas. Uma vez
entrevistei uma professora de Ensino Religioso que afirmava que a
disciplina não era proselitista e não discriminava e que, na mesma
resposta, comemorava o fato de ter tido no ano anterior 8 alunos ogans
que se converteram ao cristianismo (ogan é um cargo masculino cuja
responsabilidade são muitas, entre elas, tocar os atabaques nos
rituais). A escola, que é o lugar dos diferentes entre si por natureza,
deveria ser o lugar mais preparado para não só lidar, mas também para
aprender profundamente com essas diferenças. Infelizmente não é. Por
isso, muitas crianças e jovens sofrem porque são inferiorizados e
inferiorizadas.
Aprendiz: Que tipo de aprendizados podem sair dos
terreiros? Como eles podem contribuir para uma educação antirracista e
focada nos direitos humanos?
Fonte:http://portal.aprendiz.uol.com.br/2015/05/12/escola-e-o-espaco-onde-criancas-de-religioes-afro-mais-se-sentem-discriminadas-afirma-pesquisadora/
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Ambiente Escolar é Contaminado pelo Preconceito.
Das 18,5 mil pessoas entrevistadas (alunos, pais, diretores, professores e funcionários) em 501 escolas públicas de todo o país, 99,3% assumem ter algum tipo de preconceito em relação a pessoas com deficiência (96,5%), etnorracial (94,2%), gênero (93,5%), geração (91%), socioeconômico (87,5%), sobre orientação sexual (87,3%) e territorial (75,95%).
Preconceito Racial.
Apesar de contar com 54,9% da população considerada negra, o cenário de preconceito em Mato Grosso não é diferente do restante do país. A estudante do ensino fundamental, Ketilyn Aparecida Eufrásio, 13, coleciona histórias de discriminação vivenciadas dentro da escola. A adolescente negra, conta que na infância uma professora incitava os colegas da sala a tirarem sarro dela. "Pixaim" e "cabelo ruim" eram alguns dos nomes usados pelos estudantes, com aprovação da educadora.Na época, Ketilyn era a única negra da sala de aula e apesar da baixa estatura a professora não deixava que a menina sentasse nas primeiras cadeiras. "Ela não gostava de mim por causa da minha cor. Eu me sentia excluída as brincadeiras".
Com interferência da mãe de Ketilyn, a professora foi afastada da sala de aula, mas isso não foi o suficiente para que as outras crianças deixassem de por apelidos na menina. Mudar de escola não foi o suficiente para que a adolescente ficasse longe da discriminação.
A estudante destaca que algumas vezes piadas e brincadeiras ofensivas contra os negros são feitas na frente dos professores, que se limitam a lembrar os estudantes que "preconceito dá cadeia", quando na realidade os educadores deveriam debater sobre o assunto.
O resultado da pesquisa, associado à política de cotas adotada no país, mostra que o Brasil não está fazendo seu dever de casa adequadamente. Este é o entendimento do professor-técnico da Gerência de Diversidade da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), João Bosco da Silva. Ele comenta que o preconceito dentro das escolas é grande, principalmente no Ensino Médio. Ele ilustra a situação citando os interesses afetivos dos alunos. "Entre os adolescentes, o ato de "ficar" é mais comentado e frequente com os alunos brancos. O interesse pelos negros é menor. No Ensino Fundamental, o preconceito fica evidente durante brincadeiras, em que as crianças brancas excluem as negras".
Silva explica que o preconceito dos alunos é reflexo da educação que recebem em casa e é perpetuado nas escolas, que deveria ser um ambiente de debate contra a discriminação, mas que não desempenha o papel adequadamente. O ideal seria trabalhar a diversidade, mostrando que não é necessário adotar um padrão de beleza europeu para ser bonito, além de ensinar a história do negro de forma adequada, ensinando outros assuntos que a escravidão.
Para abranger a história dos negros de forma mais ampla foi criada a Lei Federal 10.639/2003, que obriga a implementação da "História e Cultura Afro-Brasileira" no ensino fundamental e médio. Silva garante que o ensino público de Mato Grosso adotou a lei, que visa por meio do ensinamento, levar os alunos a entenderem o próximo e respeitá-lo.
A dificuldade de implementação da lei existe por uma questão cultural, afirma o professor. Ele explica que o trabalho tem que ser diário e com persistência para que as próximas gerações apresentem um comportamento menos discriminatório. "No Norte do Estado, onde a colonização foi feira pelo Sul do Brasil, existe uma resistência maior para implementação da lei, mas toda semana entramos em contato, verificamos como estão as atividades".
O professor acredita no trabalho da autoestima para fortalecer contra o preconceito, para dar argumento aos negros sobre a importância de sua raça. O mesmo entendimento é adotado pelo projeto Pixaim, da Central Única das Favelas (Cufa), coordenado por Karina Santiago. A iniciativa trabalha com tranças afro e leitura específica para valorização da estética da mulher negra, incentivando o empreendedorismo feminino. Durante as atividades do projeto, o cabelo crespo é enfocado para quebrar um preconceito de que ele é "ruim" ou feio. As leituras são para valorização da cultura africana, como forma de trabalhar a autoestima.
O Pixaim nasceu a partir do livro "Cabelo Ruim? A história de três meninas aprendendo a se aceitar", da jornalista Neusa Baptista Pinto. A valorização do cabelo, que é alvo do preconceito até mesmo das mulheres negras, é uma forma de aceitação da raça e entendimento que as tranças afro são uma opção de embelezamento, que defende a raça. "O não se assumir é uma forma de preconceito também", comenta Karina.
Para Neusa a discriminação contra a própria raça é uma herança da história brasileira. "Isso é desenvolvido pelo processo educacional, que sempre coloca o negro como inferior. Como vão se aceitar, se em todos os ambientes que convivem não se vê como referencial. O negro é sempre lembrado com uma carga negativa". Neusa entende que o resultado da pesquisa é um reflexo da sociedade e destaca que a escola não tem se mostrado um ambiente de mudança, mas sim um local de perpetuação do preconceito. "Não saber como tratar o aluno é uma forma de discriminação".
Preconceito contra Pessoas com Deficiência.
O presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Heron Carlos Alves de Souza, concorda com Neusa que a falta de preparo da sociedade para lidar com as diferenças é uma forma de preconceito. "Não respeitar a dificuldade de aprendizado também é discriminação". De acordo com a pesquisa, as pessoas com deficiência (física ou intelectual, em especial a intelectual) são as que mais sofrem rejeição dentro do ambiente escolar. Do universo entrevistado, 96,5% demonstram querer distância deste grupo. A intensidade da atitude preconceituosa chega a 32,4%.Para Heron, o resultado do estudo mostra que a discriminação é velada. Embora não seja direta, a sociedade não acredita na capacidade de quem tem deficiência. Isso fica mais nítido quando existe concorrência para vagas em empregos e a pessoa considerada "normal" sempre é escolhida.
No entendimento da presidente da Associação da Síndrome de Down de Mato Grosso, Júlia Ulrich Alves de Souza, essa rejeição contra as pessoas com deficiência é reflexo da própria educação familiar e ambiente escolar, que deve promover a a inclusão. O contato com as diferenças é importante para o entendimento de que a pessoa com deficiência tem capacidade para desenvolver as atividades. "Hoje, o Ministério da Educação praticamente obriga que faça a inclusão no Ensino Regular e isso é importante para o relacionamento. É a falta de contato que promove o preconceito. A escola é a vivência, é o contato com outras crianças. As vezes as pessoas falam que não gostam da pessoa com deficiência, mas nunca conviveu com ela".
Heron destaca que a inclusão deve começar no seio familiar. "Se a própria família não tiver a capacidade de amar, como vai querer que os outros respeitem a pessoa com deficiência?". A extensão dessa inclusão deve ocorrer na escola, que precisa estar preparada para receber este aluno. A falta de preparo para trabalhar a diversidade dentro das escolas mostra que a educação precisa de reforma. As instituições trabalham e educam da mesma maneira há décadas e é necessário buscar meios para atender as necessidades da sociedade como um todo. Heron defende que existem várias formas de ensinar, além do emprego obrigatório do livro e da prova escrita. Porém, a maioria dos professores não procura adaptar o currículo como forma de atender a diversidade.
Pesquisa sobre o Preconceito.
O estudo sobre Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar foi encomendado a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao MEC.O coordenador do trabalho, José Afonso Mazzon, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), comenta que ficou surpreso com o resultado. Ele destaca que as escolas são ambientes onde o preconceito é bastante disseminado por todos. "Não existe alguém que tenha preconceito em relação a uma área e não tenha em relação a outra. A maior parte das pessoas tem de três a cinco áreas de preconceito. O fato de todo indivíduo ser preconceituoso é generalizada e preocupante".
Fonte: http://www.bengalalegal.com/preconceitos
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Mais notícias sobre racismo e preconceitos contra pessoas com deficiência:
Mesmo após todos esses anos de existência do sistema de cotas em muitas universidades e com a vigência da Lei nº 12.711, conhecida como Lei de Cotas e que passou a vigorar a partir de agosto de 2012, muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre o funcionamento das reservas de vagas nas instituições. Mais informações: http://vestibular.brasilescola.com/cotas/negro-pobre-deficiente-ou-indigena.htm
No extremo sul da cidade de São Paulo, na aldeia Tenondé Porã, onde vive parte da comunidade guarani, o coletivo Manifesto Crespo, formado por mulheres negras, promoveu o evento “Tecendo e trançando arte”. O projeto, criado com a finalidade de discutir a beleza verdadeira da mulher brasileira através da quebra dos estereótipos que predominam na moda e na mídia, levou até a comunidade indígena oficinas e atividades de troca de saberes entre as mulheres presentes. Mais informações: http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2015/03/05/identidade-e-resistencia-mulheres-negras-combatem-padroes-de-beleza/
Em 2013, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) completa uma década de existência,com contribuições efetivas para a consolidação das políticas públicas de gênero, destacando a efetiva transversalidade de gênero nas políticas interministeriais. Hoje, a perspectiva de gênero está incluída em todas as políticas públicas, numa clara demonstração do protagonismo das mulheres na construção de um projeto de sociedade mais justa, mais equânime e democrática. Mais informações: http://www.spm.gov.br/assuntos/pnpm/publicacoes/pnpm-2013-2015-em-22ago13.pdf
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CONVITE PARA ENTREVISTAS
Pessoas com deficiência negras, em especial as mulheres (infelizmente,
as mais marginalizadas entre as 'minorias'), por gentileza, entrem em
contato comigo para serem entrevistadas, pois infelizmente, existem
pouquíssimas (para não dizer raríssimas ou praticamente nenhuma)
informação sobre a real situação das pessoas com deficiência negras que
sofrem triplo ou quádruplo preconceitos e discriminações!! Precisamos
urgente unir forças para essas vozes serem ouvidas!!!
E-mail: leandramigottocerteza@gmail.com
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