Por Leandra Migotto Certeza em 21/11/2008
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Mudei.
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A boneca que falava e vivia no sol
Flutuava. Era de cristal. Em 1977, a boneca que vivia no sol começou a falar. Tinha mais ou menos 11 meses e só alguns centímetros. Tão pequena que parecia um bebê menor, mas não era. Tati era o centro das atenções do céu. Raio e chuva viviam brigando por ela, e para saber o que fazer com ela. Brisa, nunca a tirava do colo. Vento a admirava com muita tristeza e provia-a de todas as necessidades. Tempestade cuidava com tanto zelo dela que se esqueceu de ouvir as primeiras palavras que Tati disse quando deixou de ser um bebê. Nuvem a olhava com o rabo de olho e o pé atrás. Tinha receio de perder seu lugar no céu, por isso, tratava Tati como uma eterna criança.
Tati gostava de ser criança e ao mesmo tempo não. Adorava o colo de todos, mas sabia que um dia iria cair do céu e deixar de viver no sol. Sabia também que viver na Terra era muito dolorido, por isso, preferia a dor de ser levada de um lado para o outro - como um saco de batatas - que carregavam para cima e para baixo, sempre com o coração do tamanho de uma ervilha. Ser uma boneca era muito bom. Tinha tudo sempre à mão: guloseimas, brinquedos, passeios, carinho e, principalmente, atenção. Era o centro das atenções.
O raio, a chuva, a tempestade, a brisa, a nuvem e o vento, viviam ao seu redor. Nunca a abandonaram, nem mesmo para deixá-la sozinha com seus pensamentos… Isso era bom? No começo sim. Foi ótimo ter todas as dores aplacadas por remedinhos, comidinhas e carinhos. Ser o centro das atenções a livrou da insuportável dor do medo de viver quebrada, por dentro e por fora. Tati nasceu toda esfacelada. Os pedacinhos do seu corpo foram colados de qualquer jeito, e ela nem teve tempo de dizer como queria ser. Não entendia porque tanto sofrimento. Não sabia o que tinha feito para merecer tanta dor. Viver no sol era seu maior conforto. Lá era quente, acolhedor, seguro... E o mais legal: era um lugar privilegiado.
As estrelas tinham seu brilho, mas Tati era o centro delas. Viver no sol trouxe calor para cada pedacinho do seu corpo, tão frágil e desamparado. Sem ele, ela não seria capaz de estar no céu. Lá ela pôde ser feliz. Brincou como uma criança até mais ou menos 14 anos. Mas era muito engraçado como Tati sabia que não era mais criança, e mesmo assim gostava (será?) de ser uma marionete nas mãos das pessoas. O peso de seu leve corpo era tão grande que ela sentia que não conseguia carregar sozinha por ter ouvido sempre que não era capaz! Por isso, foi obrigada a fingir ser criança até mais tarde, quando encontrou o mar, seu eterno, único e verdadeiro amor, e tudo começou a tremer dentro dela. Mas essa é uma outra história que ela conta depois. Agora Tati quer se lembrar de quando era uma ‘boneca bebê’ que falava. Nasceu com olhos grandes; cabeça maior e em forma de triângulo; coxas roliças; pernas curtas e braços compridos; cabelos castanhos bem finos; dedos alongados, e mãos perfeitas.
Tati adorava suas mãos e dedos. Era a única parte do corpo que achava igual a das outras bonecas do céu. Ela não queria ter nascido feita de pano, palha ou plástico, mas ser de cristal era extremamente perigoso e trabalhoso. Chato até. Tinha sempre que se proteger. Até de si mesma. Quebrava qualquer pedacinho do seu corpo só de respirar. Por isso, fingiu que era feita de aço. E nunca deixou de se divertir pulando de bundinha pelo céu. Suas pernas não tinham força, mas em compensação, sua voz era mais forte do que o trovão!
Tati gritava tanto que o sol tremia, mas seu coração não percebia o mal que fazia a si mesma. Ganhou fama de dona do céu. Adorava esse título, mas não sabia até quando conseguiria carregar o peso de ser o centro das atenções. Falar cedo foi sua tábua de salvação. O céu era muito grande e o sol muito quente. Quando disse as primeiras palavras, pôde conhecer o horizonte da imaginação. Perdeu-se nele, e se entregou a ele em seus mais doces sonhos. Trovão, sempre a despertava com tanta violência, que Tati voltava a se entregar nos braços do horizonte, com medo do barulho que todos os trovões tinham.
Como uma onda no mar, foi e voltou de sua imaginação várias vezes. A cada retorno quebrava um pedacinho da alma. Eram marcas que nunca seriam apagadas da memória, principalmente, no momento de fazer a primeira viagem ao Centro da Terra. As outras bonecas tinham inveja de sua condição de rainha, mas Tati não achava a menor graça o peso de sua coroa. Era obrigada a exibi-la para todos no céu.
Tati era o troféu mais esquisito que o céu ganhara, sem saber o motivo. Luz só tinha dito ao céu que foi um acidente, Tati ter nascido de cristal. A boneca que falava e vivia no sol, perguntou inúmeras vezes porque não tinha nascido igual às outras, que eram como lindas bailarinas, mas nunca encontrou uma resposta verdadeira. Tati pensava erroneamente que tinha sido ela quem pediu para vir ao céu em um corpo de cristal. Achava que era sua máxima e eterna culpa. E que a carregaria para todo o sempre.
Viver no reino da fantasia sabendo que já tinha crescido foi a melhor tática que ela encontrou para continuar viva, mesmo sem saber. Assim, conseguia observar de longe - e bem segura – todas as outras bonecas se transformando em seres humanos ao chegarem à Terra. Ela seria a última, ou uma das últimas, pois até então, ainda não conhecia outras bonecas iguais a ela. Raio e chuva a esconderam da sociedade, dentro de suas capas feitas de aço. Assim, era bem mais difícil Tati conseguir fugir e dar as mãos para o arco-íris rumo ao Centro da Terra.
Um dia, a boneca que falava e vivia no sol, conseguiu ver o pote de ouro do outro lado do arco-íris, e resolveu dar uma espiada nas condições da viagem que sempre soube que faria um dia, mais cedo ou mais tarde, em busca da LIBERDADE. “Antes tarde do que nunca”, já dizia a estrela cadente. Tati tirava todas as suas dúvidas com ela porque sabia que era a única capaz de entender seus mais íntimos desejos. Tão íntimos que o mar, seu eterno e único amor verdadeiro, ainda está conhecendo bem devagar cada desejo seu.
Tati deu várias espiadas ao Centro da Terra, mas sempre amparada pelo cometa, que na verdade, era uma cometa com cara de anjo, mas que de boazinha não tinha nada. A Cometa passava tão depressa que Tati, às vezes, não conseguia segui-la, mesmo que desejasse muito profundamente. Mas um dia a cometa surgiu em sua vida com tamanha força que Tati não resistiu e subiu em sua cauda. Viajaram juntas por muitas galáxias... Mas a boneca que falava e vivia no sol ainda não estava preparada para virar gente. E a Cometa entendeu parcialmente suas emoções.
Hoje Tati viaja nas caudas de outra Cometa com muito mais segurança, lugar de fala, e principalmente, conforto. É uma viagem longa, cheia de tempestades, trovões, terremotos, vulcões, rochas, e muitas pedras pelo caminho. Mas a boneca que falava e vivia no sol está decidida a virar gente e entrar bem devagar no Centro da Terra.
Não vai mais carregar nenhum peso nas costas, ser marionete de ninguém, e muito menos o centro das atenções. Será apenas mais uma boneca que virou gente e conquistou seu espaço na Terra, e não no centro dela. O maior desafio agora é aprender a viver parecendo uma simples boneca, que sempre será de cristal (devido à fragilidade de seus ossos); e chamando a atenção de todos! Mas nunca deixará de ser como gente, com todas as dores e delícias!
Eu falo
Para quem?
Ou com quem?
Falo?
Não!
Nunca falei.
O que fiz foi reproduzir o que falaram.
Ou não falaram.
E quando falaram não foram para mim.
Talvez tenha sido para quem pensaram que eu era…
E agora eu mesma descobri que na verdade nunca FALEI.
Por isso ESCREVO
Nem que seja só para ouvir o que eu mesma tenho para falar sobre esse lugar de fala da mulher que deveria ter morrido em 7 dias e vingou!
Hoje eu VINGO quem nunca pensou que eu pudesse FALAR!
Ter vivido em um vidro
foi ter sido possível
quando o macabro foi terrível
e a vida não fez mais sentido
Ter vivido em uma bolha
foi preciso
quando a dor foi mais funda
e esmagadora
Ter vivido o não dito
foi a única escolha
mais próxima da realidade
em que a idade ainda era pouca
para suportar os insultos
de quem deveria ter sido improváveis
de quem mais amou na vida.
descrição da imagem: mandala de cor azul escuro e claro, verde claro, rosa claro, lilás com desenhos circulares semelhante a flores mais claras ao centro e com detalhes de fios de cor azul, verde e lilás nas laterais.