quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Jornalismo Literário - Entrevistas

A COMPLEMENTAÇÃO PELA CAPTAÇÃO

Por Vânia Coelho


           Jornalista é um representante do público, um
 embaixador da audiência  (Edvaldo P. Lima)


COMO ELABORAR A PAUTA PARA O LIVRO-REPORTAGEM?

            Captar é apreender, observar e, pela percepção, ver o que não é mostrado, ler nas entrelinhas, “naquilo” que foi dito pela metade, “daquilo” que é percebido nas onomatopéias, nas metáforas, nas metonímias, nas impressões e expressões humanas, nos sussurros e murmúrios, na lágrima, na dor e no grito. Grito este que clama por socorro ou denota uma alegria que contagia. Captar é enxergar os olhos que falam e os lábios que calam. É ver os olhos que se desviam em soslaio e ouvir o que não foi dito.           
O faro jornalístico do qual tanto falam os especialistas da área tem a ver, também com a captação da temática no jornalismo investigativo e interpretativo, isso porque os temas que tanto servem de alicerce para pintores e poetas do mundo todo, porque sensibilizam o lado humano e alguns grupos sociais que os compõem, devem, no jornalismo, ser de interesse público geral, portanto pertinente à sociedade em todos os sentidos, de forma a prestar um serviço com a pesquisa e a produção midiática. Logo, captar é apreender o essencial, as entranhas, o útero que germina personagens maus e bons, criaturas do poder e da submissão. Captar é ver de olhos vendados. Há olhos que captam a fotografia “perfeita”, pois o fenômeno é apreendido por um corpo sensível e inteligível. A captação faz parte da entrevista de compreensão.

        A Entrevista de Compreensão é um instrumento de captação do jornalista. No livro Páginas Ampliadas: o livro reportagem como extensão do jornalismo e da literatura (2009) de Edvaldo Pereira Lima, no capítulo 2 intitulado Os procedimentos de Extensão, parte II - A complementação pela captação, o autor salienta a importância da pauta para o desenvolvimento da tarefa jornalística, no que tange à produção da grande reportagem impressa. Segundo ele, a pauta realizada para a produção de um livro-reportagem ganha relevância quando a meta busca o aprofundamento da contemporaneidade. Uma pauta bem elaborada, clara, precisa e bem planejada, de cujas abordagens objetivas facilitam o traçar das diretrizes para a coleta e a pesquisa (material registrado) em livros, internet, revistas, jornais, gravações digitais e audiovisuais, documentos, artigos, entrevistas, pesquisa social, etnográfica e observacional, deve ser clara e objetiva, portanto necessita-se de uma abordagem dedutiva sobre o tema e um estudo detalhado das linhas de força que a compõe. É preciso ter como registro na Planilha do PEX, uma pauta bem definida, e um roteiro (cronograma) para iniciar a etapa chamada de captação. A pauta eficiente deve conter:

a) Definição exata do assunto a ser abordado;

b) Objetivos claros e precisos;

c) A formulação do problema;

d) Plano de captação

Faz-se necessário, ainda, afirma Lima, localizar o assunto em vários âmbitos, tais como:

a) Área de atividade econômica;

b) Segmento social;

c) Campo de conhecimento;

d) Espaço: posicionamento geográfico-social;

e) Tempo: sentido cronológico dos acontecimentos e personagens.




            Os objetivos (que só podem ser definidos em função dos problemas e dos conflitos que os originam) que a matéria pode atingir direcionam a condução da pauta que deve ter ponto de alcance e visão integral. Para a professora Cremilda Medina (citada por Lima), o jornalista deve ter cautela com a cosmovisão desatualizada, o que ela chama de “primarismos”. Para Medina, não se pode caminhar pelas linhas do periférico e do pitoresco tão somente, pois a entrevista jornalística da grande reportagem é um instrumento de captação do real e, essa compreensão pressupõe, em seu aspecto humanizado, um diálogo interativo entre entrevistador e receptor. Isto é, o consumidor/leitor deve entender o diálogo traduzido e interpretado pelo jornalista e consumi-lo, aproveitá-lo, pois o resultado deve interferir no público de uma forma ou de outra, pelo riso ou pelo choro, pelo conhecimento ou pela denúncia, pela ampliação ou inferência.
     Isso porque o jornalista tem o papel consciente de estimular relações e diálogos, criar um clima autêntico de conexão entre entrevistado e receptor, auxiliar na compreensão do verdadeiramente real, mas também emocionar, sem o qual, diz Lima, “nenhum ato comunica na dimensão humana o que o jornalismo pretende”. Já Medina intitula de plurálogo o diálogo democrático que surge da entrevista de compreensão. Segundo ela, há duas tendências agrupadas na entrevista:

a. Espetacularização: caricatura das possibilidades humanas;
b. Compreensão: busca do aprofundamento (idiossincrasias)

a. Na Espetacularização, há quatro subgêneros:

1) Perfil pitoresco: caricatura com traços sensacionalistas;

2) Perfil inusitado
: aspectos exóticos da personagem;

3) Perfil do condenado
: coloca a personagem na posição de réu ou vilão;

4) Perfil da ironia: realiza um julgamento condenatório da personagem, de forma sutil, eufemista e intelectualizada por metáforas, metonímias, símiles, etc.
b. Na Compreensão, há vários subgêneros, a saber:

1) Entrevista conceitual;

2) Entrevista de enquete;

3) Entrevista investigativa;

4) Entrevista de confrontação;

5) Perfil  Humanizado.


            Lima cita outros subgêneros da Entrevista de Compreensão. Mais adiante, pretende-se tratar, particularmente, dos subgêneros citados por Medina e os demais citados pelo jornalista Lima, que somam: histórias da vida, observação participante, memória, visão pluridimensional simultânea e documentação. 
Deve-se desenvolver conceitos e classificações da Entrevista de Compreensão, de modo a tornar claros os procedimentos, gêneros e subgêneros que envolvem a captação como instrumento e eixo norteador das entrevistas que resultam no livro-reportagem. 

TEORIA DA ENTREVISTA DE COMPREENSÃO


            A entrevista de compreensão é uma técnica particular das grandes reportagens, ela não é aliada do grande espetáculo, nem da sociedade imagética, em que a aparência predomina, nem do sensacionalismo ou imediatismo.
Para Lima, o jornalista-escritor é o tecedor invisível da realidade que salta das páginas para o coração, para a mente e para todo o aparato perceptivo do leitor. Essa realidade deve fazer a diferença no público consumidor. A entrevista visa captar a essência através da compreensão, da observação, da percepção e apreensão da personagem. Objetiva-se, nessa entrevista que um diálogo possível seja estreitado e o repórter deve ser mais ouvinte e menos falante. A pauta da entrevista de compreensão é aberta, flexível e em movimento para que o repórter possa atingir uma percentagem alta na eficácia da meta.  
O processo noticioso da grande reportagem geralmente é alicerçado no pensamento dedutivo, em que se parte de uma verdade universal para uma verdade menos universal, isto é, do geral ao particular. O inverso também pode ser válido, depende da estrutura que se pretende edificar. Exemplo de dedução:Todas as mulheres praticam suicídio. Cleópatra é mulher. Logo: Cleópatra é suicida

No exemplo acima, o raciocínio caminha do particular para o geral, ou seja, de uma verdade menos universal para uma verdade universal, acontece nesse raciocínio lógico a particularização do fenômeno.

Sócrates é homem. Sócrates é mortal. Todos os homens são mortais

É um exemplo de indução, pois parte do pensamento de que Sócrates é um homem e é mortal, remete à mortalidade e à masculinidade de um homem: Sócrates (particular) e se caminha para a conclusão de que todos os homens são mortais, não apenas Sócrates, mas todos os seres masculinos (geral). Trata-se da indução. 

Tudo o que é espiritual é incorruptível. Ora, a alma humana é espiritual. Logo, a alma humana é incorruptível

No exemplo acima, parte-se de uma verdade universal para uma menos universal, ou seja, o processo do raciocínio é dedutivo, pois se particulariza o pensamento, vai-se da aparência, superfície (geral) à essência (submersa). Caminha-se a partir da ideia de que tudo, amplamente tudo é incorruptível e chega-se à ideia de que a alma humana, particularmente, é incorruptível. Deve-se perceber e investigar o que pode ser contestável e incontestável nessas afirmações/ negações. Exemplo de afirmação contestável:

Cleópatra é mulher. Cleópatra suicidou-se. Todas as mulheres são suicidas 

As entrevistas devem ser extensas, não que isso significa entrevistar uma personagem durante horas a fio, mas sim,  ter muitas horas de entrevista com as mesmas personagens ou personagens diferentes. O repórter deve ter sempre em mãos parâmetros de negatividade e de afirmatividade, munido de material teórico, documentação e das entrevistas, terá condição de usar as entrevistas de acordo com a estrutura pré-estabelecida na pauta da reportagem. Há várias formas de utilizar as entrevistas: 

a) Aproveitar diversas entrevistas ao longo das páginas construídas.
b) Reproduzir uma longa entrevista com trechos, ora mais aproximado a um subgênero, ora predominantemente classificável sob outro;
c) Aproveitar a entrevista para compor depoimentos coletados na condição de simples aval de um tema que se discute. Para afirmar, negar, contextualizar, contradizer, comparar, ou seja, como uma espécie de citação.
A entrevista é a essência integral de uma reportagem, é a forma de expressão e de representação da ação jornalística. Deve ser dotada de:

1) Individualidade

2) Atualidade

3) Força

4) Expressão

5) Tensão

6) Drama

7) Esclarecimento

8) Explicação

9) Emoção

10) Razão

11) Beleza

12) O que não foi dito

13) O que não foi mostrado

14) O que não foi informado

15) Novidade e atualidade.



O diálogo possível surge na relação entrevistador/entrevistado. Isso acontece devido ao contato humano e porque a pauta é aberta, não há o aprisionamento do lead e nem rigidez do poder de síntese e da objetividade, pelo menos não a objetividade das matérias de jornais. E isso não significa que deve haver subjetividade, muito pelo contrário, subjetividades são condenadas. O poder de síntese resulta na objetividade. O entrevistador, ao catalogar os resultados, não deve abrir mão da objetividade, mas deve ser profundo de forma clara, detalhado e preciso em cada parágrafo, cada imagem. Esse estilo de entrevista faz parte do processo de ampliação da notícia ou de um fato que ainda não virou notícia. É na construção dos diálogos que surgem o inesperado, a novidade, a beleza, a emoção, o drama, o conflito (tensão) etc. É o resultado da relação que se manifesta em forma de grande reportagem que edifica a história de uma personagem, a denúncia ou um confronto político, o perfil de um músico ou o retrato de uma nação. 
Para Lima, a entrevista de compreensão traz um painel de multivozes, e o repórter é apenas um sutil maestro que costura os depoimentos, interliga visões do mundo como tal talento, que parece natural tal arranjo, como se surgisse ali espontaneamente. O repórter necessita de um nível elevado de cultura e intelectualidade para poder comparar, inferir e interpretar determinados momentos de informação (visual, expressiva, motora, corporal, etc) durante as entrevistas. Para se realizar esse estilo de entrevista, o jornalista necessita de:

1) Apreender os fenômenos compreensíveis e incompreensíveis;

2) Observar o comportamento da personagem apreendendo os tiques nervosos, o teor das respostas, a fragilidade das exposições, a dificuldade de resposta, a austeridade, a descontração, o suor, as pálpebras (calmas, irritadas, trêmulas, tímidas, diretivas), os lábios (trêmulos, tranquilos, com tique nervoso, mordidas nos cantos da boca), etc;

3) Sabendo ouvir, o repórter pode mudar o teor da pergunta seguinte, caso contrário, não;

4) Dialogar e estender ao máximo os diálogos possíveis

5) Criar um formato descritivo da personagem, utilizando-se das técnicas da descrição: psicológica, física e comportamental. Nesse exemplo, dar ênfase ao cenário: personagem e entorno são indissociáveis (entorno pertinente);

6) Atingir o máximo de excelência, no domínio da entrevista.
Na entrevista de compreensão, o domínio e alcance das metas/pautas são exemplos de eficácia, estes resultados denotam excelência. Há outros estilos de entrevista que fazem parte da entrevista de compreensão, são os chamados subgêneros:

a) Conceitual;

b) Investigativo;

c) Confrontamento e  ou polemização;

d) Perfil humanizado;

e) Histórias de vida;

f) Entrevistas biográficas

g) Memória;

h) Documentação;

i) Visão pluridimensional simultânea;


Entrevista Conceitual

     Diz-se entrevista conceitual quando os resultados da entrevista apontam conceitos acerca da temática que pauta impõem. Lima exemplifica com o livro-reportagem Cheiro de Goiaba do jornalista colombiano Plinio Apuleyo Mendoza. No diálogo com Gabriel Garcia Marquez, autor do famoso Cem Anos de Solidão, o jornalista explora, com amplitude, o conceito de realidade no romance, pois está diante de uma autoridade literária. Ler trechos da entrevista, p.108. Vale a pena ler, é uma ilustração adequada ao conceito.

Entrevista Investigativa
O subgênero investigativo apóia-se em depoimentos em off que são confrontados com as coletas de dados realizadas em on, mais a pesquisa documental, tudo isso para comprovar a veracidade do que se vai transmitir, mais toda documentação do dossiê. Lima dá o exemplo do jornalista Jonathan Raban, autor que investiga a censura do Egito contemporâneo. Raban primeiro entrevista escritores em off, tendo o cuidado para não identificá-los. Conversa com escritores que conseguem traduzir a realidade política em metáforas, como faziam os compositores na época da Ditadura Militar, no Brasil. Entrevista um dramaturgo, cuja trilogia é camuflada e aprovada pela censura prévia somente para publicação, mas censurada para atuação no palco. Na investigação, o repórter deve ter conhecimento amplo sobre o tema, talento e perspicácia para confrontar distorções e contradições de um sistema político, contrapondo a uma realidade interna uma manipulação e uma conivência no plano externo, diz Lima

Entrevista de confrontação
No gênero confrontação/polemização, o repórter realiza a entrevista por meio de uma mesa redonda, um debate, em que os entrevistados são submetidos a um diálogo direto. Os posicionamentos de cada entrevistado vêm à superfície e são fotografados (capturados, observados, interpretados, traduzidos) pelo entrevistador. Lima exemplifica esse gênero com a obra Direto da selva: as aventuras de um repórter na Amazônia de Klester Cavalcanti que investiga um caso de contrabando de mogno na Amazônia. Ler a entrevista, p. 112.

Entrevista Perfil Humanizado
O perfil humanizado é um gênero que, como diz o nome, humaniza a personagem, traçando um perfil particular e singular ao mesmo tempo. Os resultados podem ser divulgados no formato de entrevista: pergunta e resposta. Exemplo desse gênero de entrevista encontra-se no livro-reportagem Conversas com Llosa de Ricardo Setti. Nesse exemplo, o repórter conduz um diálogo interativo de qualidade com o entrevistado, construindo-lhe um perfil humano, ancorado em alguns eixos:
·         Vida particular: família, sexo, drogas, dinheiro, lazer;
·         Amigos e Inimigos;
·         Escritor e homem;
·         Política e Futebol;
·         Escritor e fama
·         Livro e Ofício.
Na entrevista de compreensão e subgêneros, a pauta deve ser flexível para que o repórter possa abandoná-la, caso necessite. A qualquer momento, o repórter pode entrar numa variante mais empática com o entrevistado. Muitas vezes, a emoção e a descontração fazem surgir a pessoa atrás do mito. O resultado é a descoberta compreensiva do universo, por vezes, misterioso, exuberante e nem sempre comum do ser humano, diz Lima.

Histórias da Vida
          As histórias de vida são realizadas por meio de entrevistas de compreensão e, como resultado, tem-se a reprodução do diálogo entre o entrevistador e o entrevistado. Pode-se na construção do texto, misturar narrativas em primeira e terceira pessoas, conforme citações parciais ou integrais. As entrevistas podem ou não vir acompanhadas da observação participante. 
        Na história de vida, o modelo autobiográfico faz parte do processo de construção da personagem Um exemplo encontra-se no trecho dramático e tenso de John Reed, em que o autor coloca a sua vivência no turbilhão da insurreição mexicana de Madero e Pancho Villa em México Rebelde (1959) esboçando o que seria o potencial futuro, desse modo de captação são produzidas as histórias de vida. Ler exemplo da p. 115.

Entrevistas Biográficas
Nas entrevistas biográficas, o repórter resgata, às vezes, a oralidade de certos atores, contribuindo para a reprodução das idiossincrasias de determinadas culturas para o universo social. Os dados biográficos diferem amplamente do modo como se estabelece uma biografia no universo da história (diacrônica), faz-se necessário que surjam dos diálogos características particulares e ímpares que possam revelar as idiossincrasias do entrevistado. Ler exemplo nos trechos da obra Xingu: uma flecha no coração do jornalista Washington Novaes, cujo discurso resgata a oralidade, perdida no tempo, dos índios.

Observação do Participante
A Observação Participante trata da participação do repórter no ambiente da personagem ou do tema, é uma espécie de narrador-personagem. Surge com o News Journalism e está totalmente ligada à época de efervescência e transformação social, comportamental e artística (teatro, literatura, cinema e mídia). Inúmeros acontecimentos mudaram o mundo: o movimento hippie e o underground (negação ao entretenimento hollywoodiano) a contracultura, a luta pela liberdade sexual, o pacifismo, o naturalismo, o orientalismo, a negação do serviço militar obrigatório e a luta contra o armamento nuclear, entre muitos outros movimentos.
O filme Aconteceu em Woodstock foi baseado numa história real de 1969, o maior festival da época tem início quando o hotel dos pais de Elliot é ameaçado de despejo, então, ele oferece a área para promover um show de rock e arrecadar dinheiro. Só não imaginou as enormes proporções que o festival alcançaria. 
        O News Journalism vai criar uma forma de captação, diz Lima, dentro desses contornos de liberdade sexual e sensitiva, como um modo de acompanhar a revolução pacifista entre aspas, e dar conta do todo dessas mudanças. A realidade é retratada com cor, vivacidade e presença. Isso significa que, o repórter, dentro do gênero observação do participante pode mergulhar e se envolver totalmente aos acontecimentos e às situações.
Os jornalistas tentam viver na pele as circunstâncias e o clima do ambiente das personagens. A observação do participante corresponde ao narrador personagem, necessariamente não se precisa narrar em primeira pessoa.

Memória

       No gênero Memória, o repórter pode resgatar as impressões psicológicas e sociais de uma personagem. Objetiva-se chegar a uma dimensão superior de compreensão tanto dos autores sociais como da própria realidade maior em que se insere a situação examinada. Como diz o nome memória, trata-se de trazer à tona, registrar e publicar as riquezas psicológicas da personagem, e deste, na sociedade. Lima exemplifica com a obra Los mares de México do mexicano David Martin Del Campo que aborda o tema particularizando (processo dedutivo) e humanizando, com toque comovedor, um fragmento da vida de pescadores, recuperado pelo ouvir interessado da comunidade que observou e apreendeu. Ler p. 127.
Documentação

Essa parte é muito importante, sem ela não há dados, não há aprofundamento do conhecimento, não há comprovação. Documentação é a coleta de dados em fontes registradas, como base e auxílio da fundamentação temática. Um jornalista bem informado não passará por tolo ou ingênuo. Como escolher um tema, desenvolvê-lo apenas com a opinião do alter? Este estilo de pesquisa de captação focaliza a “situação” e a “questão” e não o fato isolado. Munido de documentação, a matéria do jornalista, salienta Lima, ganha vigor e poder de sustentação. A coleta de dados traz possibilidades ampliadas de sucesso para os demais instrumentos de captação. 
Lima cita como exemplo a pesquisa documental bastante sólida realizada pelo jornalista Fernando Moraes para a produção de Olga. Moraes recorreu às instituições de seis países, inclusive o Brasil, consultou inúmeros periódicos nacionais e internacionais, coletou dados bibliográficos e tomou depoimentos de vinte personagens vivas. Outros exemplos citados pelo autor foram as obras de Willian Meyers Los creadores da Imagem: segredos de criação publicitária, e o famoso Esta noite a Liberdade de Dominique Lapierre e Larry Collins.
Segundo ele, Meyers reuniu um dossiê documental que conta com uma bibliografia nunca inferior a dez livros, caminhou da psicologia do consumo à ideologia das tendências, dos métodos de aferição de valores às técnicas de marketing. Os dados coletados foram todos direcionados ao mundo da publicidade (tema do livro-reportagem), somou inúmeros depoimentos e realizou pesquisa conceitual.
Lapierre e Collins coletaram dados de modo a somar uma documentação memorável pela extensividade e quantidade: leram 10 mil páginas de arquivos e documentos; 400 obras; seis milímetros de película, mil fotografias, as quais 600 eram inéditas, 800 horas de entrevista. Os autores percorreram mais de 250 mil quilômetros.

Visão pluridimensional e simultânea
No exercício da captação do fenômeno cria-se uma ponte para que o “eu” que observa saiba mais do que o fenômeno observado. Nesse gênero, o livro-reportagem ensaia introduzir em seu enfoque uma lente que passa a observar a realidade na dimensão ampliada, perceptível através da ciência moderna. São monólogos interiores que surgem como resultado dessas entrevistas de visão plural e simultânea. Manifesta-se por meio do ponto de vista autobiográfico em 3º pessoa. Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Virgínia Woolf e Simone de Beauvoir são alguns exemplos de escrita literária que traz como condução o fluxo de consciência.


 O observador (narrador onisciente) entrevista as personagens de modo a retirar delas o que vai internamente: pensamentos e emoções e tudo o mais que conseguir. O resultado são os monólogos interiores das personagens. Cesário Verde, poeta luso da modernidade lisboeta, escreve O Sentimento de um Ocidental, poema em que dialoga, de luneta, com o fenômeno que observa. Escreve em primeira pessoa sobre as impressões que a cidade malfadada e inebriante de Lisboa causa-lhe, enquanto àquele que observa, àquele que não pertence à cidade, pois está fora dela para apreendê-la e evidenciá-la. 

FONTE:
http://literacomunicq.blogspot.com.br/2015/02/captacao-da-entrevista-de-compreensao.html

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

OCUPAR o 3 de dezembro - Dia Internacional da Pessoa com Deficiência




Queridas e queridos, estou MUITO FELIZ!!!!!


Hoje - 3 de dezembro de 2016, o meu dia, nesta data tão importante, foi assim:


1- Acordar feliz ao lado do meu marido desde 2005, me arrumar com um vestido novo lindo, caprichar na maquiagem com a auto estima lá em cima;


2- Pegar um Uber até o metrô com o FUNDAMENTAL apoio do meu marido, empurrar a cadeira de rodas com dificuldades mas coragem, passar FIRME por pessoas desrespeitosas que usam os elevadores irregularmente;



3- Pegar um táxi perto do metrô (também com a ajuda do meu marido) e chegar na Casa das Rosas para participar de um workshop maravilhoso que eu escolhi ir. Não ir em um evento sobre inclusão só porque as pessoas acham que eu deveria ir nesta data; 



4- Almoçar no Itaú Cultural com total conforto e acessibilidade física, incluindo banheiros adaptados, elevador, e exposição fantástica totalmente acessível (que eu aproveitei para dar uma olha antes de voltar para Casa das Rosas); 



5- Esperar a forte chuva passar e depois pegar um táxi acessível, melhor que eu já vi em toda a minha vida, com uma rampa perfeita e um motorista ótimo gentil.



Consegui me sentir muito bem e feliz por SER e ESTAR na sociedade e ter acesso a tudo o que precisei. Senti que meus direitos foram respeitados! Pago impostos, faço parte da cidade e do mundo, EXISTO e ninguém pode me discriminar pela minha deficiência física.

Os valores gastos ainda são bem altos porque eu não consigo usar os ônibus (devido a dores nas costas), e ainda não tenho verba para adquirir uma cadeira de rodas motorizada para conseguir andar até outro local para almoçar por um preço melhor, mas valeu muto a pena! E eu vou cada dia mais investir em minha nova carreira: ser escritora!

PS: pena que o insignificante do primeiro motorista de táxi do ponto da Av. Paulista nos recusou na cara de pau. Mas ele é um ser tão pequeno que não merece nem ser lembrado.

Texto escrito no Face dia 3 de dezembro e 2016. 



A adoção dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 tem o propósito de não deixar ninguém para trás. “Cumpri-los exige a inclusão total e a participação de pessoas com deficiência na sociedade e no desenvolvimento”. 

“Precisamos eliminar estereótipos e discriminação que perpetuam a exclusão e construir ambientes acessíveis, inclusivos e adequados para todos (…) É necessário remover os obstáculos ambientais e comportamentais que impedem as pessoas com deficiência de exercer seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais”, afirmou secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. 

Dicas de leitura sobre o tema:

http://leandramigottocerteza.blogspot.com.br/2012/12/o-que-mudou-no-dia-internacional-da.html

https://nacoesunidas.org/para-dirigentes-da-onu-inclusao-de-pessoas-com-deficiencia-esta-no-centro-da-agenda-2030/

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Escrita Criativa

Pessoal, publico aqui uma notícia do começo de 2016, só para passar a super dica destes importantes cursos que já aconteceram e pode voltar em 2017. Fiquem de olho e aproveitem!



Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2016/03/1748965-escritores-paulistanos-consagrados-ajudam-novos-talentos-com-oficinas.shtml

Desde que estreou na literatura, em 1997, Ivana Arruda Leite publicou sete livros, entre contos e romances. Mas depois de um período fértil —em que contabiliza também cinco publicações no gênero infantojuvenil— a escritora de 64 anos se viu às voltas com uma página em branco que custava a preencher. Diante do bloqueio criativo, resolveu "começar do zero", como aluna de uma oficina literária. A primeira aula já foi suficiente para, com inspiração renovada, iniciar seu último romance —cujos detalhes ela ainda prefere manter em segredo.

Os cursos de escrita criativa, que para Ivana serviram como recomeço, também são oportunidade para alavancar novos talentos literários na cidade. O livro "Sem Vista para O Mar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2015 na categoria "Contos e Crônicas", foi gestado por Caroline Rodrigues durante um ano de oficina com Marcelino Freire.

Entre os nomes que despontaram com a ajuda de workshops de criação também estão Sheyla Smanioto, vencedora do Prêmio Sesc de Literatura com "Desesterro"(2015) e Flávio Cafiero, de quem o primeiro romance, "O Frio Aqui Fora", foi indicado aos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura.

Para autores já consolidados, ministrar aulas também é um jeito de se aprimorar. Após passar pela experiência como aluna, Ivana decidiu realizar seu próprio workshop, ao lado da colega —e ex­-professora— Noemi Jaffe. Autora de títulos premiados, como "O que Os Cegos Estão Sonhando", Noemi diz que não conseguiria escrever sem elas. "Os cursos me obrigam a ler o tempo todo e buscar fontes novas para os exercícios."

Lourenço Mutarelli, que também integra o time de educadores, costuma dizer, durante as férias, que está desempregado —as oficinas são sua principal fonte de renda.

Para quem se animou, a sãopaulo reuniu os principais cursos de escritores da cena literária paulistana. Confira as opções a seguir.
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FABRÍCIO CORSALETTI
De tanto aplicá-los em sala de aula, o escritor diz já ter decorado alguns contos do russo Anton Tchekhov e do norte-americano Raymond Carver, além de crônicas do brasileiro Rubem Braga. "Minhas análises se aprofundaram bastante com as repetidas leituras em voz alta", conta ele, também colunista da sãopaulo.
Em "Três Contos, Seis Encontros", curso que acontece em junho no Espaço Cult, Corsaletti irá alternar análises de obras de Tchekhov, Carver e Roberto Bolaño com discussões sobre textos produzidos pelos participantes. O curso promete abordar questões de gênero, estilo e linguagem.
Espaço Revista Cult - r. Aspicuelta, 99, Alto de Pinheiros, tel. 4371-4278. Três Contos, Seis Encontros: quartas e sextas, de 01/06 a 17/06, das 20h às 22h. R$ 600
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LOURENÇO MUTARELLI
O escritor, que despontou como quadrinista e hoje possui sete romances publicados, realiza oficinas há quase cinco anos.
No curso "Caderno de Recortes", que ocorre no Sesc Pompeia a partir de abril, ele utiliza colagens como parte do processo criativo.
A ideia de Mutarelli é que os alunos colecionem, entre outros artigos, panfletos distribuídos nas ruas —como anúncios de cartomantes, prédios e dentistas­— e os colem no papel de maneira aleatória. O material será a base para a produção de textos, a exemplo da criação do próprio autor, que utiliza o método em seu novo romance para construir os sonhos do protagonista.
Sesc Pompeia - r. Clélia, 93, Água Branca, tel. 3871-7700. Caderno de Recortes: Processo Criativo: sextas, de 01/04 a 15/07, das 19h às 22h. R$ 24 a R$ 80.
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IVANA ARRUDA LEITE
Em sua primeira aula, a escritora partiu da afirmação de Umberto Eco de que o único registro que escrevemos para nós mesmos é a lista de supermercado e propôs aos alunos que desenvolvessem uma lista de compras ficcional. Ivana abriu sua casa, em Pinheiros, para duas classes divididas entre "iniciantes" e "iniciados" —ambas sem base teórica, focadas essencialmente na prática.
As oficinas comportam apenas seis alunos e já estão com as vagas esgotadas. Há previsão de novas turmas para o segundo semestre, além de intensivos de uma semana em junho e julho.
Intensivo de Escrita Criativa e Literária: De 13 a 17/6 e de 11 a 15/7. R$ 1.000. Os encontros ocorrem na casa da escritora em horários a definir; informações pelo e-mail ivanaarrudaleite@gmail.com
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JOÃO SILVÉRIO TREVISAN
Considerado um dos pioneiros, o autor realizou a primeira oficina no fim da década de 1980, tendo entre seus alunos nomes como João Anzanello Carrascoza e Nelson de Oliveira. Atualmente, Trevisan ministra aulas em sua própria casa para um grupo de até doze pessoas. Com a turma que se inicia no dia 15, com aulas até junho, o escritor pretende partilhar as etapas de criação de seu próximo romance, em andamento.
"A importância da escritura encontra-se no mergulho interior que ela permite e, de certo modo, exige", afirma Trevisan na página da oficina, ressaltando que o treinamento não visa, necessariamente, a profissionalização literária.
Oficina Literária de João Silvério Trevisan: terças, das 19h30 às 22h30, de 15/3 a 28/6. R$ 1.000. Aulas ministradas na casa do escritor; informações jstrevisan@uol.com.br.
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NOEMI JAFFE
Em módulos semestrais, a autora enfatiza diferentes tópicos da narrativa (como personagem, tempo, espaço, diálogo e conflitos) e seleciona textos de escritores consagrados para exemplificá-los. Também pede aos alunos que desenvolvam pequenos contos e crônicas utilizando as noções discutidas em sala.
O objetivo, segundo informações do curso, é estimular variedades de experiência com o texto para que os alunos desenvolvam a escrita criativa. Os cursos "Princípios da Escrita Criativa 1 e 2", realizados na Casa do Saber, começam no dia 23/3. Noemi também abrirá vagas para o segundo semestre no espaço "Casa Bem-te-vi", na Vila Beatriz.
Casa do Saber - r. Dr. Mario Ferraz, 414, tel. 3707-8900. Princípios da Escrita Criativa 1: quartas, das 17h às 19h, de 23/3 a 11/5. 5x de R$ 272; Princípios da Escrita Criativa 2: quartas, das 20h às 22h, de 23/3 a 11/5. 5x de R$ 272.
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MARCELINO FREIRE
Professor regular do Centro Cultural B_arco desde 2006, o escritor diz planejar seus exercícios de acordo com as necessidades da turma —sempre com 15 participantes. Diante de um grupo de alunos mais travado, por exemplo, ele chegou a convidar para a sala uma senhora de 70 anos que trabalhava como modelo vivo e pediu que escrevessem algo a partir da observação da mulher, nua. Todos os participantes recebem também a incumbência de se aprofundar na obra de autores que Marcelino chama de "padrinhos" (nomes como Campos de Carvalho e Hilda Hilst).
O curso para o primeiro semestre já está encerrado, mas novas turmas estão previstas para agosto.
Centro Cultural B_arco - r. Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros, tel. 3081-6986. Toca: Oficina de Criação Literária: novas turmas estão previstas para agosto. R$ 2.700 à vista ou 5x R$ 580 (preço do curso atual, com vagas esgotadas).


Outra dica é os cursos da:

http://noemijaffe.com.br/

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Dica de livro:

A Jornada do Herói:  Estrutura Narrativa Mítica na Construção de Histórias de Vida em Jornalismo ,de Monica Martinez (Annablume e Fapesp).

LINKs:



https://books.google.com.br/books?id=tk09o2QdU44C&lpg=PA1&hl=pt-BR&pg=PA1#v=onepage&q&f=false


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

20 de novembro - Dia da Consciência Negra




1° Congresso ON LINE gratuito sobre sexualidade para profissionais de saúde





"Como, infelizmente, muitas outras pessoas com deficiência ainda passam por situações terrivelmente humilhantes em relação a sua sexualidade, me sinto na obrigação de alertar a sociedade que TODAS as pessoas com deficiência podem ser felizes do jeito que são. Têm total direito de serem amadas, desejadas, queridas, seduzidas, e principalmente, de se apaixonarem pelos seus corpos. Têm o total direito de se sentirem confortáveis dentro deles, e exalarem felicidade pelos seus poros" - Leandra Migotto Certeza.

Sexualidade das pessoas com deficiência:

Palestra incrível sobre quais são os principais mitos sobre sexualidade das pessoas com deficiência (seja física, auditiva, visual, intelectual, múltipla e surdocegueira) e como quebrá-los definitivamente. Por que Sexualidade e Deficiência ainda são temas pouco abordados no mundo todo!

Façam suas inscrições agora SOMENTE neste link:


https://go.hotmart.com/F5125553L?ap=e696 


Leandra Migotto Certeza: é Jornalista, Palestrante Motivacional e Consultora em Inclusão e Diversidade. Premiada pelo projeto de pesquisa “Fantasias Caleidoscópicas” pela Associação Internacional para o Estudo da Sexualidade, Cultura e Sociedade em Lima; e o apresentou no “I Seminário Nacional de Saúde: Direitos Sexuais e Reprodutivos e Pessoas com Deficiência” em Brasília. Palestra sobre sexualidade da pessoa com deficiência na Secretaria de Promoção da Cidadania da Prefeitura de São José dos Campos (SP); Debate no Centro de Pesquisa e Formação do SESC (SP), e foi entrevistada pela RFI - Rádio France Internationale para abordar sua pesquisa.

+ Informações Clique Aqui

sábado, 12 de novembro de 2016

Prêmio Brasil Mais Inclusão: um sinal de esperança!

Alex Garcia é um dos vencedores do Prêmio Brasil Mais Inclusão!


Indicado pela Senadora gaúcha Ana Amélia Lemos, Alex Garcia, Pessoa Surdocega e Pessoa com Doença Rara do Rio Grande do Sul, é um dos vencedores do Prêmio Brasil Mais Inclusão, a maior premiação de inclusão da pessoa com deficiência do Brasil. 
Alex Garcia receberá o prêmio na categoria Personalidades. Ele destaca que "o Prêmio Brasil Mais Inclusão pertence à todos nós, lutadores e sobreviventes de um cotidiano que se mostra, a cada dia que passa, mais complexo. Vamos fazer do Brasil Mais Inclusão um sinal de esperança". 
Alex Garcia é a primeira Pessoa Surdocega a ganha o Prêmio Brasil Mais Inclusão na história e deverá estar na cerimônia de entrega do prêmio na Câmara dos Deputados em Brasília dia 7 de dezembro.
Toda e qualquer organização nasce da continuidade. Da necessidade do movimento. Do desejo da verdade e felicidade, alicerçadas na justiça do homem livre. Nega o estático. A Intolerância que desenha fronteiras. Nega-se a subtrair a liberdade e autonomia do homem.
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